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"(...) Descerrado o velório às 8 horas precisamente, outro aspecto de grandeza se nos depara, ali aparecendo ao palco, oito oradores em torno da mesa da direção. O dirigente dos trabalhos, cercado de quatro filas de numerosos confrades espíritas militantes, notando-se entre eles grande número de senhoras.

Levanta-se no meio de palmas espontâneas e calorosas Nagib Borges, cirurgião-dentista, diretor da sessão que a declara aberta numa oração feliz e comovente, dizendo do valor do homenageado e passando a palavra ao Dr. João Baptista Pereira, advogado, residente na capital do Estado, que falou com a autoridade de Presidente da Sociedade Metapsíquica de São Paulo, se espraiando em considerações incisivas sobre os fenômenos espíritas e a Doutrina deles decorrente, depois de tecer um hino à cidade - expressão de estética, de beleza, de cultura e de bom gosto afirmando: "Esta manifestação representa, para a história de Araraquara, a cravação do marco glorioso dos seus destinos futuros" e, além de outras frases, acrescenta: "é uma demonstração da coragem da fé e a afirmação de claras atitudes sociais".

Referindo-se ao homenageado, declara que ele foi o propulsor das mais arrojadas iniciativas em prol da propaganda espírita, tendo concorrido, com a sua "Revista Internacional do Espiritismo", para a fundação da Sociedade Metapsíquica, cujo objetivo é promover a verificação dos fatos cientificamente, a prova da sobrevivência do homem, após a morte do corpo, e da comunicação do mundo espiritual com o mundo material.

"A imortalidade", exclama, "é a grande questão! Provada que seja, a Humanidade marchará para a doutrina do Cristo e realizar-se-á, então, o vasto sonho de Cairbar Schutel, que, como o louco divino da lenda, que tentara esvaziar o oceano, para dele retirar, a pé enxuto, a pérola preciosa, tanto fez para extinguir as trevas do mundo, a fim de que nele resplandecesse a luminosa pérola de Jesus - a sua eterna doutrina!"

Palmas e aplausos vibrantes cobrem as palavras finais do orador.

Ergue-se, em seguida, o Dr. Calazans de Campos, também advogado, notável jovem orador Espírita da Federação Espírita de São Paulo, preclaro conhecedor da filosofia universal, delicado artista da palavra que, inspirado, comove o auditório falando das mortes gloriosas como a de Cairbar Schutel lesado no coração pelo qual viveu intensamente e elevado pela nuança da morte, a branca e suave companheira com que se empreende! a viagem para o Lado de Lá!

A dor é necessária ao aperfeiçoamento do homem, passando a dizer que quem mandou nas tribunas do mundo, como o Sinédrio, a Agra de Atenas e o Senado romano, que se calaram, esboroando-se, tal qual toda a obra humana, sempre frágil e inconsistente, apesar dos seus faustos ou prestígios transitórios, permanecendo de pé, somente, através dos séculos e da oposição da ignorância, a tribuna, imperecível e eterna de Jesus!

Voltando ao problema da vida e da morte, afirmando a existência espiritual, referindo-se ao labor e ao desaparecimento terreno de Cairbar Schutel, termina: "Bendita a terra que mata! Que suga a seiva à planta, mas que conserva a raiz!"

Orador preciso, impecável, eloqüente, vai sentar-se, entre ruidosas palmas.

A seguir, Itagyba Borges, que já havia lido um telegrama de Paulo Tacla, de Curitiba, congratulando-se com as homenagens, lê outro, no mesmo sentido, de Aureliano Botelho, de Bauru, e dá a palavra ao quarto orador da reunião.

É o Dr. Souza Ribeiro, médico, de Campinas, que se levanta. Foi o mais extenso de todos. Falou durante uma hora e vinte minutos, na meio de aplausos constantes, da Assembléia. Singelo, desataviado, grande na sua imensa coragem moral, impressionou vivamente, falando de Cairbar Schutel, de quem se diz discípulo, falando da imortalidade da alma, das provas da sobrevivência do Espírito, da reencarnação, da Justiça Divina e exclamando: "os bons espíritas, tais quais os bons cristãos, devem ser "mãos jogadoras de sementes!" Franco e sincero, conta fatos edificantes da sua vida e confessa: "só vim a conhecer o cristianismo depois que me tornei espírita! Enquanto bom católico que fui, como todo bom católico, nada entendia de Jesus!"

Fazendo a análise dos dogmas religiosos e destruindo a concepção da vida única, referindo-se, ainda, a Cairbar Schutel, finaliza seu extraordinário discurso, aplaudido intensamente pela assistência.

Eram já 10 horas e meia, quando passou a falar Pedro Alonso, jornalista, de São Carlos, representante da imprensa espírita e da Sinagoga Espírita de São Paulo. Orador fluente, surpreendeu com inspirada e delicadíssima oração, despetalando, como afirmou, flores da alma e da saudade sobre o Espírito lúcido e a memória suavíssima de Cairbar Schutel.

Recebe, ao terminar, palmas calorosas.

Segue-se na tribuna, Caetano Méro, da União Federativa Espírita Paulista, da Capital, que também em frases delicadíssimas exalta o homenageado batalhador de todos os setores do Espiritismo, na tribuna, na imprensa, no rádio e na caridade!" de maneira que Cairbar Schutel lhe dissera, certa vez, a propósito da necessidade de uma estação de rádio para os espíritas: "O Espiritismo não é para ficar entre quatro muros, mas deve abranger o mundo, fazendo-se ouvir em toda a parte!"

Perorando com rara felicidade, encerra a bonita oração, abafada por palmas prolongadas.

Usa da palavra, agora, José Dias, de São Carlos, que falou em nome dos espíritas de Matão, agradecendo as homenagens dirigidas ao seu querido chefe. Declarando-se também discípulo de Cairbar Schutel, e, caloroso, entusiasta, expressivo, sincero, diz agradecer aquelas vivas demonstrações de afeto e de carinho, em nome do próprio homenageado, que afirma, o inspirava no momento.

Passava das 11 horas, quando Itagyba Borges vai encerrar a brilhantíssima sessão e é interrompido por um dos assistentes, que, levantando-se no palco, pede que se proceda ao encerramento, com um "Pai Nosso", rezado pelo Presidente.

Não foi esta uma intervenção patente do espírito de Cairbar Schutel, no seio da assembléia? Ele que era tão amigo de Jesus e da prece, orando sempre ao abrir ou ao encerrar as sessões a que presidia?

E assim se procedeu. Estava realizada a homenagem magnífica ao apóstolo brasileiro do Espiritismo!

A assistência que se encontrava ali há mais de quatro horas, esperando, ouvindo, aplaudindo, parecia disposta a continuar.

Todos os oradores estiveram à altura da grandiosidade daquela verdadeira concentração Espírita, presenciada por uma multidão de pessoas de todas as crenças. Não houve maiores nem melhores. Com estilos e dons diferentes, todos agradaram profundamente.

Teve um cunho significativo e singular de grandeza tal consagração, que ultrapassou qualquer expectativa.

Não foi uma das reuniões comuns, de espíritas, geralmente pequenas e recolhidas. Ao contrário, foi uma assembléia enorme e expansiva. Foi mesmo intensamente vibrante aquela festa cristã, tão resplandecente de beleza moral.

Volvendo o pensamento ao passado, o cronista reviu todos os passos do homenageado, na sua marcha ascendente, desde os iniciais, há mais de 30 anos falando, obscuramente, a meia dúzia de amigos íntimos! Como frutificara a sua sementeira! Como a sua ação foi profícua! Como a sua obra crescera! Ali estava, no grande Teatro de Araraquara, aquela maré montante de gente, aquela verdeira preamar humana sequiosa de se sentirem continuadores do eminente apóstolo, fundador de "O Clarim" e da "Revista Internacional do Espiritismo" de Matão, e a força de uma idéia, que vai ganhando, velozmente, as consciências!

E, raciocinamos, ainda, esta é sem dúvida, a primeira grande demonstração da importância de um movimento social, de incalculáveis proporções, que se desprende da obscuridade e das indecisões do passado, para as arrancadas do futuro.

Era, mais do que a homenagem a um homem, a consagração de um Ideal, naquela realíssima e impressionante Parada Espírita!

Estão de parabéns os espíritas de Araraquara, do Estado de São Paulo e do Brasil.

Ítalo Ferreira - São Carlos, 23 de março de 1938”


Final da Primeira Parte


Segunda Parte
Cairbar, o Escritor e o Jornalista
Wilson Garcia


I
"Nossa tarefa é divulgar"
Se, por um instante, alguém devesse buscar um exemplo de criatura que justificasse um processo reencarnatório assumido com consciência; que demonstrasse compreender as limitações intelectuais da própria existência; mas que, finalmente, a despeito de tudo fosse capaz de pensar - como diria Humberto Mariotti - "com evidentes profundidades metafísicas", esse homem seria, sem dúvida, Cairbar de Souza Schutel.

"Eu não conheço por grandes homens - disse Voltaire - senão os que têm feito altos serviços ao gênero humano". Esta lógica, todavia, não tem sido suficiente para evitar a subversão dos valores e impedir que parvos sejam exaltados e verdadeiras inteligências condenadas ao anonimato. Não obstante a fantasia da imortalidade na mente humana, que levanta monumentos à eternidade mas os constrói sobre o sangue dos fracos e uma miserável justiça, a figura de Cairbar Schutel existe no cenário da história exatamente por ser membro daquele grupo de grandes inteligências destinadas a mudar os conceitos do mundo.

Não é apenas o materialismo histórico que deve ser combatido. Tampouco o socialismo utópico, o capitalismo selvagem, a Religião sem espírito, a educação sem perspectivas. É necessário travar uma dura batalha contra os falsos conceitos de imortalidade. Encerrada nos museus e academias, nas sacristias e santuários, ela cheira a mofo e tem gosto de vela queimada. Imortalidade morta, presa, despojada de racionalidade, fonte de miséria intelectual e abandono moral.

"Vejo homens de fronte erguida para o alto, - disse Cairbar - vejo outros curvados em busca dos tesouros da terra; vejo bons, vejo maus; uns inteligentes, outros estúpidos; uns santos, outros diabos; vejo sãos, vejo enfermos, bonitos e feios; pergunto-lhes donde vieram, quem são e para onde vão, mas nenhum deles me responde." (1)

01. Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Espanta-se Cairbar. De que valeram, pergunta, séculos de história religiosa se o homem moderno não tem respostas para suas inquietações? Padres, pastores e sacerdotes de todos os cultos, onde as lições capazes de esclarecer a humanidade? Quem pode resolver as dúvidas da alma humana? Onde estão os ensinamentos cristãos legados pelo Filho do Homem? E corre Denis, arrisca uma resposta: "O verdadeiro Cristianismo era uma lei de amor e liberdade, as igrejas fizeram dele uma lei de temor e escravidão". (2)

02. Cristianismo e Espiritismo, 5.ª edição, 1952, FEB.

O dia de repor as coisas em seus devidos lugares não está longe. O início de Cairbar Schutel no Espiritismo coincide com o recrudescimento dos ataques dos adversários da doutrina. Ao contrário, porém, de assustarem o novo adepto, os adversários funcionam como uma espécie de adubo atirado à raiz da árvore em crescimento. Não poderiam saber eles que a semente lançada naquela mata virgem daria origem a um dos mais admiráveis espécimes. Notaram seu porte mediano, a alvura engomada de seu terno, o queixo alongado sustentando um cavanhaque bem cuidado. Misturaram-no à Doutrina Espírita na certeza de que a mistura correspondia a um guisado demoníaco. Mas foram enganados. Não perceberam que o demônio havia retornado ao inferno de Dante, donde, aliás, nunca deveria ter saído, como já disse alguém. Cairbar foi quem os enganou, com sua aparência frágil e o coração de aço.

Cairbar Schutel foi o iniciador de uma época fertilíssima de homens de fibra, coragem e fé. O seu tempo marcará a existência no Brasil de espíritas incapazes de ajustarem-se às "domesticidades convencionais", assinalada por Inginieros. Leopoldo Machado, Carlos Imbassahy, Romeu Camargo do Amaral, Pedro Lameira de Andrade, o ítalo-brasileiro Mariano Rango D'Aragona, Arlindo Colaço, Deolindo Amorim, José Herculano Pires, Júlio Abreu Filho entre tantos outros.

Esse grupo vai dividir-se e combater em dois flancos: de um lado, os donos do poder religioso, católicos e protestantes, sempre dispostos a atacar o Espiritismo na vã tentativa de destruí-lo; de outro, os responsáveis pelos desvios doutrinários, resultantes dos preconceitos, dos falsos conceitos e - até mesmo - da inoperância. Ou seja, esses homens não se contentarão em responder às criticas sempre ferozes dos adversários declarados da Doutrina Espírita, mas se postarão atentos ao próprio movimento espírita para conter os excessos naturais da interpretação. E, verdade seja dita, não obstante à lisura com que agiam, muitos deles sofrerão dos próprios espíritas injustiça e incompreensão.

Cairbar Schutel cedo define sua linha de ação: "A nossa tarefa está limitada à divulgação da missão kardecista". (3) Assim, seu tempo será destinado ao trabalho de divulgar o Espiritismo. No entanto, o seu conceito de divulgação assume uma amplitude característica de um gênio; em Cairbar tudo é motivo para fazer propaganda da filosofia espírita; as críticas dos adversários religiosos, a ocorrência de fenômenos mediúnicos, as tradições sociais, etc.

03. Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Ao definir sua tarefa, Cairbar passa a dedicar tempo integral ao trabalho que ela exige. Poucas vezes ele discutirá com os próprios espíritas, mas, se o fizer, será franco.

E certo que sua época se caracterizava pelo combate sistemático de vigários e pastores à nova doutrina. Nesse particular, o início do século XX não diferia muito da segunda metade do século XIX, quando o Espiritismo surgiu na França e espalhou-se pelo mundo, alcançando também o Brasil. Tanto os meios científicos quanto os religiosos passavam por grandes transtornos no que diz respeito à transcendência do ser humano. A comprovação dos fenômenos mediúnicos levou inúmeros homens de ciência e de religião a aceitar a filosofia espírita, aumentando o furor dos ortodoxos de todos os lados. Havia, pois, uma guerra declarada unilateralmente e a Doutrina Espírita, sem pátria e sem fronteiras, via-se agredida impiedosa e não raro desonestamente.

Por isso, torna-se estranha e incompreensível a posição de certas instituições espíritas, que criticaram a ação destemida de Cairbar Schutel sob o pretexto de que as polêmicas religiosas não traziam benefício para o Espiritismo.

Cairbar não as ouviria. Não era de sua personalidade ouvir passivamente a mentira da boca daqueles que tinham o dever de falar a verdade. Não seria ele quem veria a Doutrina Espírita espoliada sem nenhuma ação de defesa. Temos nesse interior do Brasil inúmeras regiões onde o Espiritismo praticamente inexiste; teria faltado aí homens como Cairbar Schutel, para exigir que o clero romano respeitasse, no mínimo, a Constituição Brasileira?

O respeito que se dedica ao Espiritismo nos dias de hoje muito deve à ação desses homens corajosos, destemidos; essa ação foi desenvolvida numa época em que ser Espírita era motivo de cadeia ou de internação em hospício.

A pecha de "doutrina do diabo" era pronunciada nos confessionários, parlatórios e altares e transformada em livros. Avocar ao diabo a causa de alguma coisa hoje pode parecer estranho. Afinal, ele está totalmente desacreditado. Não naquela época, porém, quando os meios de comunicação de massa apenas se esboçavam.

O Espiritismo então se mantinha por si e por um punhado de homens de fibra. A situação de seus adeptos era muito parecida com a dos primeiros cristãos. Organizadas, as religiões ocidentais contavam com uma estrutura invejável; seu poder era sustentado pelo capital acumulado durante séculos de história. Os espíritas contavam apenas com a fé raciocinada. Algumas vezes, só com a fé; não dava tempo de raciocinar para conter a violência clerical...

A realidade tem soluções invisíveis não raro. Cada ataque sofrido pelo Espiritismo era compensado com o aparecimento de novos adeptos, saídos dos quadros materialistas e dos meios religiosos. A parcela de homens cansados do domínio clerical tinha na Doutrina Espírita oportunidade de raciocinar sem as pressões do modelo seminarista.

Ao Espiritismo acorrem não apenas os miseráveis do sistema, tantas vezes humilhados. Um grande número de intelectuais, amantes de liberdade, aderem à nova doutrina e far-se-ão ouvir pela liberdade de crença.

Assim como a fé, o idealismo nunca foi propriedade da igreja. Idealistas existiram sempre em todos os tempos e uma de suas características mais marcantes é a independência. As fogueiras da inquisição fizeram cinzas de muitos deles, mas multiplicaram-nos também ao infinito.

A seu turno, a ciência oficial, muitas vezes comprometida com o sistema econômico, incumbiu-se de procurar explicações extravagantes para os fenômenos mediúnicos. Teorias se acumularam na ânsia de condenar as conclusões apresentadas pelos espíritas. O preconceito era aí também muito forte.

Cairbar Schutel aparece no cenário em meio a esta realidade. Em pouco tempo revela-se um idealista puro, decidido a defender o último reduto livre do conhecimento. Livre, sim, porque enquanto as instituições culturais e religiosas sempre estiveram atreladas ao poder ou por ele eram manipuladas, o Espiritismo surgia sem nenhum vínculo. Podia, pois, optar pelos pobres numa época em que isto era arriscado. A opção, no entanto, não poderia ser mera ocupação de espaço ou intenção de recuperar o tempo perdido. Ela advinha exatamente de uma visão nova do próprio ser humano e interessada em fazê-lo livre pelo conhecimento, crente pelo raciocínio.

Cairbar, entretanto, estava destinado a ser mais do que um simples combatente. Na verdade, por sua forma de pensar, capacidade de ação, senso de responsabilidade, bravura e, acima de tudo, profundidade ao olhar o Espiritismo, ele foi um verdadeiro comandante, amado e seguido, um exemplo na Terra da "superioridade moral irresistível" natural entre os Espíritos.



II
O pensamento espírita de Cairbar Schutel
Não foi Cairbar Schutel um pensador no sentido estrito do termo. Dentre os livros que escreveu, nenhum há que demonstre qualquer preocupação acadêmico-filosófica. Não tencionou realizar perquirições profundas, questionamentos e abstrações metafísicas. Sua obra literária não possui liames previamente definidos, pelos quais se perceba a existência de um plano traçado com antecedência e a busca de objetivos em momentos que se sucedem em cada um dos seus livros.

Em Cairbar Schutel as coisas acontecem com uma rapidez inimaginável. Ele é ao mesmo tempo um instrumento dócil, entregue às forças da inspiração, mas também um homem de vontade própria e objetivos claros. Uma personalidade convicta.

Na Matão do início do século ninguém será filósofo. Cairbar se transformará num verdadeiro bandeirante, corajoso, audaz; fará entradas nos domínios mais fechados do pensamento dogmático e fincará as bandeiras de uma nova ordem espiritual.

Essa ação atrairá a fúria do clero romano e do protestantismo. Ambos se sentirão ofendidos pela presença impertinente de um homem que pensa em voz alta e fala aos sussurros com os Espíritas. Daí nascerá um embate que atravessará os anos e deixará atrás de si uma trilha de livros e obras sociais.

Cairbar Schutel concentrará suas forças na solidificação de uma entidade espírita voltada à propaganda da literatura doutrinária - "a nossa tarefa está limitada à divulgação da missão kardecista" - enquanto ele mesmo se dedicará a conquistar espaços entre os grupos sociais para a mensagem espírita.

Para tanto, constrói no seu íntimo uma convicção inabalável sobre a doutrina codificada por Allan Kardec. Em primeiro lugar, ele não tem dúvidas sobre os seus postulados, só certezas. O estudo dessas obras trouxe-lhe uma crença profunda nas realidades espirituais. Essa crença é a primeira conseqüência do seu encontro com a Doutrina Espírita.

Não surge pronta, entretanto, a crença. Ela sofre um processo de maturação, acelerado em virtude das circunstâncias excepcionais do ambiente social em que se situa. As criticas deflagradas pelos opositores do Espiritismo vão atingi-lo em cheio, porque serão dirigidas tanto à sua pessoa quanto à doutrina.

"E preciso - dirá Cairbar - que o espírito tenha uma caridade quase ilimitada para suportar com tranqüilidade o ataque desleal, injusto e sistemático, que contra o Espiritismo movem os sacerdotes de Roma e do protestantismo." (4)

04. Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

A caridade - hoje um termo tão desgastado - é uma segunda conseqüência em Cairbar Schutel. A convicção doutrinária junta-se um sentimento de solidariedade que não é novo nele, mas que encontra mais razões para tornar-se um fato real.

Os debates, mesmo nos momentos mais críticos e de emoção maior, levarão os contendores aos extremos, mas, pelo menos em Cairbar Schutel, as feridas jamais se transformarão em ódio. Um sentimento profundo de bondade leva-lo-á a superar a tendência natural de estender a mágoa da injustiça sofrida a tudo o que se refere ao adversário. Cairbar não odeia, ama.

Contudo, não tergiversa nem transige. "Amo - dirá - com todas as forças de minha alma a intransigência, que é, a meu ver, um dos apanágios dos espíritos fortes". (5)

05. O Clarim, 13/06/1914.

Em Cairbar todos os sentimentos se fundem para dar lugar a um espírito ao mesmo tempo caridoso e capaz. A coragem encontra nele uma expressão que raríssimas vezes se vê. Ele perdoa a tudo, menos à fraqueza dos homens, que põe em risco a verdade.

Poucas vezes Cairbar travará discussões com os próprios espíritas. Isso não significa que ele não mantivesse opinião divergente em relação a diversos aspectos doutrinários. Como o faz em "Médiuns e Mediunidades", onde afirma: "Não podemos compreender a atitude dos centros que resumem seus deveres ao exercício de uma ou duas sessões por semana".

Voltado para a divulgação, não encontra tempo para discussões internas. Entretanto, quando elas ocorrem, prevalece sempre sua postura de homem vertical, franco, extremamente fiel à causa, que não admite a fraqueza do espírito. Dizia ele: "da tolerância à transigência vai uma distância tão grande como da Terra a Marte." (6)

06. O Clarim, 13/06/1914.

Este traço é acentuado em Cairbar e ele tenta passá-lo àqueles com quem convive e faz escola. Inspira-se, certamente, na figura admirável de Paulo de Tarso, que, conforme diz, "era um moço vigoroso, de Espírito forte". (7) Nele encontra motivos para a conduta que determina para si próprio, com tanto rigor. "Paulo, diz, era um homem de grande instrução, racionalista, não se converteria sem um conjunto de provas que pudessem convencê-lo da Verdade Cristã." (8)

(7), (8) - parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Embora distanciados no tempo e no espaço, Paulo e Cairbar desenvolvem uma ação em muitos pontos semelhantes. Ambos são divulgadores de uma mensagem, que consideram de capital importância para a humanidade. Paulo viaja bastante, Cairbar não tanto, mas os dois possuem uma idêntica coragem para lutar contra o dogmatismo. Suas personalidades se parecem até na independência com que atuam: não se submetem a pressão de qualquer espécie e não vivem do sacrifício alheio. Paulo é tecelão, Cairbar farmacêutico.

O que Cairbar fala de Paulo vale para si mesmo: "Absolutamente independente, ele nunca se aproveitou de sua autoridade para receber o que quer que fosse para seu uso particular". E mais: "...homem severo, mas justo, intemerato, sábio, poliglota, orador..." (9)

(9) - parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Os maiores inimigos de um seriam, depois, os piores inimigos do outro. Embora distanciados no tempo e vivendo épocas distintas, tiveram ambos que travar suas mais duras batalhas com os representantes do poder religioso, estes sempre mais fortes e contando com maior apoio material. Lutaram, todavia, em prol da liberdade, sob a direção de uma consciência bem expressa nestas palavras de Cairbar: "Discutir idéias, expor argumentos às acusações infundadas que contra nós são atiradas, contestar as opiniões errôneas que contra nós são apresentadas, rebater as calúnias, apontar as mentiras, desmascarar a hipocrisia, tal deve ser o afã de todo espírito sincero, cônscio dos deveres que lhes são confiados". (10)

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