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Atentemos para alguns trechos de correspondentes de Schutel falando do assunto:

"(...) Aqui em Campinas houve espíritas que depois de terem tomado a assinatura do "Correio" devolveram o jornal declarar do que não queriam ter em casa um órgão que não sabia cumprir seus compromissos (...)". (Gumercindo, 21/03/1936).

"(...) Ultimamente o confrade vinha assombrando o mundo espírita através das colunas profanas do "Correio Paulistano" e eu, velho sonhador dessa maneira de dizer as grandezas e belezas da Causa que defendemos exultei de contentamento. Ao que parece, porém, as hostes de sotaina se moveram e já aquele órgão da imprensa indigna silenciou. Não faz mal: os jornais espíritas triunfaram, a tribuna triunfou, o Rádio está triunfando e na grande imprensa diária haveremos de triunfar também. Ao irmão que tem competência e amor à causa, como espírita, peço não desanimar nesse campo de sua valiosa atividade. 1...1". (S.M. Fonseca, 14/03/1936)

Vejamos como Cairbar Schutel se expressou em um de seus artigos pelo "Correio":

"No ano de 1857 foi lançado aos ventos da publicidade, na França, um livro denominado "Livro dos Espíritos". Esta obra produziu um sucesso verdadeiramente extraordinário, porque estabelece as bases de uma Ciência, ao mesmo tempo que enfeixa um Código de Moral só comparável ao Código do Cristianismo. Depois deste livro seguiram-se outros, mais outros, mais outros até que os diversos volumes se tornaram as primícias de uma grande Biblioteca circulante por todo o mundo e em todos os idiomas.

"O humilde escritor de tais livros, apresentou-os, não como obras suas, mas produtos de lições dos Espíritos que regem os destinos do Mundo, auxiliados por Espíritos de categorias várias, de cujas comunicações ele não foi mais do que Coordenador, Codificador. Para que seu nome não se salientasse, e não lhe atribuíssem o espírito de personalismo e cientícismo, julgou que deveria subscrever essas obras com um pseudônimo, para o qual adotou o de Allan Kardec. Mas esse homem cheio de humildade e desapego às glórias mundanas, era um douto: médico, bacharel, professor, discípulo e substituto do grande Pestalozzi. O seu nome real é Dr. Leon Hypolite Denizard Rivail.

"Lendo-se as suas obras fica-se, de fato, maravilhado e vê-se claramente que ele, longe de ser um cientista, tal a acepção vulgar da palavra, ou um literato, é mais do que tudo isso, é um Grande Missionário, verdadeiro Gênio.

"Basta para isso pensar que a "sua" Doutrina, ou seja, a sua coordenação, é um trabalho de finíssima confecção e se resume em demonstrar que a Religião tem por base a REVELAÇÃO, tal como o Cristo tomou-a e francamente declarou aos seus discípulos, segundo nos narra o Evangelista S. Mateus no Cap. XVI .

"A genialidade de ALLAN KARDEC mostra-se justamente na concepção de um fato existente desde o começo do mundo e que passou desapercebido pelas gerações e pelos maiores filósofos de todos os tempos: a Comunicação dos Espíritos, ou seja a Comunhão dos "mortos" com os homens.

"O realce da missão de Allan Kardec está nesta afirmação comprovada com fatos que se têm verificado em todas as épocas, em todas as nações, em todos os povos, fatos que se reproduzem hoje provocados ou espontâneos, com tamanha nitidez, tão objetivados que os próprios adversários do Espiritismo não têm coragem de negá-los, pois seria estultícia negar o que se pode verificar a qualquer hora. Acresce ainda que a verificação desses fatos tem sido feita pelos mais eminentes homens do velho e do novo mundo e trazem o testemunho dos mais acatados sábios.

"Não há dúvidas que as Igrejas, as "religiões" existentes proclamam, abertamente, esses fenômenos, mas os atribuem a causas sobrenaturais e miraculosas, desnaturando assim o seu caráter imortalista; que é justamente o que apresenta esses fenômenos como base demonstrativa da imortalidade da alma, e, portanto, da existência de Deus e existência de uma Religião Natural para reger os "vivos" e os "mortos".

"Não cabe neste relato mais nítidas exposições do Espiritismo. O nosso leitor fica convidado a ler, para melhor se identificar com a verdade, o "Livro dos Espíritos", e as demais obras que esclarecem bem o assunto.

"Limitamo-nos a transcrever os "Princípios Básicos do Espiritismo" em suas linhas gerais. Por eles se há de notar a grandeza da concepção Kardecista, que, pode-se dizer, é irrepreensível.

"1.° - Existência de Deus, Causa e Fator de toda a Criação - motivo explicativo da ordem, harmonia e beleza de toda a Natureza.

"2.° - Existência e imortalidade da alma, sua sobrevivência à morte do corpo, conseqüência racional, lógica e clara dos fenômenos ANÍMICOS E ESPÍRITAS, constatados no mundo todo.

"3.° - A CARIDADE, O AMOR AO PRÓXIMO, como base do aperfeiçoamento moral; a INSTRUÇÃO como meio de conquistas progressivas para a sabedoria; AMOR E VIRTUDE - duas que nos alçam à felicidade, que nos aproximam de Deus.

"4.° - A REENCARNAÇÃO - ou pluralidade das existências corporais, como fim de realização do progresso moral e científico, como FILOSOFIA explicativa das desigualdades sociais, físicas, morais e espirituais; teoria essa de pleno acordo com os atributos de Deus, de bondade, de misericórdia, de onisciência, de poder e de Amor.

"5.° - UNIDADE DO PLANO DIVINO; todos partiram do mesmo principio, todos atravessam a mesma rota, todos atingirão o mesmo fim: IMORTALIDADE, FELICIDADE, VIDA ETERNA.

"6.º - PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS, povoação de todo o Universo por seres inteligentes e racionais.

"7.° - COMUNICAÇÃO DOS ESPÍRITOS, quer como meio de estreitar os laços de amor que nos ligam aos seres amados que nos precederam na OUTRA VIDA, quer como condição de recebermos conselhos e ensinos que nos venham fortalecer a FÉ e a MORAL.

"8.° - CULTO DE ADORAÇÃO A DEUS em espírito e verdade.

PARADIGMA dos espíritas: - JESUS CRISTO, seja pela Palavra, seja pelo Exemplo, seja pela Ação - é o EXPOENTE MÁXIMO DA MORAL, DA RELIGIÃO E DA CIÊNCIA".

Algumas vezes os protestos eram mais veementes, inclusive do conceituado Pedro de Camargo (Vinícius), que em carta de 12/11/1936 assim se dirige a Schutel:

"(...) Não me admira a decisão tomada pela redação daquela Folha. Antes, o que me surpreendeu, foi o ato de tolerância na cessão da coluna, ora suprimida, para as publicações espíritas. Os políticos do P.R.P. fazem muita zumbaia aos italianos e, conseqüentemente, ao fascio, porque hoje Itália, Fascio e Igreja Romana são três pessoas distintas formando uma só verdadeira. Os cabos eleitorais do P.R.P. na Capital são italianos, havendo um grande grupo de eleitores daquela procedência ou daquela linhagem filiados ao partido dos "saudosistas". Ora, entre o Fascio Mussolínico e o Espiritismo existe aquele abismo que medeia do seio de Abraão ao Hades, portanto... é isso mesmo, está certo, o Correio tinha que capitular. Eu nunca me simpatizei com esse jornal, outrora por ser jornal oficial do Governo, hoje, por ser mussolínico e fascista mascarado. Daí porque não o assinei, apesar de acompanhar as publicações espíritas que até há pouco agasalhava." (12/11/1936).

O mesmo Gumercindo, já citado, tentou, a pedido do próprio Cairbar, encaixar suas contribuições doutrinárias em outros jornais da Capital:

"Amigo e confrade Cairbar.

PAZ.

Escrevi a "NOTA" com relação à sua reclamação. Também tenho recebido com irregularidade esse jornal.



De acordo com sua penúltima carta, escrevi à "Gazeta" e ao Sr. Leal de Souza, de "A Nota", sobre a sua colaboração nos jornais em apreço. Não recebi, até agora, resposta. A "Gazeta", porém, aceitou, pois já publicou as duas crônicas que o Sr. enviou. Estou estranhando a atitude do Dr. Leal de Souza: não respondeu as nossas cartas, não publicou a crônica que o Sr. remeteu, assim como cessou com os artigos sobre Espiritismo que vinha publicando diariamente. Que teria havido? Intervenção do Sr. Geraldo Rocha, proprietário do jornal? Intervenção da batina? O fato é que há 20 dias mais ou menos "A Nota" ainda publicou duas comunicações do Espírito Emmanuel, guia do médium Chico Xavier. Esperemos mais um pouco que a verdade surgirá.

Acho bom o Sr. continuar com a colaboração na "Gazeta de Noticias", pois este jornal tem boa circulação no país (...)" (23/01/1937)

Como vimos; suas contribuições não se restringiram ao "Correio Paulistano", mas buscaram encontrar guarida nas páginas de outros jornais leigos, sempre visando a divulgação da Doutrina em que ele se fez mestre.


XXXIV
Uma sessão espírita com Cairbar


Cairbar Schutel com as irmãs Perche realizando sessão mediúnica de tiptologia
Da RIE de agosto de 1968 selecionamos um trecho da entrevista de Pedro Fernandes Alonso, notável médium, que iniciou-se no Espiritismo, como tantos outros, pelas mãos de Cairbar, em que descreve a uma das sessões de que participou com nosso biografado e que foi muito interessante:

"Não digo que seria esta a última vez que vi Cairbar Schutel, mas foi uma das últimas. Ítalo Ferreira, Watson Campello e as irmãs Perche insistiam para que o visitássemos. Fomos certo dia vê-lo e Cairbar improvisou uma sessão. Fui colhido de surpresa. Foi no Centro Espírita "Amantes da Pobreza", aí em Matão. Presentes várias pessoas. Veio "Tio Carlos", que outro não era senão o "Rústico" de antigamente." Nome? Que importa o nome? Eu tive tantos"... disse ele, "chamem-me como entenderem". Dentro em pouco as manifestações tiveram lugar. O pó de arroz de uma das Perche veio até a sessão. O Espírito disse que o encontrara atrás do espelho, na parede do quarto dela. Exato - respondeu a dona do pó. Vieram outros objetos da redação, do Centro e da residência dos presentes. No final vieram flores e coxinhas, empadinhas e outros comestíveis "que fui buscar no bar do japonês" disse "Tio Carlos". "Depois da sessão, vão pagar o prejuízo. Como, é em homenagem ao Schutel, este "banquete", disse. Efetivamente, depois da sessão foram ao bar do japonês, que eu nunca havia visto e pagaram o prejuízo. O japonês estava apavorado: "Sumiu tudo", disse, mas fez a conta e recebeu o dinheiro. Esta foi uma noitada, para mim também, pois a sessão fora em homenagem ao mestre. Depois dessa reunião outras visitas se deram até a última, no dia de seu falecimento. Nesse dia a cidade de Matão chorou. Acompanhou em massa o sepultamento do corpo do ex-Prefeito, que albergava, durante tantos anos, o maior Espírito que descera à terra de São Paulo e possivelmente do Brasil. Eu entendo que foi o maior, embora Cairbar se julgasse o menor".




XXXV
O Desencarne: "Vivi, Vivo e Viverei"
Quase setenta anos tinham se passado da data que o Senhor havia chamado seu soldado a descer ao Campo das Batalhas Humanas!

Agora Ele o solicitava de volta. As lutas haviam sido insanas, mas valera a pena. Quando se passa a vida no empenho de ideais nobres, a morte assume uma dignidade ímpar, e a devolução do corpo ao Criador nada mais é que o sono do Justo, o descanso aureolado do Servidor.

Cairbar Schutel houvera sido um dos muitos chamados e um dos poucos escolhidos. No íntimo ele sabia disso, e, por isso, a passagem lhe parecia apenas uma oportunidade a mais de provar sua fé na imortalidade da alma.
***
Aconteceu no dia 13 de janeiro de 1938. O corpo do lidador quedou-se doente e no peito um coração dá sinais de fadiga: o fim estava próximo, ou melhor, o começo, pois abençoada é a morte que é a entrada para a Verdadeira Vida, na libertação do Espírito que entrega seu corpo alquebrado à Natureza e ascende ao Solar dos Justos.

"Mas "seo" Schutel", exclama Antoninha, "o senhor que não consegue nem se deitar, está caminhando até a sala?" E era apropriada a pergunta, porque há oito dias ele estava dormindo sentado, numa cadeira de vime, sem reclinar a cabeça em razão do coração que doía muito.

Antoninha não havia se preocupado apenas pelo arrojo do adoentado, mas notara nele uma transformação, uma fisionomia e um estado de alma que nunca houvera sentido antes. Ele lhe responde, a princípio, com a mudez do coração. Sua expressão facial denotava uma emoção que os lábios não conseguiriam exprimir por palavras. Queria confidenciar algo à amiga, mas o pudor, ou quem sabe o medo de a iniqüidade humana tomá-lo por delirante, o fazia catarse. O silêncio ainda era sua linguagem. Não se sabe quanto tempo passou assim, até que rendeu-se à alegria que lhe corria por entre as veias e explodiu seu coração numa confissão à amiga:

"Antoninha, desculpe-me minha filha, mas você nem imagina o que vai pela minha alma! Estava aqui, relutando comigo mesmo, para resolver se me abria com você ou guardava só para mim, mas a você, que tem sido a amiga de tantos anos, não poderia me furtar a contar. Antoninha... eu vi Jesus! Não diga para ninguém, mas.., eu vi Jesus... e ele me consolou! Não quero que ninguém saiba, porque tenho consciência de que não fiz nada para merecer tanta graça, mas o fato é que Ele me apareceu!"

Antoninha compreendeu então o momento. Como é que poderia duvidar daquele que durante toda a vida houvera sido um exemplo de dignidade e honradez? Não, imaginava ela, os estertores da morte física não levariam um homem como aquele a descer ao degrau da fantasia, mormente com a consciência que ela tinha de estar diante de um verdadeiro apóstolo do Cristo. Quem, senão alguém que renunciara à sua vida por inteiro poderia merecer tal galardão? Quem, senão aquele que se fez pai de toda uma legião de órfãos da sorte material e elegeu-se o amigo dos infelizes, dos trôpegos e dos estropiados?

Sim, ela cria. Nem por um momento lhe passou pela mente que ele não houvera visto o Cristo. Nem uma visão delirante teria sido. O Cristo, naturalmente, houvera vindo, Ele próprio, buscar seu escolhido.

Este fato se passou a dois ou três dias de seu desencarne e, malgrado os esforços dos médicos, Dr. Agripino Dantas Martins e Dr. Hudson Buck Ferreira, a insidiosa moléstia consumia-lhe os últimos fios de energia. Na antevéspera de seu desencarne ainda recebeu a visita do grande amigo Sílvio Goulart de Faria e fez-lhe a mesma confidência. Só que não conseguia completar a descrição. A emoção era de tal ordem que as lágrimas lhe aljofravam abundantemente ante a recordação do fato. Não se soube que ele tenha relatado a outras pessoas a ocorrência, mas a realidade é que ele percebera que nada mais o prendia à Terra. A missão estava cumprida.

Se ele assim achava, seus amigos queridos a rodeá-lo, egoística e justificadamente, o queriam retê-lo por mais tempo.

E no dia 29, às 10 hs da manhã, Dr. Hudson veio visitá-lo e disse:

"Olhe, Schutel, você tem que tomar mais injeções. Seu estado não é muito grave, mas acho que você tem que tomar mais injeções''.

Enquanto o médico descia à farmácia para buscar o medicamento, Cairbar começou a expirar e D. Antoninha, sentindo a gravidade do estado do doente, apressou-se em chamar o médico de volta para socorrê-lo. Dr. Hudson, então, aplicou-lhe rapidamente a injeção. A cabeça de Schutel estava caída para o lado, parecendo haver ele deixado de respirar, mas lentamente ele volta a si e com muita dificuldade fala aos amigos:

"Eu tive de voltar. Tive de voltar porque vocês fizeram tanto empenho... parece que vocês não queriam que eu fosse embora. Eu voltei, mas fiquem sabendo que o desencarne é certo".

E virando-se para o Dr. Hudson dirige-lhe a palavra:

"Doutor, o senhor se empenhou com tanto amor para que eu ficasse aqui, mas não será possível. Chegou minha hora de partir. Eu já estava do Outro Lado da Barreira sem dores e sem aflição, mas eu voltei porque não pude deixar de atender às orações que estão fazendo para me segurar aqui. O senhor pode fazer a injeção, mas quero que todos saibam que, como espíritas, será necessário que dêem o testemunho do que têm pregado a vida inteira: a morte é uma libertação, por isso não devemos temê-la ou lamentá-la".

Sentindo, assim, estar Cairbar vivendo os últimos instantes de romagem terrena, começam a avisar os seus grandes amigos: os Volpe, de Jaboticabal; Urbano de Assis Xavier, de Santa Ernestina; João Leão Pitta, de Piracicaba; e outros que moravam na região, os quais apressaram-se em vir se despedir do amigo. Urbano ainda chegou a tempo de orar e dar um "passe" no companheiro de Ideal.

No domingo, dia 30, às 16,15 hs, a miocardose se torna fatal e provoca o desencarne do "Pai dos Pobres de Matão".

A PRD-4, Rádio Cultura Araraquara, passa a anunciar o passamento de seu querido conferencista, e automóveis de todos os lugares começam a chegar à cidade, juntamente com os trens lotados para o enterro do notável filho adotivo de Matão.

O velório foi feito na redação do jornal "O Clarim" e na rua, sentados à calçada, os grandes amigos do récém-desencarnado, os pobres, choravam sua perda: "Morreu o nosso pai! Que será de nós agora?"

Mas o destino ainda estava reservando uma bela surpresa para aquele grupo de amigos tão unidos e que enfrentaram tantas situações difíceis juntos, sem deixar claudicar a fé que os unia em torno do Ideal abraçado.

Eram aproximadamente 21 hs. do domingo quando junto aos pobres que lamentavam a morte de Cairbar estava uma menina de 4 a 5 anos chorando com dor de dente. O já farmacêutico João José Aguiar vai levá-la até a farmácia para um curativo, quando é interpelado por Urbano de Assis Xavier:

"O que a menina tem, João?"

"Dor de dente. Vou levá-la até a farmácia para medicá-la."

"Então, deixe comigo. Você é farmacêutico, mas eu sou dentista e sou eu quem deve tratá-la."

Já na farmácia, Urbano colocou-a no balcão, pediu instrumentos e ácido fênico, tratou-a e dispensou-a. Aí, foi lavar a mão e quando João foi entregar-lhe a toalha, ele virou-se e, num tom de voz diferente do normal, disse:

"Joãozinho, vá lá em cima na Redação e chame o Pitta, o Campello, o Zeca, a Zélia e o Dias, e diga para eles virem aqui".

"Mas, por que Dr. Urbano, se já vamos fechar a farmácia e ir para lá?"

"Não teime, João, é o Schutel quem está falando!"

"Sim, senhor. O senhor está bem, "seo" Schutel?"

"Muito bem, João".

"Então sente-se na minha cama enquanto vou chamá-los" - elevou o médium incorporado até seu quarto que ficava no fundo da farmácia.

Os convocados foram rapidamente até o local e Schutel, através do médium inconsciente e de excelentes recursos, Urbano, abraçou um por um emocionado e se expressou:

"A Misericórdia Divina é tão grande que me deu o privilégio de abraçar vocês neste momento de partida para a Verdadeira Pátria. Eu estou muito contente e sendo recebido com um banquete que não mereço, mas o Pai é tão bondoso que, na minha alegria e êxtase, não poderia partir sem comunicar isso a vocês".

E dirigiu palavras intimas a cada um dos participantes da reunião, como se a querer provar ser ele mesmo quem lhes falava. Mas não precisava, pois todos aqueles que ali estavam souberam reconhecer imediatamente a presença do amigo e irmão de Ideal. Completou, então, a reunião expressando-se a todos:

"Só que tem um detalhe. Vocês podem ficar zangados comigo, mas eu preciso falar-lhes o que sinto. Ainda há pouco vocês conversavam na redação sobre o túmulo que vão erguer para mim. Nada disso. Espírita não precisa de túmulo. Quero uma coisa simples, uma lápide apenas, e se vocês quiserem escrever algo nela, escrevam isto: "Vivi, vivo e viverei porque sou imortal".




XXXVI
O Sepultamento

Watson Campello, grande amigo e um dos continuadores da obra de Cairbar, emocionado e anônimo, ouve, logo que chega, uma declaração espontânea de um motorista:

"Morreu o Pai da Pobreza desta cidade".

Não poderia haver definição mais completa e sucinta do que se passava naquela segunda-feira na pacata cidade.

Carros de todas as procedências, milhares de pessoas andando de um lado para outro, buscando informações aqui e ali.

Partia o féretro. Tremeluziam lágrimas nos olhos de ricos, pobres, intelectuais, analfabetos, enfim, gente de todo jaez que para Matão se deslocou a fim de prestar a última homenagem ao "Bandeirante do Espiritismo". Como não o acompanhasse somente espíritas, não se pode dizer que não houvesse o burburinho das lamentações ou as cenas de choro convulsivo, mas o fato é que a vibração mantida no ambiente pelos grandes companheiros de Cairbar era tal, que rompantes extemporâneos de desespero eram logo ofuscados pela lembrança de que ali estava se enterrando apenas o corpo daquele que prodigalizara toda sua vida à imortalidade da alma.

Dentre muitos outros expoentes da Doutrina e seus amigos, estavam presentes: Pedro de Camargo (Vinícius), Waldemar Wenzel, Romeu A. Camargo, Boanerges de Medeiros, Souza Ribeiro, Onofre Dias, João Leão Pitta, Watson Campello, os Volpe, Sílvio Goulart de Farias, etc...

"O Clarim", de 12/02/1938, assim descreve o sepultamento:

"(...) Eloqüentes foram as manifestações de pesar e as demonstrações de solidariedade que lhe tributaram pessoas de todas as idéias, que a uma só voz proclamavam haver morrido um homem bom, um homem de bem, um grande homem.

O seu enterro foi uma verdadeira apoteose, tal o enorme acompanhamento que o seguiu. Espíritas e não espíritas de muitas e longínquas localidades a ele acorreram.

Diversos oradores falaram junto de sua câmara mortuária e ao baixar o corpo à sepultura, um deles, o denodado propagandista, Dr. Souza Ribeiro, ao realçar as qualidades do Espírito liberto, erguendo hosanas ao Senhor, afirmou que o lutador que tombara no seu posto recebia o prêmio do seu trabalho e continuaria a inspirar os seus companheiros, a fim de prosseguirem a jornada.

E nós, secundando-o, diremos aqui: continuemos a marcha para a frente, quantos nos identificamos com o grande amigo e com os seus ideais que ele jamais abandonará (...)

Digno de registro foi o gesto da Associação Comercial e Industrial de Matão, tomando a iniciativa de pedir o fechamento do comércio pelo falecimento do associado e fazendo o convite para o enterro, bem como o da Prefeitura Municipal, hasteando, em sinal de pesar, a bandeira nacional a meio pau, envolta de crepe (...)"

Uma verdadeira avalanche de telegramas e cartas de todo o Brasil e do mundo invadiu a Redação de "O Clarim" nos dias que se seguiram, que o espaço seria pouco para os citarmos aqui.

Também "A Comarca", de Matão, dedica sua primeira página ao acontecimento:

"Através das ondas do rádio, pelo telefone e pelo telégrafo, transmitiu-se na tarde de 30 de janeiro p. findo, aos espíritas de todo o Brasil a notícia profundamente contristadora: - Faleceu Cairbar Schutel.

Às 16,15 horas desse dia, uma lacuna que dificilmente poderá ser preenchida, abriu-se nas fileiras do Espiritismo mundial. É essa a nossa impressão e será por certo a de todos quantos conheceram a obra ciclópica desse homem superlativamente capaz, solidamente realizador.

E que Cairbar Schutel não era uma personalidade vulgar. O seu espírito altamente privilegiado, bem cedo elevou-o a uma posição de destaque no campo intelectual, em cujo âmbito nem sempre a entrada é franca, para o comum dos mortais. Tendo abraçado a Doutrina Espírita há já quase oito lustros, não se limitou a aceitá-la tacitamente; estudou-a, investigou os labirintos dos mistérios psíquicos, e fez do Espiritismo um apostolado. Escritor e jornalista de escol, esteta da clareza e da simplicidade, capaz de fazer se entender pelos humildes e de confabular com os mais doutos, Cairbar Schutel pôs a sua pena e a sua inteligência a serviço do Espiritismo, desenvolvendo e polindo as suas teorias da maneira mais brilhante que poderia ser feita em nosso idioma (...)"

Completamos aqui a transcrição, que principiamos por fazer no início deste livro, do jornal "A Comarca" de Matão, de 27 de Março de 1939, sobre "A grande homenagem de Araraquara a Cairbar Schutel":

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