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Dia 9 de janeiro de 1911, o correio nos trouxe uma carta que capeava um cheque de três contos de réis. Era de um desconhecido para nós, com quem nunca tivemos relação nem mesmo por cartas; apenas sabíamos da sua existência pelo nome: Luiz Carlos de Oliveira Borges, membro de uma ilustre família de Dourado. Foi, então, que reatamos a velha amizade que em existências anteriores nos ligava e o parentesco em espírito que nos unia novamente.

Daí para cá esse grande amigo não mais se separou de nós e do nosso querido O Clarim, que cresceu, fortaleceu-se no grande campo do pensamento.

Revendo o passado, nossa alma se constrange relembrando aqueles que conosco palmilharam a estrada ainda difícil de transpor, do campo da propaganda, mas a tristeza se esvai quando eles se afirmam vivos ao nosso lado prosseguindo em sua tarefa. É que eram amigos certos e dedicados e a morte não mata a amizade nem separa os amigos.

E O Clarim, tirado até hoje desde aquela data, estendeu suas raízes pelo Brasil inteiro. As sextas-feiras lá vinha o nosso velho amigo (não era espírita, mas era amigo) Custódio de Freitas, com a carrocinha a transportar os pacotes para o Correio. E ai daquele que lhe quisesse tomar o privilégio!...

O velho Quintiliano, também intimo, mantinha vivo interesse pela nossa folha, Nos seus dois últimos anos de vida, o Chico Ferreira era o dobrador de jornais. Na tiragem de 50 mil exemplares, que fizemos em finados, ele teve tal dedicação que admira: fazia pilhas e pilhas de jornais que se elevavam quase à altura da parede.

Todos ales passaram, mas ficaram conosco. Desde o Vianna que, como o condor nos momentos de inspiração cantava rasgos da divina sabedoria elevando-se aos céus, até o Lucívio Novaes, que, em sentimentos vivos de amor, que lhe mostrava a nobreza da alma, se unia a nós".


XIII
Seu tipo físico e personalidade
Cairbar Schutel era um tipo imponente, altivo, sempre vestido no amanho, roupa primorosamente limpa e engomada.

Não usava ternos de casemira, só de linho, e invariavelmente portava gravata.

Se nas fotos existentes dele sua fisionomia parece carrancuda, séria, na intimidade, relatam os que com ele conviveram, era uma pessoa alegre, jovial e de boa prosa.

Não raras vezes ouvia-se dele uma piada, uma irreverência, mas, sempre muito respeitador, era, acima de tudo, um cultivador da disciplina para si próprio e para seus comandados.

O cavanhaque que usava tornou-se sua marca registrada, apreciava um cigarrinho e, quando na farmácia, trajava um paletó branco, sem nunca abandonar a gravata.

E para quem quiser ter uma descrição exata de seu tipo físico, fomos buscar num Salvo-Conduto por ele tirado em 1932, que o autorizava a fazer o percurso de Matão a Araraquara, por exigência da guerra, suas características exatas: altura, 1,70 mts; cabelos, grisalhos; barba, cavanhaque; rosto, oval; cor, branca; olhos castanhos; boca, regular; sinais particulares, defeito no dedo submédio direito.

José da Cunha, assim o definia: "Era honesto, muito trabalhador e sério, e percebia-se que era um trabalhador que gostava de tudo em que se envolvia, por isso o fazia com satisfação íntima e alegria. Essa alegria tinha seus momentos certos, quando ele gostava de contar suas piadas e ria a valer. Era muito carinhoso com as crianças e aos pobres nada negava. Era um caridoso por excelência, e, se alguma coisa dele mais se marcou, foi a caridade".

Abalizada para falar, D. Atonia Perche, escolhida pelo próprio Schutel para substituí-lo no Centro Espírita, também dá o seu depoimento: "O livro "Uma Grande Vida", de Leopoldo Machado, faz uma ótima descrição do "seo" Schutel. Ele era jovial, muito alegre mesmo, parecendo que para ele nunca houve tristeza. Era sempre animado com moços ou velhos, e os confrades que o vinham conhecer aqui em Matão hospedavam-se em sua casa e sempre o encontravam muito hospitaleiro e amistoso. Na farmácia ele dispensava atenção a todos e demonstrava uma fraternidade e um carinho para com os pobres todo especial. Conhecia sua profissão como ninguém e a farmácia dele era a farmácia dos pobres: se a pessoa não tinha dinheiro, não saía de lá sem o remédio que necessitava".

Juvenal dos Santos, que durante anos viveu o dia a dia da "Casa Editora" com Schutel, assim fala do patrão e amigo: "Conheci "seo" Schutel ainda meninote e já o admirava, mas foi trabalhando com ele, de 1935 até sua morte, que passeia admirá-lo ainda mais. Era um amor de criatura. Agente produzia sem pressão. Ele trabalhava demais, até altas horas e muitas vezes, quando voltava da cidade, eu o via às 1,30 ou 2,00 hs da manhã trabalhando na Redação, mas de manhã cedinho já estava na farmácia. Na Gráfica, ele trocava muitas idéias conosco e podia se perceber que ele não tinha só cultura, mas falava como um homem sábio.

Hugo Gonçalves, cuja família acompanhou Cairbar em seus primeiros passos no Espiritismo, desde jovem conviveu com nosso biografado e assim se refere a ele: "Falar de Cairbar Schutel para não dizer impossível, é muito difícil, porque ele foi, a meu ver, o expoente da verdade, da justiça e do amor. Um homem que soube ser grande dentro da sua humildade, que se escondeu atrás de seus feitos extraordinários com sua simplicidade, que soube se conduzir no mundo, defender a Doutrina e propagá-la com todo esforço, carinho, sabedoria e amor. Por isso é que digo ser difícil para não ser impossível, falar de Cairbar Schutel em uma linguagem à altura do que ele foi, do que ele representou e do que ele fez.

Quando começou a estudar a Doutrina, ele descobriu um mundo novo. Sentiu ele, a grande necessidade de externar seus conhecimentos elevar a Doutrina a todas as pessoas, principalmente à gente de sua cidade, surgindo a idéia da fundação do G.E. "Amantes da Pobreza" e, em seguida, do "Clarim". Havia gente que pegava o jornal com dois pauzinhos, senão com pano ou com papel para não contagiar as mãos, punha-o no meio da rua e botava fogo... Isso acontecia semanalmente em Matão.

Na tribuna Cairbar emocionava e empolgava, sua voz cativava, a par de uma dicção extraordinária. Tinha um conhecimento que a gente não sabe nem calcular, enfim, o dom da palavra e de arrebatar multidões.

Schutel reunia em si todas as qualidades de um verdadeiro cristão, sendo um gigante na defesa da Doutrina Espírita. Seria capaz de entregar sua camisa, até a própria vida, se preciso, em favor de alguém, de qualquer pessoa que precisasse dele, mas na hora em que dissessem algo que procurasse denegrir os princípios espíritas, ele era um gigante que se levantava e defendia, por todos os meios e com todas as forças, as idéias espíritas. Conheci nele o maior filantropo com quem convivi. Schutel se esquecia de si para servir a todos. O seu amor não se estendia só à Humanidade e às criaturas, como também aos animais e às plantas, principalmente às flores que ele mesmo cultivava.

Ele próprio dirigia um grupo de desobsessão, cujos doentes ficavam num quarto ao lado e aos domingos haviam os trabalhos públicos com palestras. Não havia, porém, os passes depois das reuniões. Eles eram aplicados em casos particulares. Cairbar desenvolveu as faculdades de psicografia, psicofonia, vidência, audiência e curas".

Por estes depoimentos, tem-se uma pálida idéia da grande figura que foi Cairbar Schutel: altruísta, dedicado, trabalhador, um exemplo de homem probo, correto, e que amou seus semelhantes até os extremos da renúncia de si próprio.

Além disso, foi um esposo amoroso, que soube compreender a doença insidiosa da esposa e durante quarenta anos em que ela assim esteve, tratou-a com tal desvelo e dedicação que só confirmariam o espírito cristão que o ilustre biografado albergava dentro de si.




XIV
Cairbar e dona Mariquinhas
Diz a sabedoria popular, que "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher" e o relacionamento do casal Schutel vem confirmar essa regra.

Soube, D. Mariquinhas, retribuir com muita dedicação, a confiança e o amor que Schutel lhe dedicou desde que se conheceram.

Dos tempos difíceis da juventude em Araraquara, ela transformou-se no arrimo de que o esposo necessitava para a consecução de sua grande obra em prol do Espiritismo.

Abraçou-se à Doutrina em igual tempo que o companheiro e embora não lhe tivesse o mesmo estudo e dedicação, foi na obra de caridade que mais se sobressaiu, engajando-se com Cairbar na luta por um mundo melhor para os desvalidos materialmente.

Numa estratégica e obscura retaguarda, mas porque não dizer, glorificada, fez-se a companheira ideal, a esposa desvelada e compreensiva, cuja felicidade era ver o desenvolvimento das tarefas altruísticas do esposo junto ao Ideal abraçado, muito embora isso lhe custasse a privação de momentos de convívio familiar. D. Mariquinhas teve um começo de vida difícil, sofrido, como já foi descrito, mas isso só teve o condão de lhe realçar as qualidades e méritos, pois conforme a sabedoria evangélica nos diz, "quem toma do arado, não olhe para trás".

Rompera com a família logo cedo, mas a postura cristã que assumira junto com o esposo não lhe permitiria sustentar tal situação e assim é que logo procurou promover uma reconciliação, no que foi coroada de êxito.

Seu pai, José Joaquim Silva, que teve três casamentos, viveu seus últimos anos na casa do casal Schutel. Cairbar lhe dedicava muita atenção e até brindava-o com algumas notas no "Clarim":

"Regressou de sua viagem a Mineiros, onde foi tratar de negócios, o Sr. José J. Silva, sogro do nosso companheiro C. Schutel". (01/06/1928)

Também os irmãos de Mariquinhas, Brasílio, Deolindo e Euclydes viveram por algum tempo na casa dos Schutel e estudaram na escola gratuita que o "Amantes da Pobreza" manteve por vários anos.

"O Clarim", inclusive, noticiou o prematuro desencarne de Euclydes Silva:

"Após longa enfermidade, desprendeu se dos liames carnais este nosso amiguinho, Euclydes, que contava apenas 18 anos. Era irmão da nossa prezada confreira D. Maria Silva Schutel e cunhado do nosso companheiro C. Schutel, que já tiveram a felicidade de saber do estado atual do ente caro, que prepara sua iniciação na Vida Espiritual. Os nossos queridos chefes que o iluminem e o Senhor Supremo tenha dele Misericórdia". (15/08/1919)

Dona Mariquinhas teve uma doença de pele, que provavelmente tenha sido "lupus", mas por bom tempo imaginou-se ser hanseníase. Dr. Agripino Dantas Martins, encomendando rigorosos exames, constatou que não.

Cairbar, preocupado com a moléstia da esposa, trocou correspondência com Eurípides Barsanulfo em Sacramento, para orientar-se com o amigo e confrade, que passou a lhe enviar remédios à base de plantas medicinais. Ela costumava tomar banho com esses produtos, sendo um deles à base de uma pimenta verde.

Eis o texto de uma das cartas de Schutel a Barsanulfo agradecendo os remédios e dando outras notícias:

"Matão, 27 de abril de 1918.

Meu caro Eurípides,

Paz em N.S. Jesus Cristo.

Muito lhe agradeço as atenções. O nosso "Clarim" muita agradece o auxílio. E que embora não começasse o uso dos medicamentos, sinto-me mais animado. Creio mesmo mais que é a ação benévola de tuas preces e da nossa boa irmã Amália, que produzem ação muito superior aos medicamentos. Por isso quero que todos os dias ao deitarem se peçam pela simples prece misericórdia do Altíssimo, os passes fluídicos do nosso Dr. Bezerra ou seu preposto.

Interrompi "O Clarim" por 15 dias para fazer entrar no prelo a "Interpretação Sintética do Apocalipse", que já está com suas primeiras páginas impressas. Mande-me sempre notícias do movimento. Se houver ocasião, chegarei aí, quando Deus quiser.

Abraça-o seu irmão

Cairbar"

Com a doença, D. Mariquinhas pouco saía de casa, senão para fazer as compras domésticas e as das distribuições do Centro. Essas compras eram feitas principalmente na Casa Kfouri, de propriedade do Sr. Jorge Kfouri que, mesmo não sendo espírita, admirava a obra caritativa do casal e sempre lhe concedia 20 a 25 por cento de desconto. Costumava dizer de Cairbar: "Esse homem merece que a gente queira bem ele".

D. Antoninha Perche fala da convivência do casal e de sua amiga Mariquinhas:

"O gênio dos dois era muito afim. Quando ela se deparava com uma pessoa pobre, fazia de tudo por ela. E quando saía para comprar fazenda, nunca comprava por metro, mas por peça. Ainda bem que "seo" Schutel encontrou a mulher certa, porque senão ele não poderia ter feito o que fez e talvez tivesse comprometido sua tarefa. Como o jantar na casa era muito cedo, às 16 horas, ela antes de se deitar preparava toda noite uma canequinha de leite morno com pão ou então sopa para os doentes e velhos que moravam na casa deles. Eu achava isso interessante e também observava como ela tratava os pobres que o dia inteiro batiam na porta: com carinho e consideração, nunca negando algum auxílio para eles. Ela nos agradava muito e gostava de fazer para nós, mocinhas, aventais de renda grossa na beirada, conforme a moda na épica".

Por influência de D. Mariquinhas, Schutel e seu grupo construíram a Vila Espírita, um conglomerado de seis casinhas na Vila Santa Cruz, onde eles abrigavam e cuidavam dos pobres atingidos pela epidemia de febre amarela.

Quem tratava de D. Mariquinhas em sua doença, além do esposo, era Maria Montes de Oliveira. Sua filha, Benedita, conta que Schutel gostava de ficar penteando os cabelos de Mariquinhas depois do banho até que D. Maria lhe preparasse a "toilette".

Nas fases agudas da doença de Mariquinhas, ciente de que ela não conseguia pregar os olhos à noite, Cairbar antes de dormir preparava dez cigarrinhos de palha para sua distração noturna.

A moléstia tinha períodos de esmorecimento, mas no geral, foram muitos anos de sofrimento, com manchas dolorosas espalhadas pelo corpo inchado e causando muitas dores e mal-estar à doente, que a tudo enfrentava sem uma queixa sequer. O Espiritismo havia lhe ensinado tratar-se de uma provação, à qual necessitava ser suportada com resignação.

Cairbar, em todos os momentos a seu lado, não se descurou um instante da presença da esposa, sendo lhe nessas horas o enfermeiro dedicado e o amigo reconhecido.


XV
O "Pai dos pobres de Matão"
Se os espíritas de todo o mundo reconhecem Cairbar Schutel por sua grande obra de divulgação, os habitantes de Matão, principalmente os mais desvalidos, o reverenciam por sua obra de caridade.

"Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará", diz a sabedoria evangélica, e este foi um homem que soube se fazer livre pela prática do amor. E como amava era livre: nunca experimentou a ambição que agrilhoa o homem ao egoísmo.

Não sem razão, foi chamado "O Pai dos Pobres de Matão" e este título tanto lhe é mais merecedor, porque não foi ofertado pela vaidade de seus conterrâneos, ou pela classe política, ou, ainda, por sua família humana, mas o foi pelos seus próprios amigos: os pobres. Que maior galardão poderia desejar este cristão, que fez de sua vida um ato de renúncia em favor de seus irmãos em Humanidade? O que o teria mais realizado em vida? Os louros passageiros das homenagens terrenas, ou o título que o imortalizou como o escravo dos desfavorecidos?

Esse "amigo dos que não tinham amigos", esse exemplo dos que sonham um dia serem soldados do Divino Condutor, chega até a ter sua obra de caridade ofuscada pelo trabalho de divulgação da Doutrina do Cristo. Mas é compreensível, porque, tanto em uma quanto na outra, ele foi dos maiores. "Conhecereis meus seguidores pelas suas obras" e este foi, sem dúvida, aliado a seu caráter impoluto, o motivo pelo qual até mesmo seus opositores se rendiam a seu magnetismo e deixavam a arena das disputas religiosas como seus amigos.

Não há o que negar. Este capítulo dará apenas uma pálida idéia do que representou para a sociedade matonense este Apóstolo da Caridade. O espaço é pouco para falar de seus quarenta anos de vida missionária junto à seara do Mestre.
***
"Tinha sempre alguém batendo à porta do sr. Schutel pedindo alguma coisa - alimento, roupas, remédios - e todos eram atendidos", relata Benedita Silvério, criada por Cairbar Schutel desde os primeiros dias de vida. "Quando ele não estava, era Dna. Mariquinhas quem atendia, que com igual amor e solicitude, fazia o que estava ao seu alcance para auxiliar os pobres de Matão".

Nos fundos da residência, Cairbar mandou construir um caramanchão e uma comprida mesa onde eram servidas as refeições para nunca menos de 14 ou 15 pessoas, chegando a extremos de 20 a 25 não poucas vezes. A única exigência feita por ele aos convivas era quanto à pontualidade: almoço 10 hs da manhã; jantar 16 hs da tarde. No final do almoço Cairbar costumava perguntar: "Estão satisfeitos? Tudo bem? Então está tudo bem!"

Também tinha no vasto quintal de sua casa três quartinhos onde recolhia e tratava pobres, idosos e doentes. Moraram durante muito tempo nesses quartos e até seus últimos dias, Antonio Felisberto Joaquim dos Santos, de Araraquara, que morreu com 110 anos, e participou de toda a guerra contra o Paraguai, e Jesuíno Celestino de Mendonça, um baiano que não tinha uma das pernas. Também conseguimos registrar que lá residiram a família Barbosa e um velhinho de nome Nhô Johnson que desencarnou com dupla pneumonia.

João José Aguiar, que trabalhou de 1929 a 1938 com Schutel na farmácia, relata como é que era o seu dia a dia no trabalho:

"Ele era muito enérgico, sistemático e disciplinador, mas muito bom. Um coração boníssimo. Chegavam àquelas pessoas doentes e diziam: - "Seo" Schutel está aí? Eu precisava falar com ele". "Seo" Schutel vinha, escutava das pessoas seus sintomas, ouvia delas que não tinham dinheiro para pagar, mas mesmo assim fazia a receita, dava para nós aviarmos, quando ele mesmo não o fazia, e punha embaixo: grátis. Isso acontecia 6, 8 vezes por dia.

A farmácia tinha seções de alopatia, ótica (ele fez o curso prático) e homeopatia, nesta vendendo glóbulos do Dr. Humphrey, Alberto Seabra e Almeida Cardoso".

José da Cunha, que iria tornar-se mais tarde grande colaborador de Schutel, foi por ele curado, e participou de muitas peregrinações do biografado pelo interior das fazendas em atendimento a doentes sem recursos. Eis parte de seu depoimento:

"Quando criança, eu o acompanhei muitas vezes pelas fazendas, pelas matas cerradas, locais de difícil acesso, para visitar os colonos, desde que seus patrões permitissem, e examinar suas dificuldades, cuidar de suas doenças. Eles até já ficavam esperando o "seo" Schutel. Nós íamos de "aranha" uma carruagem leve, na qual ele carregava muitos medicamentos e frascos de pílulas contra o amarelão, a anemia, a maleita, esta última, assaz proliferada na região naquele tempo, nitrato de prata, colírio para tracoma e vermífugos. Duas das fazendas, que eu me lembro ter visitado inúmeras vezes, foram a Palmares e a Piratininga.

Certa vez, fomos socorrer uma senhora idosa e só, e ele teve que ir à cozinha para esquentar água e fazer compressas. Lá verificou que sobre o fogão não havia sinais de uso recente de panelas, examinou em derredor e observou que não tinha comida. Então, tirou um dinheiro do bolso e muito cautelosamente o colocou debaixo do travesseiro da doente e não disse nada, pois não quis humilhá-la. Atitudes como essa eram comuns no seu cotidiano".
***
Três épocas do ano eram consideradas muito importantes por Cairbar: os Finados, já referida anteriormente, para a divulgação dos postulados espíritas, notadamente o da imortalidade da alma; a Páscoa, que por ser entrada do inverno, era feita uma distribuição de agasalhos e cobertores; e o Natal, quando era realizada uma vasta distribuição de gêneros alimentícios. roupas e brinquedos.

O Natal, desde a fundação do "Amantes da Pobreza" era realizado pelo grupo, tendo posteriormente, as damas de caridade e o Padre criado uma distribuição similar na Igreja.

Certa feita, foi convocado para cuidar da Paróquia o Padre espanhol Herrera, que logo fez forte amizade com Schutel, e passava muito lá nos fins de tarde para prosear juntamente com Gregório Perche de Menezes, Juca Costa, José Maria Gonçalves, José Bartolomeu Ferreira, que foi Prefeito, e outros. Pois este Padre, um dia foi ter com Schutel e disse: "Olha, Schutel, você faz essa festa de Natal todo ano, na Igreja nós temos as damas de caridade que também fazem, mas eu estou com vontade de falar com elas se aceitam promover o Natal da Igreja com o dos espíritas, porque assim os pobres vão num lugar só e já recebem tudo o que tivermos para eles, o que você acha?". Schutel não pensou duas vezes: "Perfeitamente". E foi, mas as damas recusaram peremptoriamente e, ao dar o resultado da consulta a Schutel, este lhe responde: "Não tem nada, Padre. A sua bondade e fraternidade já valeram muito".

Herrera gostava muito de conversar sobre religião com Cairbar e tinha idéias socialistas, no que foi repreendido pelo amigo antes que as confundisse com seu sacerdócio e criasse problemas para si próprio.


***
Em outra ocasião, estava no trem com compromisso urgente na agenda, quando encontra-se na classe com dois policiais que levavam algemado um obsidiado, irrequieto, exigindo muitos cuidados.

"Onde levam o homem?" - perguntou.

Iam levá-lo ao "Deus dará", à procura de um asilo ou cadeia próxima, mas Cairbar, esquecido de seu apontamento, toma a si o caso e retorna à sua casa com o obsidiado, curando-o depois de alguns dias de tratamento espiritual.
***
Contemporâneo de Cairbar, Hugo Gonçalves, relata outro caso:

"Schutel conduzia algumas vezes seus doentes numa carrocinha, onde ele colocava um colchão apropriado para melhor acomodar a pessoa a ser transportada. Jorge Cruz possuía uma dessas carroças, conhecida como a "ambulância de Cairbar Schutel". Era admirável ver com que carinho Schutel tratava daqueles doentes. Ele os tratava não só com remédios, mas os preparava igualmente para as verdades espirituais".




XVI
Criação do Hospital de Caridade
Matão desenvolvia-se celeremente e, com o progresso, as necessidades da cidade também cresciam.

Cairbar, sempre preocupado com a comunidade, e trazendo no coração aquela profunda compaixão pelos pobres e desvalidos, vislumbra a necessidade de dotar Matão de um Hospital.

Até então o atendimento médico era precário e, muito embora a cidade já contasse com um esculápio, Dr. Agripino Dantas Martins, casos de gravidade e internações tinham que ser transferidos para Araraquara ou São Paulo.

Assim, surgiu a idéia do "Amantes da Pobreza" fundar um pequeno Hospital, modesto como as suas possibilidades, mas que fosse um fulcro que pudesse resultar futuramente num nosocômio que atendesse às necessidades do lugar.

E mais uma vez, o Bandeirante, o desbravador Cairbar Schutel, com sua visão futurística e seu coração sensível, favorece a comunidade, que não lhe retribuía na medida de seu valor, com a fundação do Hospital de Caridade.

"O Clarim", de 2 de março de 1912, assim noticia o acontecimento:


Hospital de Caridade
"Desejando concorrer com a sua boa vontade para o amparo dos doentes pobres, o Centro Espírita "Amantes da Pobreza" resolveu fundar uma Casa de Caridade onde os desprotegidos encontrem a hospitalidade e os cuidados indispensáveis para o alívio dos seus sofrimentos.

A sua inauguração será a dez do mês corrente.

E uma casa pobre, arrendada pelo Centro, comportando apenas seis enfermos.

Embora sem os requisitos precisos para uma boa instalação, ela oferece, contudo, abrigo àqueles que melhor abrigo não encontrem.

O Hospital de Caridade é antes o resultado de uma vontade firme de desfraldar esse estandarte que tem por lema a palavra que lhe deu o título, do que uma de verdadeiro conforto para os enfermos.

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