Concentração de riqueza será maior desafio



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Sevcenko, Nicolau “Concentração de riqueza será maior desafio” São Paulo: Folha de São Paulo 31 de dezembro de 2000.
Concentração de riqueza será maior desafio

NICOLAU SEVCENKO


Com relação a prognósticos, os historiadores tendem a seguir o conselho do mestre Vicente Mateus: "Esse negócio de previsão não está com nada, principalmente quando fala do futuro".

Por outro lado, é inegável que o estudo da história é um instrumento precioso quando se pretende compreender tendências e processos que estão em andamento. Por aí se delineia um panorama visível.

O século 20 assinalou um desdobramento e a aceleração da revolução científico-tecnológica iniciada em fins do 19. Graças à introdução de novos potenciais energéticos, basicamente a eletricidade e os derivados de petróleo, ocorreu um salto tecnológico de tal magnitude que se iniciou uma nova era, dando origem ao mundo tal como o conhecemos.

Esse processo contínuo de mudança técnica foi ainda mais intensificado pela atual Revolução da Microeletrônica. Assim, se tomarmos como base o ano de 1975, quando os circuitos integrados alcançaram o pico de 12 mil componentes, ocorreu uma mutação técnica de impacto explosivo.

Ou seja, atingido um limiar máximo de densidade para um circuito integrado, esse equipamento era então utilizado para produzir circuitos mais densos ainda, numa cadeia de transformações cumulativas que se alimentam sucessivamente.

Segundo uma lei clássica da engenharia, cada decuplicação da capacidade de um sistema constitui uma mudança qualitativa de teor revolucionário.

O que significa que desde 75 passamos por algo como dez revoluções tecnológicas sucessivas no espaço de duas décadas, algo jamais visto na história da humanidade e que nos deixa, às portas do século 21, no limiar de uma mudança de paradigmas técnicos e científicos, capaz de reformular todo o conhecimento acumulado até aqui.

O lado mais perverso dessa história foi o modo como ela foi enredada pelo processo de mudança política e econômica, encabeçado pelas lideranças conservadoras que ascenderam à cena em meio à crise do petróleo de meados dos anos 70.

Decidiu-se abandonar o padrão-ouro como base do mecanismo de sustentação cambial, provocando um efeito de liberalização dos mercados que logo se difundiu para as demais economias desenvolvidas.

Essas medidas geraram novos fluxos de capital que, vendo-se agora livres dos controles tradicionais, se voltaram para oportunidades de investimento no mercado mundial, superando os limites antes representados pelas fronteiras nacionais. Foi o que desencadeou o processo chamado de globalização.

Ocorrendo em paralelo com a Revolução da Microeletrônica, ele adquiriu uma dinâmica avassaladora, consolidada pela rede de satélites e a rede de computadores. Os maiores beneficiados foram dois.

Em primeiro lugar, os capitais financeiros, que passaram a atuar num ciclo de 24 horas, transferindo volumes fabulosos de recursos de uma parte a outra do planeta pelo toque de uma tecla de computador ou de telefone celular.

Em segundo lugar, foram as grandes corporações, capazes agora de mover suas instalações e recursos por todo o planeta, em busca das melhores vantagens.

Os grandes perdedores foram os Estados nacionais, as sociedades baseadas em sistemas de bem-estar social e o ambiente.

Capitais especulativos e grandes corporações se viram fortalecidos a ponto de demandar Estados que se limitem a controlar a inflação e o Orçamento, sociedades destituídas de sindicatos, leis trabalhistas e garantias sociais e recursos naturais isentos de legislação ambiental.

Resultado: mais desigualdade, desemprego, miséria, violência, devastação. Dessa perspectiva, qualquer olhar para o futuro revela um horizonte sombrio, senão sinistro.


Blocos regionais

Para uma melhor compreensão desse novo contexto, é preciso notar que a redução do papel e da ação dos Estados nacionais, no geral, não significa o fim da polarização exercida por alguns deles. Muito pelo contrário.

As grandes potências tendem a ampliar o seu âmbito de ação, na proporção direta em que outros Estados são absorvidos sob sua esfera de influência.

Esse processo é claro na tendência à formação dos blocos regionais. Por exemplo, o bloco europeu, capitaneado pelos "três grandes", Alemanha, França e Reino Unido. Ou o bloco americano, centrado nos Estados Unidos.

Pode-se projetar a médio prazo o bloco europeu absorvendo os países do leste e da bacia mediterrânea, assim como se percebe os Estados Unidos catalisando todo o continente, do Alasca à Patagônia.

No Oriente, o quadro é mais tenso. Há pelo menos quatro focos independentes.

A Rússia, com seus vastos recursos naturais e o anseio de preservar seu status de potência militar.

O Japão, com sua economia sofisticada e a condição de articulador da diplomacia ocidental na região.

A Índia, em meio às disparidades regionais, com uma sábia prioridade em educação e know-how.

A China, a única ostentando um crescimento de dois dígitos na última década, com uma agenda econômica e tecnológica agressiva, contando com a sofisticação financeira de Hong Kong e, possivelmente, Taiwan, terá cartadas cada vez mais decisivas no jogo internacional.


"Soft power"

Mas o fato fundamental é que nenhum desses Estados asiáticos nem a Europa podem abrir mão do mercado norte-americano, e que suas relações são melhores com os Estados Unidos do que entre si.

Nesse sentido os americanos adentram ao século 21 numa condição ainda mais privilegiada do que aquela que desfrutaram no 20. Não se confunda essa tendência com a clássica noção do imperialismo.

Naquele caso o elemento decisivo era o poder militar, o "big stick". Na nova situação o que se configura é o "soft power", a capacidade de seduzir os subordinados com imagens, promessas e expectativas de uma prosperidade promovida como crescente e infinita.

É a sociedade do espetáculo em escala global, representando a desigualdade como o show da vida. De forma que, se o equilíbrio do terror, ainda baseado nas armas nucleares, e o equilíbrio das conveniências, baseado no "soft power", atuam como forças estabilizadoras, o elemento explosivo é representado pelos grandes contingentes humanos relegados para as margens e para fora do maná providencial do mercado.

Essa tendência à concentração das riquezas, maximização das desigualdades e a consequente deterioração ambiental constituirá o maior desafio do século 21.

Um dos aspectos mais dramáticos desse problema se refere à urbanização. Pela primeira vez na história da humanidade, as populações urbanas serão superiores às rurais. Hoje cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivem nas cidades, mas em 2025 serão cerca de 4,2 bilhões. Ou seja, 3 de cada 5 seres humanos. Esse crescimento se concentrará nas metrópoles dos países subdesenvolvidos.

O dado estarrecedor é: a região mais urbanizada do mundo será a América Latina, onde 85% da população viverá nas cidades. Avalie os problemas atuais de cidades como Rio ou São Paulo e faça as multiplicações. São más notícias? Sim.



Mas passado o choque, talvez a consciência da gravidade da situação ajude a nos tirar do estado de apatia ou conformismo que a complexidade das tecnologias e o conservadorismo da política tendem a nos incutir.

A boa nova é justamente o surgimento, na última década, da geração de "refuseniks" que, em estado de franca rebeldia, insistem para que as prioridades desse mundo globalizado voltem a se centrar nos homens, na natureza e na solidariedade.


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