Conhecer para Preservar



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Conhecer para Preservar:

Projeto de Educação Patrimonial 1

Angerlânia da Costa Barros

Resumo:

O trabalho aqui exposto trata-se da descrição de uma atividade voltada à Educação Patrimonial e traz reflexões, resultados e conclusões acerca das propostas e dificuldades que esta atividade, denominada Conhecer para Preservar, nos proporcionou, durante sua construção. A proposta visa conscientizar alunos de 1ª e 2ª séries do Ensino Médio sobre a preservação dos patrimônios histórico-culturais existentes em Fortaleza e claro, motivá-los a perceberem a importância e a memória que aqueles carregam. Para alcançar tal pretensão, acreditamos ser através do conhecimento sobre Patrimônio e o que ele simboliza a maneira mais viável. E isto, será o nosso principal foco: conhecer e consequentemente, preservar.



Palavras-Chaves: Patrimônio – Conscientização – Memória

Introdução

Todo projeto de educação patrimonial “é uma proposta inovadora e necessária [...] um processo constante de resgate do passado social, de releitura daquilo que permaneceu e de compreensão dos processos que levam a esta seleção”. (SALVADORI, 2008, p.36). Entendemos que a meta da educação patrimonial não almeja apenas a preservação de um bem cultural, mas, principalmente, deseja a conscientização da sociedade sobre a importância e significado das realizações artísticas e culturais das sociedades do passado. E estas reflexões nos levaram a pensar sobre a realização de um projeto de educação patrimonial que estabelece uma aliança entre o conhecimento e a preservação, daí o título do projeto: Conhecer para preservar.

A importância da realização desse projeto de educação patrimonial também se relaciona ao conceito de memória de Pierre Nora. Em A problemática dos lugares, ele diz que “a memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto” (ano, p.7-28). Assim, utilizaremos sua afirmação, para possibilitar um diálogo entre a função de preservar um patrimônio e a conservação da memória que eles trazem. Mesmo aceitando que a maioria dos patrimônios refletem as memórias históricas de elementos escolhidos para e pela elite, compreendemos a função dela - da memória, como o maior meio de um patrimônio tornar-se significativo à sociedade e não apenas uma bela arquitetura antiga.

Nossa proposta de atividade resume-se em promover a compreensão dos conceitos e significados de patrimônio histórico-cultural, buscando a conscientização dos alunos de escolas públicas de Fortaleza sobre a importância do passado e a preservação dos bens imóveis nesta cidade, bem como discutir a importância desses patrimônios e de seus valores simbólicos, de forma que eles questionem e vivenciem estes acervos. Também tem por finalidade, envolver os alunos na luta pela preservação de bens imóveis de Fortaleza, associando o significado que estes bens lhes conferem.

O projeto destina-se a alunos de ensino médio de escolas públicas ou particulares e preferencialmente para estudantes dos 1º e/ou 2ºanos, de faixa etária entre 15 e 17 anos de idade. Já que alunos do último ano estão mais voltados a estudar para exames e vestibulares e a proposta do projeto tomar-lhes-ia muito tempo. Acreditamos que esse trabalho de educação patrimonial, beneficie órgãos responsáveis pela preservação de patrimônios históricos, de maneira a conscientizar as pessoas sobre sua importância.

A fim de realizá-lo, dividimos a atividade em três etapas: 1- aulas expositivas na escola sobre os conceitos e significados de patrimônio, 2- visita a alguns bens imóveis culturais de Fortaleza e 3- a elaboração de um texto sobre a importância do patrimônio e de sua preservação. Esse procedimento busca a conscientização dos alunos e não, a promoção do “espetáculo do patrimônio”, conceito utilizado por Funari e Pelegrini (2006) e, infelizmente, percebido na realidade, quando o bem histórico-cultural deixa de simbolizar resquícios do passado humano e se torna alvo de propagandas voltadas apenas ao Turismo.



Relato de experiência

A primeira etapa trata-se da ministração de duas aulas que esclareçam a definição e função de um patrimônio, de modo a instigar os alunos sobre a importância de se conhecer e logo, preservar um bem histórico-cultural. No roteiro dessas aulas serão estudados principalmente os dois bens imóveis a serem visitados pelos alunos: Museu do Ceará e Theatro José de Alencar. A segunda etapa trata-se da visita destes espaços, inserindo os alunos dentro do contexto artístico, histórico e cultural de cada um dos bens. A última etapa é a elaboração de um texto coletivo que contenha a experiência de visitar estes espaços conhecendo a história deles, qual aspecto da vida ou do passado dos alunos o patrimônio representa (ou) e o porquê de preservá-los.

O Theatro José de Alencar tem 103 anos de existência e fica localizado no Centro comercial de Fortaleza, na Rua Liberato Barroso, nº 525. Foi tombado pelo Instituto de Preservação do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1987. Assim, por ser tombado e tão significativo histórico e culturalmente para Fortaleza, escolhemo-lo neste trabalho. Essa atividade busca uma conscientização, de maneira que favoreça a identificação dos alunos com o Patrimônio. Mas, o Theatro traz em sua própria estrutura, elementos - um andar superior e uma escada em espiral como forma de separar a elite do “povão” que simultaneamente visitassem-no2 – que dificultam essa relação e, ainda, reforçam a exclusão sofrida pelos menos abastados.

O Museu Histórico do Ceará tem 81 anos de criação e está localizado também no Centro da capital cearense, na Rua São Paulo, nº 51. Foi tombado como Monumento Nacional pelo IPHAN em 1973. Além de concentrar um dos maiores e mais importantes acervos do Estado – cerca de sete mil peças -, o Museu do Ceará promove cursos, oficinas, palestras e publicações na área de museologia e História3. Escolhemos como o outro bem histórico-cultural a ser visitado e estudado neste projeto, porque reúne e contempla a história cearense (principalmente a de Fortaleza) através de seu acervo. Por se tratar de um Museu, julgamos favorecer a reflexão sobre a importância de preservá-lo, contudo sentir-se representado por ele não é tão simples.

Vale ressaltar que as atividades propostas no projeto, ainda, não foram realizadas com alunos, ou seja, toda a experiência que será descrita a partir de agora, parte de observações feitas, quando da minha tentativa de prever as possíveis dificuldades ou empecilhos em uma visita a estes espaços e os prováveis questionamentos e reflexões sobre o Patrimônio que podem surgir dos alunos quando as atividades forem realizadas. Ressalto que a primeira etapa (aulas) e a última (elaboração de texto), não foram “ensaiadas”, embora já tenhamos uma ideia sólida de seus roteiros e esperamos, assim como todo o projeto, pô-los em prática.

O objetivo último e principal do trabalho é a conscientização sobre a importância da preservação dos patrimônios de Fortaleza e o principal meio que utilizaremos para atingi-lo é o conhecimento sobre eles. Este atravessa não somente os conceitos e definições, mas também a compreensão de toda carga simbólica e histórica presentes nestes bens. Entretanto, quando da visita ao Theatro e ao Museu já citados e mesmo com o olhar focado nestes significados mais históricos, perceber os valores atribuídos a eles ou reconhecer-se neles, não é tão fácil. De início, ambos apresentam-se apenas locais antigos, cheios de “coisas” velhas e que nada tinham a ver comigo. Imaginei como um aluno de ensino médio vê-los-ia.

Para a segunda fase da atividade, conferi se a visita com cerca de 30 ou 40 alunos seria possível. Informei-me, tanto no Theatro quanto no Museu e ambos espaços estão disponíveis para às visitas com grande quantidade de pessoas. Para ambos só é preciso agendar a visita e os dois disponibilizam guias. Aponto que é gratuita apenas a visita ao Museu do Ceará, o Theatro pede uma taxa simbólica de dois reais para cada estudante e quatro reais ao público em geral4. Ou seja, promover a visita não é uma dificuldade. Ainda, sobre as impressões sobre a visitação, é importante observar que enquanto a guia do Theatro narrava à história sobre José de Alencar e de seus espaços e móveis ou contava curiosidades sobre, eu me esforçava para ver algo naquele lugar, que identificasse-me ou se relacionasse de alguma maneira comigo, tentando projetar como os possíveis alunos ou como a população fortalezense reagiriam na visitação.

Visitar o Theatro é experimentar visualmente a arte sob detalhes minuciosos em cada objeto, parede, teto, palco, é como se não estivéssemos em Fortaleza. Ao mesmo tempo, experimentamos a realidade, a guia comentou sobre vários visitantes ilustres (da elite, da política, do exterior) e quase nada falou da presença popular naquele recinto, ou seja, reforça-se a ideia da preservação de apenas bens criados para e pela a elite. Observei que visitar o Theatro José de Alencar, mesmo com “os olhos voltados” e tentar perceber a minha história e a importância de preservar tal lugar por isto, pareceu-me tarefa difícil. A visitação da forma como está construída e pelo trabalho de guia que oferecem promove mais um passeio a um ponto turístico muito belo, caprichosamente arquitetado, mas desvinculado da sociedade “lá de fora” do Theatro, da qual pertenço.

Conhecer a história do Theatro José de Alencar é simples, refletir sobre a importância da preservação de tal prédio mais ainda, afinal qualquer fortalezense que visitasse aquela obra-prima edificada, talvez sentisse grande pesar caso o prédio fosse danificado, abandonado ou demolido. É como se o Theatro fizesse parte de Fortaleza, mas não da vida dos fortalezenses, pelo menos não da história deles, ou melhor, não da classe deles. Dentro do Theatro, senti a falta de algo popular, pensei como adolescentes de 15 a 17 anos senti-lo-iam, como os alunos relacionariam tudo que aprendessem sobre a importância teórica de um patrimônio com suas experiências, sua cultura e identidade. Na prática, foi como ver mais um edifício antigo, todo contornado de formas e cores elegantes, a provocar uma diferenciação ou disputa entre os prédios atuais.

O mesmo aconteceu na visita ao Museu do Ceará, a nossa “casa” histórica, onde há pequenos símbolos (peças) da história do Ceará e de Fortaleza. O Museu reúne fragmentos de quase todos os séculos de existência do Ceará e narra através deles à história cearense e dos três povos – Índios, Africanos e Europeus. Visitá-lo também não significou encontrar-me com o meu passado, ao menos não diretamente. Lá existe um aglomerado de informações que se identificam de alguma maneira com a história da população cearense e apesar de haver uma exposição bem selecionada e definitiva, é preciso bastante conhecimento sobre a História do Ceará para fazer um diálogo entre as peças do Museu e o nosso tempo antigo.



Conclusão

Após a visitação dos espaços selecionados para a atividade, pude refletir sobre o porquê da escolha de visitar o Theatro e o Museu e se haveria outros patrimônios tombados como eles ou não, tão importantes à história fortalezense e que possibilitassem mais facilmente a percepção dos elementos da minha história e classe social. Pensei também, se caso existisse, como eu trataria tais patrimônios, caso não encontra-se vestígios das classes subalternas. A visitação aos espaços, também, favoreceu a reflexão sobre como os alunos reagiriam? Qual a importância dessa visitação para a concretização dos objetivos da ação educativa patrimonial? Pois, vale lembrar que o objetivo do projeto é conhecer para preservar. Assim, dispus-me, a coletar, o máximo possível de informações de ambos os bens escolhidos para depois, ponderar se o conhecimento sobre eles possibilitariam a conscientização sobre a importância de preservá-los.

Scifoni apud Tolentino comenta tais inquietações e diz que: “a Educação Patrimonial tem em um país como o Brasil o grande desafio de lidar com o fato da população nem sempre se identificar ou se enxergar no conjunto do que chamamos de patrimônio cultural nacional” (2012, p. 36). Se estes bens são escolhidos e preservados por significarem um passado coletivo, por que eles são praticamente desconhecidos, quando o assunto é esse significado? Muitas vezes, a população menos instruída conhece apenas o prédio, a localização e a beleza da arquitetura e quase nunca atribuem e/ou reconhecem neles valores simbólicos e históricos.

Sendo assim, como conseguir conscientizar alunos, pais de alunos e sociedade a preservar qualquer patrimônio material ou instruí-los a isso, através do conhecimento sobre os bens, se o principal – ver-se historicamente neles – não acontece naturalmente? Entendo, portanto, que a preservação por si só, não provocaria um reconhecimento/diálogo entre o bem histórico-cultural preservado e a sociedade. Seria apenas um local, objeto ou elemento cultural que por lei estava destinado à preservação e talvez as pessoas obedecessem esta lei sem sequer entender as razões, os porquês e pior, sem de fato, ver nesses bens a sua própria história.

Acredito que ver-se (histórico e culturalmente) em e/ou preservar um patrimônio só é possível com o conhecimento, ou seja, quando realmente a sociedade conhece sobre estes elementos e compreende-os como parte de seu passado. Desta forma, torna-se necessário, o desenvolvimento de atividades de ação educativa patrimonial que favoreçam a mudança. Isto é, precisamos conscientizar as pessoas acerca da importância memorial, histórica e cultural que os patrimônios, materiais ou imateriais, simbolizam dos nossos antepassados.

Referências:

FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Patrimônio histórico e cultural. In: FUNARI, Pedro e PELEGRINI, Sandra de Cassia. Políticas patrimoniais no Brasil: impasses e realizações. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

NORA, Pierre. A problemática dos lugares. Revista Projeto História (10), São Paulo: PUC/SP, 1973.

SALVADORI, Maria Ângela. História, Ensino e Patrimônio. Araraquara, SP: Junqueira e Marin, 2008.

TELLES, Leandro Silva. Manual do Patrimônio Histórico. Caxias do Sul, RS: Universidade de Caxias do Sul, 1997.

TOLENTINO, Átila Bezerra (org.) Educação Patrimonial: reflexões e práticas. Joao Pessoa: Superintendência do IPHAN na Paraíba, 2012.



1 Relatório da Atividade Prática de Ação Educativa e Patrimonial, apresentado à Universidade Estadual do Ceará-UECE. Disciplina: Estagio II - Ação Educativa e Patrimonial, sob a orientação da Profª Drª Valéria Apª Alves. Novembro/2013.

2 Comentário da Guia do Theatro, a respeito da separação entre ricos e pobres ao visitarem-no em festejos ou comemorações abertas ao público. De forma, a não haver uma aproximação entre tais classes. (2013)

3 Informações disponíveis em: http://www.secult.ce.gov.br/index.php/equipamentos-culturais/museu-do-ceara. Acesso em novembro de 2013.

4 Valores estabelecidos em setembro de 2013, portanto, sujeito à alterações.


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