Conhecimento, subjetividade e memória



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CONHECIMENTO, SUBJETIVIDADE E MEMÓRIA


Inez Lemos1
INTRODUÇÃO

Este ensaio pretende contribuir com o debate da produção do conhecimento. Neste particular vale questionar: porquê a ciência distanciou-se dos interesses do homem, ficando alheia aos valores do espírito humano? O modelo de ciência inicialmente delineado na modernidade incluía, entre seus objetivos, a questão da subjetividade, do “eu pensante” na produção do conhecimento. Contudo, aparentemente o “sujeito” foi se definhando, desaparecendo em benefício do objeto (todo poderoso). Os motivos desse abandono do sujeito se devem, em grande parte à tendência positivista e funcional que contaminou o pensamento científico e iluminista da época. A razão empírica da “coisa em si” sufocava o “sujeito em si”. Ao novo paradigma científico interessa resgatar este sujeito que se perdeu na fé cartesiana. Como sair da “coisa em si” e ressituar o sujeito na produção científica? Como retomar o “Eu em si” de Montaigne? É oportuno recordar como o Eu foi introduzido no pensamento moderno e passa a ser sujeito da investigação. O pensamento de Montaigne funda a modernidade, que depois é retomado por Descartes e Pascal. Para Montaigne, ele é a sua própria metafísica. “Ouso não somente falar de mim, mas falar somente de mim: disperso-me quando escrevo sobre outra coisa” (Montaigne, 1996, p.17). Montaigne vem introduzir o Eu como lugar do sujeito em si no mundo, do sujeito que se interroga. É o Eu no mundo, fundamento do conhecimento e da ação humana em sua postura de finitude. Já Descartes vem colocar o homem como representante da verdade, porém sob o domínio da certeza. O cogito veio absolutizar a verdade. O Eu montaigniano é poético, dramático, contraditório. Diferente do Eu cartesiano. Descartes relaciona-se com a ciência, enquanto fé, já Montaigne relaciona-se com a vida e, a partir dela, faz ciência. Em Montaigne, o homem não está separado da vida que o cerca. É quando o homem apreende a vida a partir da própria vida. A subjetividade que interessa recuperar é a subjetividade introduzida por Montaigne, a que se encontra fora do Ser, porém no mundo e no próprio Eu.


Após o triunfo do racionalismo que impunha a medida do ser e da ciência, devemos recuperar o diálogo com metodologias de pesquisa que colocam o homem como intérprete do mundo em que vive. O homem agora quer falar a partir deste mundo. Se antes eram os “objetos” que falavam, agora grande parte dos cientistas sociais prefere ouvir falar “seus sujeitos”. A questão não resume em separar ou reduzir o papel do sujeito na produção do conhecimento, mas reconhecer a complexidade da relação sujeito/objeto. “O problema-chave é o de um pensamento que una, por isso a palavra complexidade, a meu ver, é tão importante, já que complexus significa “o que é tecido junto”, o que dá uma feição à tapeçaria” (Morin, 1999, p.33). Ao incorporar diferenciações que o ato de ensinar e pesquisar exigem, envolvo-me com pensadores e metodologias que reconhecem que as ciências da terra são inseparáveis. Abre-se assim uma interlocução com as metodologias interdisciplinares, como é o caso da história oral e da sociologia clinica. Privilegio interlocutores que acreditam que a condição epistemológica da ciência repercute-se na condição existencial dos cientistas. O objetivo é transcender a prática autoritária, hierárquica e reducionista de produzir conhecimento. Como também qualificar a escuta no momento da pesquisa numa tentativa de ouvir “além das palavras”. O propósito é romper com o paradigma da separação, incluindo saberes até então sepultados e manipulados. Tal propósito teve em Foucault e sua genealogia do saber seu maior defensor, ao indagar a comunidade científica de sua época: que tipo de saber vocês querem desqualificar no momento em que vocês dizem “é uma ciência”? O que eqüivale perguntar: como tolerar a presença dos sentimentos no momento da pesquisa/entrevista? Freud, em “O mal -estar na civilização”, já nos prevenia o quanto esta é uma tarefa difícil ao afirmar que não é fácil lidar cientificamente com os sentimentos.
Questões como essas aproximaram-me da História Oral e de pesquisadores que estavam interessados em ouvir os sujeitos/objetos sociais. No campo da sociologia temos Franco Ferrarotti. O sociólogo italiano não se intimida ao criticar os diferentes aspectos da convencional sociologia do trabalho quando insiste que é preciso inverter a rota. Partir da experiência elementar cotidiana do operário no trabalho e reconhecê-la como um primus absoluto. Re-humanizar, isto é, des-privatizar a ciência, restituindo-lhe o seu caráter primordial de empresa humana, cheia de significado político e de grande alcance social. Abandonar a concepção da investigação como processo mecanicista e naturalista, pelo qual o investigador olha do alto para os objetos da investigação como o entomólogo analisa ao microscópio uma cultura de bacilos.
Ao priorizarmos metodologias qualitativas e interdisciplinares, é fundamental fomentar o diálogo entre história oral e sociologia clínica, por estabelecerem em suas práticas metodológicas estreita intimidade com aspectos da vida e do sentimento humano, suas complexidades e diversidades, envolvendo narrativas, trajetórias de vida, biografias. O interesse pelo gênero biográfico vem se impondo ao mundo num encontro entre literatura e história, antropologia e psicanálise. Esta conexão de saberes que brotam das falas e do vivido revela sua relevância na medida que desmistifica saberes dominantes frente aos saberes até então desqualificados (como o saber do doente, do delinqüente, do desempregado, do homossexual). O ato de narrar é defendido como forma de aproximação dos saberes ingênuos, muitas vezes desqualificados e ocultados nos subterrâneos do inconsciente da vida cotidiana. O exercício da fala facilita a revelação de segredos, o que faculta ao ato da fala e da escuta uma dimensão terapêutica, o qual acaba por modificar a narração e o narrador. Neste instante a intervenção acontece no momento da narrativa. O momento da fala traz a cons-ciência necessária à construção do saber.
A prática confessional é antiga, e trouxe ao mundo bens culturais como as “Confissões” de Santo Agostinho e de Jean Jacques Rousseau. Revisitar memórias ou recuperar narrações é retomar uma tradição cultural que Foucault recupera ao propor uma genealogia do saber, rompendo com a coerção do discurso teórico, científico e unitário. Desde que não prevalece mais as grandes narrações coletivas e emancipadoras, a ordem é investigar as subjetividades, fazer das narrações, das história de vida, ciência. Aqui a sociogênese e a psicogênese possibilitam o estudo de um sistema social, com indivíduos interdependentes. Essa articulação pressupõe o fato de não podermos pensar o indivíduo humano abstraindo-o de suas condições concretas de existência, em seus aspectos históricos, sociais e culturais. O conflito individual não é resultado exclusivo de vivências privadas e subjetivas, mas é também determinado por dispositivos de poder, produzidos por condições sócio-históricas específicas.
HISTÓRIA ORAL E MEMÓRIA

A História Oral representa um avanço metodológico, tanto pelo seu caráter interdisciplinar, como também pela sua dimensão psicossociológica. Esta metodologia que é vista como uma postura e um movimento, apresenta entre seus pioneiros o historiador francês Jules Michelet (1798-1874). Michelet preferiu ouvir os camponeses ao escrever sua monumental “História da Revolução Francesa”, pois já havia desconfiado da parcialidade dos documentos históricos. Seguindo esta mesma tradição oral, temos hoje entre seus seguidores nomes consagrados como a historiadora Ecléa Bosi (Brasil), Paul Thompson (Inglaterra), que privilegiam a fala dos que não escrevem, não lêem, mas pensam e sentem um mundo que lhes é próprio. Isto é a especificidade e o diferencial que qualificam este movimento diante dos demais, e é isto que nos leva à convicção de que esta postura metodológica surge em nome de uma abertura do saber. A autobiografia, a prática de narrar memórias, de revisitar lembranças, recordações, não faz parte da cultura dos “pobres”. Hoje, com o avanço tecnológico, com a presença do gravador entre os pesquisadores, temos a oportunidade de trazer para o cenário epistemológico a fala dos analfabetos, dos índios, dos pescadores, das domésticas. É quando podemos dar voz e poder de interferência àqueles cuja participação no momento da pesquisa, restringia-se muitas vezes em responder questionários.


Esta é uma questão de restituição. A tradição clássica de pesquisar não incluía, na maioria das vezes, a restituição como parte do processo. Restituir à comunidade sua contribuição e participação na pesquisa, é ter o cuidado de devolver à comunidade seu envolvimento político, sua narrativa, retornando aos indivíduos o que eles nos emprestaram através do seu pensar e do seu dizer. “Nesse caso, portanto, aquilo que realmente restituímos é uma oportunidade para as pessoas com quem conversamos organizarem seus conhecimentos com maior clareza” (Portelli, 1997, p.30) A restituição vem colocar em questão a postura que o entrevistador ou pesquisador deve adotar no ato da entrevista, pois quando um entrevistado fala de sua vida, ele não a fala a um gravador. Neste particular, vinculo a entrevista de história oral à proposta da sociologia clínica que reúne a fala, a escuta e o olhar como parte de um encontro entre entrevistador e entrevistado, um encontro con-sagrado.
A qualidade da escuta é questão fundante em uma pesquisa qualitativa. Escutar; ato de vigília, de atenção, contemplação e revelação. “Ouvir é um sentido fisiológico, basta dispor de uma certa integridade biológica associada a um bom desempenho neurofisiológico de funções e as coisas estarão mais ou menos equacionadas. Escutar é uma outra coisa. É um ato psicológico. Impõe uma disposição interna de acolher signos, ora claros, ora obscuros, e buscar alcançar algum registro que viabilize algum campo de trocas” (Pitta, 1994, p.155). Escutar é um ato que transcende o espaço do objetivo, passando por um espaço intersubjetivo de interpretação. A vida contada por outros nos ajuda a rever opções teóricas, posturas metodológicas, práticas éticas. O indivíduo-sujeito se faz na narração: a narração faz parte da história e o método de história oral de vida permite descobrir o sentido que o sujeito dá aos acontecimentos. O que não significa que consagra-se, uma vez por todas, a “verdade” histórica. É muito mais a história das mudanças pessoais e sociais que revelam ao mesmo tempo o indivíduo e a sociedade. O que confirma que a história oral é o início de um continuum, algo que começa e que dificilmente saberemos quando termina.
Quem trabalha com a memória descobre na entrevista algo além de uma fonte. Um lugar onde se vive a memória e cria-se um acontecimento, que também faz história. Michel Le Ven identifica o instante da entrevista como “acontecimento”, e nos remete à hermenêutica de Paul Ricoeur. Para Ricoeur, a preocupação da narrativa deve ultrapassar a tensão entre método e ontologia, presentes nas abordagens hermenêuticas, onde o discurso deve ser visto como “evento”, embora compreendido como “significação”. A ontologia investiga o sentido ou essência do ente em sua dimensão física, psíquica, ética, estética, temporal. Ela estuda os seres antes que a ciência passe a investigá-los, imersos em suas idiossincrasias.
A palavra hermenêutica foi aqui convocada apenas como um breve parêntese, uma vez que é comprometedor, nesta busca de sentido e significados à narrativa, abstermos de sua fundamental contribuição. O verbo “hermeneuein” significa interpretar, evocando o “Deus Hermes”, Deus da eloquência, responsável pela descoberta da escrita e da linguagem. Interessa registrarmos, nesta tarefa de ressignificação da “escuta”, algumas parcerias na valorização do “discurso”. Como melhor interpretar, explicar? Como superar a dimensão expressiva da questão? Como aproximar da dimensão ontológica da narração? Talvez aqui reside a contribuição da hermenêutica, pois hermeneuein significa também “traduzir”. O entrevistador, aquele que “escuta”, deve ser o tradutor do discurso do outro. Cabe a ele a tarefa de interpretar, analisar e restituir o discurso do outro. Tarefa que requer consistência teórica, sensibilidade e afinidades com o ato da escuta. A preocupação é apontar para as derivações que o ato da escuta pode abraçar, em função do ato de interpretar as narrativas orais. Muitos são os instrumentais teóricos que um pesquisador qualitativo pode utilizar no sentido de ressignificar seu trabalho. A hermenêutica, como também a sociologia clínica, são ferramentas que podem ser evocadas ao reforçar o aspecto ontológico desta proposta metodológica. Interessa “assinalar aquele que parece estar na base da opção hermenêutica: a imersão do “Dasein”, a facticidade inerente ao estar-no-mundo, que neutraliza a separação contida na relação lógica sujeito-objeto e que constitui a pedra de toque da interpretação heideggeriana da fenomenologia, abrindo a possibilidade de que a ontologia venha a ser, por via do aparato fenomenológico, “interpretação” ou seja, compreensão do sentido do ente ”2.
SOCIOLOGIA CLÍNICA E SUBJETIVIDADE

A expressão “sociologia clínica” teve entre seus proponentes alguns pesquisadores da Escola de Chicago, em 1930. Mais precisamente, Louis Wirth, o “pai” da expressão. Mais tarde, o termo foi aos poucos desaparecendo da macro sociologia e reapareceu nos últimos anos sob a influência de outras correntes: no Canadá, com R. Sivigny e G. Poule, e na França, com E. Enriquez, P. Ansart, V. de Gaulejac, A. Lévy, M. Bonetti, entre outros. Já a palavra “clínica”, seguindo sua etimologia, significa “colocar-se próximo ao leito do doente e dar-lhes ouvido”. A medicina tinha como propósito se ocupar dos “doentes no seu todo”. Sociologia clínica é uma sociologia que deve estar próxima de seus atores, ajudando-os a tomarem consciência de suas contradições, como também descobrindo repostas às situações que as provocam. Contudo, grande parte dos cientistas sociais, fundadores da sociologia enquanto ciência, como: Max Weber e Georg Simmel, na Alemanha, Gabriel Tarde e Marcel Mauss na França, já vinham trabalhando numa perspectiva clínica, pois eles queriam dar conta dos fenômenos sociais e psíquicos na sua articulação fundamental. Para Georg Simmel, por exemplo, o amor deve efetivamente ir da pessoa inteira à pessoa inteira. A questão maior estava em desenvolver uma sociologia próxima da vida cotidiana, de sua plenitude, dando sentido a noções como família, poder, sofrimento, desejo. Nesta perspectiva, a sociologia clínica tenta aproximarmo-nos de nossos atos, revelando como nossas ações estão comprometidas com imaginários, mitos, lendas, projetos parentais, romances familiares, significantes.


A sociologia clínica trabalha em articulação com o individual e o sócio-histórico. A questão que pretendo colocar é: como uma sociologia pode intervir ou interferir na sociedade, ou melhor, no “inconsciente” das sociedades? Como uma sociologia pode ser ao mesmo tempo do individual e do social ? A sociedade revela sintomas que, na verdade, são sintomas de seus indivíduos. A violência por exemplo é uma patologia social, provocada por perversidades e patologias individuais e sociais. Contudo devemos procurar respostas às patologias sociais no campo da ética política. Uma sociologia será clínica quando ela se dá como tarefa estudar os problemas do sagrado, dos substratos inconscientes do poder. Não mais que isso. Freud já havia se indagado sobre o alcance de uma análise da mais profunda neurose social, uma vez que ninguém teria a autoridade necessária para impor à coletividade a terapia desejada. Não é papel da sociologia clínica intervir com alguma terapia coletiva, mas sim denominar ou identificar “patologias coletivas”, o que nos remetem ao compromisso das ciências humanas. Essas patologias podem ser entendidas, detectadas e vivenciadas sobretudo nas histórias orais de vida.
O conflito social não é resultante exclusivamente da impessoalidade do contexto sócio-histórico, mas vem atravessado por dimensões subjetivas, afetivas e existenciais dos indivíduos. O projeto da sociologia clínica é tentar trabalhar o que é do registro das contradições sociais e o que é do registro das contradições existenciais. O que vale dizer que a sociologia clínica trabalha com o indivíduo inserido em uma história da qual ele quer ser o sujeito. Essa postura da sociologia clínica revela a influência que estes teóricos receberam de Marx e Freud, como também de Foucault, Max Pagès, Deleuze, Guattari, (os chamados teóricos da subjetividade). Como articular esses diferentes registros da realidade? Este conjunto de registros, filiações, revelam que não é suficiente mudar as relações de produção para mudar o homem, como também não é suficiente olhar o que se passa no campo do inconsciente para mudar a sociedade. Como pensar essa complexidade?
É preciso talvez renunciar à vontade de construir uma explicação global do comportamento humano. Talvez o melhor caminho é optarmos por uma problematização múltipla, interdisciplinar. A partir de um objeto, ver como as diferentes teorias abordam a questão, em que medida ajudam a clarear o objeto, e como estas diferentes abordagens se articulam entre si. As transformações econômicas, sociais, nas famílias, tudo isso vem modificando as relações sociais.
Na contemporaneidade a luta de classe incorporou a luta de places. A luta pelos lugares sociais. A questão do deslocamento social passou a ser uma questão central nas ciências humanas. O destaque é para o sentimento de despertencimento, de exclusão, de se sentir fora. Fora do mercado de trabalho, do consumo, do lazer. A questão da desinserção social constitui um dos nichos da sociologia clínica, na medida em que a exclusão gera um sentimento de vergonha, de fracasso, de inferioridade e de humilhação.
É o momento em que problemas sociais agenciam problemas existenciais. “Um dos grandes sucessos do comunismo internacional não é, com certeza, ter conseguido resistir ao capitalismo, mas ter dado orgulho aos trabalhadores”, nos lembra Vincent de Gaulejac, em uma de suas passagens por Belo Horizonte. Orgulho, pertencimento, reconhecimento, identificação. Palavras utópicas num mundo globalizado. Como reverter o sentimento de fracasso? O que os jovens de hoje estão produzindo para se sentirem reconhecidos? Violência? Geralmente a violência acontece quando o indivíduo vive a vida buscando a morte. O jovem não morre por causa da violência, mas busca a violência por que deseja morrer. Como os jovens estão construindo seus vínculos sociais? Como viver sem acesso ao trabalho? O Capitalismo industrial, apesar de tudo, era um capitalismo integrador, onde os espaços do trabalho exerciam um fator de articulação social. O Capitalismo hoje é desintegrador em vários sentidos, dificultando a ação coletiva. Quais as condições de trabalho e de vida que visem propiciar ações coletivas, e que não sejam simplesmente de interesse pessoal ou de sobrevivência? Lutar para ter uma posição, um reconhecimento social, para se sentir útil na sociedade, não é do mesmo registro que lutar para ter um emprego, uma casa. São registros diferentes. Isso é que dificulta a luta coletiva. Interesses diferentes, com registros diferentes, onde alguns são essencialmente registros simbólicos. E as lutas simbólicas exigem registros próprios.
Na luta pela manutenção dos lugares sociais, não se procura destruir ou transformar a sociedade. Procura-se sobreviver dentro dela da melhor forma possível. Essa luta de posições é resultado de rupturas identitárias. Identificamos aqui conflitos entre a identidade herdada e a identidade possível. Temos conflitos da ordem da auto-imagem que podem desencadear sentimentos de vergonha, fracasso e rejeição. A vergonha é um sentimento social. Um olhar que emerge do campo do outro. De questões subjetivas como essas que a sociologia clínica quer se ocupar. O indivíduo de hoje é um indivíduo cada vez mais assujeitado. Por outro lado, esta mesma sociedade cobra que estes indivíduos sejam sujeitos de seus desejos e de seus direitos. Cobra autonomia, cobra um projeto identitário. O que nos remete a duas questões; a da psicanálise e a da política. É quando entra o sociólogo clínico e sua intervenção. Como intervir em questões que se inscrevem no campo do objetivo e do subjetivo? Quando alguém está sem emprego, sem moradia, porque não ouvir os sujeitos em situações? Por quê não dar oportunidade para que os sujeitos falem de seus conflitos, sejam eles sociais ou existenciais? Ao falarem deles, de suas angústias, quem sabe eles poderão entrar em contato com algo novo, ressignificando um pouco mais suas vidas?
A contribuição da sociologia clínica é avançar nas contradições sócio-históricas que revelam a história da família e do momento histórico. A sociedade atual tende a separar os indivíduos de sua origem social e de suas raízes culturais. O lugar que os excluídos ocupam na sociedade contemporânea é muitas vezes definido por categorias frias, que não revelam o desamparo que os atravessa. Quando temos questões objetivas transformando-se em questões subjetivas, temos sobretudo uma questão complexa, que requer ajuda relacional, ajuda da psicossociologia. O sujeito diferente, excluído da sociedade, pode estar atravessado por questões históricas, sociais, que acabam transformando-se em questões existenciais. Ele é um ser em sofrimento, em pathos. Não podemos esquecer que ser diferente não é ser doente.
A sociologia clínica é mais uma ciência dos efeitos que das causas. Ela quer trabalhar junto, “com” e não “sobre”. Toda conduta humana pode ser portadora de sentido e de não sentido. Trata-se de garantir que todos os indivíduos em situação estejam interessados na construção de um sentido. O ato de escutar e de perguntar pode desencadear um processo de sentido. A sociedade contemporânea, ao ensinar as pessoas a se satisfazerem apenas com as respostas, não as educa no registro das perguntas, da dúvida ou da finitude do mundo. O que está em questão é a postura diante do conhecimento. Trata-se de um estatuto de conhecimento que está em curso, e que visa impedir que os indivíduos se tornem prisioneiros das estruturas herdadas. É necessário que os indivíduos instituem a sua história, como também é necessário instituir uma qualidade na relação entre pesquisador e pesquisado, educador e educado. Como instituir essa aproximação nas escolas, nas academias de ensino? Como disciplinar para a escuta? Como substituir categorias petrificadas, posturas viciadas com uma outra postura de educar, pensar o sujeito? A questão é insistir na construção de uma pedagogia autêntica, uma sociologia autêntica. A vida artificial é coisa da sociedade pós-moderna, midiática. Conhecimento tem que vir junto com o sujeito e sua verdade. Estas são apenas algumas questões que merecem reflexão entre os que pretendem eleger como prioridade a qualidade do saber, do educar e do viver dos indivíduos.

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Inez Lemos - Telefax: 33325846 - E Mail: mils@gold.com.br.
Belo horizonte, novembro de 2002 Arq. Palestra UNB


1 Graduada em História e mestre em educação pela FAE-UFMG e psicanalista (em formação no Grep).

2 O trabalho da hermenêutica. Franklin Leopoldo e Silva. Folha de S.P., 11/03/2000. Caderno de resenhas.


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