ConsideraçÕes sobre o tema mulher na antigüidade1



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CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMA MULHER NA ANTIGÜIDADE1.

Silvia Márcia Alves Siqueira2

Essa comunicação tem por objetivo acrescentar reflexões acerca do tema proposto pelo Congresso : Antigüidades; para tanto apresenta-se a temática mulher no mundo antigo e o enfoque final da apresentação visualiza o tema na Antigüidade Tardia.

Muitas idéias sobre o assunto tem sido discorridas, assim como variadas e diversificadas concepções construídas, redimensionadas e, apesar disso, há ainda questionamentos sobre a possibilidade de se falar de uma história efetivamente feminina na Antigüidade (Duby, Perrot, 1990:7), decorrente de uma multiplicidade de fatores, um deles efetivamente condicionante é justamente a escassez de fontes documentais relativas à figura feminina e o seu universo social.

Contudo, apesar das barreiras, com a emergência das lutas sociais e correntes feministas, lentamente configura-se no seio das ciências humanas, uma preocupação com o lugar ocupado pelas mulheres na sociedade em períodos diversificados, ou seja, uma busca pelo feminino na história. É, então a partir daí, que uma longa e profícua trajetória delimita-se. Alijada à diversidade e a interdisciplinaridade estudiosos e estudiosas dos mais variados campos buscam respostas reflexivas aos mais distintos ângulos relacionados ao tema Mulher.

Os pesquisadores da Antigüidade também aderiram às novas propostas epistemológicas e buscaram no mundo antigo dar visibilidade ao feminino. Pauline Pantel em A história das mulheres na história da Antigüidade hoje (1990:591/603), esclarece a trajetória e o desenvolvimento das investigações acerca do tema Mulher na Antigüidade, chamando a atenção para o lugar que a história das mulheres ocupa na escrita da história antiga. Segundo ela, apesar de estudiosos da Antigüidade greco-romana serem, no conjunto, pouco receptivos à investigações sobre esse tema específico, pesquisadores tanto helenistas quanto romanistas foram estimulados por uma intensa interdisciplinaridade e uma destacada contribuição da História e da Antropologia, fatores desencadeadores de uma rápida expansão das idéias e a intensificação das pesquisas.

O trabalho inicial se constituiu em releituras das documentações no sentido de uma reelaboração de reflexões que correspondessem às novas metodologias abrangendo diversificadas culturas e variados períodos no mundo antigo. As primeiras pesquisas tentavam dar identidades às mulheres, as investigações se orientavam para a reflexão acerca dos sentimentos, sexualidade e o mundo privado das mulheres. Decorridas as produções e reflexões iniciais os estudos seguiram uma dinâmica e novos questionamentos emergiram de maneira a melhor compreender a mulher não isolada do seu contexto social, mas em uma situação relacional, de forma a entender com mais cuidado as relações entre o masculino e o feminino nas práticas sociais e nos discursos. Dessa forma, Pantel afirma que as pesquisas se orientavam para a produção, os bens, as dádivas, os gestos rituais, a morte, o vestuário.

Contudo, advinda dessas pesquisas novas exigências se colocaram e novos questionamentos se impuseram a mais uma vez uma nova trajetória delimitou-se em direção aos estudos dos contextos de dissimetria entre os sexos, descrevendo a relação em “justa proporção” entre homens e mulheres e os outros modelos sociais e culturais. Dessa forma as pesquisas buscavam entender ambos os sexos em um aspecto relacional e justamente nessa relação é que se deve destacar as construções das desigualdades advindas do contexto social, econômico e cultural.

Entretanto, apesar dessa proveitosa dinâmica de constituição epistemológica do tema Mulher na Antigüidade, ainda sofre, conforme discorrido anteriormente, com a limitação de documentos. Situação de certa maneira contraditória, pois se por um lado, há pouca documentação em escritos de mulheres, por outro lado, existe uma abundância de fontes documentais que contêm um olhar dos homens sobre elas e o mundo (Alexandre, 1990:531). Dessa forma, é por meio de discursos masculinos que o feminino é procurado: nos mitos, na poesia, na história, nos romances, nos tratados médicos e filosóficos, na legislação, na iconografia, etc. Nessa imensidão documental destacam-se imagens, contudo elas não apresentam as mulheres e sim a imagem que os homens fazem delas (Duby, Perrot, 1990:8), assim como nos discursos, normativos ou não, as mulheres são definidas e aconselhadas quanto as suas posturas e comportamentos.

Nesse sentido, conforme Funari, a construção de uma história das mulheres na Antigüidade é fundamental uma análise holística, interdisciplinar, de forma a conter estudos sobre literatura, língua, antropologia, arqueologia, história da arte, e outras especialidades (1995:179/200). Apenas analisar o papel ocupado pela mulher na Antigüidade não é suficiente para uma reflexão profunda e cuidadosa. Antes de mais nada é de fundamental importância uma investigação mais ampla auxiliada pela interdisciplinaridade, no sentido de apontar um contexto mais diverso da vida feminina no mundo antigo, de maneira a compreender a formação de um modelo de discurso sobre o feminino. Dessa forma, a reflexão deve abarcar experiências, motivações, ações, idéias, situações e chances de inserção no contexto social e cultural, percebendo e analisando a construção de hierarquias sexuais, as possíveis relações de poder, inclusive, suas transformações culturais.

Deve-se buscar na análise dos discursos masculinos acerca das mulheres, a chave para os variados questionamentos impostos pelo tema. Gillian Clark (1994:1/5) afirma que os discursos masculinos são elucidativos a esse respeito, pois são eles os agentes evidenciadores de como as vidas das mulheres foram percebidas, interpretadas e regulamentadas com a predominância de determinadas idéias, suposições e interesses. Seguindo essa linha Del Priore (1998) argumenta que deve-se identificar a mulher em cada lugar observável, nomeá-la, reconhecê-la e compreender em que circunstâncias ela foi espoliada na sua relação oficial com o mundo masculino. É importante conhecer os instrumentos e as engrenagens que motivaram tais imagens e perceber por que elas subsistem, entendendo quais os mecanismos que ordenam o poder masculino no sentido de submeter a mulher, ocultando sua atividade.

Destaca-se aqui como ilustração o trabalho Women in Late Antiquity - pagan and Christians lifestyles de Gillian Clark (1994), a autora explora cuidadosamente como foi a vida das mulheres romanas na Antigüidade Tardia, assim que o cristianismo torna-se oficial, preocupando-se em apresentar tanto mulheres pagãs quanto cristãs. Trata-se de um trabalho elucidativo de como foi a vida das mulheres e de que forma os discursos dominantes guiaram a existência feminina.

As fontes documentais utilizadas para o desenvolvimento do trabalho são os textos Patrísticos, o Código Teodosiano, o Corpus Iuris Civilis do período de Justiniano, os textos médicos: Corpo Hipocrático de Hipócrates, trabalhos de Galeno: Claudii Galeni Opera Omnia, a Ginecologia de Sorano e o Corpo médico de Oribásio. Ao analisar essa documentação a autora busca com base nos discursos responder questões sobre a mulher na Antigüidade Tardia, tais como quais escolhas a mulher podia fazer? Quais constrangimentos social, prático ou legal limitaram suas escolhas? Havia além do casamento e da vida doméstica outras opções? Como era a vida de uma dona de casa? Que tipo de educação e saúde elas tiveram acesso? Quais condutas ideais foram ensinadas à elas?

Seguindo sua reflexão Clark afirma que como em qualquer época, também nesse período as mulheres são domésticas. A posição social pública é desapropriada para elas a menos que sejam membros da casa imperial; é esperado que manifestem as virtudes tradicionais de modéstia, castidade, e devoção aos deuses e à família. O objetivo da vida das mulheres é o casamento e a gravidez, e este também é o fator mais importante na saúde delas. Devem ser protegidas da exploração de sua fraqueza por homens indignos de confiança e prevenidas de auto-afirmação, falta de modéstia. Quanto aos seus defeitos apontam o fato de falarem muito e se preocuparem demasiadamente com sua aparência, necessitando de ajuda para conter seus impulsos, não obstante, há presença de mulheres boas que são fiéis, modestas e competentes em suas vidas domésticas e conseguem entender e agir conforme os princípios morais. Virtudes que são manifestadas apenas na vida privada.

Algumas dessas questões foram questionadas por crenças cristãs, mas o Cristianismo, assim como outras religiões da mentalidade predominante, mantêm a mesma postura com relação à mulher. A reivindicação Cristã que os homens e mulheres são espiritualmente iguais não teve nenhuma conseqüência mais prática, assim como a reivindicação filosófica que as mulheres podem manifestar as mesmas virtudes como os homens.

No entanto, o Cristianismo introduz uma prática que acomunava homem e mulher em um compromisso com Deus que podia requerer o abandono dos deveres com a família e Estado. Pela primeira vez, algumas mulheres podiam rejeitar o casamento e a gravidez, e viver em casa com suas mães, ou em solidão, ou em uma comunidade de mulheres. A oração e estudo de Bíblia podiam deslocar os afazeres da vida doméstica, as mulheres sempre puderam participar em cultos religiosos e fazer oferecimentos aos deuses, podiam alcançar fama duradoura dedicando à Igreja e ao serviço de Deus.

Pode-se surpreender pela depreciação geral Cristã da feminilidade naquele período, os sofrimentos que algumas mulheres infligiram a elas mesmas e as suas famílias, e o elogio que seus comportamentos evocaram. Não há como avaliar os lucros ou perdas espirituais. Mas poucos lucros práticos, não só para aqueles que ficaram famosos, mas para as mulheres pobres cujas vidas entram em enfoque. Algumas mulheres foram reconhecidas, pelo menos, como membros da Igreja, dando comida e vestindo aqueles beneficiados pelas pessoas ricas sobre quem elas não tiveram reivindicação pessoal, salva de morrer nas ruas, ou até mesmo levadas para as comunidades de mulheres cuja austeridade era o maior conforto que elas alguma vez tinham conhecido.

Desta feita, o trabalho realizado por Gillian Clark, só foi possível evidenciando vários aspectos sociais, culturais, religiosos, políticos, educacionais, econômicos etc. . E uma análise dessa temática a mulher na Antigüidade tardia, deve essencialmente considerar todos os agentes envolvidos, mesmo que a temática seja feminina, a pesquisa deve considerar homens e mulheres em um conjunto reflexivo. Nesse eixo, a tentativa é a de visualizar as mulheres como sujeitos sociais, bem como sua atuação com percursos próprios, agindo ou reagindo conforme os fatos históricos vão se construindo. A literatura trabalhada demonstra discursos que, de uma maneira ou de outra, foram práticas que determinaram também a vida das mulheres. Portanto, deve-se adotar uma postura crítica e de suspeita diante desses discursos e das imagens das mulheres e situá-las longe dos modelos e estereótipos, entre as mais diversas variações e mutações, e analisar as diversas faces das experiências das mulheres em um contexto mais amplo dentro de uma determinada dinâmica, de maneira a perceber a trajetória da construção de um imaginário em relação a elas. Imaginário masculino que as construiu e constitui ainda representações sobre o feminino.

Concluindo essas considerações evidencia-se que a construção das pesquisas sobre mulheres na Antigüidade tem tido sua trajetória marcada por numerosas reflexões permeadas pela busca de um modelo epistemológico adequado à especificidade do tema. Contudo, torna-se claro que é imprescindível a interdisciplinaridade, de forma a conduzir a leitura e análise das fontes documentais permeada por uma revisão metodológica constante e com uma abordagem multidisciplinar de modo que não se perca de vista a idéia de que em todos esses anos, praticamente no decorrer de todo o século XX, as discussões, críticas, avanços e retrocessos nessa trajetória de reflexão dinâmica constituem um legado que hoje pertence a todas as pessoas, mas ainda é necessário aprofundar as respostas para uma questão muito antiga: o que é ser humano e em que medida as ciências, humanas ou não, podem contribuir para essa definição.

A única possível conclusão é, quaisquer que sejam os trabalhos relacionados as Antigüidades, das mais distintas áreas do conhecimento, eles fornecem hipóteses reflexivas e de comparação que permitem levar mais longe a análise, e isto em todos os setores da ciência, contribuindo para um conhecimento mais profundo da história humana.


BIBLIOGRAFIA
ALEXANDRE, M. Do Anúncio do Reino à Igreja - papéis, ministérios, poderes femininos. In: PERROT, Michelle e DUBY, Georges. História das Mulheres no Ocidente -1- A Antigüidade. Trad. Maria Helena C. Coelho e Alberto Couto. Porto : Edições Afrontamento, 1990. P. 511-563.

CLARK, GILLIAN. Women in Late Antiquity – Pagan and Christian life-styles.Oxford: Clarendon Press, 1994.

DEL PRIORE, Mary. História das mulheres: As vozes do silêncio In: FREITAS, Marcos Cezar (org.) Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998.

DUBY,Georges. PERROT, Michelle. (org.). História das mulheres no Ocidente. Porto: Afrontamento, 1993 (v.1- A Antigüidade, v.2- A Idade Média, v.3- Do Renascimento a Idade Moderna, v.4- O Século XIX).

FUNARI, Pedro Paulo. Romanas por elas mesmas. CADERNOS PAGU - 5 -Campinas: IFCH/UNICAMP, 1995. P.179-200.

PANTEL, Pauline S. (ed.). A história das mulheres na história da antigüidade hoje. In: DUBY,G. E PERROT,M. História das mulheres no Ocidente. A Antigüidade. Porto: Afrontamento, 1990, v.1 .



1 - Essa comunicação faz parte do projeto de pesquisa financiado pela FAPESP - Fundação de Amparo a Pesquisa no Estado de São Paulo. “A mulher na visão de Tertuliano, Jerônimo e Agostinho - séc. II -V d.C.”.

2 - Aluna do Programa de Pós-Graduação – Curso História - nível Doutorado. Faculdade de Ciências e Letras – Câmpus de Assis. E-mail: simas@femanet.com.br.


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