ConsideraçÕes sobre descartes alexandre Koyré



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CONSIDERAÇÕES SOBRE DESCARTES

Alexandre Koyré


CONSIDERAÇõES sOBRE DESCARTES
2a edição
Editorial Presença

TÍtulo original ENTRETIENS SUR DESCARTES (cç) Copyright Zditions Gallimard, 1963 Tradução de Hélder Godinho


Reservados todos os direitos para a língua portuguesa à Editorial Presença, LDa. Rua Augusto Gil, 35-A - 1000 LISBOA

1. O MUNDO INCERTO

Três séculos - e que séculos! - nos separam de Descartes e do Discurso do Método. Três séculos é muito tempo: para a história, para a ciência, para a técnica. Muito tempo para a vida. E muito pouco para o pensamento filosófico.
A filosofia, confessamo-lo ‘faz poucos «progressos». Ocupa-se de coisas simples, muito simples. Ocupa-se do ser, do conhecimento, do homem. Coisas simples e sempre actuais. Por isso as respostas dadas pelos grandes filósofos a estas questões tão simples permanecem importantes durante séculos, e mesmo durante milhares dê anos. A actualidade filosófica vem de tão longe como a. própria filosofia. E talvez não haja hoje pensamento filosófico mais actual que o de Descartes. Se não for o de Platão.
Toda a gente conhece o Discurso: todos o lemos. Temos a memória cheia das suas frases descuidadas e encantadoras, cheias de bonomia, de ironia e de sabedoria. Cheias também de «bom senso», daquele «bom. senso» que, e
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Descartes que não leve a mal, ou, mais exactamente, de acordo com ele mesmo, é a coisa mais rara e mais preciosa do mundo.


Lembramo@nos de que «o bom senso é a coisa mais bem -partilhada do mundo, porque tordos pensam possuí-Ia tanto que mesmo os mais difíceis de -contentar em tudo o resto não costumam desejar mais que o que já têm». Apreciámos bem a ironia desta demonstração. Sabemos que o que é importante «não é ter o
espírito bom mas... aplicá-lo bem», e perguntámo-nos todos como é que isso era possível. Recordamo-nos de que é preciso ser firme e resoluto -na acção... «imitando nisso os viajantes que, estando perdidos nalguma floresta, não devem caminhar em circulo... mas andar sempre o mais direito que possam para o mesmo
lado.--- porque deste modo, se não vão dar exactamente aonde desejam, chegarão sempre a
algum sítio onde verosimilmente estarão, melhor que no meio de uma floresta»; que «a leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as pessoas de bem dos séculos passados», e que «não se poderia imaginar nada de tão estranho e de tão pouco crível que não tenha sido dito por algum filósofo».
Desde há três séculos que todos somos, directa ou indirectamente, alimentados pelo pensamento cartesiano, dado que, desde há três séculos justamente, todo o pensamento europeu, todo o pensamento filosófico, pelo menos, se
orienta e se determina em relação a Descartes.
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Por isso, é-nos extremamente difícil darmo-nos conta da importância e da novidade da obra ,de Descartes: uma das mais profundas revoluções intelectuais, e mesmo espirituais, que a


humanidade já conheceu, conquista decisiva do espírito por si próprio, vitória decisiva na estrada dura e árdua que leva o homem à libertação espiritual, à liberdade da razão e da verdade. Ainda mais difícil, senão inteiramente impossível, é imaginarmos a impressão produzida pelo Discurso nos que o liam-há três séculos -pela primeira vez.
Três séculos, digamo-lo de novo, é muito. E embora os problemas filosóficos sejam de facto eternos, não é menos verdade que os
interesses espirituais dos contemporâneos de Descartes diferiam profundamente dos nossos
interesses espirituais. Por isso, o que eles procuravam nesse livro era uma coisa completamente diferente daquilo que nós ai procuramos.
De resto, o Discurso do Método que eles **p~uíam, o que saiu da imprensa de Jean Maire, em Leyde, no ‘dia 5 de Junho do ano de 1637, era muito diferente do que nós lei-nos hoje. O Discurso do Método não era para eles o que é para nós.
Para nós, o Discurso do Método é um livrinho encantador que contém sobretudo e antes de mais uma autobiografia espiritual de Descartes; as famosas quatro regras de que não sabemos que fazer e de que retemos nomeada-
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mente as passagens sobre as «ideias claras e


distintas», mandando-nos não ter por verdadeiro senão o que vemos evidentemente sê-lo, e conduzir as ideias por ordem, começando pelas coisas mais simples e mais fáceis; um pequeno esboço de moral, bastante estóica e
razoavelmente conformista; um pequeno tratado de metafísica, bastante abstruso, com o famoso «penso, logo existo» e uma exposição -apaixonante para o historiador mas muito aborrecida para o homem de bem dos nossos dias - de pesquisas científicas feitas e a fazer. Sabemos, sem dúvida, que o Discurso possuía ainda um apêndice composto por três ensaios: Dióptrica, Meteoros, Geometria, que já não lemos. As nossas edições correntes, de resto, já não os trazem.
Para os conterrâneos de Descartes as
coisas passavam-se de outra maneira. O Discurso do Método ou, para usarmos o título exacto, o Discurso do Método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências, mais a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria, que são os Ensaios deste método, era um volumo eo -livro - 527 páginas** in-4.O - que continha três tratados científicos de uma novidade surpreendente e de um interesse capital: a Dióptrica, ou seja, um tratado de óptica compreendendo nomeadamente uma teoria da refracção da luz que, pela primeira vez, dava a sua lei

- a lei do seno -, -assim e~ um estudo dos novos instrumentos - o telescópio, o óculo de


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alcance -que acabavam de transformar o nosso


conhecimento do Universo; os Meteoros, ou seja, um estudo dos fenómenos celestes ou, mais exactamente, atmosféricas: as nuvens, a chuva e o granizo, o arco-íris e os **parélios explicados pelos meios mais simples e mais naturais-o movimento da matéria que enche o espaço, a refracção fia luz nas gotas de chuva. Enfim, a Geometria, ou seja, um tratado de álgebra, que revolucionava a concepção recebida das ciências matemáticas ao estabelecer uma comunidade entre domínios tão diferentes como os do espaço - quantidade contínua - e
do número - quantidade discreta. Esta Geometria trazia uma teoria geral das equações com uma notação nova -a mesma que ainda empregamos - e, entre outras coisas, uma solução elegante, por métodos algébricos, do célebre problema geométrico de **Pa4ppus. Além disso, o livro continha, composto e mesmo paginado à parte, um longo prefácio, o Discurso propriamente dito que, além de uma exposição e de um programa de pesquisas científicas extremamente sugestivo, oferecia um esboço metafísico muito curioso e arrojado, um pequeno tratado de método e, enfim, uma autobiografia espiritual do autor.
Para os contemporâneos de Descartes, e
para o próprio Descartes, o Discurso do Método

- introdução a uma ciência nova, anúncio de uma revolução intelectual de que uma revolução ,científica será o fruto - é um prefácio. Nós


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esquecémo-lo. Não sem razão, sem dúvida, dado que os Ensaios ou tratados puramente científicos que o volume continha estão irremediavelmente ultrapassados, envelhecidos, caducos, enquanto o Discurso mantém ainda a sua frescura. No entanto, foi aos Ema” que o Discurso-prefácio deveu -a fortuna, a influência e a repercussão.


Os tratados de método não eram raros na época cartesiana. E o último em data, o Novum Organum de Bacon 1, trazia, ele também, um
«Método» novo. Um método conduzindo a uma ciência nova, ciência activa, «operativa», oposta por isso mesmo à ciência puramente contemplativa do passado. Essa ciência nova, que devia transformar a condição humana e fazer do homem o «senhor e possuidor da natureza», Descartes anunciava-a igualmente. Mas não se limitava a anunciá-la: essa ciência nova, ele trazia-a e dava-nos resultados. O seu «método» não era desenvolvido em abstracto: resumia, formulava, codificava um uso realmente experimentado. E era o uso, a aplicação concreta, que demonstrava o seu valor e, por sua vez, era a única coisa que permitia compreender o sentido verdadeiro e profundo das regras bastante vagas e banais que o Discurso dava.
Quem é que, com efeito, já alguma vez pôs em dúvida que o filósofo, e%quanto tal, não
1 Novum Organum Scientiarum, Londini, 1620.
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devesse submeter-se somente à evidência da razão? E quem é que -até aos nossos dias, pelo menos- alguma vez negou o valor superior da ideia clara sobre a obscura? Ninguém. Como ninguém nunca contestou o valor da ordem e a necessidade de começar pelas coisas mais simples e mais fáceis, e não, inversamente, pelas mais difíceis e mais complicadas. São lugares comuns da filosofia. Mas qual é essa clareza que devemos procurar? Qual é essa


ordem que devemos seguir? Quais são essas c~ simples e fáceis pelas quais devemos começar?
n na resposta a estas perguntas que consiste a reforma cartesiana. E essa resposta - verdadeira revolução - não é só no Discurso mas também nos Ensaios que a devemos procurar.
O aparecimento do Discurso do Método fez bastante barulho entre os eruditos. Por causa do seu conteúdo, sem dúvida. Mas também por causa do autor. O nome -deste não aparecia, é verdade, na capa: Descartes apresentava-se ao público guardando um anonimato orgulhoso. Mas os iniciados, ou seja, todos os membros da República das Letras, estavam bem ao corrente. Toda a gente sabia que se tratava de Descartes.
Em 1637, Descartes não era, sem dúvida, aquilo em que se tornou poucos anos -mais tarde: o grande, o célebre filósofo, o primeiro espirito do seu tempo. A efervescência das ideias ainda
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não tinha começado nas alcovas e não se discutiam assuntos subtis nos salões. Não era, no entanto, propriamente um desconhecido.

O mundo literário e sábio * era mais pequeno. As pessoas conheciam-se melhor. Descartes tinha vivido em Paris, frequentado os meios científicos, onde ainda se lembravam do homenzinho ,colérico e bizarro -não suportava a contradição, levantava-se tarde e detestava as visitas -
que se costumava encontrar em casa de Mersenne, de Bérulle, de Gibieuf. Sabia-se que ele tinha bruscamente deixado Paris para se ir enterrar em qualquer buraco da Holanda. Mas mantivera relações epistolares com Mersenne, essa caixa de correio do mundo sábio, segundo a qualificação pouco amável de Huygens (que não podia com ele), ou, se se preferir, esse procurador-geral da República das Letras, como lhe tinha, mais gentilmente, chamado Hobbes, que lhe devia muito. E o P.e Mersenne era o último homem capaz de guardar qualquer coisa só para si. Sobretudo uma novidade. Ou uma carta. E toda a gente sabia que Descartes era um grande sábio e um grande filósofo, que preparava um Mundo ou Tratado da Luz, que era partidário do movimento da terra, -que tinha prometido a Balzac a história do seu itinerário
* Nas Conferências sobre Descartes, sábio traduzirá sempre, desde que não haja indicação em contrário, savant (.X. T.)
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espiritual. Por isso, esperavam-na cem, impaciência.


O Discurso do Método, decerto não desiludiu as expectativas. A parte científica da obra era verdadeiramente muito bela, original e nova.
Por isso, será discutida com calor: os sábios e os matemáticos da época, Fermat e Roíberval, Beaugran@d e Mydorge, objectam, discutem, comparam, lançam-se problemas, desafios e invectivas. Desenvolve-se uma polémica epistolar. Tudo para grande alegria de Mersenne: esta alma doce e cândida do que. mais gostava era de uma boa zaragata literária.
O Prefácio - o nosso Discurso, - provocou, também,, um interesse muito, vivo. E memo, um certo espanto.
Repitamos que nós estamos demasiado acostumados ao Discurso, a nele ver um grande filósofo contar-nos a história da sua vida espiritual. Isso parece-nos natural e normal. E já não vemos quanto, pelo contrário, é insólito, singular, surpreendente.
Que um sábio ou um filósofo, hoje em dia, tendo feito algumas bolas descobertas, nos exponha os caminhos e meios, os métodos, que lhe permitiram obtê-las é absolutamente natural e normal. Que um sábio ou que um filósofo, tendo descoberto um método de pesquisa novo, no-lo exponha e nos dê, além disso, alguns exemplos

- amostras - das suas possibilidades, do seu


valor, também é absolutamente natural e normal. Mas que nos conte a esse propósito a
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sua biografia -ai está o que seria surpreendente.


Imaginamos Einstein ou de Broglie a contarem-nos a vida -mesmo a vida espiritual -
antes de nos exporem a teoria da relatividade ou a mecânica ondulatória? Não, não é verdade? Ora, Descartes fá-lo. Porque é então que se
julga obrigado a fazê-lo? Porque é que se nos confessa? É verdade que no-lo diz. Mas as razões que nos dá não me parecem ser as verdadeiras.
Que nos diz ele, com efeito? Que teve a
sorte de descobrir um «método» que lhe permitiu fazer grandes progressos no estudo das ciências e que expõe a fim de que os leitores o possam aproveitar.
De resto, aqui vai o texto: «Penso que tive muita sorte em me ter encontrado desde a juventude em certos caminhos que me conduziram a considerações e a máximas com as quais formei um Método pelo qual me parece que tenho possibilidade de aumentar gradualmente * -meu conhecimento e levá-lo ao mais alto ponto * que a mediocridade do meu espírito e a curta duração da minha vida poderão permitir-lhe chegar; [ ... ] já tirei dele tais frutos que, embora no juízo que faço de mim próprio trate sempre de me inclinar para o lado da desconfiança mais que para o da presunção, e que, olhando com olhos de filósofo as diversas acções e empresas de todos os homens, não haja quase nenhuma que não me pareça vã e inútil, não
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-deixo de receber uma extrema satisfação dos progressos que penso já ter feito na procura da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens houver alguma que seja solidamente boa e importante, ouso crer que é a que eu escolhi.» Mas, no fim de contas, pode ter-se enganado e ter tomado cobre e vidro por diamantes e ouro. Por isso, diz-nos: <0 meu desígnio não é ensinar aqui o Método que cada um deve seguir para bem conduzir a sua razão, mas somente fazer ver de que modo tratei de conduzir a minha ... não proponho este escrito senão como uma história, ou, se preferem, como


uma fábula, na qual, entre alguns exemplos que se podem imitar, se encontrará talvez também vários outros que se fará bem não seguir,» E Descartes acrescenta: «Espero que ele (este escrito) venha a ser útil a alguns, sem ser
nocivo para ninguém, e que todos apreciarão a minha franqueza ... »
Que modéstia comovente e encantadora! Ora, se é certo que a solicitude, que o desejo ,de ajudar os seus contemporâneos, a humanidade inteira, é um dos motivos mais poderosos, e na maior parte das vezes menosprezado, da actividade filosófica de Descartes - não é uma lei, e mesmo a lei suprema da moral, essa moral da generosidade que Descartes nos ensina, «que nos obriga a procurar tanto quanto de nós depende o bem de todos os homens» ? -,’ se é
exacto que a descoberta do «método» foi con-
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siderada por ele como uma «sorte», senão como uma graça, não é menos verdade que a modéstia -nunca foi o defeito principal de Descartes, desse homem que nunca julgou ter aprendido, e mesmo


poder aprender, fosse o que fosse com alguém, desse homem que se propusera refazer sozinho o sistema do mundo e substituir Aristóteles nas escolas da cristandade.
Quanto às razões que alega, parecerão realmente suficientes? Pessoalmente, julgo que não. Dir-me-ão, sem dúvida, que Descartes, no fim de contas, sabia melhor que ninguém aquilo que fazia, e porquê; que era mesmo o único a verdadeiramente o saber. Com certeza. Mas Descartes é um homem prudente e dissimulado que pensa no que diz e não diz o que pensa. Ou, pelo menos, tudo o que pensa. Não escreveu ele nas suas Cogitatio-nes privatae: larvatus prodeo, caminho mascarado? E, a Mersenne, um dos dois ou três homens em quem tinha plena confiança: bene vixit qui bene latuit *.
Não lhe levemos a mal tomar precauções. A aventura de Galileu é ainda muito recente, e Descartes não tem qualquer desejo de a ver renovar-se à sua custa. Ora, a mensagem que ele traz ao mundo é bem mais perigosa - e Descartes dá-se conta disso - que a do matemático florentino. A ciência nova, essa ciência de que os **Emaios nos trazem amostras, não se **conBean viveu quem bem se ocultou. (N. T.)
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tenta com tirar o homem, e ia Terra, do centro do Cosmo: esse Cosmo, quebra-o, destrói-o,,aniquila-o ao abrir em seu lugar a imensidade sem limites do espaço ilimitado. E quanto ao Método, empreendimento de revisão sistemática e crítica de todas as nossas ideias, que t~ são -chamadas por ele a justificarem-se diante do tribunal da razão, Descartes por mais que queira - muito sinceramente, sem dúvida restringir-lhe o alcance, por mais que nos assegure que nunca quis fazer outra coisa senão reformar as suas próprias ideias, com as quais, no fim de contas, é livre de fazer o que lhe apetecer, não pode deixar de se dar conta que acaba de aperfeiçoar a mais formidável máquina de guerra - guerra contra a autoridade e a tradição - que o homem alguma vez possuiu. E que os temperamentos «conflituosos e inquietos» não ligarão nenhuma às suas restrições dele, Descartes, e que, apropriando-se da ar-ma que acaba de forjar, não se deterão nem diante da autoridade da Igreja, nem diante da realidade do Estado: dois valores tradicionais que ele bem teria querido salvaguardar. Por isso, não temos que nos basear na «franqueza» de Descartes que, de resto, a apregoa demasiado.


Então, o problema continua intacto. Porque é que nos conta a vida ? Problema grave e que toca no próprio fundo do pensamento de Descartes.
Creio, por mim, que ele o faz por razões muito profundas. Exactamente contrárias, ainda
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para mais, àquelas, muito superficiais, que nos dá. Estas implicariam, com efeito, que o método cartesiano, esse método que (segundo o título primitivo do Discurso) Descartes declara ser capaz de «levar a natureza humana ao seu mais alto grau de perfeição», só teria um valor estritamente pessoal, subjectivo, individual. Bom para uns, poderia não o ser para outros! Ora, nada é menos cartesiano que isso. Implicariam, em seguida, que, neste método, cada um pode escolher o que lhe agradar. Agarrar umas coisas e deixar ficar outras. Nada, de novo, é menos cartesiano. O método, método da dúvida e das ideias claras, forma um bloco de que não se pode separar nada. E é o método, ou seja, o caminho, o único caminho capaz de nos libertar do erro e levar-nos ao conhecimento da verdade.


Sim, sem dúvida que o método de Descartes não é de aplicação universal. O caminho que seguiu não serve para toda a gente, e Descartes não propõe como um modelo que toda a gente devesse imitar. -2 que é muito penoso, muito longo, muito perigoso, e só aproveita aos que têm a força necessária para o seguir até ao fim. Para toldos os outros, para todos os que «julgando-se mais hábeis que o que são, não se podem impedir de precipitar os seus juízos nem
têm paciência suficiente para conduzirem por ordem todos os seus pensamentos ( ... ) », tal como para todos os «que, tendo razão bastante, ou modéstia, para julgarem que são menos
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capazes de distinguir o verdadeiro do falso do que alguns outros pelos quais podem ser instruídos, devem preferivelmente contentar-se com seguir as opiniões desses. outros em vez de procurarem eles próprios melhores», o exemplo cartesiano não convém de maneira nenhuma. Só poderia ser-lhes prejudicial, porque « se alguma vez tivessem tomado a liberdade de duvidar dos princípios que receberam e de se afastar -do caminho comum, nunca seriam capazes de se manter no atalho que é preciso tomar para se ir a direito e permaneceriam perdidos durante toda a vida». Ora, «o mundo quase que é só composto por [estas] duas espécies de espíritos ... » Não é para eles, não é para a multidão que Descartes escreve, mas para os que tiverem as forças necessárias e forem capazes de o seguir até ao fim. Também não era para a multidão que Platão compunha os seus diálogos e que Santo Agostinho escrevia a sua história: a história da sua conversão a Deus. Porque se no Discurso, essas Confissões cartesianas, Descartes nos conta a história da sua vida espiritual, a história da sua conversão ao Espírito, não o f &z para no-la dar a conhecer no ;que ela tem de individual, de pessoal, de singular. Conta-no-la, pelo contrário, para nos


fazer reflectir seriamente, para nos fazer ver
nessa história individual, pessoal, o resumo, a expressão da situação essencial do homem do seu tempo, E para nos levar a realizar; com ele, os actos essenciais, os únicos que permitem
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ao homem superar e vencer o mal do seu tempo. E do nosso.


Esse mal do seu tempo, essa situação existencial, podemos exprimi-los em duas palavras: incerteza e confusão.
Estados de alma que se explicam, de resto, facilmente pela história da época que precede Descartes.
O século Xvi foi uma época de importância capital na história da humanidade, uma época de um enriquecimento prodigioso do pensamento e de uma transformação profunda da atitude espiritual do homem; uma época possuída por uma verdadeira paixão da descoberta: descoberta no espaço e descoberta no tempo; paixão pelo novo e paixão pelo antigo. Os seus eruditos desenterraram toldos os textos enterrados nas velhas bibliotecas monásticas. Leram tudo, estudaram, tudo, editaram tudo. Fizeram reviver todas as doutrinas esquecidas dos velhos filósofos da Grécia e do Oriente: Platão e Plotino, o estoicismo e o epicurismo, o cepticismo e o pitagorismo, o hermetismo e a cabala. Os seus sábios tentaram fundar uma ciência nova, uma física nova e uma nova astronomia; os seus viajantes e aventureiros sulcaram os continentes e as mares, e os relatos das suas viagens levaram à concepção de uma geografia nova, de uma nova etnografia.
Alargamento sem igual da imagem histórica, geográfica, científica do homem e do mundo.
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Fervilhamento confuso e fecundo de ideias novas e de ideias renovadas. Renascimento de um mundo esquecido e nascimento de um mundo novo. Mas também: crítica, abalo, e enfim dissolução e mesmo destruição e morte progressiva das antigas crenças, das antigas concepções, das antigas verdades tradicionais que ,davam ao homem a certeza do saber e a segurança da acção. De resto, uma coisa supõe a outra: o pensamento humano é, na maior parte dos casos, polémico. E as verdades novas estabelecem-se, quase sempre, sobre o túmulo das antigas.


Seja qual for, de resto, a validade desta tese geral ela é verdadeira para o século xvi. Que ,tudo abalou, tudo destruiu: a unidade política, religiosa, espiritual da Europa; a certeza da ciência e a da fé; a autoridade da Bíblia e a
‘de Aristóteles; o prestígio da Igreja e o do Estado.
Um amontoado de riquezas e um amontoado de escombros: tal é o resultado desta actividade fecunda e confusa, que tudo demoliu e nada soube construir, ou, pelo menos, acabar. Por isso, privado das suas normas tradicionais de juízo e de escolha, o homem sente-se perdido num mundo que se tornou incerto. Mundo onde nada é seguro. E onde tudo é possível.
Ora, pouco a pouco, a dúvida instala-se. Porque se tudo é possível, é que nada é verdadeiro. E se nada é seguro, só o erro é cexto.
Não sou eu quem tira esta conclusão pessi-
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mista do esforço magnífico da Renascença. Três homens, três contemporâneos, tirara~a antes de mim: Agrippa, Sanchez e Montaigne.


Desde 1530, depois de ter passado em
,revista todos os dominos do saber humano, Agrippa proclama a incerteza e a vanidade das ciências 2. Cinquenta anos mais tarde, depois de ter submetido a exame crítico a humana faculdade de conhecer, Sanchez reitera, e mesmo, agrava, o julgamento: Não se sabe nada,,. Nada se pode conhecer. Nem o mundo, vem nós próprios. Enfim, Montaigne acaba e faz o balanço: o homem nada sabe, porque o homem não é nada.
O caso de Montaigne é muito particularmente instrutivo e curioso: este grande destruidor só o é, na realidade, contra sua vontade.

O que ele queria demolir não era, de início, senão a superstição, o preconceito e o erro, o fanatismo da opinião particular que se faz passar por verdadeira e se julga tal sem razão. Não é por culpa sua se a sua critica lhe deixa as mãos vazias: de facto, nada é mais que «opinião» num mundo incerto.

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