Construindo significaçÃO: sons, imagens e ideologia na poesia “coleirinho”, de luis gonzaga pinto da gama



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CONSTRUINDO SIGNIFICAÇÃO: SONS, IMAGENS E IDEOLOGIA NA POESIA “COLEIRINHO”, DE LUIS GONZAGA PINTO DA GAMA

Juliana Mara Rosado*

RESUMO:O leitor de um texto literário muitas vezes acredita estar diante de uma obra inocente que, na verdade, oferece não apenas o despertar de sentidos como também uma fonte de significados que revelam como elementos estruturais funcionam e alicerçam um ponto-de-vista capaz de transformar as concepções do leitor quando diante de uma realidade às vezes não muito aparente. O embasamento a respeito da estruturação de sentido e posicionamento ideológico em visões que se complementam, tendo em vista a funcionalidade de elementos poemáticos como a estrutura do texto, a musicalidade e as imagens mentais suscitadas durante a leitura garantem uma experiência prazerosa de sensações e sentidos que ajudam a ampliar a capacidade de entendimento do próprio leitor enquanto sujeito que se permite o mergulho no mundo literário. Partindo das visões de renomados autores acerca da produção poética, esperamos levantar hipóteses e sugestões de estudo do poema de forma a auxiliar a satisfação da leitura desse mundo literário ao mesmo tempo em que tal leitura produza suficiente efeito de posicionamento crítico do leitor diante do contexto escravagista da realidade na qual o poema se pautou, reiterando que o formato literário garante valor artístico e ideológico à linguagem ao desenvolver a habilidade da leitura de poesia, concebida como um encontro entre as concepções do eu-lírico e do leitor e da realidade circundante.

ABSTRACT: The reader of a literary text many times believes to be reading a naïve production which, in fact, offers not only a way to awaken meanings but also a source of them showing how structural elements work and base a specific point-of-view that is able to transform the reader`s conceptions about a non-apparent reality. Studying the structure of meaning and the ideological positioning in complementary theories searching for the function of the poem structure, music and mental images turns the reading of the literary text into an enjoyable experience with feelings and sensations which help to increase the ability of understanding the own reader him/herself who allows his/her own figure to bathe into the literary world. From the theories of well-known authors studying poetry, we expect to raise hypothesis and suggestion in order to study the poem in a way to increase the joy to read this literary world at the same time that the critical positioning of the reader is developed as facing the context of the slavery reality in which the poem was based on, reinforcing the artistic and ideological values in the literary texts when we can develop the ability to read poetry, conceived as a meeting of the poet’s and the reader’s conceptions of the reality around them.

PALAVRAS-CHAVE: significação; ideologia; poema.

KEYWORDS: signification; ideology; poem.

INTRODUÇÃO

A abordagem literária constitui-se essencialmente pela sua particular maneira de estruturação e criação de sentido. A força da poesia retrata a realidade não somente de maneira diferenciada do usual, mas também de forma a tocar mais o leitor que se entrega aos seus artifícios, desvendando-os e enriquecendo- se de sentimentos e visões de um mundo recriado.


Visamos uma possível leitura do poema “Coleirinho”, publicado por Luis Gama em 1861 em Primeiras trovas burlescas de Getulino, no qual o poeta pede ao escravo que recupere sua voz suscitando as lembranças da vida do negro antes de ser retirado de sua terra, contrasta seu passado com a realidade de sua vida no instante do poema, ao mesmo tempo em que busca denunciar as condições do escravo inserido no contexto dominador branco.
Considerando a escravatura brasileira parte importante da formação histórica de nosso país, o estudo do poema “Coleirinho” revela a preocupação de um poeta não somente com o contexto de injustiça social do dado momento, mas muito além, o entendimento de que a poesia tem a função de despertar, de forma diferenciada, aspectos como: a) a visão social opaca que a hegemonia branca criara em torno do mito do escravo negro, revelando a humanidade do escravizado a partir da forma poetizada; b) a busca pela reanimação dos mais sérios sentimentos e consciência a respeito da humanidade do escravizado; c) a força da poesia no despertar dos sentidos ao retratar um ser humano que sofre graves injustiças em prol do poder de outros com base na diferenciação racial; e d) a marcação do preconceito altamente danoso para a conscientização da igualdade entre indivíduos.
Acreditando e pautando-se em autores renomados que refletem sobre o poder dos elementos funcionais da poesia e como eles atuam na construção de sentido como Bosi (1990) e Candido (1996), além da significação da sensibilidade que a leitura de poesia é capaz de proporcionar, como garantem Cortez e Rodrigues (2009), percebemos que o efeito da linguagem poética não é exercido somente em elementos mas funcionam também como um todo, retratando a ideologia subjacente ao poema. O encontro de visões do eu-lírico e do leitor transformam, então, o retrato da realidade e garantem um resultado de renovação do olhar sobre o real, alterado por novas visões que se encontram, como teoriza Judice (1998).
Resgatando, assim, o valor da leitura de textos literários, a identificação de elementos que estruturam significação e carregam um posicionamento não-gratuito diante de temas reais, e a defesa da prática da leitura literária não só como prática artística, mas em prol da visão de ideologia sustentada no discurso, o presente estudo tem como objetivo a busca pela reiteração da importância do tratamento artístico da linguagem, os efeitos produzidos com relação a suscitar sentimentos e posicionar o leitor diante de temas que o afetam em sua realidade.

1. A ESTRUTURA E O SIGNIFICADO EM POESIA


A linguagem da poesia é completamente significativa. Nela, nenhum vocábulo, nenhuma pontuação, nenhum espaço em branco é gratuito. Uma produção artística poética visa a significação de cada detalhe constituinte, fazendo com que o sentido totalizante e unificador do poema se espelhe em cada partícula possível dele. Considerando que cada partícula da estrutura do poema é rica em significação, como podemos identificar o sentido de cada uma delas e de sua totalidade?
Partindo dessa ideia, Candido (1996) traça o rumo da análise de cada ponto significativo que o poema traz em si, primeiramente listando as características do texto como rimas, estrofes e repetições e classes gramaticais dos vocábulos, para em seguida analisar como tais traços contribuem para uma significação mais ampla e profunda. Essa duplicidade do estudo poético é denominada pelo autor como comentário analítico e análise interpretativa. Em sua definição (CANDIDO, 1996, p.17), “o comentário é uma espécie de tradução, feita previamente à interpretação, inseparável dela essencialmente, mas teoricamente podendo consistir numa operação separada”.
Para definir o ato de interpretação, Staiger (citado por CANDIDO, 1996 p.17), diz que “interpretar significa reproduzir e determinar com penetração compreensiva e linguagem adequada à matéria, a estrutura íntima, as normas peculiares, segundo as quais uma obra literária se processa, se divide e se constitui de novo como unidade.”. A interpretação requer, então, a leitura dos sentidos advindos e construídos dos elementos estruturais, nunca gratuitos, os quais não constroem o sentido por si somente, mas também refletem a ideia que agrega os elementos do texto em sua unidade.

A análise estrutural do poema proposta por Candido (1996) requer o estudo das partículas constituintes da produção como em um quebra-cabeça. Ao mesmo tempo em que suscita o poder da poesia de uma singular construção de sentido, pode distanciar o leitor que não alcança tal leitura, ou mesmo privá-lo de sentir a poesia tão cuidadosamente estruturada por seus “segredos”. A partir daí, como poderíamos enriquecer a leitura literária do texto sem perder o sentimentalismo inerente a tal leitura, se preocuparmo-nos com a significação dos elementos estruturais em detrimento dos sentimentos levantados pelo poema? Cortez e Rodrigues (2009) esclarecem a impossibilidade de separar tais aspectos, pois:

a criação e leitura de poesia orientam-se, em termos amplos, menos pela busca de uma realidade (física, social) do que pela demanda de um estado, de uma emoção particular. A mensagem poética, embora possa conter um fato (ou fatos narrativos), busca, ainda, às vezes mais do que outra coisa, acionar estados, vivências, ideias, sutilezas (CORTEZ e RODRIGUES, 2009, p. 59).

Fica claro, ainda, que não só o sentimento é importante e inerente à poesia, mas também o despertar de idéias, pois a sensibilidade aos efeitos que a linguagem poética exerce sobre o leitor somam forças à significação e pode ser considerado produtor de sentido ideológico permeado e reforçado pela emoção.

2. O SOM, A IMAGEM E AS IDEIAS

Pensando além da proposta de Candido (1996), em que os elementos estruturais são analisados de forma a refletirem e produzirem sentidos, questionamos o grau de satisfação do leitor com relação à análise da estrutura apenas sob esse viés. A proposta aqui, então, estende-se a responder a pergunta: será possível, além da análise estrutural, expandir a significação analisando algumas das sensações despertadas pelo poema? Iluminando nosso questionamento, se encontram em Bosi (1990) três elementos citados ao longo de seu estudo que despertam de maneira mais enfática os campos das sensações durante a leitura, produzindo sentido por um caminho diferenciado. Este caminho aproxima-se de que:

o interesse imediato da poesia tem mais a ver com a busca de um estado, de uma emoção específica, não distanciada de fatores estéticos e intelectivos. Essa emoção, é certo, alimenta-se de algum modo na realidade, que é, afinal, resultado de institucionalizações, de ideias (CORTEZ e RODRIGUES, 2009, p. 59).
Lembramos, assim, da declaração do grande estudioso em O ser e o tempo da poesia: “Subsiste, assim, como processo fundante de toda linguagem poética, a trama de imagem, pensamento e som” (BOSI, 1990, p.88). Tal fato nos encaminha ao funcionamento em conjunto dos aspectos ligados à mentalização das imagens, da musicalidade e das ideias que sustentam o poema em si.

2.1 O SOM E O SENTIDO

A sonoridade constitui um dos aspectos da poesia que mais desperta sensações, e em primeiro lugar, pois “qualquer hipótese que se inspire na motivação da palavra deverá levar em conta essa intimidade da produção dos sons com a matéria sensível do corpo que os emite” (BOSI, 1990, p. 39-40).

Assim sendo, acredita-se que a sonoridade de cada signo carrega uma significação, que o som do vocábulo auxilia a produção de sentido e consequentemente nenhuma escolha do poeta com relação às palavras pode ser considerada nula de significado.

Partilhando de tal posição, Bosi (1990) cita a teoria sonora de Maurice Grammont, na qual os fonemas são analisados com relação à articulação tanto quanto à acústica, ressaltando a musicalidade como parte da força que torna as palavras expressivas. Não somente considerando os fonemas ou os vocábulos, Bosi expande sua teoria para a importância do ritmo na poesia, onde a cadência de sons entre si é também importante para a sonoridade do poema, contribuindo para a significação, pois “a força e o tempo de prolação do enunciado são índices de uma situação semiológica que abraça o estado de alma do falante, a natureza da mensagem e o tipo do interlocutor” (BOSI, 1990, p. 69). A alternância dos sons é outro aspecto da sonoridade que importa ao autor, na medida em que remete diretamente aos pólos da vida real, marcando o caráter de mudança, de recomeço e ciclo da vida marcados pelos sons fortes e fracos, longos e explosivos, altos e baixos, etc.

2.2 A IMAGEM E A MENTE

Ao pensarmos na base real em que a poesia se pauta para a produção dos sentidos em vários aspectos, podemos indagar se somente o som ou a estruturação são suficientes para a construção do sentido. Pensando que não, a questão da imagem que a poesia evoca é um aspecto muito estudado por vários teóricos para a formação da recriação do real proposta pelo poema que

se define a partir de algo que tem uma realidade não exclusivamente linguística, embora seja a linguagem o ponto de partida para os outros campos do poético [...] o seu sentido decorre de algo que não se encontra exclusivamente na esfera da linguagem, incluindo um universo de sensações, emoções, ideias, imagens, que implica toda a vivência humana (JUDICE, 1998, p. 12).

O autor cita a transfiguração da realidade operada pela poesia que não se restringe somente às imagens suscitadas. As imagens funcionariam como um elemento para a transfiguração, e como elemento, destacam-se por seu poder de animar sentidos por meio da mentalização das mesmas.

O autor explora, ainda, a diferença entre as imagens retrospectivas (ligadas à consciência e que retomam vivências humanas) e prospectivas (ligadas à imaginação para visualizar a imagem proposta no poema, despertando novas experiências) introduzindo uma visão de mundo subjetiva e alternativa, na medida em que são uma recriação da realidade sob a perspectiva do eu-lírico, constituindo uma nova possibilidade de olhar sobre o real.

Certo de que a imagem tem o poder de revisitar o mundo, Bosi (1990) aponta que ela pode ficar guardada na mente para depois ser suscitada em determinado contexto, reavivando o passado e refazendo-o, numa forma particularizada de ver o mundo, apreendê-lo, recriá-lo. Sendo assim, a imagem é um aspecto primordial uma vez que a “imagem nunca é um ‘elemento’: tem um passado que a constitui; e um presente que a mantém viva e que permite a sua recorrência” (BOSI, 1990, p.15-6).

Percebe-se, portanto, que a ideia de imagem configura uma particular maneira de ver o mundo, de recriar a realidade a partir de experiências reais, possibilitando a revisão da realidade com um poder maior em função da arte que permeia a poesia e desperta sentimentos e sensações com a leitura dela.

2.3 AS IDEIAS E A IDEOLOGIA

Autores renomados a exemplo de Bosi (1990) defendem que as ideias do poema e a forma com que foram trabalhadas nele são elementos constituintes das significações que alicerçam o texto da mesma forma que os sons e as imagens, sendo inerente a elas o poder de recriar o real:

Nesse labor, que é quase todo o labor da escrita, acaba-se impondo à matéria uma forma mentis, um pensamento formante, que tudo organiza e que acaba produzindo os ‘sentidos ’possíveis do texto. É, por força, nesse momento que tem vez uma posição ideológica ou contra ideológica. O poeta é o primeiro a dar, pela própria composição de seu texto, um significado histórico às suas representações e expressões (BOSI, 1990, p.121).

Ao selecionar imagens e pensamentos para o poema, o poeta forma seu aparato ideológico destacando os aspectos mais essenciais da realidade de forma altamente subjetiva. Também Judice (1998) aponta essa leitura de mundo na qual a ideologia da poesia tem o poder de transmitir e revelar a visão de realidade do eu-lírico e como tal visão é formada no texto, a partir de fatores históricos, pessoais e filosóficos, entre outros. A partir daí, dá-se, na leitura do poema, o encontro do pensamento do leitor e do autor, promovendo a aproximação de visões do mundo:

a leitura será, assim, uma tentativa de reconstituir essa totalidade através desses aspectos parciais, num processo em que o leitor deverá pôr em jogo a sua própria experiência, juntamente com o conhecimento de que dispõe dos modos de ler um texto (JUDICE, 1998, p. 31).

Aproximados, dessa forma, alguns conceitos considerados de grande valia para a análise de poemas de forma a refletir os vários momentos da análise, chega o momento em que Bosi (1990) ilumina o caminho para o instante considerado o mais difícil: o momento da interpretação, onde os elementos se integram e produzem o sentimento e significação artísticos no poema e seus efeitos que esperam o leitor na prazerosa empreitada do desvendamento dos segredos do que lê.

3. UMA LEITURA PROPOSTA: OS SINAIS DO SENTIDO

Por lidar com o encontro dos mundos do leitor e do autor, a leitura literária constitui algumas significações variáveis e possíveis. No entanto, há se de cuidar que as análises restrinjam-se ao que o texto permite, sem exageros que extrapolem os limites do texto e de suas configurações, o que requer sensibilidade e vivência para identificar os pilares da significação.

A proposta, aqui, é promover um exemplo de encontro, uma leitura possível do que o autor construiu justificado pelos parâmetros apontados, estrutura, som, imagem e pensamento, em “Coleirinho”, de Luis Gama:

Coleirinho

Assim o escravo agrilhoado canta.

Tíbulo


Canta, canta Coleirinho,

Canta, canta, o mal quebranta;

Canta, afoga mágoa tanta

Nessa voz de dor partida;

Chora, escravo, na gaiola

Terna esposa, o teu filhinho,

Que, sem pai, no agreste ninho

Lá ficou sem ti, sem vida.

Quando a roxa aurora vinha

Manso e manso, além dos montes,

De ouro orlando os horizontes,

Matizando as crespas vagas,

— Junto ao filho, à meiga esposa

Docemente descantavas,

E na luz do sol banhavas

Finas penas — noutras plagas.

Hoje, triste, já não trinas,

Como outrora nos palmares;

Hoje, escravo, nos solares

Não te embala a dúlia brisa;

Nem se casa aos teus gorjeios

O gemer das gotas alvas

— Pelas negras rochas calvas —

Da cascata que desliza.

Não te beija o filho tenro,

Não te inspira a fonte amena,

Nem da lua a luz serena

Vem teus ferros pratear.

Só de sombras carregado,

Da gaiola no poleiro

Vem o tredo cativeiro,

Mágoa e prantos acordar.

Canta, canta Coleirinho,

Canta, canta, o mal quebranta;

Canta, afoga mágoa tanta

Nessa voz de dor partida;

Chora, escravo, na gaiola

Terna esposa, o teu filhinho,

Que, sem pai, no agreste ninho

Lá ficou sem ti, sem vida.


(Publicado em Primeiras trovas burlescas de Getulino [1861])

Luis Gonzaga Pinto da Gama participou do cenário de produção poética nacional em meados do século XIX e sempre fora muito preocupado com a questão social, especialmente com relação à escravatura. Parte integrante da história e formação do Brasil, as condições do negro injustiçado, subjugado e sofredor em função da hegemonia branca é o principal tópico da poesia desse autor.

Com relação à história particular de Luis Gama, fica impossível negar que a questão social tenha sido parte de sua própria história. Nascido em Salvador e filho de mãe ex-escrava com pai branco, o próprio pai o vende aos dez anos de idade para saldar dívidas. Luis Gama torna-se instruído com a ajuda de um dono de terras que o acolhe e passa a dedicar-se às causas abolicionistas e em defesa dos escravos. Atua como jornalista em vários jornais, reúne-se com outros escritores da época e, ao lado de homens como Castro Alves, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, age como político e sátiro, escrevendo artisticamente.

Em “Coleirinho”, o negro preso e subjugado sofre as penas de estar distante de sua terra e família e cala-se, assumindo um papel passivo em razão da perda de suas forças, fato que o eu-lírico tenta reverter chamando-o a cantar. A busca pela voz do escravo procura mostrar tudo o que lhe foi arrancado em função da superioridade branca. O conjunto de ideias exaltado pelo texto o unificam, revelando o posicionamento ideológico suscitado pelo poema.

A regularidade das cinco estrofes com oito versos cada, com sete sílabas poéticas em cada verso revela uma estrutura fixa que reporta à fixidez do contexto em que o escravo está inserido, pois em nenhum momento o eu-lírico questiona a força que a situação de submissão ao qual o escravo está seja desfeita. O segundo verso “Canta, canta, o mal quebranta;” reporta ao quadro de que o próprio escravo parece ter se rendido à degradação de seu ser, mas não à força que o cerca que poderia ser vencida, pois o verso que segue “Canta, afoga a mágoa tanta” e mais adiante “Chora, escravo, na gaiola”, o eu-lírico reitera que as circunstâncias são tão desfavoráveis ao escravo que o limita a chorar, preso, cuja única saída é relembrar sua vida em sua terra, com seu povo.

O tom de lamento do eu-lírico estende-se pelo poema nas repetições de que o escravo está engaiolado como o pássaro que canta para a ambição do homem que o aprisiona. A comparação com a prisão da gaiola e os ferros é estanque como a estruturação dos versos e estrofes do poema, onde a última estrofe é a repetição da primeira, fechando ainda mais o escravo em sua condição ao mesmo tempo em que o eu-lírico o chama novamente, da mesma forma, a expurgar sua dor por meio da voz.

No reforço do tom do discurso encontram-se, também, o uso de vocábulos específicos. Dentre os verbos, o eu-lírico reporta-se ao escravo no tom imperativo, na primeira estrofe e sua repetição na última. Pede, com isso, que o escravo cante e distancie sua mágoa, interrompa o que lhe causa tanta dor, e iniba sua tristeza (“Canta / quebranta / chora / afoga”). A insistência de quatro verbos imperativos já na primeira estrofe repetidos novamente no fechamento do poema garante a força com que o eu-lírico se remete ao escravo, assemelhando-se à intensidade da dor dele.

Ainda com relação aos verbos, percebemos que o poema delimita dois tempos. No primeiro, apresentado na primeira estrofe, o escravo encontra-se já preso sob o domínio do senhor. Aqui, as formas imperativas contrastam com as formas do passado que o que já foi, o tempo em que o escravo vivia em sua terra, com sua família, em oposição ao sofrimento do presente, onde é cativo (“ vinha / orlando / matizando / descantavas / banhavas”).

Da mesma forma que a demarcação do passado, os verbos negativos aparecem para a oposição da situação, a qual não mais acontece. O contraste entre presente e passado, assim, marca-se também pela negação do que ocorria e que não acontece mais. Interessante lembrar, ainda, que dentre as cinco estrofes, apenas uma remete ao passado, a segunda delas, enquanto a primeira e a última são o chamado para que o escravo assuma sua voz perante o que sofre no presente. Esse presente dolorido é enaltecido com o tom de lamento do eu-lírico que fala do presente mais do que do passado, em suas terceira e a quarta estrofes, cheias de negativas que reforçam tudo o que foi arrancado do homem que, hoje, tem de se curvar ao seu algoz (“ Hoje, triste, já não trinas, / Não te embala a dúlia brisa; / Não te beija o filho tenro,”).

Tendo em vista a estrutura do texto com relação aos seus vocábulos, encontram-se também os substantivos com carga expressiva. Uma vez que são usados substantivos de carga mais positiva para remeter ao passado do escravo, por vezes marcados pela adjetivação, (“aurora / montes / horizontes / crespas / filho / esposa / luz / sol / finas penas”), da mesma forma os substantivos mais negativamente expressivos são reportados ao presente sofrido (“ mal / mágoa / dor / escravo / gaiola / sem pai / sem ti / sem vida”).

A pontuação nos mostra outro fator que pode ser visto como auxiliar na configuração do sentido no poema, como por exemplo, os pontos-e-vírgulas que aparecem ao final do segundo e quarto versos na primeira estrofe, marcando a interrupção do sentido juntamente com os vocábulos que os acompanham (“quebranta / partida”). As vírgulas ao longo da estrofe, as letras maiúsculas em todos os inícios de versos acentuam a quebra da regularidade de sentido, reportando-nos para a fragmentação do escravo depois de subjugado, em seu presente de cativeiro, relembrando o passado na segunda estrofe. A mesma fragmentação acontece na estrofe dois, com a separação por travessão do homem que, antes de ser tornado escravo, vivia junto de uma esposa meiga e seu filho, cantando imerso pela luz do sol suas penas tão menores do que vive hoje, aprisionado. Tal pontuação que sugere esse estilhaçar de sentido reflete, assim, o estilhaçar do ser escravizado.

Em termos gerais, esses são alguns pontos dos que podem ser suscitados a partir de estrutura de estrofes, versos, pontuação e morfologia, no poema em questão. Alguns outros fatores mais relativos à sensibilidade podem ser apontados com relação, por exemplo, à sonoridade, com a teoria de Grammont, a qual constitui um dos mais poderosos construtores de efeito na poesia.

Em princípio, as rimas de final de verso chamam muito a atenção por estarem muito esclarecidas por seu posicionamento no verso. Em “Coleirinho”, a rima de final de verso apresenta repetições e quebras, obviamente funcionais quanto ao seu significado, por exemplo, nos versos dois e três, com rimas emparelhadas, quebradas pela rima diferente do verso quatro, interrompendo a sonoridade similar e o sentido estendido do verso dois e três, de cantar, na voz partida do verso quatro, com a oposição das rimas nasais e do som do /i/ junto com o /d/ explosivo. Da mesma maneira em que as rimas de “filhinho” e “ninho” estendem-se, relembrando a família do escravo, interrompidas pelo “sem vida”, marcando o pesar da situação atual do escravo.

Na segunda estrofe percebemos que há o emparelhamento de outros dois versos, o segundo e terceiro, e novamente a continuidade das rimas na repetição do som do verso quatro, seis, sete e oito. Essa repetição regula o relembrar da condição do escravo antes de sua prisão, quebrada somente no verso um e cinco, remetendo à constância da vida que o cativo levava antes de subjugado, com os sons nasalisados e contínuos de /v/ e /s/. Em especial na estrofe dois, os últimos três versos possuem a mesma rima, o que não acontece em outros versos, menos rimados e mais inconstantes, como a vida atualmente fragmentada do homem distanciado de sua terra.

O estilhaçar dos sons que remetem ao ser fragmentado do escravo também nos remete às assonâncias que podem ser identificadas em cada estrofe. Na primeira, que se repete na última, o som nasalisado de “canta / quebranta / tanta” juntamente com outros não nasalisados de “afoga / mágoa” são quebrados, como a voz partida, pela assonância de “partida / filhinho / ninho / pai / ti / vida”, marcando a aflição do ser arrancado de sua família.

Na segunda estrofe, a nasalisação continua, porém num momento diferenciado. A lembrança dos tempos antes do cativeiro impressiona por reportar aos sons nasalisados como uma continuidade acalentadora, onde a assonância de /e/ aparece com sensação de calma, aconchego, em “meiga / esposa / docemente / descantavas / E / (finas) penas. A aliteração de sons de /s/ são outra marca que contribui para o efeito de continuidade.

Já nas terceira e quarta estrofes, o ritmo da leitura parece acelerar com a multiplicidade de sons diferentes de vogais /o/, /e/, /i/ e /a/, ao mesmo tempo em que as aliterações de sons explosivos aumenta, como o /t/, /k/ e /p/. Ainda há, em especial na estrofe quatro, a presença de encontros vocálicos seis vezes, o que não ocorreu com tal ênfase nas outras estrofes, nos vocábulos “beija / pratear / gaiola / poleiro / cativeiro / mágoa”, além de bem próximos uns dos outros, remetendo à agonia da inconstância ao mesmo tempo em que reforça a mutação da vida do escravo, fortemente aprisionado e sem esperança de fugir.

Com relação ao ritmo da sonoridade, os versos apresentam as sílabas iniciais sempre com mais entoação, marcando a força do ritmo no início de cada verso, em contraste com os sons explosivos, o que garante, ao mesmo tempo, a sonoridade regular e oscilante. A métrica de sete sílabas poéticas também auxilia a marcação do ritmo, com ênfase nas primeiras, terceiras e sextas sílabas poéticas, o que garantem muito mais do que a sonoridade marcada. Juntamente com as rimas internas dos versos e nos finais deles, a entoação da leitura configura a musicalidade especial do poema.

A força poética encontra-se, assim, nos elementos de estrutura e musicalidade, mas não somente neles. Um grande auxiliar do efeito sob o leitor são as imagens mentais construídas para a visualização do escravo.

Acreditando ser a imagem mais marcante de todo o poema, o escravo aprisionado como um pássaro na gaiola sustenta todo o texto na busca de impactar o leitor a respeito da condição sofrida em que o cativo se encontra. Rodeado de dor, mágoa e mal, o escravo é chamado a cantar suas penas de homem privado de liberdade e da família que tinha antes de subjugado. Não por acaso, ainda, a escolha da figura do próprio pássaro é particular: o coleirinho é um pássaro existente em algumas regiões brasileiras, em geral de pelagem de cores escuras e dorso branco. Na altura de seu pescoço tem uma listra, por isso de nome reportado a uma coleira, lembrando o controle de alguém sobre ele. O escravo agrilhoado do poema, então, está preso pelo branco escravagista como figura a marca no pescoço do pássaro.

Em contraste com a primeira imagem suscitada na estrofe um, a qual se repetirá na última demarcando força à essa condição, a estrofe dois reporta o escravo a lembrar sua vida em família e na terra natal, onde era livre e feliz em harmonia com a natureza, com os carinhos da esposa e filho, iluminados pelo sol. A felicidade da vida passada mistura-se à tristeza do presente nas negações da terceira estrofe, onde o eu-lírico lista o que o escravo acabara por perder ao ser escravizado, retratando as privações que o cativeiro lhe impôs, o que se estende pela primeira metade da estrofe quatro, quebrada pela visualização da condição do escravo no momento, a luz do sol de outrora perde o lugar para as sombras que o rodeiam e que nem a luz da lua consegue quebrar, e a liberdade de antes pelos vales da terra natal dão lugar à prisão metaforizada pela gaiola, trazendo mágoa, dor e choro.

A gradação das imagens entre a tristeza do presente, a lembrança alegre do passado, a mistura da alegria do passado com a negação dele no presente e a volta ao presente, na repetição da primeira estrofe, fazem com que as imagens oscilantes suscitadas também ganhem força significativa de ciclo, retomada, marcando a impossibilidade de fuga da condição do escravo, o que faz com que o eu-lírico o chame a cantar sua dor.

Assim sendo, percebe-se a ideologia presente ao longo de muitos detalhes do texto. Os pensamentos e a visão de mundo do eu-lírico a respeito da condição do escravo é sofrida, injusta, atroz, inserido em um presente escravagista que degrada homens de passado tão glorioso. Ao levantar que a construção do poema remete à injustiça social que subjuga pessoas ao interesse de outros, enxergamos a degradação da vida e da história de humanos antes indivíduos e senhores de sua própria vida, completa e rica. A ambição e hegemonia do branco escravagista são postas em cheque ao desumanizar o escravo aprisionado, sofrido e colocado em patamar de não apenas subalterno, mas animalizado em sua condição de preso, aferrolhado, sem vida, o qual não tem nem mesmo a voz.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Buscando algumas renomadas visões de elementos constituintes de significado em um poema, percebemos que a leitura literária, além de carregada de subjetividade, possui algumas possibilidades de análise, considerando-a como encontro entre o autor e o leitor. As respectivas visões de mundo que se encontram na leitura do texto, os sentidos trabalhados pelo poeta e suscitados no leitor remetem ao encontro de realidades que, encontrando-se, se complementam e ampliam a capacidade de compreender pontos-de-vista, realidades, e sentimentos que transbordam de forma singular por meio da linguagem literária e seus recursos sensoriais, pensando o texto como obra de arte, criação literária e não somente um meio pelo qual se comunicam ideias usando linguagem escrita, mas principalmente estruturando-a com o objetivo de impactar o leitor pela construção artística e sensações suscitadas nele.

A partir do momento em que se considera a linguagem literária uma construção de sentido rica em significação, a habilidade de leitura literária apresenta-se como um aliado às interpretações ao mesmo tempo em que a falta de aparato para a alcançar tais recursos pode distanciar o leitor do prazer de descobrir o texto. Assim, a prática da leitura literária continua sendo um grande passo para a educação do leitor na medida em que o auxilia a ler os sentidos e as construções dele além de o enriquecer com visões de mundo e construções de sentido que ampliem sua capacidade de pensamento crítico e intelectualidade.

Vale lembrar, ainda, que alguns constituintes do texto em questão foram analisados em busca da unidade significativa da produção, o que ressalta ainda mais a quantidade desses elementos e a abrangência que os sentidos tomam dentro do texto. A proposta forma-se em torno da ideia exata de proposta, uma vez que, atentos a essa leitura interpretativa, se realmente a alcançamos, ela seja aplicada em outros textos que comportem sua validade e inspirem cada vez mais a elucidação e o prazer em desvendar e reconstruir os elementos citados, na busca pela unidade significativa do texto como um trançar de fios de significação, ligados entre si, que dão origem e sustentam uma produção una como o tecido de um tear trabalhado pelo poeta.

Referências Bibliográficas

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1990. 220 p.

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*Mestranda em Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá.



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