ConsideraçÕes acerca da imprensa e de sua utilizaçÃo como fonte de pesquisa para a história da educaçÃO



Baixar 53 Kb.
Encontro27.07.2016
Tamanho53 Kb.


CONSIDERAÇÕES ACERCA DA IMPRENSA E DE SUA UTILIZAÇÃO COMO FONTE DE PESQUISA PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Cristiane Silva Mélo

Simone Burioli Ivashita

Maria Cristina Gomes Machado (CNPq)

GT Maringá – UEM

Este texto aborda a discussão sobre a utilização da imprensa como fonte de pesquisa e objeto de estudo de pesquisadores do campo da História da Educação. A imprensa é um elemento cultural, pode ser entendida como expressão e produto do modo como os homens percebem e refletem sobre uma determinada realidade social. Uma vez tomada como objeto investigativo contribui para o conhecimento, interpretação e reflexão acerca dos saberes históricos e culturais produzidos pela humanidade nas variadas áreas de conhecimento.

A imprensa, compreendida como produção humana em um dado contexto social, reflete as condições históricas da sociedade na qual está inserida e/ou é elaborada. Sua produção em geral é pensada no âmbito das exigências sociais, nesse sentido, a imprensa consiste em um significativo material que contribui no desvendar, análise e reflexão de acontecimentos e assuntos para a História e a Historiografia da Educação.

No âmbito da pesquisa educacional tem-se percebido que nos últimos anos houve um aumento na quantidade de pesquisas que abarcam a imprensa jornalística, a imprensa de educação e a de ensino como objetos de estudo. A ‘educação pela imprensa’ tem sido um tema de interesse tanto dos que buscam compreender e acompanhar o desenvolvimento das discussões sobre a educação no decorrer dos tempos quanto dos que procuram analisar a educação pela mídia na contemporaneidade. A imprensa jornalística, de educação e de ensino tem sido utilizada como fonte de pesquisa e objeto de estudo por muitos pesquisadores do campo da História e da História da Educação. Tais fontes têm contribuído para ampliação de abordagens de estudos e discussões relacionadas à pesquisa histórico-educacional.

Dentre as fontes utilizadas por tal campo (História da Educação), a imprensa tem se constituído ultimamente numa importante senda: não se trata somente de pesquisas advindas da imprensa denominada educacional, mas de investigações em jornais e em revistas que não têm necessariamente um cunho educacional. Neste sentido, tal modalidade de fonte tem contribuído para ampliar a pesquisa histórico-educacional, dando-lhe contornos e vitalidade há pouco não observados. Há que ressaltar ainda a potencialidade que tal modalidade de fonte revela para os estudos histórico-educacionais de caráter regional e local (ARAÚJO, 2002, p. 59).
A imprensa jornalística é produto social, material intencional organizado pelo homem na sociedade. Sobre o jornalismo e sua caracterização pode-se afirmar que consiste numa das ciências da "informação coletiva" ou "comunicação coletiva". Ele pode ser definido como "[...] o estudo do processo de transmissão de informação, através de veículos de difusão coletiva, com características específicas de atualidade, periodicidade e recepção coletiva" (AMARAL, 1978, p. 16). Nas palavras do jornalista Carlos Lacerda (1990) o jornalismo consiste na,
[...] arte de simplificar a complexidade dos fatos e das opiniões, tornando-os acessíveis à compreensão de um número apreciável de pessoas, fixando-os num momento da sua trajetória, o que confere  certa permanência à sua transitoriedade. E assim, na imobilidade de um momento, neles encontra a marca da eternidade (LACERDA, 1990, p. 35).
  O termo atualidade destacado por Amaral (1978) se remete ao fato do jornalismo se caracterizar por momentos do cotidiano, do tempo presente em que é editado e do efêmero. Já a periodicidade corresponde aos intervalos de tempo em que é registrada suas manifestações e a recepção coletiva se define como um elemento que caracteriza o jornalismo como um instrumento público, ao alcance de todos por meio de diferentes veículos como o jornal, rádio, televisão, entre outros  (AMARAL, 1978).

  Dentre as funções do jornalismo pode-se destacar a função política, econômica, educativa e de entretenimento (AMARAL, 1978). Fraser Bond (1962) aponta que o jornal moderno assume a condição de ser publicado para:

1 – informar,

2 – interpretar e

3 – servir:
a) A comunidade: mantendo um ôlho crítico no governo e nos serviços públicos; através de seus fundos caritativos e de suas campanhas para melhoramentos.

b) O leitor: através de informações sobre saúde, educação e problemas do lar e da família.

c) O anunciante: pondo vendedor e comprador em contato em suas colunas de anúncio tanto classificados como ilustrados; (FRASER BOND, 1962, p. 173-174).


  1. – divertir:

a) A população leitora: “[...] o jornal de hoje traz um saudável entretenimento para agradar e divertir o leitor: histórias engraçadas, desenhos humorísticos, competições, adivinhações, piadas, seções de passatempo, etc.,  tudo visando a proporcionar recreação e alegria.” (FRASER BOND, 1962, p. 174, grifo nosso).

Sobre a função política entende-se que meios de informação podem ser instrumentos de direção de negócios públicos. Os veículos de imprensa podem ser utilizados como órgãos de expressão e de controle da opinião pública, assim, órgãos governamentais, convencidos de que a opinião pública pode ser controlada por meio de uma informação inteligente, realizam seus serviços informativos procurando captar a simpatia do público. Os primeiros jornais com função política foram os chamados jornais de opinião, apareceram com a revolução francesa desempenhando um papel importante1. No Brasil, os primeiros jornais foram de opinião como o Correio Braziliense, de Hypólito José da Costa, este autor, na época, pregou contra o absolutismo e a favor das liberdades políticas e das instituições civis. Muitos jornais no passado foram veículos de ideologia política sendo caracterizados por comentários e técnica de panfletos, essa realidade ainda se observa na atualidade, existem jornais de caráter político que utilizam diversas técnicas de comunicação para a transmissão de conteúdos ideológicos (AMARAL, 1978). Em contraponto, sabe-se que a imprensa é utilizada por órgãos, grupos e intelectuais na intenção de formação de senso crítico e reflexivo. Em muitos momentos, o jornalismo, em países em desenvolvimento, contribui para a tomada de consciência da população sobre o seu papel ativo na construção da sociedade na exposição dos direitos dos cidadãos.


Mesmo no país mais fraco  e instável, os meios de comunicação de massa ainda conservam algo de sua função mais básica: a de servir como inspetor geral de todo o sistema político a fim de poder proporcionar a crítica pública necessária para garantir algum grau de integridade política por parte daqueles que detêm o poder (KUNCZIK, 1997, p. 74).
  A função econômica e social é atribuída ao jornalismo devido ao fato de os meios de informação serem instrumentos de desenvolvimento econômico e social ao divulgarem informações sobre assuntos variados, de interesse público, contribuindo para o desenvolvimento da indústria e do comércio e para com a melhoria das relações sociais (AMARAL, 1978).

  Em relação à função educativa do jornalismo, sabe-se que por ser um recurso audiovisual e informativo pode exercer bastante influência no público. Considera-se que a educação dos indivíduos não termina quando eles saem da escola, ela prossegue na adolescência e na idade adulta pela leitura, sobretudo, de jornais e revistas. Assim, acredita-se que a imprensa deva valorizar o compromisso com a verdade, sendo de fundamental importância no meio social até mesmo no âmbito educacional (AMARAL, 1978).

A utilização de jornais, como objetos de estudo, em salas de aula, deve proporcionar condições para que os alunos se conscientizem que o contato com o jornal representa mediação com a própria realidade social. A imprensa possibilita o trabalho não apenas com a letra, papel e cores, mas, com os fatos, idéias, relatos e interpretação de uma dada circunstância. O aluno deve buscar identificar no jornal e em sua atividade de leitor o caráter de intérprete da ação e da realidade sociais cotidiana. Esta é uma condição útil e indispensável à uma participação ativa do sujeito na sociedade. É fundamental a compreensão pelo aluno da natureza política do jornal, o conhecimento sobre a não existência de jornais “neutros” e de jornais que transmitem “informações puras”, num dado contexto político-social que o circunda. “[...] a verdade dos jornais é sempre uma verdade relativa, porque é permeada pela ideologia ou pelos interesses específicos dos seus proprietários.” (MELO, 2006, p. 166). O fato é que nem sempre se publica o que realmente interessa, mas, com mais freqüência aquilo que se quer que venha interessar, desse modo, o jornal acaba assumindo o papel de orientação da opinião pública (LACERDA, 1990).

Pode-se pensar a produção do jornal escolar pelos alunos e pela escola como um recurso alternativo para o desenvolvimento da percepção crítica da realidade. A presença do jornal na escola, seja a sua elaboração ou utilização como objeto de estudo, pode significar um útil instrumento de exercício da cidadania, no desenvolvimento de aprendizados práticos de participação social e política (MELO, 2006).

Sobre a função entretenimento, entende-se que os meios de informação podem proporcionar às pessoas momentos “felizes”. Muitos são os leitores que consideram a leitura dos jornais uma atividade de prazer, eles escolhem momentos como os intervalos de repouso para lerem jornais e se distraírem (AMARAL, 1978).

  A imprensa desfruta de largo prestígio no mundo. Entende-se por imprensa tudo o que se edita com o auxílio de máquinas de imprimir, como jornais, livros, revistas, folhetos, boletins e cartazes. A influência no povo pode ser exercida pela publicação de notícias, comentários, fotografias, charges, entre outros.

  A notícia é a maneira pela qual o jornalismo torna públicos os fatos. Ela é sinônimo de acontecimento, matéria, dados, verdades, certeza, dúvida, jornalismo, informação, comunicação e até mesmo de certas “inverdades”. A notícia é a base do jornalismo, sempre apresenta uma informação pressupondo fontes (BAHIA, 1990).

Vicchiatti (2005) destaca que os profissionais do jornalismo devem possuir antes de tudo o compromisso com a sociedade. Os jornalistas precisam assumir compromisso com a transmissão da verdade, no trabalho pela justiça e cidadania, pela “(in) formação” da opinião pública e nivelamento das desigualdades sociais. Segundo Lacerda (1990),


[...] Um jornal não dá todas as opiniões e, pois há na seleção um critério que constitui opinião de alguém que antecede o leitor no exame das notícias por publicar. [...] Apresentar um quadro da realidade sobre  a qual os homens possam atuar. Eis a missão do jornal; a função, pois, do jornalista (LACERDA, 1990, p. 36-37).
O jornalista possui papel de propagador de conhecimento e de cultura por meio da atividade especializada de formulação, seleção, estruturação e disponibilizações, estas são ações realizadas para se perceber e situar-se perante a realidade. Sobre as características e qualidades de um bom jornalista Carlos Alberto Vicchiatti (2005) aponta:
[...] podemos delinear as seguintes características e qualidades para o jornalista, inserido na realidade histórica de que participa e de onde adquire sentido sua função: a) um jornalista que conheça e entenda, com consciência crítica, as mudanças e os  conflitos de sua realidade social; b)  um jornalista capaz de praticar um discurso informativo e significativo, isto é,  valorativo, refletindo fielmente a estrutura social em que opera; c) um jornalista que integre, dialeticamente, o estético, o social e o técnico, isto é, que afine sua prática profissional com sua visão estética; d) um jornalista criativo que possa interferir, com competência técnica, nos meios de comunicação para superar as contradições sociais e  não perpetuá-las, alienadamente (VICCHIATTI, 2005, p. 59).
O jornalista exerce uma espécie de “poder” “perigoso”, o de transformar acontecimentos privados em públicos. Ele é um agente transformador da realidade social em que está inserido. Tais profissionais em suas práticas cotidianas se defrontam com a necessidade de posicionar-se em âmbito social e individual, com questões relacionadas à democracia e à ética, isto pode resultar em manipulação de informações (VICCHIATTI, 2005).
Toda vez que ocorrer uma manipulação em um veículo, estará entrelaçada com a falta de ética, pois todas as vezes que o profissional manipular uma verdade por “n” motivos, estará faltando com a ética. Os jornalistas vivem eternamente em busca de credibilidade e confiança, por parte da sociedade, já que prestam um serviço público. [...] A responsabilidade de formar opinião é muito delicada, já que o jornalista deveria ter o senso ético apurado para não cometer erros que possam atingir toda a sociedade, caso uma notícia seja veiculada de forma incorreta ou subjetiva (VICCHIATTI, 2005, p. 62).
  A imprensa é um meio que consegue "construir ou destruir ídolos". Ela cria idéias e associações de idéias que dificilmente os homens leigos conseguem identificá-las. Existem pessoas que acreditam plenamente no conteúdo que a imprensa transmite se deixando levar pelas informações de forma acrítica. Para Luiz Amaral (1978, p. 24), a "[...] imprensa é formadora da opinião pública, isto é, do conjunto de opiniões, juízos, conceitos, apreciações, pontos de vista que a respeito de diferentes aspectos de vida do povo e do Estado imperam nas variadas classes sociais". Um fato é que as pessoas se apóiam em notícias para tomarem decisões (BAHIA, 1990). Os meios de comunicação em massa, sobretudo, a televisão, desempenham um papel decisivo na formação da população brasileira, atuam como “educadores coletivos” (MELO, 2006, p. 176). Lacerda (1990, p. 35) aponta os termos “escola de opinião” e “universidade portátil” na designação do papel formativo da imprensa. Vejamos o comentário do autor:
Essa função universitária o jornal a exerce por dois caminhos:  o da notícia e o da opinião, que ambos são informação, um no sentido de colocar a pessoa a par do que se passa, outra no de fazer com que ela influa naquilo que se está passando (LACERDA, 1990, p. 36).
Antes de formar a opinião pública, o jornal se apresenta como uma criação da opinião pública. O jornalista além de ser um formador é um intérprete da realidade social. Ele exprime anseios e opiniões de uma considerável parcela da opinião pública. O jornalismo é um órgão de justiça, é dever agir com vista ao bem público, muitos artigos publicados pela imprensa expressam sentimentos e aspirações de seus leitores (LACERDA, 1990).

O jornalismo possui importância em sua utilidade. A imprensa precisa ser útil de modo particular, oferecendo ao público a compreensão de que a vida não é somente seqüência de fatos ocasionais. O jornalismo fracassa ao tratar assuntos de maneira que o público logo esqueça, de preparar os indivíduos apenas para receber, absorver e consumir fatos e assuntos definidos, prontos e inquestionáveis (VICCHIATTI, 2005).

Fraser Bond (1962) destaca ser o jornal uma fonte que possui imenso valor, não somente como um importante elemento para os historiadores no futuro, mas por ser um cenário vivo da natureza humana no presente. O jornal é “[...] um organismo vivo, impregnado da vida dos que nele trabalham, inspirado por seu espírito, animados por seus ideais e pensamentos, o veículo vivo de sua própria aventura cotidiana.” (GIBBS, apud FRASER BOND, 1962, p. 188).        

Os veículos de comunicação são sociais. A liberdade de expressão de um povo é geralmente expressa pela constituição de Estado. A responsabilidade social da imprensa varia conforme os regimes políticos, cada país estipula regras de liberdade de imprensa; a imprensa de caráter marxista, por exemplo, possui função e responsabilidade social diferente das dos países capitalistas. A idéia de censura na imprensa nos permite uma reflexão sobre o poder de influência que pode exercer no coletivo (AMARAL, 1978).

Assim, considerando aspectos característicos da imprensa na sociedade, percebendo-a como um elemento social produzido pelo homem num dado contexto de exigências e objetivos, reitera-se sua utilidade como um rico material de estudo para pesquisadores e historiadores da educação.

Destaca Araújo (2002) que “[...] se a educação é prática social que se estrutura a partir do que é veiculado pela cultura, a imprensa tem seu lugar na educação dos homens na sociedade.” Ela é um elemento cultural, expressão e produto do modo como os homens concebem e refletem sobre determinada realidade social (ARAÚJO, 2002, p. 61). Possui papel informativo e assume caráter formativo de opinião, desse modo o jornalista em muitos momentos pode posicionar-se na condição de educador. Segundo Machado (2007),


A imprensa é o local que facilita o conhecimento das questões econômicas, sociais, políticas e educacionais de determinada sociedade. [...] Os escritos jornalísticos assumem um caráter fugaz e imediato, pois tratam dos acontecimentos do dia a dia e têm como característica provocar a reação dos leitores sobre idéias e posições, normas e leis, principalmente sobre situações políticas (MACHADO, 2007, p. 37).
A imprensa sendo concebida como produção cultural dos homens é importante fonte para a história da educação e pode ser entendida como um campo que busca resgatar a maneira pela qual os homens produziram sua existência: seja ensinando ou produzindo sua existência, seja ensinando ou aprendendo aquilo que circula na cultura; ou “reproduzindo” a cultura, em sua criação ou recriação. O fato de “descrever” a cultura implica em considerar a produção de existência, os modos de pensar, sentir e agir que caracteriza tal cultura. É possível compreender a educação como aprendizagem de cultura, educar-se é, nesta perspectiva, aprender o que circula no interior de um determinado grupo humano-social, seria “viver”, com dinamicidade, questionamento e enfrentamento de certas contradições do processo de existir, o que já está em circulação numa cultura (ARAÚJO, 2002, p. 59-60).

Nesse sentido, para Araújo (2002, p. 60) destacar a imprensa como “partícipe” do processo de educação do homem implica, sobretudo, “[...] assumir a imprensa como uma expressão cultural do homem, como uma conquista, como uma construção histórica a compartilhar como elemento do processo de produção de existência”.

Ao utilizar um determinado jornal como fonte histórico-educacional, faz-se necessário ampliar os olhares de análise para além da educação ou instituições escolares. É preciso considerar que tais elementos não estão desvinculados da sociedade na qual estão inseridos. É importante, por exemplo, levar em conta a existência da sociedade de classes, indagando-se sobre possíveis interesses apresentados e ou representados por um determinado jornal, sejam os interesses dos órgãos de imprensa em si ou dos indivíduos que neles veiculam suas posições (ARAÚJO, 2002). A imprensa jornalística, entendida como produção humana num dado contexto social, reflete condições da sociedade na qual está inserida. Sua elaboração é pensada no contexto das exigências sociais em direcionamento a públicos definidos.
Quando analisamos as relações sociais manifestas pela humanidade expressas em diferentes projetos de mundo, verificamos que seus fundamentos se manifestam em diferentes formas materiais. A imprensa é um desses exemplos. Aponta a complexidade da totalidade das relações sociais sem se esquecer da singularidade desses mesmos processos. Ela é histórica e contraditória, manifesta ideologias e visões de mundo de diferentes classes sociais. [...] A mesma expressa as relações políticas de um tempo, de uma sociedade em transformação e contradição. É a história em movimento que dá sentido e anuncia a materialidade das ações humanas. A mesma manifesta essas mediações, até por ser um espaço contraditório em que se manifestam as ideologias das classes dominantes, mas, ao mesmo tempo, a resistência a essa mesma ideologia. Ela não se resume a apenas um jornal, mas sim na totalidade da sua produção (SILVA LUCENA; GONÇALVES NETO, 2008, p. 4 - 5).
A utilização da imprensa como objeto de estudo leva a contribuições de ricas fontes para a história da educação. A imprensa educacional, em especial, voltada para a área de educação, pode ser vista como espécie de corpus documental com vastas dimensões. Ela se constitui num testemunho “vivo”, ativo de métodos e concepções pedagógicas de uma determinada época, da ideologia moral, política e social de um dado grupo profissional, assim, consiste num excelente “observatório”, numa fotografia da ideologia que fundamenta concepções transmitidas. (OGNIER2, 1984, apud CATANI; BASTOS, 1997, p. 5). Desse modo, a imprensa educacional torna-se um “guia prático” do cotidiano educacional e escolar, permite ao pesquisador estudar o pensamento pedagógico de um determinado grupo social pela análise do discurso presente nos escritos veiculados pela imprensa, ele percebe a ressonância dos temas debatidos, no interior e exterior do universo escolar (CATANI; BASTOS, 1997).

  Nóvoa (1997) destaca ser a imprensa o melhor meio para apreender e compreender a multiplicidade do campo educativo. A imprensa revela as múltiplas facetas dos processos educativos, sendo um dos melhores cenários de diversidade que perpassa o campo educativo. Ela seria talvez, o meio mais eficaz a ser utilizado para a compreensão das dificuldades de articulação entre a teoria e a prática, uma vez que o senso comum e idéias articuladas presentes nas páginas de jornal e revistas se apresentam como uma das qualidades principais de um discurso educativo que se desenvolve a partir de diversos atores que vivem na sociedade.

Para Bastos (1997), a imprensa pedagógica é um instrumento privilegiado para a construção do conhecimento, o pesquisador compreende e prescreve pelo estudo destes escritos, determinadas práticas, valores e normas de conduta, nesse sentido, ele elabora representações do social. A imprensa pedagógica se caracteriza como fonte privilegiada de variados estudos, pois abrange como materiais jornais, boletins, revistas e magazines escritos por professores e direcionados para professores ou alunos, são materiais elaborados por educadores, pelo Estado ou instituições como sindicatos, partidos, associações e Igreja. A análise destes materiais possibilita verificar a política das organizações, bem como as preocupações sociais, as práticas educativas, certos antagonismos e filiações ideológicas presentes no discurso.

  A análise da imprensa, segundo Nóvoa (1997), permite apreender os discursos, que articulam práticas e teorias situadas num nível macro do sistema e num plano micro de experiência concreta. Tais discursos expressam desejos de futuro e ou denunciam e apresentam situações do presente, seria a imprensa, nesse sentido, um corpus essencial para a História da Educação e para a criação de outra cultura pedagógica. Um determinado periódico e ou jornal apela a debates e discussões, apresentam e provocam polêmicas e conflitos. Mesmo que o discurso expresse vontade particular de um indivíduo, as controvérsias e debates instigados e ou apresentados por ele estão sempre presentes no diálogo com os leitores. Assim, compreende-se que um texto jornalístico sempre provoca reação no leitor, possui caráter dinâmico.   



A imprensa periódica de educação e ensino pode ser pensada como um objeto de estudo autônomo a partir da atitude interpretativa do leitor. Apresentam-se possibilidades de interrogá-la por múltiplas perspectivas, estas variam de acordo com o objetivo que se estabelece ao ler tais materiais que possuem particularidades diferenciadas, tem-se, por exemplo, os jornais informativos e os de caráter doutrinários e teológicos. Conceber a imprensa como possibilidade de investigação histórica em educação se trata de interrogar as idéias nela expressa por meio de um constante diálogo com o presente e pela compreensão das funções que ela desempenha como comunicação que transmitem e possuem linguagens de poder, tal atividade vai além da reconstrução de idéias de pensadores do passado (NÓVOA, 1997).
Referências
ARAÚJO, José Carlos Souza. A imprensa, co-participe da educação do homem. In: Revista Cadernos de História da Educação. v. 1, n.1, p. 59-62, jan/dez. 2002.
AMARAL, Luiz. Técnica de Jornal e periódico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.
BASTOS, Maria Helena Camara. A Imprensa periódica educacional no Brasil (1808-1944) (Apêndice). In: CATANI, Denice Bárbara; BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Educação em Revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo; Escrituras, 1997. p.  173-187.
BAHIA, Juarez. O que é notícia. In: Jornal, história e técnica: as técnicas do jornalismo. São Paulo: Ática, 1990. p. 35-48.
CATANI, Denice Barbara; BASTOS, Maria Helena Camara. Apresentação. In: CATANI, Denice Bárbara; BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Educação em Revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo; Escrituras, 1997. p. 5-10.
FRASER BOND, F.. O jornal: seus objetivos e conteúdo. In: Introdução ao jornalismo. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1962. p. 173-188.
KUNCZIK, Michael. (tradução Rafael Varela Jr.). Jornalismo e sociedade. In: Conceitos de jornalismo. São Paulo: Edusp, 1997. p. 71-95.
LACERDA, Carlos. A missão da imprensa. São Paulo: Com arte: EDUSP, 1990.
MACHADO, Maria Cristina Gomes. Estado e Educação “em Preto e Branco”. A atuação de Rui Barbosa no Diário de Notícias (1889). In: SCHELBAUER, Analete Regina; ARAÚJO, José Carlos Souza (Orgs).  História da educação pela imprensa. Campinas; Editora alínea, 2007. p. 31-52.
MELO, José Marques de. Gêneros jornalísticos: evidências empíricas. In: Teoria do jornalismo. São Paulo: Paulus, 2006.
NÓVOA, António. A Imprensa de Educação e Ensino. In: CATANI, Denice Bárbara; BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Educação em Revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo; Escrituras, 1997. p. 11-31.
PORTO, Sérgio Dayrell (Org.). O jornal: da forma ao sentido. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.    
SILVA LUCENA, Maria de Lurdes Almeida e; NETO, Wenceslau Gonçalves. História, imprensa e educação: um estudo sobre o pensamento educacional em Uberlândia através do Jornal “A Tribuna” (1930-1942). In: Anais da VIII Jornada do HISTEDBR - "Sociedade, Estado e Educação: um balanço do século XX e perspectivas para o século XXI". São Carlos; Universidade Federal de São Carlos, 2008.
VICCHIATTI, Carlos Alberto. Comunicação, literatura e compromisso social. São Paulo: Paulus, 2005. 

1 A imprensa no Brasil data de 1808. D. João VI criou a Imprensa Régia pelo decreto de 13 de maio de 1808. A imprensa se desenvolveu sob a tutela do Estado, que deteve o monopólio da impressão no Município da Corte. Por questões burocráticas, no início todas as publicações eram sujeitas a comissão de censura (BASTOS, 1997).


2 OGNIER, P. L’ideologie dês foundateurs et des administrateurs de L’ École Républicaine à travers de La revue pédagogique, de 1878 a 1900. In: Revue française de Pedagogie. Paris, (66): 7-14, jan/fev/mar. 1984.

Catálogo: acer histedbr -> seminario -> seminario8 -> files
files -> Cartas sobre a educação infantil
files -> Os professores e seu papel na sociedade imperial
files -> Os projetos educacionais do empresariado industrial mineiro associado a fiemg a partir das diretrizes educacionais da cni (1980-2000) Jane Maria dos Santos
files -> Processos históricos e educacionais da escola alemã da colônia riograndese – sp (1924-1938)
files -> Experiências Educacionais Libertárias no Brasil: Autonomia, Solidariedade e Liberdade Ingredientes para uma ação educativa eficaz
files -> A pedagogia Libertária e a Educação Integral Angela Maria Souza Martins Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – unirio neb/Grupo do histedbr – unirio introdução
files -> O projeto tavares lyra e sua proposta de reforma para o ensino secundário no brasil. A instruçÃo pública no início do século XX
files -> ContribuiçÕes de tomás de aquino para a história da educaçÃO: interrelaçÕes entre ética e educaçÃO
files -> Os jesuítas e o ensino de filosofia no brasil
files -> Ginásio de conquista


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal