Considerações Acerca do Messianismo Judaico em Portugal



Baixar 45.36 Kb.
Encontro01.08.2016
Tamanho45.36 Kb.





Considerações Acerca do Messianismo Judaico em Portugal

Saulo Henrique Justiniano Silva (UEM)

O trabalho analisa manifestações do messianismo judaico nas décadas que antecederam a instauração do tribunal do Santo Ofício em Portugal. O messianismo, especificamente o judaico, é um fenômeno social de “longa duração”, contudo, assumiu características distintas ao longo da história. O século XVI viveu um florescimento do sonho messiânico. Para alguns judeus, pressionados pelas perseguições, confiscos de bens e conversões forçadas ao cristianismo, às sagradas escrituras e os estudos cabalísticos afirmavam a possibilidade do próximo advento de um reino messiânico. Nesse texto, procura-se estabelecer uma relação entre o crescimento do messianismo judaico e a efetiva instauração do tribunal da inquisição em terras lusitanas.

Palavra-Chave: Judeus. Cristãos-Novos. Inquisição. Messianismo Judaico.

Considerações Acerca do Messianismo Judaico em Portugal

Saulo Henrique Justiniano Silva (UEM)

O presente excerto tem por objetivo compreender a história do messianismo judaico no reino português entre o fim do século XV e início do século XVI. Desde já, deixamos claro que mesmo que tenhamos como objetivo considerar todas as esferas que tratam deste assunto seria impossível alcançar a totalidade do mesmo, visto que se trata de uma temática tão complexa. Este artigo se definirá da seguinte maneira: em um primeiro momento nos deteremos em apresentar a situação judaica na península ibérica em finais o século XV, seguindo para a perseguição aos judeus e chegando as esperanças messiânicas.

Compreender a história dos Judeus em Portugal é de certa forma compreender a própria história deste reino, pensamos que tal dissociação seria impossível, já que os judeus ibéricos, também conhecidos como sefarditas estão presentes ali desde tempos remotos. A historiadora Maria José ferro Tavares, afirma que existem inscrições fúnebres judaicas na península ibérica dos séculos II e III. Quando tratamos especificamente de Portugal, vemos que o próprio mito fundador do reino se confunde com mitologia judaica, sobre tal assunto Cristóvão Rodrigues Acenheiro, cronista português nascido no século XV afirma que “os primeiros monarcas do reino eram ditos Macabeus, por sua valentia” (ACENHEIRO apud LIPINER, 1993, p. 17). A presença da tradição judaica em Portugal é inegável ao ponto de D. Afonso Henriques se pautar na dinastia judaica como modelo da intervenção divina, pelo fato de ambos serem socorridos por anjos nas batalhas contra os inimigos, seja os judeus contra os helenos e os portugueses na célebre batalha de Ouriques contra os mouros em 1139.

A história dos Judeus na península Ibérica nos é apresentada a partir de uma relação de “amor e ódio”, por vezes estes são apresentados como a salvação financeira, já em outras são vistos como aqueles que envenenam os poços e causam as moléstias, eternamente culpados da morte do Senhor Jesus Cristo. Esta relação dos judeus com os cristãos na península ibérica passara oscilações até a expulsão dos judeus de Espanha em 1492 e o batismo forçado em Portugal em 1497.

Para compreendermos o fenômeno do messianismo judaico português, faz-se necessário primeiramente entendermos a situação da comunidade judaica espanhola. Os reinos espanhóis medievais são frequentemente lembrados pela tolerância religiosa principalmente durante o califado islâmico de Córdoba, de onde florescerá nos séculos XII e XIII as filosofias, judaica de Moisés bem Maimon, conhecido com Maimônides e muçulmana de Averróis. No entanto, acerca dos judeus, ao mesmo tempo em que resplandecia a cultura, os mesmos eram acometidos por constantes perseguições, como no caso da sucessão dinástica no reino de Castela, que colocou de um lado Pedro, o terrível, herdeiro legítimo do trono, contra Henrique de Transtâmara. Neste contexto os judeus se colocaram a favor de Pedro, numa guerra que durará mais de uma década entre 1355 a 1366, com a vitória de Henrique que desde meados da guerra fazia circular no reino “textos antijudaicos, reinventando estigmas antigos como os dos judeus bebedores de sangue, abutres, sórdidos” (VAINFAS & HERMANN, 2005, p. 22).

A Idade de Ouro, como é conhecida na história judaica espanhola o período de desenvolvimento científico e tolerância religiosa, que se inicia em meados do século X, chega ao seu fim na segunda metade do século XIV, quando em 1390 o alastramento da Peste Negra, causou epidemias, fome e mortes na população urbana e rural. Neste contexto os judeus passam a ser acusados de causadores de tais desgraças, iniciando-se então, uma série de perseguições a população israelita, que se veem forçados, para se defender à se converterem ao cristianismo.

O início do século XV é marcado por ondas de conversão em massa dos judeus ao cristianismo, no entanto podemos perceber que estas ações tinham caráter circunstancial, pois mesmo se convertendo a fé católica, não deixaram de praticar os ritos da fé de Moisés. Os anos que sucederam às ondas de conversão foram marcados por uma relativa calmaria, que encontrou se manteve até 1478 quando os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela instituíram o tribunal inquisitorial em seus reinos. Os conversos (KAYSERLING, 2009; VAINFAS, 2011), como eram chamados os judeus convertidos ao cristianismo, tornaram-se os principais alvos de perseguição da inquisição espanhola, pois eram acusados de praticar a fé judaica em segredo e como cristãos que eram, foram acusados de heresia.

Em 1492, ano da efetiva unificação de Castela e Aragão que deu origem ao reino de Espanha, também é promulgado o decreto de expulsão de todos os judeus de seu território, grande parte destes encontrou refúgio no reino vizinho. “Estima-se que 40.000 judeus entraram em Portugal naquele ano, número imenso para a época” (VAINFAS, 2010, p. 28).

Em Portugal não houve ao longo do século XIV e XV nenhuma perseguição como ocorrera em Espanha. Por isso a comunidade Sefardita portuguesa continuava predominantemente judaica (NOVINSKY, 1997).

Apesar da comunidade judaica portuguesa, sofrer algumas restrições civis e conviver em bairros chamados judiarias estavam integrados à sociedade cristã. Desenvolviam tanto trabalhos manuais quanto intelectuais e desempenhavam papéis importantes no processo de expansão do reino.

A participação judaica na expansão ultramarina portuguesa, não se restringiu apenas a questões financeiras, como já sabido por muitos, mas também no desenvolvimento de técnicas náuticas. Essa participação pode ser observada na presença de Abraão Zacuto, o astrônomo, na corte de Dom João II e Dom Manuel (KAYSERLING, 2009; VAINFAS, 2010).

A expulsão da Espanha aumentou consideravelmente a população dos judeus em Portugal e isto provocou certo descontentamento entre os setores tradicionais que passaram exigir da Coroa medidas como aquelas adotadas pelos reis católicos.

Em 1495, subiu ao trono lusitano Dom Manuel, que diante das pressões e do interesse que nutria em se casar com a infanta Isabel, filha dos reis espanhóis promulgou em 1496, um decreto como aquele de 1492 dos monarcas vizinhos, onde estabelecia o prazo de um ano para que todos os judeus residentes no reino o deixassem ou se convertessem ao cristianismo.

Em 1497, o prazo para os judeus deixarem o reino se esgotou, entretanto, ao mesmo tempo em que mantinha a determinação de expulsão, o rei tentava impedir a saída provavelmente em razão da importância econômica que os Sefarditas tinham para o reino. Esse impedimento foi favorecido pelas próprias características geográficas de Portugal. Como não podiam retornar para a Espanha, a única saída era o mar. O embarque foi restrito ao Porto de Lisboa e D.Manoel ordenou o batismo forçado dos judeus no porto de partida. Sendo assim, de um dia para o outro Portugal deixou de ter judeus em seu território e passou a ter cristãos-novos.

A conversão dos judeus ao cristianismo foi ao encontro dos anseios dos reis de Castela, principalmente Dona Isabel que, segundo KAYSERLING, nutria um ódio profundo aos judeus:


Ninguém havia jurado maior ódio aos judeus do que esta Isabel de Espanha. Não só no seu próprio reino queria exterminar completamente a raça hebreia, mas também procurava como solicitações, lisonjas ou ameaças conquistar os regentes dos outros Estados para sua política odiosa (2009, p.164).
Os Cristãos-Novos apesar de não terem, depois do decreto de conversão forçada (AZEVEDO, 1918; NOVINSKY 2007; KAYSERLING, 2009; LIPINER, 1993; VAINFAS, 2011) acesso as sinagogas, ou a livros da tradição judaica, gozavam de certas liberdades no reinado manuelino, que apesar das pressões não cedeu à instauração do tribunal do Santo Ofício em terras lusitanas.

Poucos foram os cristãos-novos que realmente se voltaram ao cristianismo, deixando de praticar os rituais da tradição judaica tais como a Brith Milah (circuncisão) e o Bar Mitzvah, provavelmente a maioria continuou a praticar o judaísmo, pois não havia nenhuma perseguição institucionalizada no reino. Aqueles que continuavam a praticar o judaísmo passaram a ser chamados por seus contemporâneos, de uma forma pejorativa, de “marranos” e por parte da historiografia de criptojudeus.

Em 1521, assume o trono português Dom João III, filho da união de Dom Manuel com a filha dos reis católicos de Espanha. Diferente do pai, este rei “alimentava desde criança expulsar os hereges do reino” (KAYSERLING, 2009, p. 210). Seu governo é tido como o período de maior perseguição aos criptojudeus em Portugal e pela incansável insistência junto a Santa Sé para a instauração da Inquisição em seus domínios. Sobre a atuação do rei português contra os judeus, falaremos ao longo desta exposição.

Apesar da comunidade cristã-nova portuguesa não sofrer nenhuma perseguição institucionalizada após a determinação de Expulsão de 1497, sofreu com ataques da população católica que insistia em fazer justiça com suas próprias mãos e combater as heresias. Em 1506, na capital do país, houve uma manifestação popular contra os cristãos-novos que acabou com a morte de centenas destes em fogueiras improvisadas nas praças de Lisboa (GREEN, 2011; KAYSERLING, 2009). Dom Manuel, não se encontrava na cidade e assim que ficou sabendo mandou prender os cristãos envolvidos na chacina e os condenou ao enforcamento e a decapitação. Apesar da condenação dos culpados do massacre de 1506, grande parte dos criptojudeus deixou o país depois desse acontecimento seguindo rotas para Itália e Flandres.

Segundo Mayer Kayserling (2009) os cristãos-novos eram odiados em Portugal e temiam a eminente instauração do Tribunal do Santo Ofício que poderia acontecer a qualquer momento, caso Dom Manuel não resistisse às pressões que só tendiam a crescer. Neste contexto de opressão, perseguição e humilhação os criptojudeus apoiados nas profecias bíblicas trouxeram à tona os ideais escatológicos messiânicos, que sempre estiveram presentes no imaginário judaico da diáspora (WERBLOWSKY, 1972).

Existia um cenário peninsular que, de certa forma, parecia estar por anteceder a era messiânica, como afirma a historiadora Maria José Ferro Tavares:



Os turcos avançavam rumo ao ocidente, o Islã ameaçava a cristandade, que por outo lado, se via envolta em corrupção; o rei de França e o imperador – Carlos V - ousavam invadir Roma e ameaçar o papa; Lutero e Henrique VIII separavam-se de Roma (TAVARES, 1991, p.142).

Alguns Judeus previram a eminente vinda do Messias, dentre os quais podemos destacar Abraão Zacuto, astrônomo de D. Manuel e posteriormente Samuel Usque, mas nenhum foi tão preciso como o filósofo e estadista D. Isaac Abravanel, que chegou à conclusão através de cálculos cabalísticos, que entre os anos de 1490 a 1570 o Messias consolador se faria presente, salvaria o povo de Deus e acabaria com as tribulações vivenciadas por eles.

O caos e a perseguição do povo de Israel são os combustíveis para a consolidação do projeto messiânico, segundo Tavares:

O aparecimento cíclico de diversos Messias ou o renascer fervoroso desta crença tem que ver necessariamente com a história dos judeus, marcada ela também por um percurso cíclico de calamidades, provocadas pelo afastamento deste povo em relação Deus e consequente castigo, seguido do perdão divino e uma nova ligação ao Senhor. E uma história de percurso cíclico aquela que caracterizou a vivência dos judeus, ao longo dos séculos (TAVARES, 1991, p. 141).

A principal característica da esperança messiânica judaica é o fim da diáspora, pois o libertador viria e levaria o povo de volta para a terra que o próprio Deus reservou a Abraão e seus descendentes, conforme a narrativa bíblica de Gênesis 12. O Messias restauraria a monarquia de Davi e reuniria as tribos perdidas, como se segue os versículos de Amós:



Naquele dia, levantarei a tenda desmoronada de David repararei as suas brechas, levantarei as suas ruinas e a reconstruirei como nos dias antigos. (...) Mudarei o destino de meu povo, Israel; eles reconstruirão as cidades devastadas e as habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, cultivarão pomares e comerão os seus frutos. Eu os plantarei em sua terra e não serão mais arrancadas de sua terra, que eu lhes dei, disse Iahweh teu Deus (AMÓS 9: 11, 14 e 15).

Importante, lembrarmos que a crença messiânica portuguesa, ganhou força em um momento onde, tecnicamente não existiam mais judeus no reino, por conta do batismo forçado de D. Manuel. Neste momento especial de afirmação da identidade religiosa frente a uma imposição estatal é que aparecem esses devaneios. Pois, como outrora colocado o ideal messiânico é um característica integrante do pensamento judaico. Não queremos reduzir a amplitude do ideal messiânico, única e exclusivamente ao judaísmo. Historiadores respeitados como Norman Cohn, nos apresenta um panorama de redenção que se estende desde o Egito Antigo, passando por Mesopotâmia e Pérsia (COHN, 1996), no entanto não é nosso objetivo tratar sobre outros, que não os judeus, na especificidade de Portugal no século XV e XVI.

Não podemos entender as expectativas messiânicas judaica/cristã-nova em Portugal sem ao menos citar o panorama mundial, pós Invasão Turca e Reforma Protestante. Os anos finais do século XV e o inicio do século XVI é infestado de pensamentos apocalípticos em parte significativa Europa. Jean Delumeau nos orienta com relação a isso, afirmando que:

Há unanimidade entre os historiadores em considerar que se produziu na Europa, a partir do século XIV, um reforço e uma difusão mais ampla do temor dos tempos derradeiros (DELUMEAU, 1996, p. 206).
As esperanças messiânicas se tornam mais palpável entre a comunidade esperançosa quando por volta de 1526 chegou a Portugal vindo de Roma David Reubeni. Com uma carta de apresentação do Papa Clemente VII e se declarando embaixador de um longínquo reino judeu na Arábia governado por seu irmão. Este homem descrito como “preto, miúdo, esquelético e, no entanto cheio de coragem, de arrojo e de comportamento decidido(KAYSERLING, 2009, p. 216) é recebido na corte de Dom João III onde foi acolhido com muitas honras e em seu pronunciamento disse-lhe:
Eu sou Hebreu e temo o Senhor, Deus do Universo; meu irmão, rei dos judeus a Vós me enviou, rei e senhor, a fim de pedir auxílio. Ajude-nos, pois, para que possamos guerrear contra turco Solimão e arrancar de seu poder a Terra Santa (apud KAYSERLING, 2009, pp. 216-217).
O rei, interessado no poder que poderia exercer nestas regiões ainda não exploradas pelo imperialismo português, não recusou o pedido do suposto embaixador, ao contrário, combinou um plano de como enviar ajuda bélica portuguesa ao reino israelita na Arábia.

Como já exposto, David Reubeni se apresentava como embaixador, político e com pretensões de pedir ajuda da cristandade contra um inimigo comum, o também império expansionista turco. No entanto a notícia da presença de um príncipe judeu em Lisboa e a honra que este recebera do rei provocou excitação entre os criptojudeus em Portugal, alguns o consideraram o Messias salvador enviado por Deus, já que a aparição deste estava de acordo com o tempo estipulado nos estudos proféticos de D. Isaac Abravanel.

O aparecimento de David Reubeni fascinou na capital portuguesa um jovem cristão-novo chamado Diogo Pires, que por ter recebido boa educação ocupava o cargo de escrivão dos ouvidores na Casa de Suplicação. Grande estudioso de Cabala, o jovem em questão, já tinha conhecimento de hebraico e Aramaico e aos 24 anos já tinha escrito uma poesia sinagogal esmerada entre seus pares (KAYSERLING, 2009).

O surgimento de Reubeni causou grande fervor místico em Pires, que atormentado por visões e sonhos de fundo messiânico mudou seu nome de batismo para o nome judeu Salomão Molcho e buscou aproximação com o dito embaixador para que este desvendasse e interpretasse seus sonhos, contudo foi recebido friamente e quase repelido (KAYSERLING, 2009, p. 217).

Sobre a ação adotada por Salomão Molcho diante da não aceitação de Reubeni, Kayserling (2009) narra:
Pensando que o príncipe e suposto Messias o ignorasse por não trazer ainda em si o sinal do pacto, sujeitou-se a essa perigosa e dolorida operação, de que resultou uma hemorragia que o acamou (p. 217).
A notícia que o jovem tinha se circuncidado trouxe grande indignação a Reubeni, que sabia do perigo que isto traria se o rei soubesse que um cristão-novo se convertera ao judaísmo através de um ato tão decisivo como aquele, sem dúvida o acusariam de influenciar o mancebo.

Reubeni se preocupava com sua imagem diante da monarquia portuguesa, mas durante sua estada no país surgiram diversas lendas sobre seus objetivos ali. Dizia-se que o embaixador a mando de seu irmão reconduziria a nação judia dispersa para a Palestina (DELUMEAU, 1997 p. 183) e que ele estava recrutando um exército de trezentos mil guerreiros para lutar contra os turcos e reconquistar a Terra Santa (AZEVEDO, 1918).

Diogo Pires, ou o agora Salomão Molcho dizia ter recebido sonhos em que Deus o ordenava a abandonar Portugal e seguir em direção ao oriente. Ele seguiu os ordenamentos celestiais e rumou para a atual Turquia. Por onde o jovem passou conquistou muitos adeptos. Seus sermões contagiantes cujo conteúdo principal era a eminente vinda do Messias o obrigou, a pedido de muitos, publicar um resumo de seus sermões em 1529 na cidade de Salônica. Fato é que: a fama de Pires Molcho crescia principalmente entre os Sefarditas de parte da Europa, inclusive entre seus antigos companheiros de sofrimento, os cristãos-novos portugueses.

Alguns cristãos-novos espanhóis refugiados na cidade portuguesa de Campo Maior, inflamados de fervor messiânico, munidos de armas nas mãos seguiram para a cidade espanhola de Badajoz, lá provocaram algumas desordens e conseguiram arrancar à força uma mulher do tribunal inquisitorial, tal acontecimento despertou grande fúria entre os membros do clero católico espanhol:


Selaya o inquisidor de Badajoz ficou extremamente furioso e enviou uma carta a Dom João III, que baseado em alguns acordos entre Portugal e Espanha, exigiu a entrega e punição dos envolvidos no incidente (KAYSERLING, 2009 p. 218).
De fato os meliantes foram entregues e pagaram com a vida tal ousadia.

O acontecimento acima descrito causou queixas da rainha de Espanha e a insistência do inquisidor Selaya para que o monarca português seguisse o exemplo do país vizinho. A carta de Selaya, datada de 30 de março de 1528 dizia:


Há três anos havia chegado de longínquo país um judeu profetizando a vinda do Messias, a libertação da nação judaica e a reconstrução do reino hebreu. Este Homem – David Reubeni – teria conquistado muitos criptojudeus a sua causa. Tanto ele como seus adeptos eram hereges na verdadeira acepção da palavra (...) todo o povo judeu deveria ser destruído, e David Reubeni com seus seguidores queimados impiedosamente. (AZEVEDO, 1918 p.194; KAYSERLING, 2009 p. 219).
Neste momento diversos setores da sociedade portuguesa pediam a instauração da Inquisição, pois temiam por sua segurança, não se sabia o que os cristãos-novos, cada vez mais incitados, poderiam vir a fazer. Sabia-se que a cada dia que passava muitos judeus conversos ao cristianismo de forma forçada estavam voltando ao judaísmo e aderindo a causa messiânica. O bispo de Coimbra fez revelações surpreendentes ao rei português dizendo que muitos sábios cristãos-velhos estavam, apesar dos perigos, se voltando à antiga fé de Moises (KASERLING, 2009). De fato descobriu-se em Évora um desembargador chamado Gil Vaz Bugalho que tinha se convertido ao judaísmo neste período (LIPINER, 1993).

É bem sabido, que como já citado, havia um desejo de Dom João III de instaurar em Portugal um tribunal Inquisitorial, este que como sua avó materna nutria ódio pela raça judaica, não pôs em funcionamento a Inquisição em terras lusitanas logo no início de seu reinado, pois foi admoestado pelos ministros de seu pai D. Manuel sobre os problemas econômicos que isso poderia causar ao crescente império. Contudo em 1529 já havia passado mais de oito anos do início de seu reinado, neste contexto o agora “experiente” monarca podia tomar suas próprias decisões. Começou então a série de pedidos do rei português à Santa Sé para a liberação da instauração do tribunal inquisitorial.

Além de Vaz Bugalho tivemos em Portugal diversos núcleos de estudos messiânicos, que possivelmente fora intimamente influenciado pelas ideias do embaixador Reubeni, como o caso de Luís Dias, alfaiate em Setúbal que auto se declarou o messias na década de 1530, ou de Diogo Leão de Constanilha, que se declarava rabino e previa a vinda do Messias para 1544, ou ainda de Gonçalo Annes de alcunha Bandarra, que em suas trovas falava de um rei encoberto que faria de Portugal a cabeça de um vasto império místico. Vale lembrar que Bandarra, apesar de atrair diversos cristãos-novos com seu discurso, não negara o catolicismo e sob pressão afirmou que o Rei Encoberto era de D. João III, rei de Portugal na época de suas trovas (HERMANN, 2005).

De fato os pensamentos messiânicos serão contidos com a instauração do tribunal do Santo Ofício em Portugal em 1536, quando serão acusadas e sentenciadas as principais cabeças dos movimentos messiânicos.

Apesar do tribunal do Santo Ofício ter durado cerca de três décadas em Portugal, o pensamento messiânico não deixou de existir e de assumir características das mais diversas ao longo da História portuguesa.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Lucio. A Evolução do Sebastianismo. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1918.

COHN, Norman. Cosmos, Caos e o Mundo que virá. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente - 1300-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DELUMEAU, Jean. Mil anos de felicidade: uma história do paraíso. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.

GREEN, Toby. Inquisição, o reinado do medo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011

HERMANN, Jacqueline. No reino do desejado: a construção do sebastianismo em Portugal (Séculos XV e XVII). São Paulo: Cia das Letras, 1998.

HERMANN, Jacqueline & VAINFAS, Ronaldo. Judeus e conversos na Ibéria no século XV: sefardismo, heresia, messianismo. In Os Judeus no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

KAYSERLING, Meyer. História dos judeus em Portugal. 2ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.

LIPINER, Elias. O sapateiro de Trancoso e o alfaiate de Setúbal. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

MENEZES, Sezinando Luiz. O Jesuíta e o Sapateiro: De Regno de Christi in Terris Consumatto. Revista Brasileira de História das Religiões, n. XI p. 163-181, 2011. Disponível em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf10/09.pdf. Acesso entre 25/05/2012 a 29/05/2012.

NETANYAHU, Benzion. Don Isaac Abravanel. Statesman and Philosopher. 50ª Ed. New York: Cornell University Press, 1998.

TAVARES, Maria José Ferro. O Messianismo Judaico em Portugal, 1ª Metade do século XVI. Luso-Brazilian Review, p.141-151, 1991. Disponível em http://links.jstor.org/sici?sici=00247413%28199122%2928%3A1%3C141%AOMJEP%28%3E2.0.CO%3B2-U. Acesso entre 01/07/2011 a 01/08/2011.

VAINFAS, Ronaldo. Jerusalém colonial, judeus e portugueses no Brasil holandês. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.



WERBLOWSKY, Zwi. O Messianismo na História Judaica. In UNESCO (org.). Vida e valores do povo judeu. São Paulo: Perspectiva, 1972.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal