Contar-vos-ei a história completa e na primeira pessoa



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Oportunismos, simulacros e corrupção - uma paródia do mundo universitário

“Contar-vos-ei a história completa e na primeira pessoa.”

Carlos Ceia

O primeiro livro de ficção de Carlos Ceia, O Professor Sentado1, definido no subtítulo como “um romance académico”, constitui um hábil exercício de desconstrução narrativa, ao mesmo tempo que se afirma como uma sátira corrosiva do meio universitário português, medíocre e limitado, idêntico afinal em todas as latitudes.

A lenta discussão dos parágrafos do Regulamento na reunião mensal do Conselho Científico da Faculdade de Artes e Letras da Universidade Imperial de Lisboa constitui o ponto de partida para uma situação que se confunde rapidamente com uma cena cómica dos irmãos Marx. Entre as diversas reuniões, os júris de provas de mestrado, os oportunismos, as estratégias de diversão coroadas num famoso congresso em Cambridge, a vida da Universidade desenrola-se numa atmosfera de guerra cinzenta que se alimenta de rivalidades, tolices, arrogâncias e muita mediocridade.

Com grande subtileza, o Autor visa algumas das figuras do mundo académico, expondo as suas fraquezas e inconsistências, revelando as contradições, os conflitos, os jogos de poder e sobretudo a corrupção que caracteriza uma certa oligarquia universitária e pseudo-cultural. Desfilam assim ao longo do texto figuras patéticas como Joana Vimioso, a estudante prostituta, Miguel de Vide, o mestrando que se suicida, Eugénio Porto, o crítico que só fala por citações (“recordista mundial de citações por minuto”, p.133), Paulo Guerrinha, jornalista e assistente, considerado como “uma fraude bem dissimulada” (p.55), o Prof. Magalhães, “tarado sexual, estuprador de virgens e candidato a Reitor da Universidade Imperial de Lisboa” (p.76), que não hesita em “alterar” o seu dossier, o Prof. Augusto Chagas que se apropria despudoradamente de textos alheios, a Directora Geral do Ensino Superior, incompetente, dada a “deslizes históricos”, nomeada para um posto importante porque “o seu marido é um político de segunda que conhece políticos de primeira” (p.13) e que o narrador define como uma “santanice”.

Descobrimos assim, através de uma leitura desopilante, a atmosfera universitária feita de rivalidades e simulacros, com docentes que se caracterizam por uma grande dose de ambição e incompetência, capazes de suborno e corrupção, facilmente identificáveis não só no espaço português, uma vez que a degeneração provocada pela endogamia académica, numa reprodução de interesses mesquinhos e inconfessáveis, se encontra na realidade em todas as universidades. Disso é exemplo Coutinho e Sá, o Presidente do Instituto Superior de Estudos Culturais, “poderoso homem do Norte” que convida a mulher para vice-presidente, a filha para administradora, o filho para pró-presidente, salvaguardando assim os interesses da Instituição em que “Cada estudante paga por ano dez mil euros de propinas, um valor semelhante a qualquer boa universidade privada norte-americana, comparação muito utilizada na publicidade que o ISECSPO faz nos estádios de futebol e nos intervalos da Operação Triunfo.” (p.61)

Todas estas personagens, e muitas outras, alimentam para gáudio do leitor, o que David Lodge chamaria um “pequeno mundo” fechado sobre si mesmo, marcado pela arrogância pateta, pelo vazio da linguagem e pelo ensino obtuso que dispensa, situado entre a “engenharia literária” e a semiótica fossilizada que se aplica a todos os textos e situações, inclusive à guerra no Iraque.

A intriga fortemente concentrada permite caracterizar um meio onde todos são doutores (“vaidade das doutorices”, p.24) e os títulos se confundem, “o que é verdadeiro analfabetismo” (p.23), mesmo se as teses de doutoramento nada trazem de inovador do ponto de vista científico, pois como afirma com mordacidade o narrador “…em Portugal, há dois tipos de teses de doutoramento: 1) a tese sem pensamento novo; 2) a tese que descreve todo o pensamento alheio publicado. Aprova-se quem consegue fazer as duas coisas de uma só vez, o que não é difícil.” (p.54)

A narrativa complexifica as figuras, as vozes e os géneros, introduz notas laterais, diversos encaixes, efeitos especiais com o intuito de “distrair o leitor o mais possível”(p.7), não hesitando em apresentar um dicionário de personagens, uma ficha de leitura que parafraseia a literatura de auto-ajuda, entrevistas do Autor, uma recensão ao próprio romance assinada enganosamente por Maria Alzira Seixo, numa retórica que recorre a diversos procedimentos como o pastiche, a paródia, o plágio, a ironia, a sátira, o burlesco, questionando constantemente o cânone e avaliando os efeitos produzidos sobre o “estudioso leitor”, ou não fosse “…este romance (…) todo ele virado para o leitor, a pensar no leitor e só para o leitor.” (p.96).

O “esforçado” Autor real falha na escolha da epígrafe, hesita em definir um título para o seu romance, detesta descrições e deixa-se ultrapassar pelas suas próprias personagens, revelando, através da criação fragmentada de divertidas figuras, os bastidores da escrita e a dimensão caricata do universo académico que bem conhece, dirigindo-se frequentemente a uma “narratária aposentada”, definida como “importadora de todas as pós-modernices que costumam atravessar o Atlântico” (p.34) e considerada como a destinatária privilegiada do texto.

Encontramos assim um discurso que joga parodicamente com as categorias da narração, ao mesmo tempo que revisita com fina ironia conceitos de teoria literária, desmistificando técnicas de leitura, confessando as heranças, brincando com a ansiedade das influências, conversando com diversos narratários, construindo uma espessa rede intertextual que remete tanto para o universo dos simulacros e rituais académicos como para o questionamento controverso dos conceitos desenvolvidos nos últimos anos em torno do paradigma pós-moderno.

Notemos que Carlos Ceia é professor na Universidade Nova de Lisboa, autor de vários ensaios importantes sobre a literatura portuguesa2. Só alguém com um conhecimento profundo da vida académica poderia imaginar as situações criadas neste romance. Mas este é também o livro que todos os professores universitários gostariam de ter escrito, como observa a certa altura o narrador: “Todos os professores universitários carregam um romance académico nas profundezas da sua consciência” (p.68)

O que leva um professor universitário a escrever um livro destes? Ajuste de contas com o sistema? Brincadeira? Desespero? Ou apenas uma forma inteligente de nos fazer rir através de um “romance que se quer paródia, que se quer um espectáculo, o espectáculo da ficção portuguesa!” (p.22)? A não perder.



Maria Graciete Besse

1 Carlos Ceia, O Professor Sentado, Charneca da Caparica, Edições Duarte Reis, 2004.

2 Citemos, entre outros, O que é afinal o pós-modernismo?, Lisboa, Ed. século XXI, 1998, e A literatura ensina-se? Estudos de teoria literária, Lisboa, Colibri, 1999.





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