Conferência dos Religiosos do Brasil



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Conferência dos Religiosos do Brasil

CONGRESSO NACIONAL DA VIDA CONSAGRADA – Aparecida 07 a 10/04/15


Testemunhos - “A ALEGRIA DE SER ENVIADOS/AS EM MISSÃO”
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Papa Francisco proclamou para 2015 um Ano da Vida Consagrada com o objetivo de reconhecer, agradecer e valorizar a presença de tantos religiosos e religiosas que trabalham com extrema dedicação, sem poupar esforços, nas nossas igrejas, na sociedade e pelo mundo afora. “Convido todas as comunidades cristãs – diz o Papa – a viverem este Ano, procurando antes de mais nada agradecer ao Senhor e, reconhecidas, recordar os dons que foram recebidos, e ainda recebemos, por meio da santidade dos Fundadores e das Fundadoras e da fidelidade de tantos consagrados ao seu próprio carisma. A todos vos convido a estreitar-vos ao redor das pessoas consagradas, rejubilar com elas, partilhar as suas dificuldades, colaborar com elas, na medida do possível, para a prossecução do seu serviço e da sua obra, que são aliás os da Igreja inteira. Fazei-lhes sentir o carinho e o encorajamento de todo o povo cristão”.

Por sua vez, o Papa Bento XVI lembrou ao Povo de Deus que “a vida consagrada resplandece em toda a história da Igreja, pela sua capacidade de assumir explicitamente o dever do anúncio e da pregação da Palavra de Deus na missio ad gentes e nas situações mais difíceis” (VD 94c). Com efeito, quanto mais a missão é radical, mais precisa de uma consagração de toda a vida e de uma dedicação total. Os religiosos e as religiosas são enviados e enviadas em missão para fazer um dom humilde e gratuito de sua vida inteira nos lugares mais desafiadores. Se pensarmos, pois, propriamente à missão além-fronteiras, não pode haver num mergulho profundo numa outra cultura, que requer aprendizagem de idiomas, costumes, mentalidades, relações, cosmovisões, sem longos tempos de dedicação e entrega. Assumindo concretamente a vida de um povo e sua causa, assumimos de fato o seguimento de Jesus e de seu Evangelho que diz: “todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e terá como herança a vida eterna” (Mt 19,29).

Como é que acontece hoje essa entrega? Como é que se processa essa doação total da vida? Como é possível no mundo de hoje, onde às pessoas estão tão voltadas para seu próprio interesse e para a realização de sua própria existência, ter homens e mulheres que gastam toda sua vida para os outros? Que projeto de vida é este? Será que ainda podemos propor uma coisa assim para as novas gerações do século XXI?

Pelos testemunhos que acabamos de ouvir podemos tirar quatro lições

1) Deus está no centro da missão. há 50 anos, o Concílio Vaticano II lembrou que a Vida Religiosa Consagrada tem como vocação própria viver exclusivamente para Deus, renunciando ao mundo, seguindo Jesus “como única coisa necessária” (Lc 10,42). Claro que isso é também vocação de qualquer cristão (cf. LG 40). Contudo, podemos compreender a especificidade da vida consagrada a partir da totalidade da sua oferta e da sua maneira profética de viver: “os religiosos devem ser homens e mulheres capazes de despertar o mundo”, afirma Papa Francisco.

Portanto, um religioso não se consagra para tornar-se missionário: o religioso se consagra somente para Deus. A missão na vida religiosa não é uma meta, um objetivo ou um projeto de vida. A missão é um caminho: “quem coloca Cristo no centro de sua vida descentraliza-se! Quanto mais te une a Jesus e ele se torna o centro da tua vida, tanto mais ele te faz sair de ti mesmo, te descentraliza e abre aos outros”, assegura Francisco.

O religioso e a religiosa não partem em missão porque eles querem ou porque eles escolhem, mas porque alguém os envia e porque são escolhidos. O centro deles é viver somente para Deus, que os envia, os faz sair, os coloca em movimento, os desloca a serviço da Igreja e do mundo. “A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão ‘reveste essencialmente a forma de comunhão missionária’”, garante ainda o Papa.

Sim, porque Deus é missão, Deus é Amor: um amor que não se contem, que transborda, que sai de si e vai ao encontro das pessoas. Nós todos somos chamados a participar desse movimento de amor e desta maneira participarmos da vida divina, da vida eterna. Tornar-se missionário significa participar da vida de Deus, do seguimento de Jesus que prometeu estar sempre conosco (cf. Mt 28,20) e da ação do Espírito que acompanha e dirige a Igreja.



2) O encontro com o outro e com o pobre transforma e converte. A missão não se situa no âmbito da atividade, mas naquele das relações, assim como o termo “irmão” é chave para compreender toda essência do Evangelho: Deus é Pai, nós somos seus filhos e filhas, irmãos e irmãs “de sangue” entre nós. E ponto. Quer amar a Deus de verdade? Ama seu irmão. Quer encontrar a Deus? Vai ao encontro do seu irmão. Missionário não é, antes de tudo, quem converte, mas quem se deixa converter no encontro com o outro.

O mundo exige hoje um testemunho de comunhão e de fraternidade. Na comunidade se expressa o engajamento fundamental contra toda forma de domínio sobre o outro, e a prática assídua da fraternidade como manifestação de uma nova lógica de convivência universal. Esse testemunho não é opcional, mas é algo de absolutamente indispensável porque, como diria papa Francisco, “preenche os vazios de amor que há nos corações, nas relações humanas, nas famílias, nas comunidades e no mundo. Ser santo não é um luxo, é necessário para a salvação do mundo. Isto é o que o Senhor nos pede”.

“Sair pela porta afora e procurar e encontrar (...). O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade, são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Quero vocês quase obsessivos neste aspecto! E fazê-lo sem ser presunçosos” (Alegrai-vos, 10).

3) A VRC na sua diversidade que se estrutura em torno de projetos missionários comuns. A VRC expressa seu sinal de entrega total e unicamente a Deus no serviço aos mais pobres e excluídos, nas Galiléias deste mundo afora. Hoje as Galiléias são as periferias onde homens e mulheres do nosso tempo esperam palavras de consolo, de proximidade, de perdão e de alegria. Os consagrados e as consagradas são chamados/as nos porões da humanidade a levar a todos o abraço de Deus que se inclina com ternura de mãe.

Portanto, as comunidades de VRC são convidadas a se organizar em torno de projetos missionários. É o projeto missionário que configura a comunidade religiosa, e não o contrario. Por isso que a perspectiva da inter-congregacionalidade pode se tornar preciosa para superar a fragmentação e se reorganizar em torno de algo comum e direcionado. Trabalhar com a inter-disciplinariedade e a inter-carismaticidade pode ser um sinal percebido como um grande valor: a fragmentação, com certeza, é um contra-testemunho. Podemos encontrar um paralelo na caminhada ecumênica: a divisão das igrejas era um empecilho determinante ao anúncio do Evangelho entre os povos não-cristãos. Da mesma forma, a missão não partilhada entre religiosos muitas vezes alimentou somente a vaidade das congregações. O Pe. Paolo Manna, PIME, ainda em 1929, dizia que as ordens e os institutos religiosos, nos territórios de missão, “em lugar de estabelecer a Igreja, acabaram estabelecendo a si mesmos”.



4) Hoje é preciso avançar! A VRC foi seleiro de grandes inovações na história da humanidade desde o movimento monástico do primeiro milênio às ordens mendicantes e congregações missionárias do segundo milênio. Seus visionários fundadores e fundadoras conseguiram ver oportunidades onde os outros viram apenas problemas: tinham olhos para ver nos pobres, nos marginalizados, nos jovens, nos sofredores, nos deficientes, nos migrantes, nas mulheres, nos negros, nos indígenas, algo de grandioso e de bonito, um potencial, uma “grande colheita” (Mt 9,37) pela qual valia a pena investir. Conseguiram transmitir essa paixão a outros e outras que seguiram o mesmo caminho, atraídos e inspirados por seus carismas. Desta maneira, as organizações que surgiram podem ser consideradas como experiências de inovação e de elevação espiritual, social, política e econômica da humanidade.

Por tudo isso, hoje é preciso avançar. O Documento de Aparecida convida toda e qualquer comunidade eclesial a não se instalar na comodidade (DAp 362), a entrar decididamente nos processos de renovação missionária, abandonando as estruturas caducas (DAp 365), a sair de uma consciência isolada e a lançar-se, com ousadia e confiança, à missão de toda a Igreja (DAp 363). Assim como a igreja apostólica, inspirada pelo Espírito, teve que romper com tradições, convicções e paradigmas para se abrir aos gentios – inclusive com orientações que não encontravam respaldo no ministério histórico de Jesus – assim as congregações religiosas devem hoje ir além de suas realizações, de sua história, até de suas constituições para abrir novos caminhos. Resistências de mudança e de avanço na VRC são determinadas muitas vezes por visões ultrapassadas, corporativas e voluntaristas, patriarcais ou matriarcais, que não abrem espaço ao novo e que geram insatisfação, desencanto, abandono. É absolutamente necessário continuar afirmar neste mundo o diferencial profético da vocação cristã, que encontra no seu Senhor e Mestre a chave, o centro e o fim de toda a história humana (cf. GS 10): mas é igualmente preciso não confundir esta fidelidade com a fixação em modelos historicamente limitados.


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