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(10) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

As virtudes, pois, em Cairbar expressam-se nesta presença de um coração caridoso, sempre pronto a auxiliar ao necessitado e perdoar o ofensor. Nunca, entretanto, a permitir que a falsidade prejudique aqueles que buscam o conhecimento.

***
Um terceiro momento em Cairbar pode ser sintetizado na maneira como ele compreende a Doutrina Espírita. De fato, Cairbar não discute os novos conhecimentos; absorve-os como se os encontrasse após intensa procura. O fato de não discutir não significa a existência de uma crença cega. Pelo contrário, a nova doutrina é que vai favorecê-lo no uso da racionalidade. O encontro dele com a doutrina funciona como a descoberta do vírus para o cientista. A partir daí as hipóteses cedem lugar às certezas.

Mais tarde, dirá ele que "a obra de Allan Kardec é inexcedível. De todos os espíritos que têm vindo à Terra ele é o verdadeiro mensageiro de Jesus, sob cuja direção agiu".(11)

(11) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

O cristianismo, na sua forma primitiva, quando estava ainda isento das influências que viriam a modificar. substancialmente sua natureza, reaparece para Cairbar na inteireza da nova doutrina. Estão de volta, agora com a vantagem do progresso tecnológico de quase dois mil anos, os fenômenos mediúnicos, as curas, a reencarnação, a evolução do espírito, enfim todos aqueles conhecimentos muito cedo subtraídos das informações cristãs nascidas com a missão de Jesus.

A fé deixa de existir como dogma e retorna à sua origem. O Cristo perde a auréola de construtor de milagres e retoma as características de espírito evoluído. As leis naturais adquirem novas dimensões. Os homens são tratados como seres em evolução e não mais como espíritos de uma única existência. A vida além da matéria ganha perspectivas novas: deixa de ser uma esperança vazia para se tornar um fato dinâmico.

A crença e a caridade, os dois primeiros momentos de Cairbar, são alimentadas nele pelo conhecimento doutrinário. Este, ao mesmo tempo em que lhe garante energias para a luta, amadurece-lhe o espírito, permitindo-lhe uma compreensão do mundo superior à dos homens comuns.


III
Cairbar Schutel e a fenomenologia espírita
Ao contrário da tendência que se notaria mais tarde, entre os adeptos do Espiritismo, Cairbar Schutel consagrou aos fenômenos mediúnicos uma importância tão grande quanto aos aspectos morais e filosóficos da Doutrina Espírita. Para ele, a moral era tão importante para os homens quanto os fenômenos que comprovam a existência do espírito. Um complementa o outro.

Longe dele o deslumbramento do neófito; importa-lhe sobretudo não perder de vista os fatos, únicos capazes de vergar os negativistas. Assim, os fatos são o poderoso instrumento para convencer a opinião pública sobre a existência de uma outra vida além da morte. Com isto, ele vai realçar os fenômenos em toda a sua obra, utilizando-os ora como instrumento de combate às idéias dos adversários, ora como veículos de informação aos leitores de O Clarim e Revista Internacional do Espiritismo.

Fosse qual fosse o fato, sendo verídico, dele se servia Cairbar. "O Espiritismo, afirma, é assunto do dia e as curas Espíritas revolucionam os cérebros que engendram, cada qual, opiniões as mais desbaratadas, semelhantes as dos contemporâneos de Newton sobre a gravitação universal." (12)

(12) - Histeria e Fenômenos Psíquicos, 1.ª edição, 1911.

Ao Espiritismo atribuía-se a causa de muitas loucuras humanas. Dizia-se que a nova doutrina era fábrica de doidos. O argumento utilizado pelo clero romano, ao qual agregava ainda a teoria demoníaca, tinha o endosso de alguns profissionais da medicina. Não importava nem mesmo a inexistência de provas científicas para embasar as acusações. Tenta-se a todo custo condenar o Espiritismo.

Contrariamente, porém, aos interesses dos adversários, as casas Espíritas se multiplicavam e nelas se operavam consideráveis curas de doentes não raros desenganados pela medicina. Era a essas curas que se referia Cairbar. Já na época ele acreditava no aparecimento de um comportamento mais positivo por parte da ciência: "...as curas espíritas estão se impondo à atenção de doutos e sábios de nossa terra e brevemente elas merecerão a sanção da ciência oficial, última sempre em abraçar as novas verdades que nos são reveladas". (13)

(13) - Histeria e fenômenos Psíquicos, 1.ª edição, 1911.

Não poderia, porém, um homem racional a tudo aprovar sem qualquer análise. Ao mesmo tempo em que as curas atraíam a atenção de Cairbar, levando-o a delas se utilizar na divulgação Espírita, punha ele sentido na natureza humana, sempre muito pródiga na desonestidade.

Os farsantes existem em todos os lugares. Por isto, alertava Cairbar: "Há curas espíritas e há pretensas curas Espíritas ou pretensos médiuns que se intitulam curadores; discernir o falso do verdadeiro é dever de todos os homens que trabalham, que concorrem finalmente para o progresso". (14)

(14) - Histeria e fenômenos Psíquicos, 1.ª edição, 1911.

Cairbar Schutel tinha dos fenômenos mediúnicos uma visão muito segura. Podia medir-lhes a importância; conhecia-os por experiência própria, pois houvera sido intermediário em processos de cura.

"Hoje, afirma Cairbar, que a humanidade está cansada de especulações filosóficas que saem das forjas do sectarismo religioso, é preciso que as palavras se apóiem nos fatos". (15)

(15) - Espiritismo e Materialismo, 1.ª edição, 1925.

Para Cairbar, não há dúvida de que o conhecimento oferecido pelo Espiritismo possui um extraordinário valor; ele alcança a razão das pessoas e por ali penetra. Mas o homem ainda e cada vez mais precisa de algo visível, palpável, para acreditar.

"As teorias proclamadas pelo Espiritismo - dirá - são de um valor incalculável, mas a incredulidade arraigou-se tanto no espírito humano que só mesmo os fatos (...) poderão convencer o homem de sua imortalidade". (16)

(16) - Espiritismo e Materialismo, 1.ª edição, 1925.

A mediunidade, séria e honesta, oferece tantas perspectivas de comprovação das teorias espíritas, que Cairbar Schutel não perdoa aqueles que se dizem espíritas mas são incapazes de olhar com proveito os fenômenos. Em "Médiuns e Mediunidades", ao analisar diversos ângulos da questão, diz:

"Como nos dói na alma saber da noticia de uma casa assombrada e lemos em seguida: "lá compareceram os Espíritas e os fenômenos cessaram!..."

"Não seria mais lógico - pergunta Cairbar - mais racional, mais religioso que os Espíritas, após a verificação da autenticidade do fenômeno, estimulassem a sua intensificação para que todos pudessem verificá-lo?" (17)

(17) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

O fato é que entre os próprios espíritas vigem certos preconceitos com relação à mediunidade, havendo até quem endosse a teoria, trazida naturalmente dos meios ignorantes, de que ela representa algum tipo de perigo para as pessoas. Isto deu origem a um movimento recente alertando contra a tentativa de implantação de um Espiritismo sem Espíritos.

Em Cairbar Schutel, "o uso da mediunidade não oferece perigo; o abuso, sim, é perigoso". (18) Daí porque se bate em prol de um tratamento mais adequado da questão.

(18) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

"A abstenção do estudo e da experimentação de um fenômeno - afirmará ele em 1923 - sob pretexto de perigo, não é consentânea com a razão, nem com a ciência, como também é um entrave à lei do progresso, da Verdade." (19)

(19) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Não faremos justiça se omitirmos um detalhe: em Cairbar Schutel a propaganda dos fenômenos não é a mesma coisa que a realização de reuniões práticas abertas ao público, com o intuito de fazer espetáculo. Cairbar nutre pelos espíritos uma atitude de profundo respeito e compreende o caráter privado que devem conter certas atividades.

"A divulgação do Espiritismo - diz - não está afeta a esses trabalhos práticos, mas sim a propaganda de sua doutrina racional, consoladora e que se arrima sobre os fatos verificados sob a mais rigorosa fiscalização". (20)

(20) Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Dar publicidade ao fato comprovado é uma necessidade. Negar ao fenômeno qualquer importância na modificação do comportamento das pessoas é não ver a realidade.

Cairbar vai mais além ao relacionar os fenômenos com o Cristianismo: "Não é o timbre moral da doutrina que faz os adversários curvarem a cerviz ante a palavra de Jesus, mas, sim, os fenômenos de ordem física e intelectual que reluzem nas páginas dos Evangelhos, fatos que, digamos de passagem, com maior ou menor intensidade, nunca deixaram de se produzir desde tempos imemoriais até à época em que nos achamos". (21)

(21) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

O fato mediúnico está na base das revelações: aparece em Moisés, no Sinai; vem com Jesus, nos três anos em que noticiou as boas novas; ressurge, novamente, em Kardec, em meados do século XIX. Se em Moisés e Jesus o fato mediúnico funciona como elemento de atração e persuasão, em Kardec ele acabará se transformando no próprio canal da revelação.

"Na verdade, pergunta Cairbar, que seria do Cristianismo sem as curas, sem as manifestações diversas, sem as aparições?" (22)

(22) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

A mediunidade alcança em Cairbar uma importância extraordinária. Não se trata de uma coisa banal, mas de algo que convive com a humanidade que está presente em todos os momentos importantes da vida na Terra, nos acontecimentos mais simples ou mais complexos.

Divulgar a mediunidade é mostrar os fatos e "os fatos são o 'tudo' da Religião, da Ciência e da Filosofia" (23) garante Cairbar.

(23) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

O ideal de Jesus foi "demonstrar a existência do Espírito e sua sobrevivência à desagregação corpórea". (24) Longe, pois, da concepção mística que lhe foi atribuída.

(24) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

O fato busca a razão. Cairbar é um racionalista. Ele ama a Deus, crê-se um homem religioso, mas não se sente impulsionado a uma atitude mística, nem a um comportamento que traduza a existência de preconceitos castrantes. "É preciso construir a crença como se constrói uma casa". (25) Isto é, tijolo a tijolo, conhecimento a conhecimento, fato a fato.

(25) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

"Muitos missionários vieram à Terra, mas um só se conta que aliou a palavra aos fatos, os fenômenos conseqüentes e subseqüentes da vida eterna aos princípios da moral mais pura, mais tocante, mais elevada e, ao mesmo tempo, mais simples que se pode conceber". (26)

(26) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

A sua visão das revelações é coerente: todas têm por base os fenômenos mediúnicos. A eles, portanto, o devido valor.




IV
Por um espírito livre, consciente
Cairbar Schutel é a demonstração evidente do poder do ideal. Quando o padre e o pastor o encontram na propaganda do Espiritismo e fazem-se seus adversários ferrenhos, despertam nele uma capacidade rara de analisar e julgar, com imaginação e praticidade, sem perder os mais simples detalhes. Surge, pois, o crítico obstinado, intransigente, que desce às minúcias dos fatos e as põe à mostra.

Abre-se para Cairbar um novo ângulo de análise: a parte moral da doutrina. Os representantes do poder religioso, sem o saber, fornecem-lhe motivação para o estudo da Religião, com o que se fechará o circuito em que transita o Espiritismo: filosofia, ciência e moraI.

"A Religião - dirá ele - não pode ser manifestação platônica a serviço dos cultos ou dogmas de qualquer Igreja; não é monopólio de determinado povo ou raça; é um apelo à razão e ao sentimento e conduz o Espírito a destinos ignotos, mas imortais". (27)

(27). Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

De fato, com o Espiritismo a idéia de Religião sofre uma mudança completa, aproximando-se da definição dada por Jesus, através da qual Deus deveria ser adorado "em espírito e verdade", portanto, dispensando o intermediarismo de qualquer espécie. Os cultos ritualísticos, os dogmas de fé são expressões simbólicas que tendem a substituir a realidade e a obliterar a razão. As imagens são outros tantos símbolos criados para satisfazer a necessidade do povo, enquanto se lhes subtraía a possibilidade de conhecimento das questões efetivas do espírito.

A Religião tornou-se instrumento de dominação; foi posta a serviço dos interesses econômicos. Ora, uma tal Religião não poderia ser tida senão como o tóxico que adormece as consciências.

"A Verdadeira Religião desperta altas aspirações e torna-se um liame entre as almas e Deus; por isso não pode deixar de ter caráter permanente, no tempo e fora do tempo, no espaço e fora do espaço!" (28)

(28) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Longe de dominar, a Religião liberta; ao invés de enganar, esclarece; não foge ao estudo da natureza espiritual das coisas, mas se debruça sobre ela para compreendê-la e desvendá-la. Estimula a fé, mas não a toma à custa dos dogmas.

"A fé sem conhecimento pode ser comparada a uma candeia mal provida, que à meia-noite não dá mais luz". (29) Isto é, a fé dogmática estremece, desmorona ao primeiro choque. A fé espírita não é produto da imaginação. Com e Espiritismo descobre o homem que a sabedoria é a maior aliada da fé. A fé Espírita é pois raciocinada.

(29) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

A partir do advento do Espiritismo, não se crê mais por medo; acredita-se apenas naquilo que pode ser explicado com lógica. A vida perde sua condição unitária, a morte deixa no túmulo apenas os ossos. O homem torna-se um ser evolutivo; sua individualidade mantém-se integra a cada desencarne e retorna sempre às experiências físicas.

A própria dor perde seu caráter de casualidade. "Neste mundo ainda atrasado, dirá Cairbar, onde viemos progredir, a dor parece ser a sentinela avançada a nos despertar para a perfeição". (30)

(30) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Ao tomar conhecimento dessas novidades acenadas pela pena de Cairbar Schutel, os representantes do poder religioso ameaçam seus adeptos com castigos eternos, escancarando as portas do inferno. O Espiritismo é resultado da ação do diabo, garantem os padres do início do século em Matão. Todos, pois, que nele acreditarem serão condenados, sem direito a defesa. Sem apelação.

Cairbar responde: "O diabo é sempre invocado pelo Catolicismo para combater as idéias que vêm de encontro à sua teoria preconcebida". (31) O que os padres católicos não percebem é a ineficácia de tal expediente diante dos novos tempos. Há muito a Igreja Católica perdera o domínio sobre o saber. Decerto sua influência é ainda grande. Outros núcleos, porém, já se haviam libertado e dado início à formação de homens de consciência livre. Todos sabem que o diabo não passa de um pretexto intimidatório, a encobrir outros interesses.

(31) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

E o que percebe Cairbar: "O diabo do sacerdócio romano está para o Espiritismo assim como o diabo do sacerdócio hebreu estava para o cristianismo: é o mesmo espírito de intolerância e aversão a todas as verdades que vêm libertar os homens do sofrimento e da ignorância". (32)

(32) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

A preocupação com o destino espiritual do homem era o disfarce que encobria o medo da perda de um rebanho tão lucrativo. Os cuidados com a conduta dos adeptos era outra falácia bem urdida pelos senhores vigários. Na verdade, "...a Igreja de Roma a ninguém condena por deixar de praticar as verdades verdadeiras, como o amar ao próximo; porque com isto pouco a igreja se incomoda; as labaredas eternas estão reservadas aos que tiverem a audácia de descrer dos dogmas - artigos de fé que dão o numerário para os seus ministros". (33)

(33) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

Outra seria a identidade da verdadeira religião. Sua face mais nobre consiste em instruir os homens sobre as coisas do espírito. Qual o que, a religião que herdamos dos nossos antepassados sequer nos pode dizer quem somos, de onde viemos e qual o nosso destino. Há um silêncio tumular pesando sobre nossas cabeças. De quando em quando um sussurro quebra essa horrível monotonia. De dentro dos seminários alguém sugere um símbolo qualquer, algo como que misterioso que a ciência nem o progresso aceitam.

Positivamente, "não é nos templos nem nas academias que encontraremos o registro da nossa individualidade...". (34) Vivemos quase dois mil anos sem nome e sem documento, perdidos nos prazeres que se esgotam e nos esgotam, vivendo repetidas experiências na crença de que jamais fomos ontem. Somos seres sem passado que pretendem ter futuro, como se a vida pudesse existir sem história.

(34) Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

A pergunta se renova: "onde está o sábio, onde o padre, que não esclarecem sobre o nosso passado? Onde a sabedoria da ciência e a luz da religião que não iluminam os primórdios do meu espírito, o nascimento de minha alma?" (35)

(35) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Como esclarecer sobre o ser superior da natureza se nem mesmo os mais simples podem ser explicados convenientemente. Ora, "as religiões parasitárias têm negado com a maior desfaçatez a alma dos animais. Fascinados pela vida material e seu bem-estar que visam usufruir, cerceados pelo dogma execrando que condena o raciocínio, oblitera a consciência e impõe a fé passiva, os sacerdotes presos às suas doutrinas pessoais trabalham para manter a ignorância do povo, negando-lhe o direito de pesquisa, de livre exame, condições indispensáveis para a conquista dos conhecimentos que acionam a evolução espiritual". (36)

(36) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Precisa o homem libertar-se desse jugo, que o ilude, e defender seus direitos, sua consciência. Nossa religião, herança do passado, nos atira no túmulo e fecha a gaveta sem maiores informações. É como se fôssemos jogados no nada do materialismo. Porém, "o nada não existe; trevas, morte, sepulcros não são mais que berços que acalentam variadas formas de vida para entregá-las à eternidade". (37)

(37) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

E com o Espiritismo alerta Cairbar Schutel: "A Lei de Evolução Anímica é a única que explica a origem da alma...". (38)

(38) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Precisamos construir a nova Religião que respeita a realidade do indivíduo. "E preciso construir a fé, como se constrói a casa". O Espiritismo que aí está "é tolerante, não exige uma crença cega". (39)

(39) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Devemos buscar uma Religião que não negue os fatos mediúnicos e não os transforme em instrumento de dominação. Ao contrário, que os estude com rigor cientifico, porque "todos esses fatos, tidos como miraculosos pela ignorância popular e pelo autoritarismo clerical, não eram mais do que provas objetivas dos atributos do Espírito, magnificamente sintetizadas no Filho do Homem". (40)

(40) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Precisa o homem de uma religião duradoura, que "desperte altas aspirações", sem dogmas, cultos, mistérios insondáveis, ritualismos, condicionamentos místicos. Uma Religião que una fé e razão, ciência e filosofia; que tenha por base a moral pura do cristianismo e por lema amar e instruir. Precisamos do Espiritismo, dirá Cairbar Schutel.



V
Cairbar Schutel e seus livros
Os livros surgem em Cairbar Schutel em decorrência de três fatores: em primeiro lugar, as polêmicas a que foi conduzido pela ação dos padres católicos e pastores protestantes; em segundo lugar, pela oportunidade de abordagem de determinados temas, que o momento oferecia; finalmente, para cumprir antigas aspirações que o autor alimentava.

Muitos desses livros tiveram sucessivas edições e foram estudados por diversas gerações, nas escolas e cursos mantidos por instituições espíritas. Eles ultrapassaram as divisas da pacata Matão e espalharam-se por todo o País, indo até o exterior. Inspiraram oradores, tornaram-se modelo para escritores espíritas, muitos dos quais posteriormente alcançaram grande projeção. Instruíram médiuns, colaboradores de instituições espíritas e dirigentes doutrinários.

Estas obras estão impregnadas do caráter do autor. Nelas não se percebe apenas o estilo vigoroso de Cairbar, mas também a sua forma de ser e agir.

Não são livros de expressão literária. Foram elaborados entre um afazer e outro, de modo despreocupado quanto ao apuro do estilo e ao esmero da linguagem. Cairbar não é um intelectual de formação acadêmica. E um autodidata. Seus conhecimentos foram acumulados através do esforço do dia-a-dia, entre a luta pela sobrevivência e o descanso. Considera-se ele um divulgador, aquele que tem a tarefa de levar a mensagem ao público e com ela exercer algum tipo de persuasão.

Sua linguagem é simples, direta, como convém ao jornalista que trabalha com a informação. Não podendo se aprofundar em pesquisas e pião dispondo dos recursos culturais dos grandes centros urbanos, vale-se muitíssimo da inspiração e da intuição, através das quais formula o plano dos livros, quando isto se faz possível. Afinal, está ele em contato com os Espíritos de modo constante e aproximado. Essa situação confere-lhe um poder extraordinário de bem utilizar o tempo. E só assim consegue desenvolver os diversos e simultâneos momentos de sua vida; é o farmacêutico, o amigo dos pobres, o diretor do jornal e da revista, o homem que deve responder às críticas dos adversários da doutrina; o orador, o marido e o administrador. O escritor, enfim, que não escreve apenas, mas deve coordenar a composição gráfica, efetuar as revisões, dirigir a impressão, distribuir os livros, cuidar da cobrança.

Fácil, pois, perceber as razões pelas quais escreverá obras despreocupado dos aspectos literários. Ele não deseja um lugar na academia, pois já se sente imortal; aliás, é possuidor de uma certeza, neste aspecto, de fazer inveja a qualquer titular da academia: a certeza da imortalidade.

Entre os livros surgidos em decorrência das polêmicas incluímos as primeiras quatro obras escritas e editadas por Cairbar Schutel: Espiritismo e Protestantismo (1911) , Histeria e Fenômenos Psíquicos (1911), O Diabo e a Igreja (1914) e Interpretação Sintética do Apocalipse (1918). Junte-se a estes os opúsculos Cartas a Esmo (1929), A Questão Religiosa, Liberdade e Progresso e Pureza Doutrinária, os três últimos sem registro de data de edição.

No segundo grupo, de temas oportunos, reunimos: Gênese da Alma (1924), Espiritismo e Materialismo (1925), Os Fatos Espíritas e as Forças X... (1926), A Vida no Outro Mundo (1932), Conferências Radiofônicas (1937) e ainda os opúsculos Preces Espíritas e Espiritismo para as Crianças, cujas datas de edição não foram localizadas.

Finalmente, chegamos aos livros resultantes de estudos mais demorados e profundos, que incluímos no terceiro grupo: Médiuns e Mediunidades (1923), Parábolas e Ensinos de Jesus (1926), O Espírito do Cristianismo (1930) e Vida e Atos dos Apóstolos (1933).
Ligeiros apontamentos de alguns livros
Espiritismo e Protestantismo encabeça os livros de Cairbar Schutel. Foi o primeiro de uma série que somará vinte títulos, aí considerados os opúsculos e, também, O Batismo, editado após a sua morte.

Espiritismo e Protestantismo é também o primeiro da relação dos oito que surgiram em decorrência das polêmicas. Reúne os debates travados entre Cairbar e o professor Faustino Ribeiro Júnior, um protestante que deu início à polêmica ao publicar um artigo no jornal O Alfa, da cidade de São Carlos, interior de São Paulo, no qual ataca o Espiritismo. O ano era 1908.

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