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Mas o seu coração iria pender mesmo era para o lado de Maria Elvira da Silva e Lima, formosa jovem, cuja saga e caso com Cairbar Schutel relataremos adiante e com quem ele passaria a viver maritalmente.

O grande amigo de Schutel em Araraquara chamava-se Britinho, cuja amizade conservou mesmo após sua mudança da cidade, visitando sempre o amigo quando de suas estadas por lá.

Já ficara no passado os tempos de boemia do Rio de Janeiro. Cairbar Schutel, então, mais amadurecido e responsável, nem de longe lembrava o alegre folião do "Clube dos Tenentes do Diabo" ou o animado seresteiro das rodas noturnas cariocas.

O fato marcante de sua segunda passagem por essa cidade, foi o surto de febre amarela que assolou-a no ano de 1895, mas com casos conhecidos desde 1890 - 91. Logicamente, como prático de Farmácia, Cairbar Schutel atuou no combate à moléstia.



Cairbar Schutel, O jornalista
Bastante ligado às questões religiosas, católico praticante, Schutel freqüentava a Igreja da qual era vigário o Padre Luciano Francisco Pacheco e, posteriormente, Frei Daniel (capuchinho).

Em 1895 muda-se de Araraquara, mas não vai diretamente a Matão, como se supõe. Ele provavelmente terá tido uma breve passagem por Itápolis, vila das redondezas, hoje Município, antes de estabelecer-se na, também, vila de Matão.

Como curiosidade, conta-se que Schutel sempre citava, jocosamente, o fato de ter chegado a Matão em uma sexta-feira, 13 de 1896, ano bissexto. Pelo que vamos acompanhar de sua biografia, ficamos a matutar o que seria se superstição valesse...


III
Os Schutel, uma família ilustre
Demonstrando ser um Espírito altamente preparado para a missão a que foi chamado a desempenhar na presente encarnação, Cairbar nunca quis tirar proveito de sua descendência ilustre, os Schutel, freqüentadores da Corte do Império, e preferiu começar sua vida do nada a servir-se da influência de seus parentes para ganhar algum cargo ou função importante no Império.

No entanto, vale registrar aqui algumas informações sobre os imigrantes suíços Schutel, que servirão como subsídios históricos à trajetória de nosso biografado.

- Seu avô, João Carlos Luiz Henrique Schutel, foi casado em primeiras núpcias, na Itália, com Camila Strombio Schutel, de cujo enlace resultou o filho João Strombio Schutel que, por sua vez, foi casado com Custódia Cândida da Silveira, filha de Manoel Inácio da Silveira e Felicidade Cândida da Silveira.

- Sua avó, Maria da Glória Teixeira Schutel, também viúva, foi casada com o Major Francisco Machado de Souza, com quem teve o filho Francisco Damas de Souza, que mais tarde recebeu o sobrenome Schutel, sendo considerado por Henrique Schutel como seu próprio filho. Francisco foi casado em primeiras núpcias com Maria Amélia Tavares e em segundas com Rosa Jesus Bonsfield.

- Garcia Redondo, historiador e escritor, relata insólito caso ocorrido no fim da vida com Dr. Henrique Schutel. Realizava ele, em 1885, uma viagem no navio Rio Pardo para o Rio de Janeiro, quando apresentou sintomas de alienação mental, certamente já alcançado pela esclerose cerebral, tendo por diversas vezes tentado se jogar no mar. Não queria com isso se suicidar, mas chegar mais rápido a nado...

Dois senhores vigiavam Dr. Schutel tentando conter-lhe os ímpetos, quando este, num de seus momentos de lucidez, confiou-lhes ser amigo do próprio Garcia Redondo, residente em Santos. Uma vez passando por aquela cidade praiana, os três dirigiram-se à casa de Garcia que os recebeu com um almoço. Prevenido da situação do amigo, Garcia só se convenceu de suas alucinações quando, ao término da refeição, este solicita uma garrafa de champanha e durante o brinde revela o motivo de sua viagem ao Rio iria avistar-se com o Imperador, seu amigo, para concitá-lo a aceitar, sem derramamento de sangue, a República que ele proclamaria. O segundo brinde foi para um dos convivas, Marechal Deodoro da Fonseca (o outro era o engenheiro Honório Bicalho) que, por sugestão de Schutel deveria ser o Presidente da República. Os dois "anjos da guarda" de Schutel retornaram ao navio sendo ele convencido a ficar na casa do amigo santista. Este comunicou seu estado aos parentes que vieram buscá-lo, promovendo sua internação em clínica do Rio, onde veio a falecer alguns meses depois sem ter visto se realizar sua profecia, pois, como é de conhecimento geral, em 1889 foi proclamada a República, sem derramamento de sangue e tendo sido escolhido seu primeiro Presidente Deodoro da Fonseca. No ar, a indagação: Premonição? Atuação Espiritual? Coincidência? A conclusão deixamos a cargo do leitor, inclusive porque a própria doença esclerose ainda é uma incógnita para o Homem.

- Dr. Henrique Schutel fundou a Empresa Demaria e Schutel com Carlos Demaria, súdito inglês, genovês de origem a qual deveria colonizar 1.000 braças de terra, acrescidas mais tarde de duas léguas, na região então denominada Colônia Nova Itália ou Dom Afonso, nas proximidades de São João Batista. Cento e oitenta colonos sardos foi o máximo que conseguiram, tendo sido frustrada a pretendida colonização, inclusive pelo medo das investidas dos selvícolas. Em 1845 as terras foram declaradas devolutas e a concessão caducou.

- No livro "As Minhas Memórias", Garcia Redondo descreve Dr. Henrique Schutel como "O anjo Bom da Pobreza de Santa Catarina".

- Do mesmo Dr. Henrique Schutel, conta-se que aportou no Rio de Janeiro a convite de D. Pedro II para cuidar da saúde de sua Imperatriz.

- Amante da boa música, Dr. Henrique Schutel estudou violino com Paganini em Milão e tornou-se exímio violinista.

- João Strombio Schutel casou-se com Custódia Cândida da Silveira Schutel, brasileira, e tiveram os seguintes filhos: Henrique, João Pedro, Adelaide, Camila e Adalgiza. Esta última foi registrada no Consulado da Itália em 1879, já que seu pai era cônsul na época. Foi a única que se casou, isto com João Mathias da Silva. Foram seus filhos: Maria (Marieta, falecida em 1985), Oswaldo (falecido em 1978), Alice, Alaide e João (falecido em 6/1/86).

- Duarte Paranhos Schutel, tio de Cairbar, foi médico, político, jornalista e literato. Nasceu na cidade de Desterro em 8 de junho de 1837. Segundo apuramos, parece ter sido afilhado do Barão do Rio Branco, com cuja família viveu em sua mocidade. Habitou, na época de estudante, na mesma pensão que Joaquim Manoel de Macedo, autor de "A Moreninha" e "Moço Loiro", cuja personagem desta última obra foi inspirada no próprio Duarte. Colando grau em Medicina em 1861 no Rio de Janeiro, retornou à Província em 1865, ande teve atuação destacada tanto na atividade profissional como na vida política, tendo chegado à Vice-Presidência de Santa Catarina em 1878 pelo Partido Liberal. Faleceu em Florianópolis em 6 de outubro de 1901.

- O jornal "Argos" de 30/6/1860 noticia o grande incêndio havido no dia 25 no Hotel Vapor, quando da equipe de voluntários para se debelar as chamas destacou-se o sr. Anthero Schutel, pai de Cairbar.

- Henrique Jacques Schutel, tio Nhonhô, trabalhou nas questões de limites da Bolívia e na construção do Viaduto do Chá em São Paulo. Faleceu num convento no Rio de Janeiro.

- Cecília e Emília, filhas de Duarte Paranhos Schutel, tocavam piano com a Princesa Isabel, no Rio.

- Em 1872 aconteceu um dos mais violentos surtos de varíola que registra a história sanitária de Santa Catarina e o Dr. Duarte Paranhos Schutel destacou-se como um dos médicos mais dedicados no atendimento à população. O mesmo Dr. Duarte foi abolicionista da primeira hora.




IV
A Matão que Cairbar encontrou
De um excerto de texto de programa radiofônico, bem podemos ter idéia da cidade de Matão no fim do século passado e princípio deste, que Cairbar Schutel encontrou:

"Senhores ouvintes.

.....era uma vez, um pequenino vilarejo, cercado de gragoatás, guabirobas, indaiás, joás, ingás, marias-pretas, uriticuns, cobras, onças, macacos e mata virgem, com perobeiras, jequitibás, embaibás, cabreúvas, paus d'alho, cedros, jacarandás e uma imensidade de árvores seculares, servindo de trono às aves canoras, no despertar das madrugadas e cerrar das Ave-Marias, quando a tarde se escondia na boca d’oeste, sob o estribilho sonoro da passarada, saudando a glória inconteste da natureza, pela passagem de mais um dia nos tempos áureos, que ficaram feito lantejoulas no espelho alvinitente do passado. E, senhores ouvintes, esse vilarejo pequenino nos seus primeiros vagidos, por Mercê de Deus Todo Poderoso e de seu povo chamou-se: Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão (...)

Foi preciso sacudir a fisionomia da terra, com machadeiros broncos e valentes, derribando e fazendo estrondar no seio da floresta abrupta, árvores e mais árvores, até então, feitas sentinelas do Império agreste do sertão dos tempos idos, quando em 1895, precisamente no dia 25 de março, levantava-se o Cruzeiro no coração do Patrimônio, simbolizando o martírio de Jesus Cristo Nosso Senhor, e Fé Irredutível no destino triunfante, da Vila do Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão!

Em maio de 1900, já no limiar do século XX, a pacatez da vila nos primeiros formatos de cidade, ouviu sobressaltada o primeiro apito rouco da locomotiva de George Stephenson. Pequenina como um brinquedo de criança. Chamada "boneca". Soltando fagulhas. Rangendo as rodas sobre os trilhos da bitola estreita, puxando resfolegante dois ou três vagões do "lastro", carregado de progresso e esperanças, varando vales, promontórios; cerrados, matas e terras férteis de toda a Araraquarense, para presumivelmente entre 1910 e 1912, alcançar essa fábula chamada São José do Rio Preto, hoje Capital do Sertão, e Rainha da barranca do Rio Grande.

Eis, então..., senhores ouvintes, a necessidade natural da política administrativa, para a Matão crescente e desenvolvida no seu progresso preliminar, quando em 1897 o Deputado Dr. Francisco Toledo Malta, aos 27 dias do mês de agosto, consegue a promulgação do Decreto criador do Município de Matão".

Era, assim, Matão, no início deste século um pequeno burgo, de nome plenamente justificado, e é nesse ambiente pouco povoado e pacato, onde não havia nenhuma botica, que nosso biografado escolhe para aportar.

Nessa localidade, montou sua farmácia na Rua do Comércio, Bairro da Pedreira, em frente ao Juca Barbeiro.




V
O político Cairbar Schutel
E de grande valia a atuação de Schutel no cenário político local.

Numa sociedade reduzida como Matão, a figura do farmacêutico era bastante representativa, ainda mais que, de caráter ilibado e retendo forte magnetismo pessoal, era previsível que Schutel se fizesse uma das importantes personalidades locais. Nada mais natural, então, que inscrever-se na história política de sua terra adotiva.

Em 1895, Matão era Distrito Policial; em 1897, Distrito de Paz; e, em 1898, elevado a Município pertencente à Comarca de Araraquara.

Para tanto, muito contribuiu o farmacêutico Schutel, já, àquela época, preocupado com os destinos da comunidade. Por esse esforço, e, logicamente, pela capacidade que demonstrava, foi escolhido o primeiro Intendente do novo Município, cargo este equivalente ao de Prefeito em nossos dias.

Ocupou este cargo em dois períodos: de 28 de março de 1899 a 7 de outubro do mesmo ano, e, de 18 de agosto de 1900, a 15 de outubro também de 1900.

Hoje percorre-se a distância de Araraquara a Matão confortavelmente em 20 minutos ou pouco mais de automóvel, mas, naquela época, Cairbar Schutel fazia esse mesmo trajeto a lombo de burro, com chuva, frio ou sol ardente, sem titubear nem temer as estradas poeirentas, os picadões bravios e as imprevisíveis defrontações com animais ferozes ou forasteiros hostis, recortando horas e horas as entranhas da mata virgem. E de lá retornava, lépido e bem disposto, pela certeza do dever cumprido, após perfazer 14 léguas a serviço gratuito da então pequena Comuna do Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão!

Recorrendo novamente à "A Comarca", essa folha, em seu número de 6 de fevereiro de 1938, no necrológio de nosso biografado, assim se manifestou:

"É absolutamente impossível em Matão falar-se, quer da nossa história passada, quer da nossa história hodierna sem mencionar Cairbar Schutel. Cairbar Schutel foi, para Matão, um dínamo propulsor do seu progresso, um arauto dedicado e eloqüente das suas aspirações de cidade nascente. Mais do que isso foi o homem que, como farmacêutico, acorria com o seu saber e com a sua caridade à cabeceira dos doentes, naqueles tempos em que o médico era ainda nos sertões que beiravam o "Rumo", uma autêntica "avis rara".

Militando na política por algum tempo, a sua atuação pode ser traduzida no curto parágrafo que abaixo transcrevemos, fragmento de um discurso pronunciado em 1923, na Câmara Estadual, pelo Deputado Dr. Hilário Freire, quando aquele ilustre parlamentar apresentou o projeto da criação da Comarca de Matão. Ei-lo: "Em 1898, o operoso, humanitário e patriótico cidadão Sr. Cairbar de Souza Schutel, empregando todo o largo prestígio político de que gozava, e comprando com os seus próprios recursos o prédio para instalação da Câmara, conseguiu, por intermédio de um projeto apresentado e defendido pelo Dr. Francisco de Toledo Malta, de saudosa memória, a criação do município de Matão".

No entanto, a bem da História, é discutível que Cairbar Schutel tenha realmente doado o prédio onde se instalou a Câmara de Matão, pois em consulta ao livro Caixa da Prefeitura da ocasião, fomos localizar apenas alguns lançamentos de despesas feitas por Schutel, como no dia l.º de abril de 1899, o recebimento da quantia de 1:060$000 (hum conto e sessenta mil réis) registrado como "dinheiro por conta de despesas de instalação da Câmara" (Desapropriações). Na realidade, o livro Caixa não registra essa doação que, logicamente, não passaria desapercebida a qualquer guarda-livros.

Eis o que relata a 1.ª ata do recém-criado Município de Matão, cuja própria história se confunde com a biografia de seu mais brilhante filho:

"Aos vinte e oito dias do mês de março de mil e oitocentos e noventa e nove, nesta vila de Matão, Edifício da Câmara Municipal, sala de seus trabalhos, às onze horas da manhã, presentes os membros eleitos da Câmara, abaixo assinados, sob a Presidência do cidadão José Hyppolito Fernandes, que escolheu a mim, Theóphilo Dias de Toledo, para o seu Secretário, foi declarada aberta a sessão.

O Presidente diz que tendo já todos os membros da Câmara prestado compromisso legal perante a Câmara de Araraquara, no dia de ontem, restava para a instalação do município, como última formalidade, que se procedesse à eleição do Presidente, Intendente e Vice-Presidente".

Cairbar Schutel foi eleito Intendente por cinco votos. A sala achava-se "abrilhantada com a presença de diversas excelentíssimas famílias, pessoas gradas desta e de outras localidades, representantes da imprensa de Araraquara, os alunos da escola local e muitas outras pessoas".

Discursando, o cidadão Intendente Cairbar de Souza Schutel disse que, em nome do Diretório político do Município e como reconhecimento pelos reais serviços prestados pelo Dr. Francisco de Toledo Malta, muito digno Deputado do Congresso do Estado, oferecia à Câmara Municipal o retrato - em tamanho natural - daquele eminente cidadão e, como Intendente, indicava que fosse ele colocado na sala de trabalhos da Câmara".

Estava assim, Matão, a postos para sua arrancada rumo ao progresso e aquele que mais contribuíra para essa transformação, sem o saber, preparava-se para, depois de cumprida a elevada missão neste campo, retirar-se do cenário político da terra. Outra grande missão e maior havia sido destinada àquele político extemporâneo...

No dizer de Leopoldo Machado, “Matão teria de perder, mais tarde, o político diferente, sem perder o grande benfeitor, para ganhar o Apóstolo”.

E também Leopoldo quem nos dá a única pista de como teria sido o político Schutel, descrevendo-o, não como o político comum do sertão, autoritário, vaidoso e monopolizador de poder, mas um homem público totalmente voltado à causa pública e aos interesses maiores da sua gente.




VI
O casamento de Cairbar Schutel
Episódio digno e belo envolve o caso de amor de Cairbar e Mariquinhas,

Residia a menina Maria Elvira da Silva e Lima junto com a família no vilarejo de Itápolis e sua beleza juvenil ressaltava aos olhos de vários pretendentes.

Logo se interessou por um deles e, enleada em seus sonhos de ventura e felicidade, foi por ele iludida e abandonada.

Uma história talvez corriqueira nos dias de hoje de moral mais aberta e liberal, mas sem dúvida alguma, uma tragédia e um escândalo para a época e o local em que ocorreu. Da infelicidade da moça veio o abandono e o desprezo da família, tendo ela ido morar em Araraquara, onde vem a conhecer Cairbar Schutel.

Apaixonaram-se e Cairbar, desprendido e sem preconceito, acreditando profundamente na criatura humana, passa a viver maritalmente com ela, até que, depois de tornar-se espírita, resolve regularizar a situação do casal com a união civil.

E o fez condignamente. Não com festas, fartas comemorações, mas numa cerimônia civil simples, sem pompa, no vilarejo de Itápolis, onde sua esposa houvera sido tão maldosamente comentada.

Não pudemos saber as causas por ele alegadas para esse desagravo, mas não temos receio em afirmar que muito deve ter pesado em sua decisão seu contato com os episódios evangélicos da adúltera e de Maria de Magdala.

Afinal, não estamos todos nós sujeitos a quedas? Não soube o Cristo convidar Maria de Magdala a participar de seu Reino mesmo sabendo quem era ela? E a adúltera? Alguém estava sem pecado para condená-la?

E fora de dúvida que o espírito cristão já envolvia Cairbar Schutel, e longe da atitude de altivez ou de desprezo à família de Maria Elvira, quis mostrar que ela continuava digna, com sentimentos nobres e reerguera-se moralmente.

Apesar de não ter filhos, o casal sempre viveu harmoniosamente e D. Mariquinhas foi para Cairbar uma companheira dedicada e leal que sempre o apoiou em sua missão.

O "O Clarim", de 15 de setembro de 1905, assim noticia, em sua página 2, o enlace:

"O nosso confrade Cairbar de Souza Schutel realizou no dia 31 de agosto passado, o seu enlace matrimonial com a Exma. Sra. D. Maria E. da Silva Schutel.

Serviram de testemunhas a Exma. Sra. D. Estephania Rezende, Dr. Marcondes Rezende, Dr. Josino de Quadros e João Rosa B, e Silva.

É desnecessário dizer que o fato foi meramente civil.

Coerente na Doutrina que professa, o nosso confrade não regateia esforços para mostrar a sua dedicação à Causa que com tanta abnegação tem defendido.

Rogamos ao Bom Pai Misericordioso baixe sobre o feliz par suas bênçãos".




VII
Cairbar Schutel enquanto católico
Como já foi descrito, Matão justificava o nome. Era um lugarejo de roça, muita caça, e densa vegetação.

Assim, quando lá chegou, Cairbar encontrou a cidade sem ao menos uma capela para os ofícios religiosos.

Empreendedor e resoluto que era, achou que a Vila Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão não poderia continuar sem uma, e, juntando-se a Calixto Prado, que era carpinteiro, e outros habitantes, levantaram uma pequena Igreja, à qual denominaram Capela do Bom Jesus de Matão.

Para oficiar as missas, a seu pedido, o Padre Antônio Cezarino deslocava-se, uma ou duas vezes por mês de Araraquara para tal cometimento.

Vinha sempre aos sábados, de "Trolley", pequena carruagem rústica que era a condução da época, e hospedava-se no recém inaugurado Hotel Maccagnan.

Dele contam-se casos folclóricos.

Conta-se, por exemplo, que era chefe político temido em Araraquara e para precatar-se contra possíveis investidas de seus adversários, rezava a missa com dois revólveres nos bolsos da batina e muitas vezes viajava acompanhado de capangas.

Não admitia o mais leve ruído durante a celebração da missa e não vacilava em interrompê-la para colocar os desobedientes para fora da Igreja.

Como bom católico, Cairbar tinha inclinação especial por promessas e outros costumes da religião.

Uma promessa marcante das que fez, foi para o restabelecimento de D. Mariquinhas, que durante quarenta anos iria sofrer de uma doença de pele que, a princípio, foi diagnosticada como hanseníase, mas, na realidade, era lúpus. Consistia, a promessa, em benzimento de medalhas em Aparecida do Norte.

A outra foi para si próprio, quando quebrou o braço numa contusão séria e fez uma promessa, também para Nossa Senhora da Aparecida, de que, se ficasse bom, levaria um braço de cera em tamanho natural a Aparecida do Norte. Curou-se e cumpriu a promessa.

Como católico, ainda, Schutel puxava procissões e costumava colocar cruzes na estrada quando morria alguém no local.

Tudo isto aconteceu antes de se tornar espírita, pois, logicamente, a partir daí, suas atitudes em relação aos rituais e costumes da Religião católica mudaram.


VIII
Como se deu a conversão
Começou-se a dar a conversão de Cairbar Schutel ao Espiritismo quando ele passou a ter contatos com os pais durante o sono físico.

A principio eram aparições tímidas; mas depois os sonhos foram se tornando tão corriqueiros e vívidos, que ele resolveu consultar-se com o Padre Cesarino, que o advertiu:

"Schutel, deixe dessas coisas porque senão você vai acabar ficando louco. Esse negócio é perigoso e com alma do outro mundo não se brinca".

"Mas, vigário, não sou eu quem os procura. Eles é que vivem atrás de mim! Agora até deram para me dar conselhos"

"Então, Schutel, se o negócio está sério assim, precisamos rezar umas missas para seus parentes e acender umas velas para eles deixarem você em paz".

E missas e mais missas se sucederam e o fenômeno cada vez mais aumentava em freqüência e intensidade.

Era, então, princípio de 1904.

Comentando esses fatos com os amigos mais chegados, Schutel ficou sabendo que Quintiliano José Alves e Calixto Prado costumavam realizar sessões espíritas.

Foi ter com eles, mas Quintiliano lhe disse:

"De fato nós costumávamos mexer com isso, porém já há algum tempo não fazemos, porque da ultima vez ouvimos um forte estampido no ar, minha esposa desmaiou e se sentiu muito mal depois. Daí em diante nunca mais quisemos nos envolver com essas "coisas".

Ante a insistência de Cairbar, ansioso por ter alguma experiência no terreno da mediunidade, eles acederam e reiniciaram as sessões de tiptologia (1), também chamada mesa de responso ou trípode.

(1) Tiptologia - Linguagem de pancadas ou batimentos; modo de comunicações dos Espíritos. (Livro dos Médiuns, capítulo 32)

Inexperientes e desconhecedores das nuances dos fenômenos, os participantes faziam perguntas, principalmente sobre animais perdidos ou coisas fúteis.

Assim, um sitiante certa vez indagou dos Espíritos onde estava uma sua porca e seis porquinhos que haviam desaparecido já se passavam dois dias e ele não houvera conseguido localizar. Passados alguns minutos, os Espíritos responderam: "em tal lugar". No dia seguinte, bem cedo, Caibar não pestanejou: arriou seu cavalo e demandou ao sítio, antes mesmo que o dono dos animais, e lá os encontrou conforme os Espíritos haviam revelado. E assim o fez em diversas ocasiões. Era o lado "Tomé" que talvez todos nós tenhamos. Necessário se fazia, pensava o interessado Caibar, obter provas materiais de que as experiências realizadas revelassem a existência de seres inteligentes por detrás dos fenômenos.

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