CondiçÕes de vida e mortalidade na baixada fluminense



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CONDIÇÕES DE VIDA E MORTALIDADE NA BAIXADA FLUMINENSE

Aline de Moura Souza Pereira1



  1. Introdução

Este projeto de pesquisa tem por objetivo dar continuidade à investigação iniciada através da elaboração de minha dissertação de mestrado, intitulada “Condições de vida e mortalidade na Baixada Fluminense” defendida na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE), orientada pela Dr.ª Prof.ª Suzana Marta Cavenaghi, no ano de 2007. Este trabalho tratou-se de um esforço para reconhecer as reais condições de vida e mortalidade presente na Baixada Fluminense, ao propor a análise de indicadores demográficos, sócio-econômicos e de saúde através das informações dos censos de 1980, 1991 e 2000, além de informações de mortalidade que permitiram traçar um perfil dessa região, no período compreendido entre 1996 e 2004. O interesse em pesquisar essa região se deve majoritariamente ao fato de ser residente dessa região e acompanhar ao longo de minha vida as dificuldades e limitações enfrentadas pela sua população. Além disso, a maioria dos trabalhos referentes à Baixada Fluminense tem uma vertente muito mais histórica do que de análise de fatores e indicadores relacionados às condições socioeconômicas da população dessa região.

O fato de a Baixada Fluminense constituir a periferia urbana do Estado do Rio de Janeiro e possuir municípios com os piores índices de desenvolvimento de todo o Estado do Rio de Janeiro demonstra a necessidade de se compreender seus aspectos econômicos e sociais para se obter uma visão da situação da Baixada Fluminense e, também, como ela se insere no cenário do Estado do Rio de Janeiro.


***
As transformações observadas na população brasileira nos últimos anos, tanto na sua estrutura etária e hábitos de vida da população, assim como nos avanços tecnológicos, têm resultado em modificações no padrão da mortalidade. O cenário antes dominado por doenças infecto–contagiosas, resultantes da baixa infra-estrutura habitacional e condições sócio-econômicas desfavoráveis, deram lugar às doenças crônico-degenerativas, que teriam como principal agente propagador o próprio homem, que com o ritmo de vida extremamente agitado por um lado e sedentarismo e hábitos alimentares pouco saudáveis por outro tem elevado as taxas de mortalidade para essas enfermidades a patamares nunca antes vistos. Além disso, observa-se o aumento da ocorrência e, conseqüentemente, das taxas de mortalidade por neoplasias malignas e também das mortes violentas, que têm elevado as taxas de mortalidade por causas externas.

Sabe-se que o fato de um país, um Estado ou uma região apresentar altos ou baixos níveis de mortalidade está diretamente relacionado ao nível de desenvolvimento deste lugar. Quanto mais desenvolvida for uma região, maiores serão os níveis de atendimento de saúde e a renda familiar, e maior será a cobertura da infra-estrutura urbana básica, o que torna as chamadas enfermidades “modernas”, ou causadas pelo homem, como as doenças crônico-degenerativas, acidentes de trânsito e demais mortes violentas as causas de mortalidade mais prevalentes. Em regiões menos desenvolvidas, e conseqüentemente com pior infra-estrutura no setor da saúde e na área urbana, doenças como as infecciosas e parasitárias são as principais responsáveis pelos altos níveis de mortalidade.

Deste modo houve uma mudança nas condições de sobrevivência da população, visto que, como anteriormente colocado, as doenças infecto-contagiosas seriam o resultado da ausência de condições mínimas de sobrevivência. Porém, a diminuição da ocorrência da mortalidade por essa causa de morte é também resultado da importação de novas tecnologias na área de medicamentos e procedimentos médicos, não sendo, portanto, resultado unicamente de uma melhora nas condições sócio-econômicas do país. Mesmo com uma diminuição da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias, em alguns estados do país ainda se observa a ocorrência da mortalidade por essas doenças, concomitante com a prevalência da mortalidade pelas doenças crônico-degenerativas.

No estado do Rio de Janeiro, os 10 municípios da Baixada Fluminense- Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti- até pouco tempo atrás se caracterizavam por seu baixo desenvolvimento econômico, ausência de saneamento básico e a alta incidência de doenças decorrentes dessas características como desnutrição, doenças infecciosas e parasitárias, dentre outras. Com a falta de atendimento médico essas doenças logo iam se agravando e devido à ausência de hospitais com recursos para atender aos pacientes nessa região do estado muito dos casos tinham como desfecho o óbito.



Mapa 1

Estado do Rio de Janeiro por municípios com destaque para a Baixada Fluminense.

Ao longo dos últimos anos municípios como Nilópolis e Nova Iguaçu apresentaram um desenvolvimento econômico expressivo, resultante da implantação de fábricas e centros comerciais, o que permitiu uma relativa melhora em suas condições de saúde. Outros municípios, como Japeri, Queimados e Guapimirim, já não demonstraram tal desenvolvimento, até mesmo pelo fato de terem sido pertencentes a outros municípios e conquistado sua emancipação há poucos anos. Contudo o expressivo desenvolvimento econômico apresentando por alguns municípios não corresponde com a situação de saúde apresentada pela população, já que grande não possui algumas necessidades básicas sendo eficazmente atendidas.

Deve-se lembrar que quando se fala em Baixada Fluminense trata-se na verdade de uma região localizada na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro que apresenta uma realidade que poderia ser facilmente identificada com alguma outra pertencente até mesmo ao Nordeste brasileiro. O longo e ainda persistente histórico de abandono, falta de condições básicas de sobrevivência e o difícil acesso às necessidades essenciais para o desenvolvimento da população tem feito com que alguns municípios dessa região apresentem os piores níveis de desenvolvimento de todo o Estado do Rio de Janeiro. Esses fatores também têm contribuído para que as taxas de mortalidade nessa região apresentem valores bastante elevados, mesmo havendo uma diminuição nessas taxas ao longo dos anos.


  1. Metodologia e fonte dos dados

Neste trabalho serão apresentadas algumas informações sócio-econômicas e de saúde e os indicadores analisados foram: renda familiar per capita, Índice de Desenvolvimento Humano Municipal - IDHM, taxa de alfabetização, abastecimento de água, cobertura de esgotamento sanitário e cobertura de serviços de coleta de lixo.

Esses indicadores tiveram como fonte de dados: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD e Censos demográficos 1991 e 2000 –Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE; Indicadores de cobertura- Indicadores e Dados Básicos - IDB–2004- DATASUS.

Os dados de mortalidade analisados são provenientes do Sistema de Informações de Mortalidade - SIM, do Departamento de Informática do SUS - DATASUS, referentes aos anos de 1996 a 2004. O início do período de análise em 1996 deve-se ao fato da melhora conhecida na qualidade da fonte de dados; o ano de 2004 é o último ano de informações disponibilizadas para a mortalidade no SIM, à época da realização do trabalho. Aqui são apresentadas informações relativas à mortalidade proporcional por causas mal definidas e a mortalidade proporcional por causas de morte. Em relação à mortalidade proporcional por causas de morte, os grupos de causas que se procurou analisar são os grandes grupos da 10ª Classificação Internacional de Doenças- CID-10, que consiste em uma lista de doenças divididas em capítulos que são definidas pela Organização Mundial de Saúde- OMS e seus colaboradores. Buscando caracterizar a mortalidade na região da Baixada Fluminense foram selecionados os seguintes capítulos da CID-10: I. Algumas doenças infecciosas e parasitárias; III. Doenças do sangue, órgãos hematopoéticos e transtornos imunitários; IV. Doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas; IX. Doenças do aparelho circulatório; X. Doenças do aparelho respiratório; XI. Doenças do aparelho digestivo; XVIII. Sintomas, sinais e achados anormais em exames clínicos e laboratoriais; XX. Causas externas de morbidade e mortalidade; os capítulos restantes da CID-10 foram alocados no grupo “outras causas de óbitos”.

As informações históricas referentes à Baixada Fluminense e seus municípios são provenientes de textos, de inegável importância para este trabalho, que tratam da formação da Baixada Fluminense, disponibilizados pelo Instituto de Pesquisa Histórica da Baixada Fluminense – IPHAB através de seu endereço eletrônico.




  1. A Baixada Fluminense e a origem de seus municípios

Não existe uma única definição da região intitulada Baixada Fluminense, pois são vários os aspectos considerados. A expressão Baixada Fluminense, de acordo com o ponto de vista geográfico, é denominada como a área que vai da Serra do Mar- começando em Paraty- até o Oceano Atlântico. Por ser um território muito extenso ele pode ser dividido em unidades menores: “Baixada dos Goitacases ou de Campos; Baixada de Araruama; Baixada da Guanabara; e Baixada de Sepetiba, da Ilha Grande ou de Itaguaí” (BELOCH, 1986, p. 16). A Baixada Fluminense até o século XIX era conhecida como Baixada da Guanabara, pois se tratava da região mais próxima ao antigo Distrito Federal.

O início da criação dos municípios da Baixada Fluminense se dá a partir de 1826. Até aquele ano o Rio de Janeiro era composto pela cidade do Rio de Janeiro e todo o seu recôncavo. Com a criação do município da Corte em 1826 é iniciado o processo de desmembramento de municípios, através do qual surgiram os municípios de Parati, Vassouras, Cachoeiras de Macacu, que posteriormente deram origem a Itaguaí, Nova Iguaçu e Magé, respectivamente. Esses municípios também passaram pelo processo de desmembramento, nos séculos XIX, XX e XXI, e segundo Kamp (2003) a Baixada Fluminense seria composta de 14 municípios: Itaguaí, Mangaratiba, Seropédica, Paracambi, Nova Iguaçu, Japeri, Mesquita, Duque de Caxias, Belford Roxo, Nilópolis, Queimados, Magé, Guapimirim e São João de Meriti.

No entanto, na atualidade a região da Baixada Fluminense também pode ser caracterizada sob dois aspectos: o político-institucional, para o planejamento e as ações de governo – e o histórico- cultural, que se baseia na formação social da área. De acordo com o enfoque político-institucional a Baixada Fluminense seria composta pelos seguintes municípios: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica. O enfoque histórico-cultural, que é o mais comumente utilizado, está relacionado

à história da conquista, ocupação e evolução social e econômica de parte da Baixada da Guanabara, isto é, da periferia da cidade do Rio de Janeiro, constituída pelos atuais Municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti” (FUNDAÇÃO CIDE, 2005).

Neste trabalho optou-se pela utilização do enfoque histórico-cultural, com a inclusão de dois outros municípios: Magé e Guapimirim. Esta inclusão tem fundamento na divisão regional apresentada pelo Estado do Rio de Janeiro, que como no restante do país, se dá em mesorregiões, microrregiões e municípios. A mesorregião do Estado do Rio de Janeiro, a Metropolitana do Rio de Janeiro, tem como algumas de suas microrregiões a microrregião do Rio de Janeiro, de Itaguaí, Vassouras e Baía de Sepetiba. Na microrregião do Rio de Janeiro, além dos oito municípios que fazem parte da Baixada Fluminense sob o aspecto histórico-cultural, estão os municípios de Magé e Guapimirim. Os municípios de Itaguaí e Seropédica fazem parte da microrregião de Itaguaí, o município de Mangaratiba faz parte da Microrregião da Baía de Sepetiba e o município de Paracambi faz parte da microrregião de Vassouras. Desse modo, os municípios aqui considerados pertencentes à Baixada Fluminense, em um total de 10, de acordo com a divisão regional do Estado do Rio de Janeiro e sob o aspecto histórico-cultural são: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti. O município de Mesquita, antes distrito de Nova Iguaçu, foi criado em 25/09/1999 e instalado em 01/01/2001, o que faz com que até 2000 seus dados não apareçam nas informações demográficas e de saúde.

A tabela 1 traz, além da relação dos municípios de origem, a data de instalação dos 10 municípios.


Pode-se observar que os municípios de Belford Roxo, Guapimirim, Japeri, Mesquita e Queimados têm sua data de instalação a partir do ano de 1991. As informações sócio-demográficas, analisadas para os municípios da Baixada Fluminense, são referentes aos anos de 1980, 1991 e 2000, pois para os municípios não existentes até 1991 a Fundação CIDE, da qual as informações referentes a alguns indicadores foram utilizadas, considera que, sendo o censo demográfico composto por setores censitários, estes reunidos podem fornecer informações para subdistritos, distritos, municípios, microrregiões, mesorregiões, estados e qualquer outra área que se deseja extrair alguma informação. Então para se calcular algum indicador para o ano de 1991 referente ao município de Mesquita, por exemplo, deve-se selecionar os setores censitários que compõem este município para então se obter o indicador desejado, apesar da sua não existência em 1991.





  1. Análise dos indicadores

O abastecimento de água é um indicador de cobertura que tem por objetivo saber o percentual da população residente servida por rede geral de abastecimento. Este indicador mede a cobertura de serviços de abastecimento adequado de água, pois baixas coberturas sugerem a proliferação de doenças decorrentes de contaminação ambiental2. A análise do percentual da população residente com abastecimento de água, agrupada em três tipos de abastecimento- Rede geral, Poço ou nascente e Outra forma de abastecimento, mostra que a maioria da população residente nos municípios da Baixada tinha seu abastecimento de água proveniente da rede geral, exceto os municípios de Guapimirim e Magé, que tinham como principal forma de abastecimento poços ou nascentes. De 1991 para 2000 o único município que teve um aumento no abastecimento por rede geral foi o de Nova Iguaçu, passando de 76,2% para 80,6%. Concomitantemente observou-se um aumento do percentual da população residente em domicílios particulares sendo abastecida por poços ou nascentes, chegando a quase 50,0% em Guapimirim e Magé, e a 33,5% em Japeri. Como as águas provenientes de poços e nascentes não recebem o tratamento necessário, acabam se tornando um meio propício para o desenvolvimento de enfermidades que são decorrentes de contaminação ambiental.

O indicador de cobertura de esgotamento sanitário permite saber o “percentual da população residente que dispõe de escoadouro de dejetos através de ligação do domicílio à rede ou fossa séptica” 3. Busca medir a cobertura populacional de domicílios servidos por rede de esgoto sanitário, pois baixas coberturas estão relacionadas a doenças decorrentes de contaminação ambiental.



Os tipos de instalação sanitária analisados, presentes nas Tabelas 2 e 3, foram: rede geral, fossa séptica, fossa rudimentar, vala negra, outro escoadouro não determinado, não sabe e não tem. Houve um grande aumento do percentual populacional que dispõe de um sistema de rede geral de esgotamento sanitário. Como se pode observar, em 1991 os únicos municípios que apresentavam um sistema representativo era Duque de Caxias e São João de Meriti. Fossa séptica, fossa rudimentar e vala negra eram os outros sistemas mais utilizados pela população. Surpreendentemente a população do município de Nilópolis apresentava um percentual de 53,3% para outros tipos de escoadouro não determinado. O que se observa é que apesar dos avanços a cobertura do esgotamento sanitário se torna quase um privilégio para poucos, e ainda se nota a utilização de valas negras como meio de escoadouro de dejetos. Também, nota-se que, ainda pequeno, há um percentual da população que não dispõe de esgotamento sanitário adequado. Esses resultados só reforçam o fato de que inevitavelmente doenças transmissíveis podem estar encontrando na Baixada Fluminense o seu habitat ideal de desenvolvimento, devido à contaminação ambiental do solo pela ausência de sistema de esgoto sanitário.

Tabela 2

Percentual da população residente em domicílios particulares permanentes com cobertura de esgotamento sanitário, por tipos de instalação sanitária. Municípios da Baixada Fluminense, 1991.
Municípios
Rede geral
Fossa séptica
Fossa rudimentar
Vala negra
Outro escoadouro
Não sabe
Não tem
Duque de Caxias
30,6
27,9
6,7
29,5
2,9
0,1
2,2
Magé
0,5
40,6
20,1
24,9
9,3
0,3
4,3
Nilópolis
3,2
40,3
1,4
0,8
53,3
0,4
0,7
Nova Iguaçu
4,8
49,5
9,4
32,5
1,9
0,4
1,5
São João de Meriti
68,3
10,8
1,8
15,5
2,3
0,2
0,9

Fonte: DATASUS /Indicadores e Dados Básicos- IDB, 2004.

Tabela 3

Percentual da população residente em domicílios particulares permanentes com cobertura de esgotamento sanitário, por tipos de instalação sanitária. Municípios da Baixada Fluminense, 2000.
Municípios
Rede geral
Fossa séptica
Fossa rudimentar
Vala negra
Rio, lago ou mar
Outro escoadouro
Não tem
Duque de Caxias
55,3
21,0
4,4
13,6
3,5
1,0
1,1
Magé
28,8
32,3
8,7
22,7
5,1
1,1
1,3
__Guapimirim
21,5
45,7
12,3
16,1
2,5
0,6
1,3
Nilópolis
79,0
17,6
0,6
0,2
2,1
0,1
0,4
Nova Iguaçu
50,3
29,4
3,5
12,8
2,6
0,6
0,9
__Belford Roxo
52,8
25,5
4,5
13,9
1,2
1,0
1,2
__Japeri
26,7
32,5
8,4
25,5
3,6
1,4
2,0
__Queimados
33,5
47,1
4,4
10,4
2,6
0,6
1,3
São João de Meriti
66,3
25,2
1,7
3,8
1,9
0,5
0,6

Fonte: DATASUS /Indicadores e Dados Básicos- IDB, 2004.

A cobertura de serviços de coleta de lixo trata-se do percentual da população que é atendida por serviços regulares de coleta de lixo. Assim como nos outros dois indicadores, a sua baixa cobertura também se torna favorável ao aparecimento de doenças decorrentes de contaminação ambiental. Os tipos de tratamento de lixo observados foram: coletado, queimado, enterrado, jogado e outro destino.

A cobertura do serviço de coleta de lixo teve um aumento acentuado em todos os municípios. Em 1991, boa parte da população, mais de 20%, tinha seu lixo jogado ou queimado, mas a coleta ainda era a forma que tinha a maior cobertura. Em 2000, o único município que tinha um percentual da população residente atendida em menos de 60% pela coleta de lixo era Japeri, onde 56,5% da população tinha o lixo coletado, 31,2% tinha o lixo queimado e 11,4% tinha o seu lixo jogado, valores esses que podem ser considerados muito altos. Os maiores percentuais observados, em 1991 e 2000, foram para os municípios de Nilópolis e São João de Meriti, que em 2000 possuíam percentual de cobertura de 98,9% e 97,5%, respectivamente.


  1. Mortalidade proporcional por causas mal definidas e mortalidade proporcional por causas de morte

A mortalidade proporcional por causa é nada menos que a proporção de óbitos decorrente de uma determinada causa em relação ao total de óbitos após a eliminação das causas mal definidas. Também permite avaliar as variações relativas ao longo do tempo das causas de óbitos e analisar a situação epidemiológica e os níveis de saúde de uma população (DATASUS, 2004). A mortalidade proporcional foi calculada para ambos os sexos e por grupos etários e para os anos de 1996, 1999, 2002 e 2004, e aqui é apresentada a mortalidade proporcional por causas mal definidas e a mortalidade proporcional por causas de morte.

A análise das causas de óbito mal definidas deve-se à sua importância para a compreensão das condições de saúde da população da área em estudo. A existência de altas proporções de mortalidade por causas mal definidas está associada à deficiência na declaração das causas de morte presentes nas declarações de óbitos. Isto em geral ocorre onde à ocorrência do evento não teve assistência de algum profissional da área médica, ou se foi com assistência médica, o profissional não estava suficientemente preparado para declarar devidamente as causas associadas ao óbito. Assim, através da análise da proporção de causas mal definidas é possível avaliar as condições de prestação de serviços de saúde na área de estudo e, adicionalmente, ter uma informação aproximada da qualidade das estatísticas de mortalidade da área.



Para os municípios da Baixada Fluminense, observa-se na Tabela 4 que, os municípios apresentam variações distintas para os quatro anos analisados. Em alguns municípios os percentuais de óbito pelas causas mal definidas são maiores para os anos de 1999 e 2002, como é o caso dos municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Magé, Nova Iguaçu e Queimados. Para os municípios de Guapimirim e São João de Meriti os maiores percentuais são para os anos de 1996 e 1999 e para o município de Japeri os maiores percentuais são referentes aos anos de 2002 e 2004. Chama a atenção o município de Japeri, onde certamente houve um grande problema localizado nos registros do SIM neste período, pois o percentual de óbitos de causas mal definidas passou de 8,7% em 1999 para 19,3% em 2002. Em 2004, à exceção de Nilópolis e São João de Meriti, todos os demais municípios apresentam percentuais menores para as causas mal definidas.

Tabela 4

Percentual de óbitos por causas mal definidas segundo o município de residência do falecido. Total, homens e mulheres, 1996, 1999, 2002 e 2004.
1996
1999
2002
2004
Duque de Caxias
13,5
14,8
15,2
8,8
Magé
5,4
8,0
5,6
3,9
__Guapimirim
16,0
17,2
15,9
7,5
Nilópolis
12,3
15,1
11,2
13,2
Total
Nova Iguaçu
8,0
10,3
12,1
8,6
__Belford Roxo
9,5
17,2
16,0
15,2
__Japeri
6,2
8,7
19,3
12,1
__Queimados
10,6
15,6
12,6
5,6
São João de Meriti
17,0
19,3
14,1
14,3

Fonte: Sistema de Informações de Mortalidade - SIM/DATASUS
Em relação aos percentuais observados para a mortalidade proporcional por causas de morte para os municípios, para os anos de 1996, 1999, 2002 e 2004, independentemente de o município apresentar uma melhor ou pior condição sócio-econômica, as causas de morte que apresentam os maiores percentuais, para os homens, em todos os municípios, são as doenças do aparelho circulatório, causas externas e outras causas de óbito. Para as mulheres os maiores percentuais, também em todos os municípios, são referentes às doenças do aparelho circulatório, outras causas de óbito, doenças do aparelho respiratório; em alguns casos as doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas apresentam percentuais próximos dos observados para as doenças do aparelho respiratório. Os menores percentuais, para os homens, são observados para as causas de óbito doenças do sangue, órgãos hematopoéticos e transtornos imunitários, doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas, doenças do aparelho digestivo e algumas doenças infecciosas e parasitárias; para as mulheres os menores percentuais são referentes às causas de óbito doenças do sangue, órgãos hematopoéticos e transtornos imunitários, doenças do aparelho digestivo, causas externas e doenças infecciosas e parasitárias.

Em todos os municípios, para homens e mulheres, o menor percentual foi observado para a causa de óbito doenças do sangue, órgãos hematopoéticos e transtornos imunitários, com uma tendência de estagnação desse percentual. As outras causas de óbito que configuram entre os menores percentuais de óbito, tanto para os homens - doenças do aparelho digestivo, doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas e algumas doenças infecciosas e parasitárias, como para as mulheres - doenças do aparelho digestivo, causas externas e doenças infecciosas e parasitárias, têm mantido percentuais abaixo de 10%.



  1. Considerações finais

Mesmo alguns dos indicadores analisados tendo apresentado valores que podem ser considerados satisfatórios, em vista do histórico de baixo desenvolvimento que a região da Baixada Fluminense tem apresentado, se percebe que outras questões ainda precisam de melhorias.

A partir dessas informações pode-se afirmar que o município de Nilópolis apresenta as melhores condições sócio-econômicas de toda a região, pois apresenta os melhores índices nos indicadores analisados. São João de Meriti também apresenta bons índices para alguns indicadores, assim como o município de Nova Iguaçu. O município de Japeri pode ser considerado o que apresenta as piores condições sócio-econômicas de toda a região, por apresentar índices insatisfatórios para a maioria dos indicadores, sendo seguido por Queimados e Guapimirim.

Em relação à mortalidade proporcional para os capítulos da CID-10, os municípios da Baixada Fluminense têm um perfil de mortalidade muito semelhante. Observa-se uma maior variação para a mortalidade proporcional para as mulheres para as causas doenças do aparelho circulatório, onde os municípios de Queimados e Nova Iguaçu apresentam os maiores percentuais, e para a categoria outras causas de óbito, com os maiores percentuais observados em Nilópolis e Nova Iguaçu. Para os homens os maiores percentuais pertencem às doenças do aparelho circulatório e as causas externas, com os maiores percentuais também observados para os municípios de Queimados e Nova Iguaçu. As causas de óbitos restantes, independente do nível sócio–econômico apresentado pelo município apresentam percentuais muito próximos. As causas que apresentam maior ou menor percentual para homens e mulheres têm a sua ocorrência registrada em todos os municípios.

As questões aqui abordadas permitem uma melhor compreensão do que realmente é a Baixada Fluminense, com todas as suas problemáticas e questões de cunho público que parecem ser ignoradas, pela persistência com que se estendem ao longo dos anos, independentemente do elevado nível de desenvolvimento obtido por alguns de seus municípios.



  1. Referências Bibliográficas

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______. Censo Demográfico 1991. Rio de Janeiro, 1991.

______. Censo Demográfico 2000. Rio de Janeiro, 2000.

GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO/ SECRETARIA DE PLANEJAMENTO E GESTÃO. FUNDAÇÃO CIDE.-Centro de Informações e dados do Rio de Janeiro. Disponível em: .

IPAHB - Instituto de Pesquisas e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense. Resumo Histórico da Baixada Fluminense. Disponível em: <http://www.ipahb.com.br/sintesehist.php>. Acesso em: 21 de novembro de 2005.

JANNUZZI, Paulo de Martino. Indicadores Sociais no Brasil. Campinas, SP: Editora Alínea, 2001.

KAMP, Renato. As belezas da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Summit, 2003.



1 Doutoranda em Sociologia- IESP-UERJ

2 DATASUS. Cobertura de redes de abastecimento de água. Indicadores de cobertura. Indicadores e Dados Básicos- IDB- 2004. Fichas de qualificação.

Disponível em:< http://www.datasus.gov.br/cgi/idb2004/matriz.htm>



3 DATASUS. Cobertura de esgotamento sanitário. Indicadores de cobertura. Indicadores e Dados Básicos- IDB - 2004. Fichas de qualificação Disponível em:< http://www.datasus.gov.br/cgi/idb2004/matriz.htm>



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