Contando uma história com dados



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Encontro27.07.2016
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Contando uma história com dados

Por: Rose Ciotta (rciotta@phillynews.com, The Philadelphia Inquirer), Shawn Mcintosh (smcintosh@ajc.com, The Atlanta Journal-Constituion) e Michael Weinstein (mweinstein@charlotteobserver.com, The Charlotte Observer)

Tradução: Carolina Hungria (ca.hungria@uol.com.br)

Revisão: José Roberto de Toledo (toledo@primapagina.com.br)



Desenvolvendo uma idéia

Independente da forma como uma redação leva novos projetos, sempre esbarramos na possibilidade do fracasso: uma pauta investigativa que não consegue provar seu objetivo ou a longa história que não conseguiu nenhum resultado. Provavelmente, uma pauta que acabou no lixo poderia muitas vezes ser salva com algumas dicas de organização.




  • Todo projeto começa com uma idéia. Tenha certeza que ela é boa. Pautas não vão adiante se elas não tiverem um foco definido ou se forem adapatadas a cada minuto para outro assunto. Algumas premissas do seu projeto precisam ser claras. Evite os projetos organizados por tópico (por exemplo, a poluição de agentes químicos na agricultura), prefira idéias claras e defininas (como a poluição de agentes químicos na agricultura está refletindo na saúde dos moradores de Piracicaba).

  • Lapide sua pauta o máximo possível. Use a técnica do brainstorm até o esgotamento. Tenha idéias e anote todas, até chegar a um ponto que vai deixar os leitores realmente irritados e forçará o governo a fazer alguma coisa sobre o assunto.

  • Pensar em hipóteses e premissas não é estabelecer um pré-conceito, porque você vai testar suas teorias em todas as maneiras possíveis e abandonar teorias que não conseguem ser provadas.

  • Sempre se pergunte: quais informações vão conseguir provar minha teoria? Quais informações vão afetar sua credibilidade? Quais dados preciso para provar minhas teorias? Quais são os dados que vão mostrar que minha teoria não funciona? Procure sempre os dois lados.

  • Uma vez que você já sabe quais bancos de dados precisará para desenvolver sua pauta, entre em contato imediatamente com as assessorias para conseguir a informação. Você deve analisar todos os dados antes de mergulhar a fundo na história, porque um simples resultado pode colocar tudo a perder.

  • Planeje sua análise, uma vez que os dados que você tem consigam provar sua teoria.

  • Pesquise tudo que já foi escrito na área da sua pauta. Se a sua idéia for totalmente original, ótimo. Mas, se alguém já investigou o mesmo assunto, você pode continuar na pauta, tentando descobrir como aquele problema influencia a comunidade local.

  • Envolva a redação na sua pesquisa. Procure repórteres talentosos para trabalhar com você.

  • Encontre as vítimas. As vezes, você pode encontrar personagens para a sua história através de banco de dados, muitas vezes não. Uma pauta não servirá para nada se você não encontrar pessoas reais que sofrem com aquele problema.

  • Esteja sempre preparado para "matar" uma pauta ou mudar seu rumo.

  • Ao longo da sua apuração, converse sempre com seu editor. Ele pode não gostar do produto final e eliminar sua história, fazendo você perder horas de trabalho. É melhor que ele saiba os detalhes ao longo da investigação.



Combinando dados e reportagem

Agora que a apuração já está começando, o time de repórteres trabalhando na história tem dúvidas sobre os dados que devem ser trabalhados. Comecem a procurar os dados, documentos e fontes para a reportagem, mas lembrem-se sempre do objetivo final da matéria.




  • Sempre analise os dados e leve o resultado para as ruas. Os números não são a história, mas sim pessoas.

  • "Entreviste" os números durante toda a apuração. Seu editor também precisa saber o que um banco de dados é capaz, ou não, de dizer.

  • Procure sempre dados adicionais e não se limite a pegar apenas o básico. Encontre tempo para solicitar banco de dados às fontes. Analise tudo que cair nas suas mãos, ou na sua caixa postal.

  • Não fique desanimado com a falta de dados, mas preste atenção se o arquivo que você recebeu tem as informações necessárias para responder às suas perguntas.

  • Conheça fontes que trabalham com bancos de dados. Eles são capazes de mostrar bancos de dados que você nem sabia que existiam ou ajudar na interpretação dos números.

  • Sempre confira os resultados. Reúna experts para revisar a sua metodologia e procure outras explicações para o mesmo assunto.

  • Use o banco de dados para ir fundo na sua investigação, seja estratégico para não se perder com os números.

  • Monte um sistema de organização a partir do momento que a pauta foi aprovada. Organize com os outros repórteres uma maneira de compartilhar suas anotações e entrevistas mais importantes. Crie pastas que podem ser acessadas por todos os envolvidos na apuração. Peça relatórios sobre o andamento da investigação e seu progresso.

  • Planeje desde cedo suas fotos, gráficos, mapas e versão online. Mesmo que você não saiba ainda no que a pauta vai resultar, comece a pensar nesses itens. Fazendo esse brainstorm, você pode acabar descobrindo que vai precisar de algum software ainda não instalado na redação.

  • Saia às ruas. Personagens, cenários, ambiente, descrições e locais você só vai conseguir se for até a sua história pessoalmente. Os bancos de dados estão lá para te ajudar a se encontrar de forma mais rápida. Analisando bancos de dados, você saberá quais bairros, escolas ou pessoas são as melhores para a sua histórias.

  • Anote e escreva tudo o que você apurou, mesmo se achar que não usará a informação ou a entrevista na matéria final. Essa dica é importante principalmente para aquelas matérias que levam meses para serem concluídas.

  • A seleção dos dados é um passo importante. Quando concluir a apuração, limite os dados registrados na matéria ao necessário para contar sua história. Deixe o resto para os gráficos e mapas. Evite jargões. Evite contar ao seu leitor que você fez uma análise de dados, com detalhes do processo. Guarde essas informações para um box específico, se houver espaço no veículo para isso.



Na redação





  • Invista na criação de uma equipe. Envolva todo mundo, desde o pessoal da foto, da arte e revisão. Eles são sempre os primeiros leitores da sua história e um bom termômetro para avaliar possíveis reações. Se você vai gastar alguns meses na história, os profissionais que trabalham com você provavelmente também precisarão de tempo para criar imagens que ajudem a contar a história ao leitor.

  • Avalie seu orçamento e estabeleça deadlines, não só para você, mas para a equipe de foto e arte.

  • Durante uma apuração, escreva todos os dias. Criando esse hábito, é possível descobrir sempre as informações que você tem, as que não tem e as falhas na composição da matéria. Não deixe para sentar na frente do computador só para concluir a história final. Editores: leiam sempre o que seu repórter está escrevendo ao longo da sua apuração.

  • O processo de escrever uma reportagem tem cinco passos: idéia, apurar, organizar, escrever e revisar. Um repórter precisa saber sempre em que estágio do processo ele está.

  • As histórias que têm um verdadeiro impacto nos leitores são aquelas com pessoas. Elas têm um protagonista e outros personagens auxiliares, que comandam a narração. Os números e dados estão ali para apoiar sua teoria e personagens.

  • Mantenha a história focada em um assunto e simplifique-a. Uma história simples é fácil de escrever e contar. Homem contra homem, homem contra a natureza, homem contra o governo. Sobre o que você vai escrever? Amor, ódio, injustiça?

  • Escolha uma estrutura para escrever. Analise o começo meio e fim. A maneira clássica do Wall Street Journal de contar uma história é: um lide curisoso, um parágrafo contando a essência da história, desenvolvimento e um final interessante. Outro jeito de pensar numa estrutura: ação, conhecimento, desenvolvimento, clímax e final.

  • Edite seu texto lendo linha por linha, em voz alta.

  • Edite novamente, desta vez começando do final para o começo. Vai se supreender com algumas coisas que pode encontrar: verbosidade, inconsistência lógica etc


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