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Cairbar Schutel foi um dos iniciadores e divulgadores da Doutrina Espírita no Brasil, sendo um homem de fibra, coragem e fé. E foi um exemplo vivo na prática da caridade, daí ter sido reconhecido como o "Pai dos pobres de Matão".


Sumário

Prefácio


Primeira Parte - Cairbar, O Homem e a Obra - Eduardo Carvalho Monteiro

I - Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo / 06

II - Passagem por Araraquara / 14

III - Os Schutel, uma família ilustre / 16

IV - A Matão que Cairbar encontrou / 19

V - O político Cairbar Schutel / 21

VI - O casamento de Cairbar Schutel / 24

VII - Cairbar Schutel enquanto católico / 26

VIII - Como se deu a conversão / 28

IX - Schutel é testado pela primeira vez / 31

X - A primeira polêmica quase termina em tragédia / 36

XI - Nasce o Clarim / 43

XII - Curiosidades pinçadas nos 1.°s números de "O Clarim" / 47

XIII - Seu tipo físico e personalidade / 57

XIV - Cairbar e dona Mariquinhas / 60

XV - O "Pai dos pobres de Matão" / 64

XVI - Criação do Hospital de Caridade / 68

XVII - Apreensão de "O Clarim" em 1913 / 72

XVIII - Visitas à cadeia pública / 77

XIX - A cura dos obsidiados / 80

XX - A mediunidade de cura de Cairbar / 82

XXI - O apego de Cairbar aos animais / 84

XXII - Uma herança para Cairbar Schutel / 87

XXIII - A fundação da RIE / 89

XXIV - Associação "São Vicente de Paulo" / 98

XXV - Casos vividos por Cairbar / 101

XXVI - Fundação da "Associação Comercial de Matão" / 106

XXVII - A posição de "O Clarim" quanto à "Constituinte Espírita Nacional"/ 107

XXVIII - A "Coligação Pró-Estado Leigo" / 109

XXIX - O Não de Cairbar à "Ação Espírita Paulista"/ 113

XXX - Cairbar Schutel e Chico Xavier / 116

XXXI - O Pioneirismo da "Assoc. de Prop. Esp. do Estado de São Paulo"/ 118

XXXII - Conferências Radiofônicas / 120

XXXIII - As Crônicas no "Correio Paulistano" e "Gazeta de Notícias"/ 124

XXXIV - Uma sessão espírita com Cairbar/ 129

XXXV - O Desencarne: "Vivi, Vivo e Viverei"/ 131

XXXVI - O Sepultamento/ 135

Segunda Parte - Cairbar, o Escritor e o Jornalista - Wilson Garcia

I - "Nossa tarefa é divulgar"/ 141

II - O pensamento espírita de Cairbar Schutel/ 146

III - Cairbar Schutel e a fenomenologia espírita/ 150

IV - Por um espírito livre, consciente/ 154

V - Cairbar Schutel e seus livros/ 158

VI - Cairbar De farmacêutico a jornalista/ 162

Notas Bibliográficas/ 167

Prefácio
Dizer que uma editora espírita sente-se honrada e que tenha satisfação em apresentar um livro, pode parecer um lugar comum; aquele feitio de ser gentil e estimulador pela autoria da obra.

Tal, porém, não se passa com o lançamento de um livro do porte desta biografia, pela consciência profunda que se tem da importância da tarefa e do desempenho doutrinário do biografado.

É uma vida de integral exemplo à dedicação a um ideal apostólico, cuja imagem de indicador de rumos mostra-se como um caminho seguro que devemos trilhar.

Cairbar Schutel surge, de corpo inteiro, neste texto que deixa que vejamos o venerando fundador do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", de "O Clarim", da "Revista Internacional de Espiritismo" e da Casa Editora "O Clarim", com toda a expressão de seu espírito lutador de um dos mais fiéis pioneiros do Espiritismo no Brasil.

Talvez o amor explique este fenômeno, pois deve ter sido com imenso amor que a pesquisa de sua grande vida surge com todas as nuanças em um tão curto espaço de tempo. E antes que Cairbar Schutel venha a tornar-se um mito inatingível, mas muito pelo contrário, para que revele-se como um homem - um verdadeiro ser humano - para sugerir-nos que qualquer um de nós, em seguindo suas pegadas, concretize com amor os compromissos havidos com a Doutrina Espírita.

A fé, diz-nos Cristo, pode remover montanhas. E foram uma sucessão de dificuldades, de obstinadas pesquisas que, de pouco em pouco, surgiu O Bandeirante do Espiritismo, que leva o estudioso da Terceira Revelação a uma euforia e à necessidade de prosseguir no terreno da divulgação do ideal kardecista, nas pegadas mesmas do grande e luminoso doador das mensagens de consolo, de elucidação e libertação em face da Verdade a que dedicou a maior parte de sua grande vida.

Vi Cairbar Schutel de relance; vinha do agreste com minha querida mãe e o trem se deteve em Matão. Era o trem da noite que havíamos tomado com destino a Minas Gerais. Era uma criança de grupo escolar e vi quando aquele homem de traje impecável, de brim, porte esbelto, com um maço de jornais debaixo do braço, ia colocando um exemplar em cada banco vazio. Curioso, tomei um deles. Era O Clarim. Mais tarde, através de fotografia tomei conhecimento de que o homem do trem era Cairbar Schutel. Soube tempos depois que ele os esperava para distribuir a boa semente aos viajores fatigados que se destinavam às excursões mais distantes de São Paulo.

Posteriormente, já cursando o Ginásio, fiquei muito amigo de um jovenzinho que, insatisfeito, abandonara o Catolicismo e aderira à Mocidade Espírita. Um dia falei-lhe do episódio do trem e ele me narrou o seguinte:

Cairbar Schutel fazia conferências espíritas na PRD-4, Rádio Cultura Araraquara. Esse amigo era mariano e ouvia aborrecido as sugestões do pároco para que vaiassem o conferencista.

Entretanto, ao sair do recinto das transmissões, Cairbar Schutel se mostrava tão respeitável e digno que os moços marianos abaixavam as cabeças e por mais obstinados que se dirigissem à Rádio nas domingueiras, jamais conseguiram atender ao pároco.

Portanto, a biografia que oferecemos é um trabalho profundo, amplo, abrangente. E o fruto heróico de Eduardo Carvalho Monteiro e Wilson Garcia, confrades de São Paulo, que neste gênero a apresenta através de ótica cristalina e bem documentada, e que a gente como que a descobre em seu poder de síntese, e na qual inteligência e consciência tocam um algo de inesperado, como duas formas se justapondo: surgem em todo o seu perfil o homem e sua obra.

Pinçando os mais recônditos meandros de uma centena de memórias, num global de criticas firmes e serenas e de uma infinidade de boas ações, através do dia a dia numa pequena cidade - a sua querida Matão - que agora também ganha porte - pela "descoberta" de seu filho laborioso e honrado, e que um dia há de saldar a dívida de gratidão que tem para com ele - o grande amor do cidadão e do espírita Cairbar Schutel.

Tal é o conteúdo do que vamos ler em seguida!

Wallace Leal V. Rodrigues
Este livro surge para marcar um outro evento significativo do nosso movimento espírita: a realização do IX CONBRAJEE - IX Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, nos dias 18 a 21 de abril de 1986, na capital paulista, do qual Cairbar Schutel é o patrono.


Primeira Parte
Cairbar, O Homem e a Obra
Eduardo Carvalho Monteiro



I
Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo

Sob o título "A Grande Homenagem de Araraquara a Cairbar Schutel" (Impressionante Concentração Espírita) o jornal "A Comarca", de Matão, de 27 de março de 1938, em sua 1.ª página noticiava a justa homenagem que se prestava ao grande vulto do Espiritismo na Pátria do Cruzeiro: "Foi com emoção crescente que, partindo para a grande cidade, atualmente, depois de Santos e Campinas, a mais importante do Estado, fomos notando carros inteiros das composições da Estrada de Ferro Paulista, ônibus da zona araraquarense, automóveis de várias procedências repletos de passageiros, que afluíam à consagração, promovida, em 20 do corrente mês, pelos espíritas de Araraquara, ao grande pioneiro do Espiritismo no Brasil.

Não se pode dizer que essa consagração era à sua memória, porque os espíritas, convictos da imortalidade da alma ou do espírito humano, renderam a homenagem àquele que deixara o mundo físico em 30 de janeiro último, e, portanto, ao próprio Cairbar Schutel, espírito liberto no Espaço.

O Teatro Municipal de Araraquara, é um próprio do Governo do Município, fica no coração da cidade, e tem lotação para cerca de duas mil pessoas.

"A sessão estava anunciada para as 8 horas da noite. As sete, já se achavam tomadas as cadeiras. As sete e meia, a Casa repleta, os amplos corredores eram pequenos para comportar a massa de gente que se avolumava, minuto a minuto, ficando de pé." (...) (Ítalo Ferreira).

O que explicaria tal proporção de homenagem senão estarmos diante de um vulto de exceção? De um missionário voltado para os grandes problemas do destino humano? Não precisou Cairbar Schutel localizar-se num grande centro irradiador de cultura para projetar-se no cenário cultural, filosófico e religioso de sua Pátria. O pequeno palco que teve na cidade de Matão, interior de São Paulo, bastou para que escrevesse em tintas indeléveis sua trajetória no livro da História.

Este Bandeirante, quase um autodidata, transitou seu talento não pelo cultivo da estilística e da filologia, mas pela disseminação das idéias espíritas cristãs e em tal floração se fez mestre. Com o mesmo afã e amor com que fazia correr sua pena de jornalista e escritor, sobressaltou-se-lhe a obra da caridade cristã, razão pela qual, "A Comarca", jornal leigo, e muitas autoridades de nomeada da região, renderam-lhe homenagens por ocasião de seu falecimento.

Souberam reconhecer naquele homem íntegro e de inabaláveis convicções religiosas, sua importância para a comunidade e a grande perda que se faria sentir na sociedade local.

Mas, infelizmente, apenas os espíritas mais integrados ao movimento doutrinário poderiam vislumbrar, àquela época, a grande relevância do papel que desempenhou e desempenha até hoje a figura de Cairbar Schutel cujo exemplo e pensamento influencia e inspira várias gerações de espíritas reencarnados neste Planeta. Sim, porque essa influência não se restringe a nossos conterrâneos, mas já de há muito rompeu fronteiras e, mais precisamente, desde 1925, exerce seu fascínio sobre irmãos de outras terras com a extraordinária mensageira da Doutrina dos Espíritos, a "Revista Internacional do Espiritismo".

***
Cairbar Schutel teve por berço natal a cidade do Rio de Janeiro no terceiro quartel do século passado. Um excelente artigo de Wallace Leal Rodrigues na RIE de setembro de 1968, do qual reproduzimos um fragmento, retrata o cenário da época, o "modus vivendi" da família e os passos iniciais de Cairbar Schutel. Melhor não teríamos descrito:

"Cairbar de Souza Schutel nasceu a 22 de setembro de 1868, enquanto o Brasil envolvia-se na aventura que a História denomina a "Guerra do Paraguai". Estava com pouco mais de um mês quando chegaram à real cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro as notícias decisivas sobre a batalha de Tuiuti.

O casal Souza Schutel via nascer seu primeiro filho enquanto residia na famosa Rua do Ouvidor, 49, que, apesar dos terrores da guerra, dia a dia engalanava-se e resplandecia. O menino Cairbar transitava, pela mão de sua mãe, entre nada menos do que 23 casas de modistas, 4 de floristas, 77 ourives, 33 relojoeiros, 66 sapateiros, 8 retratistas - um dos quais retratou-lhe os pais no esplendor de sua beleza e juventude - e 24 fabricantes de carruagens.

Ali os hábitos eram complicados e nobres, o que pode explicar o fato do formoso Anthero Schutel ter-se tornado um "dandy". Na capital imperial proliferavam os grêmios de diversões e arte e o elegante filho de fazendeiros catarinenses não se importava em gastar fortunas no Cassino Fluminense, - de todos os mais aristocrático, - na Sociedade de Recreação Campestre ou mesmo nos Clubes de Petrópolis, na cidade dos reis.

Entretanto a esposa, a meiga Rita, não o acompanhava. Era dotada de um outro feitio e fora criada na religião brasileira do culto doméstico. As casas abastadas possuíam seus oratórios particulares e o menino gravou na memória a lembrança de sua mãe de joelhos, com ele ao seu lado e os escravos domésticos um pouco atrás. Desfiavam o rosário enquanto as velinhas faziam a ilusão de que os santos mudavam suas expressões faciais e moviam as vestes.

A religião enchia a vida monótona e triste de D. Rita, que amava intensamente o marido e esperava-o chegar; madrugada alta, insone e resignada. Schutel, anos mais tarde, contaria aos amigos ter visto, em certos dias, a casa se esvaziar de móveis, levados para saldar as contas de jogo de Anthero. Este, todavia, sempre terminava por trazê-los de volta. No fundo era bom, amável, e adorava a família. Mas sua vida desregrada deveria em breve levá-lo ao túmulo e a doce Rita não demoraria em ir fazer-lhe companhia. Por esse tempo, uma outra criança já nascera, um esperado irmãozinho que, entretanto, não partilharia com Cairbar, por muito tempo, as tristezas da orfandade".

O livro de Luiz Edmundo, "O Rio de Janeiro do Meu Tempo", revive o clima da famosa Rua do Ouvidor e suas lojas, onde nasceu e passou seus primeiros anos de vida nosso biografado:

"São rasgões claros em montras de cristal resplandecendo, faiscando ao sol, arcos de entrada em boa cantaria, de madeira envernizada ou mármore, conjunto dizendo certa distinção, capricho, destoando na linha geral do casario irregular e de vulgar arquitetura. Nelas vêem-se caixeiros e patrões dentro de uniformes de linho branco, muito limpos, muito bem barbeados, afetando maneiras, mostrando sorrisos e falando em francês".

Leopoldo Machado, amigo e biógrafo de Cairbar Schutel, relaciona a descendência deste com a missão que viria desempenhar nesta encarnação. Acredita Leopoldo, que estando a Suíça ladeada por três povos belicosos quais sejam, os alemães, os franceses e os italianos; ao mesmo tempo em que falando três idiomas; possuindo três religiões predominantes; sua história atesta ser o povo mais pacífico do planeta, onde toda a vizinhança ou as diferenças internas nunca levaram a nação a aventuras bélicas. Seria ideal, portanto, para sua missão, uma descendência e formação junto a esse povo, que lhe transmitiria, em seus primeiros anos de vida, sentimento de paz e fraternidade que ele haveria de cultivar e aperfeiçoar no decorrer de sua existência.

O Senhor Anthero de Souza Schutel, pai de Cairbar, era um negociante de móveis de relativo sucesso, mas como já foi dito, perdeu-se na vida desregrada e no vício do jogo.

Seu primeiro contato com D. Rita, natural de Tijucas - SC, deu-se quando ele convidou-a em sua casa para ir ao teatro e esta aceitou, trajando-se com o vestido listrado da moda. Do romance para o casamento passou-se breve tempo.

Em 24 de abril de 1878 falece o pai de Cairbar, repentinamente, aos 33 anos. Estava ele tomando banho num bacião, quando gritou e correram para chamar um médico, que não chegou a tempo.

Logo a seguir, em 12 de setembro, a esposa que havia enviuvado grávida, dá a luz a um menino, Antero, mas acometida de febre puerperal vem a falecer no dia 24 do mesmo mês. Antero só viveria por 4 anos.

Quando a mãe pressentiu a morte, chamou Cairbar à cabeceira, e este compareceu à sua presença desalinhado e de qualquer jeito, ao que ela retrucou: "Vai se arrumar, meu filho". Quando ele voltou, com sua roupinha de marinheiro; ela explicou-lhe o porquê do pedido: "É que eu quero que você seja assim toda a sua vida. Sempre bem alinhado e sem nunca dormir antes de limpar os sapatos para o dia seguinte". E de fato, assim o seria Cairbar para o resto de sua vida. Sempre elegante, boa postura, roupas da moda.

Segundo, também, Leopoldo Machado, o menino Cairbar foi batizado na religião católica, herdada da mãe, aos sete anos.

Morta a mãe, Cairbar, órfão, vai para a casa do avô, Dr. Henrique Schutel, que toma a si o encargo da educação do menino e o matricula no Imperial Colégio D. Pedro II, onde ele cursa até o segundo ano. Por algum tempo, também, viveu com uma irmã de criação.

Tornou-se, então, um menino insatisfeito, não se podendo precisar se pelas duras marcas que a vida prematuramente havia lhe imposto, ou se pela sua inadaptação ao colégio.

A vida rígida da Escola não o seduzia, levando Cairbar a abandoná-la e empregar-se numa farmácia na Rua 1.º de Março como aprendiz. A especialização veio rápida e, em pouco tempo, ele era um prático de respeito. Trabalhou em mais duas ou três farmácias e, no intervalo desses empregos, também foi ajudante de cozinheiro em restaurantes da moda.

Ao que tudo indicava, sob o signo das predileções noctívagas, e habitante de uma jovem cidade afeita aos prazeres, Cairbar parecia ter se tornado herdeiro do pai.

Em fins do século passado, o Rio, com seus 800.000 habitantes, era uma cidade envolvente por suas diversões e de fervilhante vida noturna.

Numa sociedade pouco industrializada, havia um comércio muito profícuo de ambulantes que oferecia todo o tipo de produtos, da verdura ao jornal, do mocotó às bengalas e guarda-chuvas. Eram também comuns os quiosques - armações de madeiras nas calçadas - onde o povo comia lascas de bacalhau, sardinhas e frituras, regadas a cachaça e vinho português. A higiene era péssima: a comida era feita na hora e os restos atirados no chão, atraindo moscas e vira-latas. Somando estes fatores à ausência de saneamento básico e ao relaxamento quanto à saúde pública, o Rio foi palco de várias epidemias e era conhecida como uma cidade empestada pela varíola, cólera, peste bubônica e, principalmente, a temida febre amarela.

As praias eram pouco freqüentadas, pouquíssimos sabiam nadar e, na Praia de Santa Luzia, os mais ousados penduravam-se em cordas amarradas em elevados diques de madeira vazada, ficando com parte do corpo metida dentro da água. Temia-se igualmente o sol, ao qual atribuía-se muitos perigos e, ao contrário dos tempos atuais, em que o conceito estético valoriza o bronzeado das mulheres, àquela época o charme estava no visual branco e etéreo cuidadosamente cultivado, inclusive através de produtos de maquiagem anunciados fartamente pela Revista Fon-Fon.

À noite, boêmios seresteiros invadiam as ruas com seus choros e modinhas até o dia raiar. Cairbar se fez um deles e, não raras vezes, amanhecia o dia na praia para, logo em seguida, às 7 horas, retomar o trabalho na farmácia sem dar o devido descanso ao corpo.

Quando não, empenhava-se em rodas de capoeira, de cuja prática era um simpatizante.

De espírito irreverente e ligado aos prazeres da vida mundana em sua juventude, Cairbar compôs-se na Sociedade "Clube dos Tenentes do Diabo", que rivalizava-se nos dias de folia de Momo com "Os Fenianos" e "Os Democráticos". Era o grande momento de Carnaval, quando a população aguardava durante horas nas ruas do Centro e depois na Avenida Central, atual Rio Branco, a passagem dos carros alegóricos puxados por cavalos ou pessoas dos três cordões.

Esse ritmo de vida, para um jovem em fase de desenvolvimento físico, acabou por torná-lo anêmico e debilitado nas funções pulmonares. A princípio, o recurso de se jogar mercúrio-cromo com guaiacol às costas amenizava e disfarçava sua precária condição de saúde, mas esse tratamento se tornou inócuo na medida em que Cairbar também não se esforçava para deixar seus hábitos noctívagos.

Só restou a ele, então, o recurso de consultar um médico, que foi incisivo em seu diagnóstico: "Sua saúde está precaríssima e você numa encruzilhada: ou sai do Rio imediatamente ou encomende já seu túmulo, porque você se encontra a um passo da tuberculose! Saia já do Rio".

E como naquele tempo, por ser fatal, temia-se muito a tuberculose, ele dirigiu-se no mesmo dia ao proprietário da farmácia, pediu para acertar suas contas e, baú debaixo do braço, despediu-se do avô e encaminhou-se a estação ferroviária D. Pedro II.

Certos rumos, aparentemente inexplicáveis que às vezes a vida de uma pessoa toma, são facilmente entendíveis pela influência que os compromissos reencarnatórios exercem sobre nosso íntimo. Muito embora conscientemente não entendamos o porquê daquele impulso que nos leva a tomar decisões drásticas e repentinas, é o inconsciente, através da lembrança desses compromissos nele gravados, que nos impele a tal.

Na estação, Cairbar Schutel, que não fazia sequer suposição para onde poderia ir, olha o mapa ferroviário e se fixa no final da linha: Araraquara.

"É para lá que vou" resolve. Compra a passagem, em São Paulo faz baldeação para a Cia de Ferro Paulista, e, no dia seguinte, se encontra intrepidamente num local em que a alguns dias antes nunca sonhara estar. Sim, era verdade. Num átimo de segundo houvera ousado trocar a encantadora Capital do País, com sua forte influência francesa do fim do século, por uma pequenina cidade, à época, do sertão paulista!

Descendo do trem, seu primeiro ato foi perguntar onde ficava a melhor farmácia da cidade. "É a Farmácia Moura", responde-lhe um transeunte. "Localiza-se na Rua do Comércio esquina com Avenida São Paulo. Seu proprietário é o Sr. João Baptista Raia".

Encaminhou-se para lá. Apresenta-se ao Sr. Raia como prático de farmácia, explica sua situação, e oferece-se para trabalhar com ele. Submetido a rigoroso teste, onde deveria aviar três difíceis receitas, desincumbiu-se perfeitamente da tarefa e foi contratado.

Corria, então, o ano de 1891 e naquela casa nosso biografado trabalhou por dois anos, aperfeiçoando seus conhecimentos da profissão na manipulação de xaropes, poções e essências, e na nomenclatura dos medicamentos.

Esta fase de sua vida interrompeu-se porque, melindrado por uma admoestação do patrão que achou injusta, e movido pelo orgulho que a Doutrina mais tarde viria a corrigir, Cairbar pediu suas contas ao Sr. Raia.

A contragosto, o patrão teve que concordar, embora declarasse:

"Um bom empregado, trabalhador e honestíssimo. Caráter, competência e dedicação ao trabalha. Mas é um poço de sensibilidade e saiu por orgulho e altivez. Não creio, porém, que resista por muito tempo, porque um lugar de gerente numa casa importante não se arranja facilmente. Aqui continuo aguardando-o, já que as coisas não andam muito boas e ele não tem de que viver..."

O então jovem Cairbar soube dos conceitos do patrão, mas seu orgulho falava mais alto e ele preferiu servir como humilde entregador de mercearia a curvar-se diante dele. Assim, não raras vezes era visto empurrando uma carrocinha em frente à Farmácia do Sr. Raia...

De Araraquara teve uma breve passagem por Piracicaba, onde empregou-se na Farmácia Neves, de propriedade de Samuel Castro Neves. Talvez aí possa ter tido um primeiro contato com o Espiritismo, através do Senhor Oseas de Castro Neves, tabelião de Piracicaba, irmão de Samuel e um dos primeiros estudiosos da Doutrina naquelas plagas, ao qual Cairbar dedicou boa amizade, conforme atesta-se no necrológio do mesmo que ele fez publicar em "O Clarim" de 07/12/1912:

"As 11,30 hs. da manhã de ontem, passou para as regiões do Além, o nosso prezadíssimo companheiro e amigo, Sr. Oseas de Castro Neves, 1.º tabelião desta cidade.

Conquanto enfermo já há longo tempo, seu passamento produziu profundo abalo na população piracicabana e indizível consternação entre aqueles que com ele privavam de perto (...)"





II
Passagem por Araraquara
Em 1894, ei-lo novamente em Araraquara, quando compra um pequeno sítio em que passa a cultivar frutas e verduras, além de estabelecer-se na cidade com um pequeno comércio de tabacaria e venda de bilhetes de loteria.

Nesta época, seu primeiro grande caso de amor. A moça, de nome Izaltina, pertencente à sociedade local, que por pressão da família, deixa de corresponder à grande paixão que nosso biografado lhe devota.

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