Consertando o teto da floresta



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Encontro28.07.2016
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Consertando o teto da floresta

por Luís Coelho


O dossel florestal funciona como um filtro de luz, cuja superfície necessita de constantes reparos devido a aberturas formadas pela queda de galhos e árvores de grande porte. Estudos sobre regeneração de clareiras indicam apenas indivíduos arbóreos como responsáveis pelo fechamento das aberturas no dossel. Contudo, pesquisas recentes em dosséis florestais, sugerem que hemiepífitas lenhosas, por direcionarem sua copa para aberturas do dossel, eliminam pequenas clareiras formadas pela queda de grandes galhos. Mas será que a influência das hemiepífitas lenhosas na regeneração de aberturas no dossel florestal é relevante? Por ocorrerem em alta densidade em diversas florestas tropicais, as hemiepífitas lenhosas podem exercer grande influência na estrutura física do dossel florestal. Porém, enquanto algumas hemiepífitas atuam fechando pequenas clareiras, outras espécies, conhecidas como hemiepífitas estranguladoras, geram pequenas clareiras, pois são responsáveis pela quebra de galhos da hospedeira devido a constrição causada por suas raízes estranguladoras. A influência das hemiepífitas na cobertura do dossel florestal pode ser examinada a partir do estudo da ecologia de hemiepífitas lenhosas (pesquisas sobre comunidade, dinâmica populacional e história natural de hemiepífitas), e através da análise das relações espaciais entre hemiepífitas e pequenas aberturas no dossel florestal.

A densidade e a riqueza de hemiepífitas lenhosas são geralmente altas em florestas tropicais úmidas, com altos índices de pluviosidade e sem estação seca, sendo que podem ocorrer em uma mesma área mais de 50 espécies de hemiepífitas lenhosas. Na Ilha do Cardoso, uma área de Mata Atlântica localizada no extremo sul do litoral paulista, a espécie Coussapoa microcarpa é a mais abundante entre as nove espécies registradas, com 36 indivíduos por hectare, com em média um indivíduo por hectare no estágio de vida livre, ou seja, capaz de se auto sustentar após a morte e decomposição da hospedeira. Considerando as nove espécies registradas na Ilha do Cardoso, as hemiepífitas lenhosas infestam um terço de todas as árvores com mais de 30 cm de diâmetro na altura do peito estimadas por hectare. Em florestas tropicais úmidas, as hemiepífitas se estabelecem principalmente entre sub-bosque superior e o dossel inferior, independentemente do porte da floresta. Portanto, além de abundantes, hemiepífitas lenhosas são organismos típicos do dossel de florestas tropicais úmidas.

Enquanto as hemiepífitas lenhosas permanentes (não estranguladoras) causam pouco ou nenhum dano físico a suas hospedeiras, as espécies de hemiepífitas lenhosas com hábito estrangulador podem, devido à constrição causada por seu sistema de raízes estrangulador, quebrar o galho onde se estabeleceram, abrindo assim uma pequena clareira frequentemente ocupada pela própria hemiepífita. Indivíduos de C. microcarpa, uma hemiepífita lenhosa estranguladora, raramente causam dano ao hospedeiro quando se estabelecem em galhos com diâmetro acima de 20 cm. Porém estabelecidas em galhos com diâmetro inferior a 20 cm, frequentemente provocam a quebra do galho da hospedeira. Portanto, durante seu desenvolvimento, hemiepífitas podem atuar tanto fechando clareiras no dossel florestal, como originando clareiras. Por alcançarem grande porte, as hemiepífitas estranguladoras são capazes de se sustentar mesmo após a morte e decomposição de suas hospedeiras, pois suas raízes estranguladoras se desenvolvem e assumem a função de verdadeiros caules, consequentemente, a clareira que seria formada pela queda da árvore hospedeira após sua morte, é retardada por décadas ou até mesmo séculos. Portanto, além de hemiepífitas lenhosas influenciarem a dinâmica de formação e fechamento de pequenas clareiras, as espécies estranguladoras minimizam a probabilidade de formação de grandes clareiras pela queda de árvores mortas.

O estudo da comunidade de hemiepífitas lenhosas ocorrentes em florestas tropicais permitiria determinar quais são as mais abundantes e, portanto, mais interessantes para estudos detalhados. Posteriormente, a análise da dinâmica populacional e da história natural das espécies mais abundantes permitiria conhecer as taxas de crescimento das diferentes espécies e outras características ecológicas como: locais mais adequados ao estabelecimento e desenvolvimento, altura de estabelecimento e tipo de hábito (estrangulador ou não) entre outras informações relevantes para avaliação da forma de utilização do dossel pelas espécies estudadas, viabilizando uma análise quantitativa da influência das hemiepífitas lenhosas na estrutura física do dossel florestal. Complementarmente, a sobreposição de mapas de ocorrência de pequenas clareiras com mapas de distribuição espacial de hemiepífitas lenhosas, pode evidenciar a existência de correlação espacial entre clareiras e hemiepífitas. A ausência de correlação indicaria que existe independência espacial entre as hemiepífitas e a disposição de clareiras na floresta. a existência de correlação espacial positiva indicaria que as hemiepífitas causam mais dano do que remendos na cobertura do dossel florestal, e a existência de correlação negativa indicaria que as hemiepífitas podem ser consideradas remendos do dossel florestal.



Pesquisas sobre a dinâmica de regeneração de clareiras vêem sendo conduzidas a pelo menos 30 anos. Apesar de ser uma linha de pesquisa antiga e consolidada, apenas lianas, entre os organismos típicos de dosséis florestais, são incluídas como atores importantes no processo de formação e regeneração de clareiras. Poucos trabalhos se preocuparam em tentar responder qual a influência das hemiepífitas lenhosas sobre a estrutura do dossel florestal, mesmo após a publicação de revisões de literatura nos últimos 15 anos, nas quais a inexplorada e potencial influência das hemiepífitas sobre a estrutura de dosséis florestais foi abordada. Estudos abordando a comunidade de hemiepífitas lenhosas e a ecologia das espécies mais abundantes dessa guilda, associados a estudos que investiguem a relação espacial entre a distribuição de hemiepífitas e a presença clareiras em florestas tropicais, podem determinar se hemiepífitas lenhosas contribuem para a entrada de luz nos estratos inferiores ou aumentam a porcentagem de cobertura do dossel nas regiões onde ocorrem com alta densidade. Avaliar a importância das hemiepífitas na manutenção da estrutura física de dosséis florestais, possibilita a formulação de modelos mais realistas no estudo de dinâmica de clareiras, por considerar organismos cujo ciclo de vida ocorre principalmente no próprio dossel florestal, permitindo a abertura de uma nova linha de pesquisa preocupada em entender e descrever mecanismos de auto regeneração do dossel florestal.


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