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Com a continuidade dos trabalhos, começou a ocorrer a vinda de diversos espíritos que davam o nome e, alegando estarem sofrendo, pediam para que se rezasse "tantas" missas e se acendesse "tantas" velas. Não havia sessão em que não surgisse dois ou três desses "pedintes" ao que o grupo, ingênua e caridosamente, atendia passando os nomes ao Padre para tal.

Até que, além de estar ficando pesado aos bolsos dos nossos iniciantes, tais peditórios começaram a cair no crivo e análise de Schutel, que comentava com os companheiros:

"Há alguma coisa de errado nisso tudo. Quanto aos animais está certo: eles indicam, nós vamos lá e achamos. Mas esse negócio de alma do outro mundo pedir missas e velas sem parar me intriga ... existe alguma coisa aí que ainda não percebemos e nos foge à compreensão..."

Foi quando comentando esses fatos com seu amigo João P. Rosa e Silva, também simpatizante do Espiritismo, morador em Itápolis, e caixeiro-viajante, este lhe presenteia com um exemplar de "O Reformador".

Caibar lê avidamente a Revista e no dia seguinte solicita pelo Correio as obras da Codificação Kardequiana e o livro "Estudos Filosóficos" de Bezerra de Menezes que apareciam anunciados na providencial publicação espiritista.

Chegando os livros, passa cerca de um mês estudando minuciosamente o conteúdo daquele manancial de conhecimentos, que viria a preencher integralmente sua alma sedenta de saber espiritual.

Estava completada a conversão.

Não foi necessário mais do que essa leitura para compreender que estava diante, não de conhecimentos novos para seu Espírito, mas rememorando um cabedal já familiar, o qual vinha de encontro às suas indagações mais íntimas desta encarnação.

O monumento de lógica apresentado pelo "Livro dos Espíritos" deu a Caibar respostas às dúvidas que se acumularam durante o tempo em que sua profissão de fé foi o catolicismo; o "Livro dos Médiuns" veio sanar as imperfeições do caráter amadorístico e curioso que imprimia às experimentações de tiptologia; e o "Evangelho Segundo o Espiritismo" tocou profundamente o coração daquele que viria mais tarde a ser chamado "O Pai dos Pobres de Matão".

Uma nova rota vislumbrava Caibar agora. Se o Pai o havia colocado a par de um patrimônio espiritual tão valioso, mister se fazia não se acorrentar ao imobilismo e à contemplação, mas anunciar a todos quantos pudesse a mensagem renovadora da Doutrina Consoladora dos Espíritos.

Muitos sonhos e perquirições agitavam a mente do jovem comprometido com a Verdade. O que fazer agora? Valeria a pena jogar fora as farandulagens do homem velho e assumir a roupa nova da Doutrina sem dogmas? O que diriam os amigos?

Não tergiversou. Estava decidido. O caminho agora era abrir picadas entre as florestas da ignorância espiritual de sua gente e desbravar os sertões do materialismo subserviente ao niilismo de então, importado da Europa. O Bandeirante do Espiritismo estava preparado para tal.

Antes de passarmos ao próximo passo de Schutel que foi a fundação do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", relataremos como terminou o caso dos "peditórios".

Depois da leitura das obras básicas, na próxima sessão de que participou, Caibar Schutel, agora com conhecimento de causa, disse ao primeiro Espírito que pediu missas:

"Olhe aqui, o que o irmão precisa é de preces. Como espírito desencarnado, você já deveria saber que o que vale é a oração, a vibração de amor que podemos oferecer a vocês através da prece sincera. Por isso, a partir de hoje, não atenderemos mais aos pedidos de missas e velas, mas oraremos pelos espíritos necessitados".

E assim desapareceram-se os pedidos de missas, e, mais tarde, o espírito de um padre confessou que era só ele "os espíritos" que faziam tais pedidos e que se divertia muito ao se ver atendido tão ingenuamente pelo grupo... Que (compreensível) fiasco...



IX
Schutel é testado pela primeira vez
O primeiro teste enfrentado por Cairbar Schutel foi com o folclórico vigário Antonio Cezarino, que, quando soube que seu "fiel" estava se envolvendo com Espiritismo, mandou um recado a ele através de Belarmino de Castro, proprietário da linha de "Trolley" que unia dois municípios:

"Diga ao Schutel que eu vou a Matão especialmente para lhe dar uma surra de relho e ensiná-lo a nunca mais se meter com esse negócio de Espiritismo”.

Belarmino, receoso, mas sabedor da fama de valentão e cumpridor de ameaças do Padre, viu-se, constrangedoramente, obrigado a transmitir o recado do Vigário, ao que Schutel respondeu:

"Então, Belarmino, já que você trouxe o recado, você levará a resposta ao Vigário e diga que quem pode mais, chora menos. Você está vendo aquela tramela da porta? Pois bem, ela fica sempre ali atrás. Avise a ele que ela está preparada, e com o mesmo espírito com que vier, será recebido".

Passados uns quinze dias, o Padre calabrês foi de fato a Matão. Ao estacionar o "Trolley" em frente a farmácia, Schutel gritou para D. Mariquinhas:

"Mariquinhas, prepare-se que vai haver barulho. O Padre Cezarino está aí"

Ledo engano... O valente Vigário, solícita e prevenidamente gritou já de porta:

"Schutel, eu preciso que você me faça um curativo na mão. Acidentei-me na estrada e está sangrando muito".

Cairbar, antes de fazer curativo, ainda serviu um cálice de vinho do Porto ao gosto do Padre, e ouviu sua estória:

Ele vinha caçando pelo caminho, quando O "Trolley" parou num córrego para os cavalos beberem água e descansarem. Nisso, um barulho no mato assustou os animais, que deram um tranco na carruagem, e o Padre, que estava com uma das mãos apoiada no cano da espingarda e a outra com o dedo no gatilho, disparou acidentalmente a arma e feriu a própria mão.

No dia seguinte, o Vigário ainda passou na farmácia para mais um curativo, mas, o que conversaram, deixamos à conta da imaginação do leitor.

Teria sido uma providencial intervenção dos Espíritos para se evitar uma tragédia? Quem sabe...

Passado algum tempo, esse mesmo sacerdote foi ter com Schutel para contar-lhe que ia a Roma tratar de assuntos da Igreja e oferecer-se para algum assunto em que pudesse ser útil ao amigo por lá.

Cairbar pediu-lhe, então, que lhe trouxesse uma Bíblia Latim-Português, no que foi atendido pelo Padre.

Ao despedir-se do Vigário nesse dia, Cairbar quis presenteá-lo com um livro para sua distração no tombadilho do navio, ao que ele redargüiu com seu português carregado de sotaque calabrês:

"Schutel, não me venha com livros espíritas, senão vão direto para o lixo!

Nosso biografado, então, perspicazmente, ofereceu-lhe os dois volumes de "Deus e a Natureza", de Camille Flamarion.

Ao que consta, o Vigário leu a obra, agora, se aproveitou ou não, absteu-se de alardear.


A fundação do centro espírita"amantes da pobreza"
Convertido à Doutrina dos Espíritos, era necessário fincar bases para uma melhor atuação na propagação e na prática do Ideal que abraçara.

Assim, cede, inicialmente, uma sala em sua própria casa para o início do funcionamento do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", seguramente um dos primeiros a serem fundados no interior de São Paulo.



Acompanhemos a histórica ata de sua fundação a 15 de julho de 1905:
Ata da instalação do grupo espírita "amantes da pobreza"
No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e cinco, aos quinze dias do mês de julho, em a Casa de residência do Cairbar de Souza Schutel, sala das Reuniões do Grupo, presentes os Srs. João Rosa Pereira e Silva, Manuel Bittencourt, A. Agrippino Martins, Gregório Perche de Menezes, Quintiliano José Alves, Calixto Nunes de Oliveira, Manuel Pereira do Prado, Miguel Abibe, Tudalízio Rosa Pereira e Silva, Alípio Rosa Pereira e Silva, José Maria Gonçalves, Guilherme Gaspar, Antonio Ramos, Manuel José do Aucovia e as Exmas. Sras. Das. Justina Alexandrina Pereira e Silva, Anézia Rosa Pereira e Silva, Volízia Rosa Pereira e Silva, Maria Gertrudes de Souza, Hortência de Campos Bueno, Maria Elvira da Silva e o humilde Secretário que esta está lavrando Cairbar S. Schutel; assumindo a Presidência, o irmão Manuel Bittencourt, (às 8 horas da noite) declarou os fins da reunião. Pelo irmão Schutel foi proposto que a eleição da Diretoria fosse feita por aclamação. Sendo aceito, foram aclamados, Presidente: Manuel Bittencourt; Vice-Presidente: João Rosa Pereira e Silva; Tesoureiro: Calixto Nunes de Oliveira; Secretário: Cairbar Souza Schutel. Para membros do Conselho Fiscal: Gregório P. de Menezes, Manuel José Amorim, Quintiliano José Alves. A nova Diretoria tomando posse pelo Presidente foi declarado instalado O Grupo Espírita "Amantes da Pobreza". Usando da palavra o irmão Schutel fez o histórico do Espiritismo, superficialmente e terminou pedindo a proteção do Misericordioso Onipotente e as bênçãos do seu Amado Filho Nosso Senhor Jesus para todos que naquele momento ali se achavam conjugados. O irmão Bittencourt leu um discurso demonstrando a superioridade da Religião Espírita sobre as demais religiões, cujos ambos discursos são transcritos abaixo. Pelo irmão Schutel foi apresentada a indicação seguinte: proponho que sejam submetidos a votos os presentes Estatutos e Regimento Interno da Sociedade hoje fundada. Depois de lidos, os Estatutos foram por unanimidade de votos aprovados. O irmão João Rosa indicou que os Estatutos ficassem transcritos e arquivados na Secretaria para daí saírem a fim de serem impressos cem exemplares que seriam distribuídos aos sócios do grupo. Foi indicado mais que se prosseguisse nos trabalhos, sem interrupções, ficando provisoriamente ao encargo do irmão Schutel as sessões teóricas e explicação dos Evangelhos, nos dias referidos nos Estatutos. Pelo irmão Calixto foi dito que via a conveniência de colocar-se a Associação debaixo da proteção das leis do país e para isso indicava que o mais breve possível se registrasse os Estatutos da Sociedade e fizesse-lhe a devida publicação no Diário Oficial. O irmão Schutel pôs à disposição dos seus irmãos gratuitamente os seus serviços em caso de moléstia de qualquer deles e autorizava também ao Grupo a dispor de seus fracos serviços, em prol dos enfermos de qualquer credo a que pertençam. Disse mais, que não se oferecia como médico, mas como um simples prático de farmácia e com alguma experiência de medicina - Os seus serviços e alguns medicamentos que tem em casa pertencem àqueles que deles necessitavam, embora não queira e até faça questão em não receber remuneração alguma - Os irmãos Calixto, João Rosa e Bittencourt disseram também ter em suas casas homeopatia que também se achava à disposição dos necessitados. O irmão João Rosa indicou que logo que as circunstâncias financeiras do Grupo permitissem mandaria vir do Rio ou São Paulo um conferencista para propagação da Doutrina. Foi lido um ofício da Federação Espírita Brasileira em resposta a um ofício de um irmão. Pelo irmão Gregório foi indicado que se oficiasse aos Grupos e Redações de Jornais Espíritas comunicando a Instalação do Grupo. Pelo irmão Schutel foi proposto um voto de louvor ao bondoso irmão Ernesto Penteado pelos relevantes serviços prestados aos Espíritas de Matão em seu simpático "Alvião"; assim como aos ilustres confrades Pedro Richard, Batuíra e Vieira de Macedo pelos seus serviços prestados aos enfermos nesta localidade por intermédio dos espíritas daqui. Pelo irmão Schutel foi proposto mais um voto de reconhecimento ao irmão Quintiliano pelos serviços prestados até aqui, pondo à disposição dos Espíritas sua casa onde até a presente, desde o dia 21 de Janeiro, tem-se realizado as reuniões práticas e teóricas. Convém notar que o nosso simpático amigo Agrippino Dantas Martins é livre pensador, não está filiado à doutrina e ciência Espírita pelo que não podemos deixar de demonstrar e aqui registrar as nossas admirações e simpatia por este jovem clínico. Ao clínico que rompendo os preconceitos sociais e debaixo da bandeira da liberdade veio honrar a nossa modesta reunião com a sua simpática presença; e elevando de coração uma prece ao Altíssimo pedimo-lhe luzes e mais luzes àquele adiantado Espírito entre nós encarnado. E para terminar o irmão Schutel pediu aos irmãos presentes para erguerem-se e acompanharem-no na prece em ação de graças em cuja, o irmão elevou de todo o seu coração acompanhando-o todos os irmãos ao Altíssimo e Bondoso Criador as suas graças as seus sinceros reconhecimentos por ter-lhe sido concedida a missão de serem ou fazerem parte dos cultivadores da vinha ao toda Poderoso e prosseguindo na prece agradeceu ao querido Jesus de Nazaré, por nomear-lhe o Batista ou os preparadores para a vinda do Espírito de Verdade que é o Consolador Prometido-Eu, Cairbar de Souza Schutel, Secretário escrevi esta e a assino.

aa) Manuel Bittencourt (Presidente)

João Rosa Pereira e Silva (Vice-Presidente);

Cairbar Souza Schutel;

Calixto Nunes de Oliveira;

Gregório Perche de Menezes;

Quintiliano José Alves;

Manoel Pereira do Prado;

Manoel José de Amorim;

Indalício Rosa Pereira e Silva;

Justina Alexandrina Pereira e Silva;

Antonio Ramos;

José Maria Gonçalves;

Guilherme Gaspar;

Maria Gertrudes de Souza;

Hortência de Campos Bueno;

Valízia Rosa Pereira e Silva;

Anézia Rosa Pereira e Silva;

Alípio Rosa Pereira e Silva;

Maria Elvira da Silva.




X
A primeira polêmica quase termina em tragédia
Já era de se prever um confronto ríspido entre católicos e espíritas quando selecionaram o violento Padre João Batista Van Esse para a paróquia de Matão. Mas por ironia do destino, pode-se dizer que o reverendíssimo Padre prestou excelente serviço à Causa espírita: aguçou o espírito inquieto e avesso às injustiças de Cairbar Schutel, que, provavelmente, extraiu do episódio a idéia de fundar um jornal para replicar as inverdades e ofensas do vigário.

Até que o Padre tentou, mas quem é que iria sabotar a Farmácia "Schutel e Cunha", se lá tinha o melhor farmacêutico da cidade?

A sorte estava lançada. Nascia aí o polemista vibrante e intransigente defensor da Doutrina Espírita.

A disputa entre os dois começou através das páginas de "O Mattão", jornal leigo da cidade, que publicou a polêmica religiosa, eivada de ofensas pessoais e tom agressivo por parte do Padre Van Esse. Vejamos como ele inicia uma de suas crônicas:

"O Grupo Espírita de Matão, sucedendo ao Sr. Schutel, que parece ser o cabo de esquadra de tal grupo, nada ganhou em publicar uma lenga-lenga no "Mattão" - 16 de julho vigente - ou antes, perdeu uma boa ocasião de ficar calado, pois o tal artigo revela supina ignorância, ou pior ainda, o Sr. Schutel, percebendo que pisava em terreno perigoso, empurrou toda a droga ao seu grupo que tem bom estômago. (...)" (27/07/1905)

Ao que Cairbar responde em 30107/1905 pelo mesmo periódico:

"O terreno em que pisam os espíritas é firme, firmíssimo, revmo. irmão; ele está regado com o sangue do Cordeiro de Deus, de quem os espíritas fazem todos os esforços para seguir as pegadas.

O segundo artigo foi assinado pelo Grupo, porque foi resultado dos estudos do Grupo, do qual eu também sou uma das "conspícuas" personalidades (...)"

O subserviente subdelegado Otávio Mendes, temeroso das conseqüências trágicas que tal confrontação poderia ter, dirigiu-se a Schutel e contou que o Padre havia combinado com seus fiéis conduzir a procissão de sexta-feira santa até à frente do Centro Espírita e lá atentar contra a Casa, incendiando-a.

"Por que?" - indaga Schutel.

"Não sei. Só vim aqui para prevenir o senhor que estão fazendo um complô para empastelar o Centro. Por isso, aconselho ao senhor não abri-lo nesse dia",

"Muito bem. Então agora eu vou dar um aviso ao senhor, Como autoridade policial dessa Comarca, o senhor tome todas as providências cabíveis, porque eu vou abrir o Centro à hora de costume e vou pronunciar a palestra que já havia sido marcada adredemente. Caso aconteça alguma tragédia eu responsabilizarei o senhor. Meu Centro não é clandestino, tem alvará, e vai continuar funcionando normalmente".

Em seguida, Schutel envia telegramas para o Governador do Estado, para o Chefe de Polícia e para o Comandante da 2ª Região Militar, dando conta do que se passava em Matão, exigindo também providências dessas autoridades.

Chegando o dia, ele abriu o Centro às dezenove horas e dispensou mulheres e crianças. Ficaram só os homens, já prevenidos do risco a que se exporiam e receberam uma ordem: quando Cairbar desse um alerta, todos deveriam se jogar ao chão incontinenti.

Abriram-se todas as portas e janelas do salão e teve início a conferência feita por Cairbar, que falava a todos os pulmões, num entusiasmo como poucas vezes se viu.

Um quarto de hora após, a procissão começa a se aproximar do "Amantes da Pobreza" com o Padre Van Esse na frente, secundado por seus fiéis. Entoavam suas cantigas e ladainhas, como de costume, com toda a certeza esquecidos que iriam cometer um ato indigno, em nome daquele que nos houvera dito que somos todos irmãos e que, em sua sabedoria, só nos pediu que amássemos uns aos outros. As vestes "sagradas" serviam para ocultar punhais, porretes, pedras e revólveres. Talvez com isso imaginassem poder expurgar o demônio e seus seguidores malignos à comunidade...

Quase em frente ao Centro, a procissão, entre excitada e agitada, aumenta o vozerio sob a batuta do vigário e desperta a ira do advogado Abel Fortes, chefe político temido, que morava nos arredores, e cuja esposa convalescia de difícil parto acontecido naquele dia.

Apreensivo e indignado, o advogado sobe num muro, interrompe o orador, que já inflamava a turba para o deplorável cometimento, e fala, por sua vez, ameaçando responsabilizar o Padre e seus acompanhantes se algo acontecesse à sua esposa e filho, além de lembrar contundentemente o desrespeito que estava se perpetrando contra a Constituição de 24 de fevereiro de 1891. E reiterou, que embora não fosse espírita e não tivesse procuração de Schutel para defendê-lo, que ele estava com a razão, pois agia dentro de seu direito de liberdade de expressão e de religião.

E sua alocução foi tão violenta, exaltada e cheia de ameaças, que o povo, temeroso, começou a evacuar o local, a princípio calma, mas depois, tão atabalhoadamente como um "estouro de boiada", que muitos caíram, foram pisoteados e o Padre Van Esse... bem, o Padre teve sua batina enroscada numa cerca de arame farpado e quase volta à Igreja sem a dita cuja...

Enquanto isso, no "Amantes da Pobreza", quase que indiferentes à algaravia que se processava lá fora, prosseguia a bela preleção de Cairbar Schutel.

Mas o episódio não se findara aí para Cairbar.

No dia seguinte, durante a sessão, ele iria sofrer séria admoestação dos Espíritos: "Schutel, então que belo cristão você está pretendendo ser! Você confiou em um carabina e dois revólveres e se esqueceu de confiar em nós, aqui do Outro Lado, que estávamos dando toda a cobertura e proteção a você! Onde está a sua fé? Quando é que você vai aprender a confiar em seus guardiões?"

E o Espírito continuou sua descompostura em Schutel, que chorou muito, pediu perdão e desfez-se de todas as armas que tinha em casa.

A ordem que ele houvera dado para que todos se deitassem ao seu aviso, era devido a que, nas gavetas da mesa, ele trazia escondido armas para proteger o Centro na eventualidade de uma invasão. Caso acontecesse, ele pretendia defendê-lo até as últimas conseqüências.

Do lado da Igreja, o Padre Van Esse, depois do fiasco a que se expôs, foi transferido para Araraquara.

Foi protagonista, porém, de uma atitude digna e bela: procurou Cairbar Schutel para despedir-se e teve com ele o seguinte diálogo:

"Schutel, brigamos, e nenhum logrou convencer o outro. Eu, entretanto, estou convencido de que você é um homem de bem..."

"Pudera! Não fosse eu espírita"...

"... sincero na sua crença."

"Claro. Não defendesse eu a Verdade!"

"A Verdade penso estar comigo. Mas, não discutamos agora. Vou deixar Matão. Não quero levar nem deixar ressentimentos."

"De mim não haverá nenhum, porque o espírita perdoa sempre".

"Perdoemos-nos um ao outro, os nossos excessos".

"Por mim, tudo desculpado, embora os excessos não partissem de mim..."

"E fiquemos bons amigos".

"Bons amigos e irmãos em Cristo, embora cada um O procure por caminho diferente."

''Você é um homem de bem. Por isso vim despedir-me de você".

E trocaram um cordial abraço de despedida.

"O Clarim", de l.º de setembro de 1908, assim noticia o fato:

"Transferiu sua residência para Araraquara, o nosso amigo, rev. Padre João B. Van Esse.

Oxalá as luzes acumuladas em seu Espírito, após tantas polêmicas religiosas, se irradiem à população da velha cidade de São Paulo.

Aceite, senhor, os nossos augúrios de uma felicidade espiritual intérmina".

E lá se foi o vigário mal imaginando o bem que fizera ao Espiritismo...

No "Clarim" de 15/09/1907, Cairbar relembrava o episódio ao fazer o necrológio do confrade João Eid, que estivera presente naquele dia:

"(...) Ainda nos lembramos o dia em que João Eid esteve ao nosso lado, quando o então vigário desta paróquia, Van Esse, acompanhado por meia dúzia de inconscientes, tentou trazer a confusão ao nosso grêmio que comemorava a Paixão do Verbo de Deus. Não é um efeito de rancor pelo vigário de Matão que nos força lembrar aquele notável acontecimento, porque sinceramente não temos, mas um sentimento de gratidão ao Espírito livre dos grilhões da matéria, ao amigo desinteressado e leal. (...)"
Mais polêmicas
Antes de passarmos às outras polêmicas sustentadas na época por Cairbar Schutel, vamos transcrever um trecho do Editorial da Revista "O Reformador", da FEB, n.º 15, Ano XXIII, o qual revela a posição da Entidade, discordante desses debates:

"Carta que nos foi transmitida de uma das cidades do interior de São Paulo, nos informa ir ali uma renhida polêmica, a propósito de nossa Doutrina, entre confrades que ali sustentam galhardamente a sua propaganda, e o clero local por um de seus representantes.

Antes de tudo, seja-nos lícito insistir na opinião que nestas colunas mais de uma vez temos emitido, isto é: que reputamos inútil toda controvérsia com os sectários da Igreja de Roma; primeiro porque o Espiritismo repousa sobre fatos e sobre verdades, suficientemente demonstrados e demonstráveis, para se impor à aceitação de quantos não estejam obcecados pelo espírito de sistema ou de fanatismo, como de resto vai por toda a parte acontecendo, e daí, da certeza do seu triunfo e universalização inevitáveis, a tranqüilidade com que devemos nos conduzir em face de gratuitos adversários, para os quais só devemos ter um sentimento - o da indulgência pela sua voluntária ou involuntária cegueira; e, em segundo lugar, porque ninguém melhor que os membros da Igreja sabem, pelos estudos que têm ocultamente feito, que com o Espiritismo está a Verdade, que ele é o Consolador Prometido por Jesus. (...)"

Respeitamos a posição da FEB, mas não concordamos com a novel Entidade, pois acreditamos que as polêmicas no início da missão de Cairbar Schutel desempenharam um papel importantíssimo para ele, não só para forçá-lo ao estudo e à reflexão, como também para despertar-lhe no íntimo o sentimento de apego à Doutrina.

Pelas páginas de "O Alvião", de Taubaté, foi travada mais uma polêmica de Cairbar, desta vez com o Padre Antonio B. de Camargo, que "cutucou a onça com vara curta", como diria o matuto do sertão, ao enviar um folheto ao nosso biografado contendo críticas ao Espiritismo.

Como só podia acontecer, Cairbar publicou uma série de artigos fazendo luz às trevas que o Padre quis atirar à Doutrina dos Espíritos .

Outras numerosas polêmicas foram travadas por Cairbar com protestantes e católicos em jornais, praças públicas e recintos fechados, incluindo-se no rol dos opositores, D. Joaquim Domingues de Oliveira, de Florianópolis; Padre Bento Rodrigues, de São Carlos; - Monsenhor Nascimento Castro, de Rio Claro; Dr. A. Felício dos Santos, também de Rio Claro, e outros.

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