Conhecimento àcerca de Deus



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Breve Introdução à Teologia Trinitária
Teologia, dita com simplicidade, significa “conhecimento àcerca de Deus”. A nossa compreensão pessoal da teologia consiste daquilo que acreditamos ser verdadeiro à cerca de Deus.
De uma forma ou de outra, todos nós temos uma teologia. E certamente cada igreja e denominação tem uma teologia. É a estrutura que suporta e informa as suas doutrinas e práticas.
“Teologia Trinitária” é uma particular aproximação à teologia que encara a Trindade, como revelada em Jesus Cristo, não meramente como um ponto de doutrina, mas antes como a doutrina central e fundamental que forma a base para como lemos a Bíblia e como compreendemos todos os pontos da teologia.
Teologia Trinitária trata não somente com o “como” e o “porque” das doutrinas e práticas, mas acima de tudo, começa com o “quem”. Teologia Trinitária pergunta, “Quem é o Deus tornado conhecido em Jesus Cristo, e quem somos nós em relação a Ele?”
A Bíblia apresenta-nos um Deus que escolheu tornar a si próprio conhecido e para realmente estar connosco e para nós em pessoa, através de Jesus Cristo. Isso significa que não podemos olhar para fora de Jesus para comprendermos quem Deus é. Em Jesus encontramos Deus como Deus realmente é, como o Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – o qual é por nós.
Quando encontramos Jesus, descobrimos que Ele nos apresenta ao Seu Pai celestial. Nas Suas palavras e acções ouvimos e vemos que o Pai ama-nos incondicionalmente. Ele enviou Jesus não devido à fúria e à necessidade de castigar alguém, mas devido ao Seu imensurável amor e o Seu inflexível compromisso para a redenção humana. Quando encontramos Jesus na Bíblia descobrimos que Ele também nos apresenta ao Seu Espírito, o Espírito Santo de Deus, o qual também trabalha para trazer à nossa atenção o ministério reconciliador de Deus.
“Teologia Trinitária”, portanto, não se refere simplesmente à uma crença na doutrina da Trindade. Refere-se que acreditar neste Deus triuno e reconhecer que esta doutrina, a qual aponta quem o Deus da Bíblia realmente é, está no fundamento de todas as outras doutrinas e forma a base para como nós compreendemos tudo que lemos na Escritura.
Centrada em Cristo
Teologia Trinitária é primeiramente e acima de tudo centrada em Cristo. Diz-nos que Jesus Cristo, o único Filho de Deus, tornou-se um com a nossa carne para poder ser o nosso substituto que salva e para representar-nos como seus irmãos e irmãs na própria presença do Pai. Diz-nos que, em Cristo, nós pertencemos ao Pai e que somos os amados do Pai.
Isto significa que a vida e a fé cristãs são primariamente àcerca de quatro tipos de relacionamentos pessoais:


  1. os relacionamentos internos de amor sagrado partilhados pelo Pai, Filho e Espírito Santo desde a eternidade.

  2. o relacionamento do Filho eterno com a humanidade em Jesus Cristo encarnado.

  3. o relacionamento da humanidade com o Pai graciosamente dada a nós através do Filho e pelo Espírito, e

  4. o relacionamento dos humanos uns com os outros como filhos do Pai redimidos por Jesus Cristo.

Teologia Trinitária é Trinitária no sentido de que começa com o conhecimento de que o Deus uno existe eternamente na união e comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo.


Teologia Trinitária é centrada em Cristo no sentido de que foca na centralidade e grandeza de Jesus Cristo conforme Ele é revelado nas Escrituras: o Filho de Deus em carne, um com o Pai e com o Espírito; e um com toda a humanidade.
Conforme notado por Thomas F. Torrance (um teólogo Trinitário principal do século 20), Jesus é duplamente a base (fundação/origem) e a gramática (essência/lógica organizativa) do Deus supremo e de toda a ordem criada – toda a humanidade incluída. Portanto tudo deverá ser compreendido em relacionamento com Ele.
Jesus indica que Ele é inclusive a chave para compreender a Escritura. Ele disse a um grupo de lideres religiosos Judeus em João 5:39-40: “Estudam as Escrituras com muita atenção, e julgam encontrar nelas a vida eterna. Contudo as próprias Escrituras falam de mim. E, apesar disso, vocês não querem seguir-me para terem a vida eterna.”

Nós procuramos ler e interpretar a Bíblia através da lente de quem Jesus é. Portanto, Ele é a base e a lógica da nossa teologia – porque somente Ele é a auto-revelação final e completa de Deus.


História primitiva
Teologia Trinitária formava a base dos ensinamentos Cristãos. Isto é reflectido nas crenças dos primeiros Cristãos. Os primeiros professores e teólogos Trinatários proeminentes incluíam Irineu, Atanásio, e Gregório de Naziano.
Irineu (morreu em 202 DC.) era um discípulo de Policarpo (o qual tinha estudado com o apóstolo João). Irineu procurou mostrar que o evangelho da salvação ensinado pelos apóstolos e entregue por eles é centrado em Jesus. Ele viu que a Bíblia apresenta a Encarnação como um novo ponto de começo para a humanidade (ver Efésios 1:9-10, 20-23). Através da Encarnação, toda a raça humana estava “nascida de novo” em Jesus. Em Jesus, a humanidade tem um novo começo e uma nova identidade.
O fundamento bíblico do pensamento de Irineu incluía as declarações de Paulo em Romanos 5, onde Jesus é nos apresentado como o “segundo” (ou último) Adão da raça humana. “Em Jesus,” escreveu Irineu, “Deus recapitulou Nele próprio a formação ancestral do homem (Adão), para que Ele pudesse matar o pecado, privar a morte do seu poder, e vivificar o homem...” Contra as Herésias, III.18.7).
Irineu compreendeu que Jesus tomou toda a humanidade em si próprio e renovou a raça humana através da Sua vicária (representativa e substituta) vida, morte, ressurreição e ascenção.
Irineu ensinou que este renovar, ou recriação, da raça humana em Jesus através da Encarnação não é meramente um trabalho feito “por” Jesus. Antes, a nossa salvação envolve muito mais que somente o perdão dos nossos pecados. Significa a nossa inteira recriação “em” e “através” de Jesus.
Atanásio (morreu em 373 DC.) defendeu o evangelho contra os falsos professores (incluíndo Ário) o qual negava a eterna divindade do Filho. Esta defesa levou à formulação da doutrina da Trindade afirmada no Concílio de Niceia em 325 DC. Na sua obra (tratado) Na Encarnação, secção 20, Atanásio escreveu o seguinte:
Assim: tomando um corpo como o nosso, porque todos os nossos corpos estavam sujeitos à corrupção da morte, Ele rendeu o Seu corpo à morte no lugar de todos, e ofereceu-o ao Pai. Isto fez Ele em puro amor por nós, para que na Sua morte todos morressem... Isto fez Ele para que pudesse tornar de novo à incorrupção os homens que haviam voltado costas à corrupção, e tornar-los vivos através da morte pela apropriação do Seu corpo e pela graça da Sua ressurreição...
Que deveria então fazer Deus? Que mais poderia Ele fazer, sendo Deus, senão renovar a Sua Imagem na humanidade, para que através disso o homem pudesse mais uma vez chegar a conhecer-Lhe? E como é que isto poderia ser feito, salvo pela vinda da mesma Imagem Ele próprio, o nosso Salvador Jesus Cristo?... A Palavra de Deus veio na Sua própria Pessoa, porque era somente Ele, a Imagem do Pai, Quem podia recriar o homem feito segundo a Imagem. Assim aconteceu que dois espantosos opostos tiveram lugar ao mesmo tempo: a morte de todos foi consumada no corpo do Senhor; contudo porque a Palavra estava no corpo, a morte e a corrupção foram no mesmo acto completamente abolidas. A morte tinha que acontecer, e morte por todos, para que a dívida de todos pudesse ser paga. Eis a razão porque a Palavra... sendo Ele próprio incapaz de morrer, assumiu um corpo mortal, para que Ele pudesse oferecer esse corpo como Seu próprio no lugar de todos, e sofrendo em vez de todos através da Sua união com o corpo, “destruísse o diabo, que tinha o poder de dar a morte. Desta maneira, libertou aqueles que, pelo medo da morte, levavam a vida inteira a viver como escravos” (Heb. 2:14-15). Pela Sua morte a salvação chegou a todos os homens, e toda a criação foi redimida.
Tanto Atanásio como Irineu enfatizaram a natureza vicária da humanidade que Jesus assumiu na Sua Encarnação. Somente através do nascimento, vida, morte em sacrifício e ressurreição do Filho Encarnado de Deus é que Deus podia salvar a humanidade. Esta é a essência do evangelho compreendida pela igreja primitiva e revelada nas Escrituras.
Gregório de Naziano (morreu em 389 DC.) escreveu àcerca da assunção de Jesus da nossa humanidade quebrantada através da Sua Encarnação:
Se alguém pôs a sua confiança Nele (Jesus) como um Homem sem uma mente humana, tal pessoa é privada de mente... porque aquele que Ele não assumiu Ele não curou; mas aquele que é unido ao Seu Deus supremo é também salvo. Se somente meio Adão caíu, então aquele que Cristo assume e salva seja meio também; mas se toda a sua natureza caiu, tem de ser unida a toda a natureza Dele que foi gerado, e portanto ser salvo por inteiro... (Epístola 101).
Teólogos Trinitários contemporâneos
No século 20, a teologia Trinitária foi avançada no Ocidente largamente através do trabalho de Karl Barth e seus estudantes, incuíndo três irmãos: Thomas F. Torrance, James B. Torrance e David Torrance, e seus estudantes.
No século 21, existem centenas de teólogos Trinitários espalhados entre muitas denominações, incluíndo Ray Anderson, Elmer Colyer, Michael Jinkins, C. Baxter Kruger, Alan Torrance, Trevor Hart e o falecido Colin Gunton.
Quem és tu, Senhor?
A teologia Trinitária responde fielmente à pergunta mais importante: “Quem é Jesus Cristo?” Esta teologia ancorada biblicamente acrescenta plena compreensão ao evangelho – e dá-nos um vocabulário centrado em Cristo para partilhar o evangelho com outros no nosso mundo contemporâneo.
“Quem és tu, Senhor?” é a pergunta teológica principal. Esta era a pergunta afligida de Paulo na estrada de Damasco, quando ele foi deitado por terra pelo Jesus ressuscitado (Actos 9:5). Paulo passou o resto da sua vida a responder a esta pergunta e depois a partilhar a resposta com todos os que quissesem ouvir. A resposta, revelada a nós na Escritura, é o coração do evangelho e o foco da teologia Trinitária:

Jesus é plenamente Deus - a Segunda Pessoa da Trindade, o divino Filho de Deus, em união eterna com o Pai e o Espírito. A Escritura diz-nos que através do Filho de Deus o universo inteiro foi criado, incluíndo todos humanos (Colossenses 1:16), e é Ele quem sustêm o universo, incluíndo todos os humanos (versículo 17). Portanto, quando nós dizemos, “Jesus Cristo” estamos também a dizer “Deus” e “ Criador”.


Jesus é plenamente humano - o Filho de Deus (a Palavra) fez-se homem (“carne,” João 1:14), continuando ainda a permanecer plenamente divino. Isto é chamado a “Encarnação.” A Escritura testifica que a Encarnação nunca terminou, mas continua - Jesus é agora e para sempre plenamente Deus e plenamente humano. Ele foi ressuscitado e ascendeu em corpo. Ele regressará em corpo, tal como Ele partiu. Quando nós dizemos “Jesus Cristo” estamos também a dizer “humanidade.”
Assim como Aquele que é unicamente Deus (Criador e Sustentador de tudo) e também plenamente humano, Jesus, nele próprio, é a união única de Deus e a humanidade. Na e através da vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus todos os humanos estão incluídos na vida e no amor de Deus. Tal como o apóstolo Paulo enfatizou, o homem Jesus (1Timóteo 2:5) é o representante e substituto por todas as pessoas – passadas, presentes e futuras. Ele é o humano vicário o qual veio para viver e morrer e ser levantado em nosso lugar e em nosso nome para reconciliar-nos com Deus – Pai, Filho e Espírito Santo.
Em Romanos 5, Paulo dirige-se aos crentes, mas o que ele diz aplica-se a toda a humanidade – crentes e não crentes de igual modo. De acordo com Paulo, através de Jesus, todos estão...


  • justificados através da fé, e portanto em paz com Deus (v.1)

  • reconciliados com Deus através da morte de Jesus (v. 10)

  • salvos através da vida de Jesus (v. 10)

Esta justificação, reconciliação e salvação ocorreram:





  • quando nós eramos “ainda fracos” (v. 6)

  • quando nós eramos “ainda pecadores” (v. 8)

  • quando nós eramos “ainda inimigos de Deus” (v. 10)

Isto ocorreu bem distante da nossa participação, deixando de parte as nossas boas obras. Jesus fez estas coisas por nós e para nós, e Ele fê-lo dentro dele próprio. Tal como Irineu disse, ecoando Efésios 1:10, isso ocorreu em Jesus, via Sua Encarnação, através de uma grande “recapitulação.”


O benefício do que Jesus fez há tanto tempo atrás, extende-se ao presente e pelo futuro dentro, pois Paulo diz, “com maior razão... seremos salvos pela vida de Seu Filho” (Romanos 5:10) – mostrando que a salvação não é uma transação momentânea, mas um relacionamento permanente que Deus tem com toda a humanidade – um relacionamento estabelecido dentro da pessoa de Jesus Cristo – Aquele o qual, nele próprio, reconciliou Deus e a humanidade juntos em paz.

Jesus, o segundo Adão
Continuando em Romanos 5, Paulo compara o primeiro Adão a Jesus, chamando ao último o “segundo” ou “final” Adão. Notem os pontos principais de Paulo:


  • “Por um só homem (Adão) entrou o pecado no mundo... já que todos pecaram...” (v.12)

  • “Também é verdade que o dom de Deus é muito maior. Esse dom que nos vem de Deus por meio de um só homem, Jesus Cristo, é muito superior.” (v.15)

  • E, “assim como o pecado (o do primeiro Adão) de um só homem, trouxe a condenação a todos, da mesma maneira a acção salvadora (a de Jesus, o segundo ou final Adão) de um só trouxe a todos a amizade com Deus, para entrarem em boas relações com Ele” (v.18).

Todos” realmente significa “todos”


Paulo está a falar do que Jesus fez por toda a humanidade. A área de acção da Sua vicária vida humana extende-se a todos os que já viveram. Mas nem todos os Cristãos vêm “todos” desta forma:
O Calvinismo, por exemplo, diz que a salvação não é verdadeiramente para todos porque a reconciliação está limitada aos eleitos que estão predestinados a serem salvos; que Jesus não morreu pelos não eleitos. Contudo, a Bíblia declara que Jesus morreu por todos – e que a Sua morte aplica-se a todos agora. Passagens relevantes incluem:


  • João 12:32: “E eu (Jesus), quando for levantado da terra, hei-de atrair todos a mim.”

  • 2 Coríntios 5:14: “O amor de Cristo absorve-me completamente. A verdade é esta: se um só morreu por todos, então todos morreram com Ele.”

  • Colossenses 1:19-20: “Porque Deus achou por bem estar totalmente presente no Seu Filho, e também, por meio Dele, reconciliar consigo todo o universo, fazendo as pazes pela morte do Seu Filho na cruz. E assim tudo o que existe na terra e no céu ficou em paz com Deus.”

  • 1 Timóteo 2:3-6: “Assim é que deve ser e esta é a vontade de Deus, nosso Salvador. Ele quer que todos se salvem e tenham conhecimento da verdade. É que há um só Deus e um só medianeiro entre Deus e os homens: Jesus Cristo, que é homem também e que deu a vida por todos. Esta foi a mensagem que Deus revelou no devido tempo.”

  • 1 Timóteo 4:9-10: “Esta palavra é bem verdade e digna de confiança... é porque pusemos a nossa esperança no Deus vivo. Ele é o Salvador de todos os homens e sobretudo dos que têm fé.”

  • Hebreus 2:9: “Mas em Jesus vemos aquele que... por causa da morte que sofreu. Deus na Sua bondade quis que a morte de Jesus fosse um benefício para a humanidade.”

  • 1 João 2:2: “Ele (Jesus) deu a vida para que os nossos pecados sejam perdoados e não apenas os nossos, mas também os de toda a gente.”

  • Ler também: João 1:29; 3:17; Romanos 8:32; 2 Coríntios 5:18-19; Tito 2:11; e 1 João 4:14.

Mesmo existindo ainda mais evidências, esta evidência das Escrituras é suficiente para concluir que Jesus morreu por toda a humanidade.


Salvação é recriação, não mera transacção
Arminianismo, em contraste com o Calvinismo, concorda que “todos” refere-se à totalidade da humanidade; contudo, a salvação é somente potencialmente deles, não na realidade visto que a salvação não é realmente dada até que a pessoa tenha fé.
Mas a Bíblia diz-nos que a salvação não nos advêm através de uma mera transacção na qual Deus dá-nos salvação em troca do nosso arrependimento e fé.
Em vez de uma transacção, a Escritura apresenta a salvação como uma dádiva grátis e imerecida, uma dádiva que envolve recriação. Em Jesus, o qual é plenamente Deus e plenamente humano, o perfeito representante e substituto da humanidade, todos os humanos são uma nova criação. Ainda que seja experimentada somente através da fé, todos os humanos são justificados, reconciliados e salvos precisamente porque eles estão todos incluídos em Jesus – incluídos na Sua Encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão.
Jesus fez tudo isto por nós e para nós fazendo-o connosco e em nós – como um de nós. Jesus é Aquele pelos muitos, os muitos Naquele. Portanto, compreendemos da Escritura que...


  • Quando Jesus morreu, toda a humanidade morreu com Ele.

  • Quando Jesus ressuscitou, toda a humanidade ressuscitou para uma nova vida com Ele.

  • Quando Jesus ascendeu, toda a humanidade ascendeu e sentou-se com Ele ao lado do Pai.

Vamos rever as passagens relevantes:




  • 2 Coríntios 5:14-15: “O amor de Cristo absorve-me completamente. A verdade é esta: se um só morreu por todos, então todos morreram com Ele. E Ele morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou.”

Tal como vimos antes em Romanos 5:18, o resultado da justiça de Jesus é a “justificação que traz vida para todos os homens.” É nos dito para aceitarmos o sacrifício de Cristo, mas isto não faz com que o sacrifício seja efectivo; já era efectivo.




  • Colossenses 1:15-17: “Ele (Jesus) é a imagem do Deus invisível: nascido do Pai antes da criação do mundo. Foi por Ele que Deus criou tudo o que existe no céu e na terra, o que se vê e o que não se vê, as forças espirituais, os domínios, as autoridades e os poderes. Foi por Ele e para Ele que Deus criou tudo. Já existia antes de tudo e é Ele que dá consistência a tudo o que existe.”

Porque Jesus é igualmente Criador e Sustentador do cosmos inteiro (toda a humanidade incluída), quando Ele morreu, toda a criação (todos os humanos incluídos) “desceu” com Ele – “portanto todos morreram” (2 Coríntios 5:14). E quando Ele ressuscitou, todos nós ressuscitamos; e quando Ele escendeu, todos nós ascendemos. Jesus inclui “todos” na Sua Encarnação, vida, morte, sepultura, ressurreição e ascenção.




  • Romanos 6:10: “Pela Sua morte, Cristo morreu para o pecado duma vez para sempre e a vida nova que recebeu é vida para Deus.” A morte de Jesus é já efectiva para todos; Ele morreu para o pecado duma vez para sempre.




  • Efésios 2:4-5: “Mas Deus que é rico em misericórdia, mostrou por nós um grande amor. Estando nós mortos, por causa das nossas culpas, Ele deu-nos a vida por meio de Jesus Cristo. Foi por amor que vocês foram salvos.”




  • 1 Pedro 1:18-20: “Saibam que foram resgatados daquela vida inútil que tinham herdado dos antepassados. E não foi pelo preço de coisas que desaparecem, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo... Ele (Jesus) tinha sido destinado para isso, ainda antes da criação do mundo e manifestou-se nestes últimos tempos, para vosso bem.”

O evangelho é àcerca de um relacionamento, um relacionamento com Deus restaurado e tornado real pela própria acção de Deus em Cristo por nós. Não é àcerca de um conjunto de requisitos, nem é àcerca de uma simples aceitação intelectual de um conjunto de factos religiosos ou Bíblicos. Jesus Cristo não somente defendeu-nos na cadeira de julgamento de Deus; Ele conduziu-nos a Ele próprio e tornou-nos, com Ele e Nele, pelo Espírito, próprios filhos amados de Deus.


Aquele em quem todo o cosmos (incluíndo toda a humanidade) vive e move e tem a sua existência (Actos 17:28) tornou-se plenamente humano enquanto permanecendo plenamente divino (João 1:14).
Muitas teologias apresentam uma versão limitada da Encarnação – vendo-a como uma breve acomodação de Jesus para pagar a penalidade pelo pecado humano. Mas a Escritura apresenta a Encarnação como permanecendo em existência.
O milagre da Encarnação não é algo que aconteceu assim: “era uma vez”, agora é passado. É uma mudança na forma como o cosmos inteiro está “unido” – é uma nova criação (2 Coríntios 5:17). A Encarnação mudou tudo, para sempre – recuando em toda a história humana, e avançando para envolver todo o tempo conforme se vai revelando.
Paulo fala disto em Romanos 7:4, onde ele diz que mesmo enquanto nós estamos vivos, estamos já mortos para a lei pelo corpo de Cristo. A morte de Jesus em carne humana por nós, ainda que seja um evento histórico, é uma realidade presente que se aplica a toda a humanidade (passada, presente e futura). É este facto cósmico que é a fundação de toda a história. Esta compreensão é reforçada em Colossenses 3:3: “Porque vocês morreram” diz Paulo aos Colossenses historicamente vivos, “e a vossa vida está escondida com Ele (Cristo) em Deus.” Mesmo antes de morrermos literalmente, portanto, nós estamos já mortos na morte de Jesus e vivos na ressurreição de Jesus.
Isto é talvez mais claramente declarado em Efésios 2:5-6, onde Paulo assevera que visto que estamos já mortos no mistério da morte substituitiva de Jesus, todos nós fomos também (agora mesmo), “tornados vivos juntamente com Ele” e somos “ressuscitados juntamente com Ele” e “sentados juntamente com Ele no reino celestial.” Por outras palavras, Deus em Cristo não somente intersecta a história num momento do tempo, mas é também o eterno contemporâneo de cada momento no tempo, presente ali com toda a humanidade incluída Nele.
Pericoresis (Perichoresis – em Grego)
A eterna comunhão de amor que Pai, Filho e Espírito partilham enquanto a Trindade envolve um mistério de inter-relação e de interpenetração das Pessoas divinas, uma inter residência mutual sem perda da identidade pessoal. Tal como Jesus disse, “... o Pai está em mim e Eu no Pai” (João 10:38). Os primitivos teólogos Cristãos de fala Grega descreveram este relacionamento com a palavra perichoresis, a qual é derivada das palavras raízes que significam existência e conter.
O teólogo Michael Jinkins explica em como esta vida pericorética envolve o relacionamento de Deus com a humanidade:
A ideia transmitida pela palavra pericoresis é crucial mas difícil de manusear. Podemos lidar melhor com ela focando a nossa atenção na Encarnação. Quando a Palavra tornou-se carne, Deus derramou a Sua própria vida na criação enquanto também e simultaneamente levando para o Seu próprio ser Triuno a nossa humanidade num supremo acto de auto abnegação pelo interesse dos outros. Neste livre acto de auto rendição, Deus permite-nos olhar no mais profundo do Seu ser eterno, no eterno derramamento do Pai no Filho, Deus dando de si próprio sem reservas. Este acto de dar de si próprio é em si não meramente algum “isso” mas é Deus o Espírito Santo, movendo-se eternamente do Pai para o Filho e através do Filho para a humanidade. Enquanto o Filho em alegre rendição retorna este amor ao Pai, o Espírito retorna eternamente ao Pai, a Origem de todo o ser (Convite à Teologia, p. 91).

Todos estão em Cristo
Em e através de Jesus Cristo, Deus alcança-se para incluír os humanos na Sua vida e amor. Em e através de Jesus, toda a humanidade está agora incluída na eterna comunhão da Trindade, se bem que essa comunhão possa ser experimentada somente através da fé.
Jesus disse aos Seus seguidores na noite anterior à que Ele morreu na cruz: “Quando chegar esse dia, hão-de saber que eu estou unido ao Pai, vocês a mim e eu a vocês” (João 14:20).
Ele não diz que um dia eles serão incluídos – Ele diz que eles estão incluídos e um dia eles o saberão. Salvação é àcerca de estar “em” Jesus, não meramente algo ser feito “por” Jesus, o qual nós mais tarde aceitamos e assim fazemos “real” ou “actual” para nós. Salvação é àcerca de um relacionamento, e é essa a razão porque Paulo tão frequentemente nas suas cartas (mais de 130 vezes) fala de algo estar “em Cristo” ou frases similares.
A Salvação é nossa somente em união com Jesus, pela qual partilhamos na vida humana perfeita de Jesus e no Seu relacionamento com o Pai e o Espírito. Unidos a Jesus, nós estamos já incluídos na vida e amor do Triuno Deus. Mas nós não podemos experimentar a alegria dessa vida longe da fé.
Conforme vimos na Escritura, através da união com Jesus, toda a humanidade está...


  • reconciliada com o Pai.

  • apreciada, amada e querida pelo Pai.

  • aceite “por meio do Seu Filho querido” (Efésios 1:6).

  • perdoada (sem registo de pecado e sem condenação).

O evangelho declara não a possibilidade ou o potencial de estas coisas serem verdadeiras para nós, mas uma realidade que nós somos exortados a aceitar.


A fé de Cristo
Na King James Version (Bíblia Inglesa), Gálatas 2:20 lemos: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”
Esta e outras traduções falam apropriadamente do nosso partilhar na fé de Cristo (em vez de “fé em Cristo”). É a fé de Cristo que nos salva. David Torrance escreve (com ênfase):
Nós somos salvos pela fé de Cristo e obediência ao Pai, não a nossa. O meu irmão Tom (Torrance) muitas vezes citou Gálatas 2:19-20… Tais são as palavras da King James Version (Versão Rei Jaime – Bíblia Inglesa) e Reina Valera (Bíblia Espanhola, por indicação do tradutor), as quais eu acredito serem traduções correctas... Outras traduções, tais como as da Nova Versão Internacional (Inglesa) e João Ferreira de Almeida (Portuguesa), aparentemente porque eles acharam tão difícil de acreditar que podemos viver pela fé de Cristo em vez da nossa fé, alteraram o texto para se ler, “vivo-a por meio da fé no Filho de Deus”! – algo totalmente diferente! Essas traduções retiram o valor da natureza vicária da vida de fé de Cristo.

É pela Sua fé (não nossa) que nós somos salvos e vivemos! A nossa fé é uma resposta agradecida à Sua fé. Quando olhamos atrás para o percurso das nossas vidas e ponderamos o quão desobedientes algumas vezes fomos e continuamos a ser, é maravilhosamente confortante saber que Cristo dá-nos a Sua vida de obediência ao Pai e que é a obediência de Cristo a que conta. Nós somos salvos pela Sua obediência, não a nossa. (Uma introdução à Teologia de Torrance, pp. 7-8).


Thomas Torrance escreve:
Jesus coloca-se na situação actual onde nós somos intimados a ter fé em Deus, a acreditar e confiar Nele, e Ele age no nosso lugar e no nosso nome de entre as profundezas da nossa infidelidade e abastece-nos sem custo com uma fidelidade na qual nós podemos partilhar...

Isto é para dizer, se nós pensarmos em crença, confiança ou fé como formas de actividade humana perante Deus, então devemos pensar em Jesus como acreditando, confiando, ou tendo fé em Deus o Pai em nosso nome e no nosso lugar...


Através da Sua união de Encarnação e expiação connosco a nossa fé está envolvida na Sua fé, e através dessa envolvência, longe de ser despersonalizada ou deshumanizada, é feita para fluir livremente e espontaneamente para fora da nossa própria vida humana perante Deus. É encarada meramente em si mesma, contudo como Calvin costumava dizer, a fé é um recipiente vazio, porque na fé é sobre a fidelidade de Cristo que nós permanecemos e mesmo a forma na qual permanecemos na Sua é sustentada e suportada pela Sua infalível fidelidade (A Meditação de Cristo, pp. 82-83).
Mas que dizer àcerca da liberdade humana?
Se é a vida, fé e obediência de Jesus Cristo que salva-nos e inclui-nos nessa salvação, qual é o nosso papel? Que acontece neste ponto de vista à ideia de liberdade humana? Consideremos os pontos seguintes:


  • Toda a humanidade, pela decisão e acção soberana de Deus, está incluída em Cristo; esta inclusão estava predestinada e foi cumprida em Jesus, longe de qualquer acção, crença, obras, etc, feitas por nós.

  • Cada pessoa é agora exortada, através da persuasão do Espírito, a acreditar na palavra de Deus e pessoalmente aceitar o Seu amor.

  • Deus não força esta decisão/aceitação pessoal sobre ninguém. O Amor deve ser livremente dado e livremente recebido; não pode ser à força, ou então não é amor.

  • Portanto a decisão humana, o exercício da liberdade humana, é de grande importância, mas somente neste contexto de aceitar a dádiva de Deus que já foi dada de graça.


Universalismo não
Quando falamos àcerca da decisão humana, estamos a falar àcerca da resposta pessoal. E devemos ter cuidado para não confundir o que é objectivamente verdade em Jesus por toda a humanidade com a recepção ou encontro pessoal e subjectivo de um indivíduo com esta verdade objectiva.


  • Nós não “decidimos por Cristo” no sentido de que a nossa decisão pessoal cria ou causa a nossa salvação.

  • Antes, através de decisão pessoal, nós aceitamos o que é nosso em Cristo, pondo a nossa confiança Naquele quem já confiou por nós em nosso lugar e como nosso representante.

  • O Espírito Santo guia-nos a confiar não na nossa fé, mas em Jesus.

  • Esta união objectiva, a qual nós temos com Cristo através da Sua assunção Encarnatória da nossa humanidade Nele próprio, é pessoal e subjectivamente vivida em fé através do residente Espírito Santo.

  • Quando nós pessoalmente acreditamos no evangelho, que é aceitar o que é já nosso por Graça, começamos a desfrutar o amor de Deus por nós e viver a nova criação que Deus, mesmo antes de nós sequer crermos, nos fez ser em Cristo.

Existe a geral, ou objectiva, verdade àcerca de toda a humanidade em Jesus, e também a pessoal, ou subjectiva, experiência desta verdade.


Objectivamente todas as pessoas, passadas, presentes e futuras, estão já justificadas; todas estão santificadas; todas estão reconciliadas em Jesus no e através do que Ele fez como Seu representante e substituto. Em Jesus, objectivamente, o velho ser morreu; Nele, objectivamente, nós somos a nova humanidade, representada como tal por Ele perante e com Deus.
Contudo, ainda que todas as pessoas estejam já objectivamente redimidas por Jesus Cristo, nem todas despertaram já pessoal e subjectivamente para e aceitaram o que Deus fez por elas. Eles não sabem ainda quem eles verdadeiramente são em união com Jesus.

O que é objectivamente verdade para todos deve ser ser subjectiva e pessoalmente recebidas e experimentadas através do arrependimento e da fé. O arrependimento e a fé não criam ou causam a salvação da pessoa, mas a salvação não pode ser experimentada e apreciada sem eles. O arrependimento e a fé são eles mesmo dons de Deus.


Nas Escrituras, encontramos alguns versículos que falam para o geral/objectivo, enquanto outros falam para o pessoal/subjectivo. Ambos são reais e verdadeiros – mas o pessoal é verdadeiro somente porque o geral é uma realidade preexistente.
Estes dois grupos são encontrados ao longo da Escritura – ambos por vezes ocorrendo numa passagem, tal como acontece em 2 Coríntios 5:18-21. Paulo começa nos versículos 18-19 com o objectivo/universal: “Isto é obra de Deus que, em Cristo, nos reconciliou (passado) consigo e nos chamou a colaborar nessa obra de reconciliação. Assim, Deus, por meio de Cristo, reconciliou consigo a humanidade, não tendo em conta os seus pecados e encarregando-nos de anunciar a obra da reconciliação.”
Boas novas para todas as pessoas
Aqui está uma verdade geral que se aplica objectivamente a todos – todos estão já reconciliados com Deus através do que Jesus fez em união com toda a humanidade.
Qualquer teologia que seja fiel à Escritura e ao próprio Jesus deve testificar por esta verdade.

Infelizmente, muitas teologias tendem a ignorar este aspecto e focam primariamente ou somente no pessoal/subjectivo. Isso provoca ao evangelho uma injustiça, porque é o aspecto geral/objectivo de quem Jesus é e o que Ele fez que é a fundação sobre o qual o pessoal/subjectivo permanece.


De volta a 2 Coríntios 5, tendo estabelecido o geral nos versículos 18-21, Paulo continua nos versículos 20-21 para falar do subjectivo/pessoal: “O encargo que eu tenho é, portanto, exercido em nome de Cristo e é Deus que fala por meu intermédio. Em nome de Cristo vos peço, irmãos, que se reconciliem com Deus. Cristo não tinha cometido pecado, mas Deus, para nosso bem, tratou-o como pecador, para que nós, em união com Ele pudéssemos ser bem aceites por Deus.”
Como podem todos estar já “reconciliados” e porém o convite partir para “que se reconciliem” – sugerindo uma reconciliação ainda por ocorrer? A resposta é que ambos são verdadeiros – estes são dois aspectos de uma verdade. Todos estão reconciliados em Cristo – esta é a verdade universal e objectiva – mas nem todos ainda aceitam e portanto experimentam a sua reconciliação com Deus.
Estar reconciliado, e contudo não sabê-lo e não experimentar isso, é continuar a viver como se a pessoa não estivesse reconciliada. Ao ter os olhos abertos pelo Espírito para esta reconciliação, escolhendo aceita-la, e depois experimenta-la não faz a reconciliação ocorrer, mas faz com que seja pessoalmente realizada. Assim, o convite evangelístico dos embaixadores de Cristo (versículo 20) é “que se reconciliem.”

Mas este apelo não é para fazer algo que traria a reconciliação; antes é um apelo para receber a reconciliação que já existe com Deus em Cristo.


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Traduzido por: Daniel Fernandes - Março 2010


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