Conteúdo resumido



Baixar 0.67 Mb.
Página9/13
Encontro29.07.2016
Tamanho0.67 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   13

Diante desta terrível ameaça, levantaram-se não só religiosos "não católicos", mas liberais, democratas, maçons, enfim, boa parcela da população brasileira para lutar contra à supressão do livre pensamento e de outros absurdos que se pretendia perpetrar contra as liberdades individuais dos cidadãos.

Um dos fundadores e Presidente da "Coligação" foi o espírita Dr. Artur Lins de Vasconcelos Lopes, secundado na Diretoria por um pastor Evangélico e por elementos das mais variadas tendências filosóficas e religiosas.

A Coligação era apolítica, não entrava em discussões religiosas e não atacava o catolicismo; apenas propugnava pelos direitos do cidadão de seguir a sua própria corrente de pensamento.

Sob estes maravilhosos princípios de liberdade repousavam os interesses da Coligação, que passou a ter Representações em todos os Estados e em centenas de cidades do país.

Assim é que os espíritas e outros religiosos da região araraquarense também se uniram e promoveram a formação de um Comitê abraçando a Causa.

A reunião aconteceu na cidade de São Carlos, e a RIE de 15 de abril de 1931, assim a noticia:

"A repulsa da oficialização da Igreja de Roma, que tem merecido a aquiescência dos maiores homens de nosso país e de todos os espíritos livres, que trabalham pelo progresso desta terra, vai crescendo todos os dias e constituindo um vibrante protesto contra as loucas pretensões do clero ambicioso de domínio e de tesouros.

E assim que mais de cem associações espíritas de São Paulo, e uma falange de livres pensadores, bem como representantes de várias Igrejas protestantes e Lojas Maçônicas, realizaram em São Carlos uma reunião, tendo sido aclamado o "Comitê" Central Pró-liberdade de Consciência", com amplos poderes de representar as classes liberais para que seja mantida a letra da Constituição que proclamou a Igreja separada do Estado.

O Comitê ficou assim constituído: Pres. Dr. Joaquim de Souza Ribeiro; Vice, Francisco Volpe; Secretário-Geral, Cairbar Schutel; Secretário, Antonio Basso; 2.°, João Fusco; 3.°, Pedro Brochieri; Tesoureiro, Francisco Crestana. Comissão Auxiliar: Francisco Caetano de Paula e Umberto Brussolo.

O Comitê Central já se constituiu com personalidade jurídica para ter ação livre".

Esta reunião teve uma nota desagradável que foi um diálogo ríspido entre Souza Ribeiro e Cairbar Schutel, porque este último discordava da coleta de fundos proposta pelo Presidente, já que "estariam cometendo os mesmos erros da Igreja Católica ávida de arrecadação". Se no momento houve um estremecimento no relacionamento entre os dois, dado ao ardor com que se empenharam na Causa, em pouco tempo se refizeram do entrevero e da diferença de posicionamentos.

Mas para que isso acontecesse, o episódio teve a providencial intercessão do então jovem Campos Vergal, que inteligentemente soube "colocar água na fervura".

Cairbar, como tudo que abraçava, empenhou-se a fundo na campanha, quer nas datas cívicas em que era chamado a discursar, quer em oportunidades que ele mesmo criava para defender a Causa do Estado Laico.

Em Dobrada, então distrito de Matão, certa ocasião marcou uma concentração no cinema local, onde falaria sobre a Liberdade de Consciência, juntamente com Leão Pitta e José da Costa Filho.

As 20,15 hs, 15 minutos após a hora marcada, no local estavam apenas os três e mais dois assistentes.

O que fazer? Desistir da conferência? Afinal, não se tratava de uma prédica doutrinária; se o fosse, tudo bem. Não se importaria em falar apenas para reduzido número de pessoas, mas o fato é que o interesse deveria ser quase geral, porque envolvia a liberdade do cidadão.

Matutou, matutou... e resolveu: mandou comprar uma dúzia de foguetes e soltou-os na porta do cinema.

Ao improvisado chamamento, acorreram inúmeras pessoas curiosas de saber o que estava se passando e em poucos minutos o cinema regurgitava de gente para ouvir a substanciosa conferência do nosso Bandeirante.

A Coligação teve vida longa, passou por momentos difíceis, mas enquanto não alcançou seus altos objetivos com a Constituição de 1946 não arrefeceu seu ânimo.

Tomemos contato com os magnos princípios defendidos pela Instituição:

O Estado deve adotar e fazer cumprir os seguintes princípios:

a) - Plena liberdade a todos os brasileiros de se associarem, de se reunirem e de expressarem seus pensamentos, pela imprensa, pela tribuna, pelo rádio, etc., dentro da ordem e da lei;

b) - Absoluta separação entre as igrejas e o Estado;

c) - Igualdade e liberdade de todos os cultos perante a lei;

d) - Laicidade do ensino em todas as escolas oficiais, de modo que qualquer faculdade de instrução religiosa não interfira com este princípio;

e) - Nenhuma interferência do Estado nas funções de qualquer igreja;

f) - Nenhuma intromissão de atos religiosos nas solenidades cívicas, a fim de evitar coação ou constrangimento;

g) - Nenhuma distinção, entre brasileiros, ou mesmo entre estrangeiros, em virtude de maioria de adeptos por parte de qualquer religião, visto que todas as igrejas são iguais perante a lei e funcionam dentro do direito comum, que não reconhece maiorias nem minorias em matéria espiritual;

h) - Será permitida a assistência espiritual, quando solicitada, nos estabelecimentos de internação coletiva, sem remuneração e contanto que não haja constrangimento dos favorecidos;

i) - Secularização dos cemitérios com todos os princípios decorrentes, ficando a cargo da autoridade pública.

Em mais esta ocasião nosso biografado marcou sua presença, desta vez empunhando a bandeira da justiça e da liberdade, tendo feito parte ativa da Coligação até seu desencarne em 1938.




XXIX
O Não de Cairbar à "Ação Espírita Paulista"

Hoje, repassando-se os olhos na História do Espiritismo, vamos ver que até neste episódio Cairbar Schutel revelou-se um homem de visão e de profundo senso crítico. Enxergou longe, o nosso amigo.

Tratava-se, a "Ação Espírita Paulista", de um movimento visando agregar os espíritas a uma entidade que, além dos ideais doutrinários, tivesse uma atuação política.

Não que condenemos a política ou os confrades que nela atuam, absolutamente, mas acreditamos que esse movimento deveu-se muito mais aos arroubos da juventude de um Campos Vergal, de um Luís Monteiro de Barros e outros, além de seus apegos à Doutrina, do que propriamente a um rumo que o Espiritismo devesse seguir.

"A César o que é de César, a Deus o que é de Deus", o ditame é claro, e assim como Cristo não precisou ocupar cargos, reter poder ou ser abastado para deixar sua mensagem gravada à Humanidade, também ao Espiritismo está reservada a missão de reformar a Terra e restabelecer seus ensinamentos, sem que para isso necessite ascender ao poder. A missão da Doutrina é meramente espiritual.

E isso Cairbar soube compreender, e a prova de que estava certo e que hoje, passados cinqüenta anos do episódio, com a evolução do pensamento doutrinário, poucos há desejando misturar Espiritismo com política. Há os espíritas políticos, sim, mas com percepção suficiente para distinguir uma coisa da outra e não levar a política para dentro do Centro Espírita. O inverso sim, deve ser feito, pois o próprio Cristo nos alertou "Vós sois o sal da terra" e um político verdadeiramente espírita irá se distinguir dos demais em muitos aspectos.

Eis fragmentos de um manifesto da "Ação Espírita Paulista":

Aos espíritas e eleitores independentes do Estado de São Paulo


"A "Ação Espírita Paulista", constituída por um grupo de espíritas praticantes e militantes, resolveu lançar este manifesto ao definir sua atitude em face do pleito eleitoral a realizar-se em 03 de janeiro de 1938. Ao fazê-lo, declara que:

A) - se desinteressa pela sucessão presidencial, convidando todos os seus amigos e confrades a votarem livremente no candidato de sua simpatia; toma esta atitude visto serem ambos os candidatos à sucessão presidencial igualmente dignos de assumir a Presidência da República, tendo ambos programas semelhantes;

B) - se conservará fora e acima dos partidos políticos existentes, não mantendo com qualquer deles compromissos de nenhuma espécie;

C) - se interessa única e vivamente pela renovação da Câmara dos Deputados Federais, para a qual apresenta como seu exclusivo candidato o Dr. Joaquim Souza Ribeiro, médico e cirurgião-dentista, residente em 'Campinas. (...)

São Paulo, julho de 1937

Pela "Ação Espírita Paulista"


(aa) Dr. Campos Vergal, Dr. Augusto M. Pacheco, Dr. Luís Monteiro de Barros, Dr. Ubirajara Dolacio Mendes, Antenor Ramos, Caetano Mero, Farid Ignácio Mussi, José Garcia, Aurélio Pereira, Manoel Pinto Ribeiro, Constantino de Souza, O. Gomes Silva, José Péres, Constantino de Campos Vergal, Sérgio Leite, Jordão Tbibes, S. M. Fonseca, João Spinelli, Lino Costa, Dr. Marcílio de Freitas, João Baptista Agostinho, Benedicto Mascarenhas, Pedro Fernandes Alonso, Raul Soares, Germano Emílio dos Anjos, Benedicto Dias, Tertuliano T. Pereira, João Marchese e outros.

Agora vejamos como reagiu Cairbar a um pedido de seu grande amigo, Campos Vergal, para a publicação de uma noticia sobre a "Ação Espírita Paulista". Esta resposta a encontramos escrita de próprio punho por Schutel:

"Quanto ao modo de ver a política, sou muito infenso a essa megera. Acho que os espíritas políticos deveriam fundar um Departamento Político, ao qual deveriam fazer parte todos os que propugnam pelo Estado Leigo e determinações. É este o meu modo de ver. "O Clarim" não encampará questões políticas, mas noticiará todo o movimento que propugnar pelo Estado Leigo.

Do Cairbar"

Como pudemos observar, Schutel era intransigente no que julgava certo para a Doutrina e o movimento, e sincero ao extremo com os amigos.

Não adocicou e negou, peremptoriamente, colocar "O Clarim" a serviço da política, mesmo sob risco de magoar os amigos, principalmente a Campos Vergal, que liderava, e Souza Ribeiro, o candidato escolhido pela "Ação".

Cairbar Schutel se recusou, inclusive, a participar como Candidato Espírita na legenda da referida entidade.


XXX
Cairbar Schutel e Chico Xavier
Cairbar só teve oportunidade de encontrar-se pessoalmente com Chico Xavier uma ocasião. Porém, chegaram a trocar correspondência durante algum tempo, quando, relata Chico, os dois comentavam suas atividades. Dessas cartas Chico não se esquece que Cairbar sempre citava carinhosamente Dna. Mariquinhas, que, para ele, "era a alma e coração de seu trabalho".

É sugestivo o caso do único encontro dos dois baluartes do Espiritismo no Brasil. Chico, bem jovem ainda, iniciando sua carreira missionária; Cairbar, vivendo seus últimos anos de romagem terrena na presente encarnação.

Relatou-nos pessoalmente o médium mineiro que; quando trabalhava no Ministério da Agricultura na cidade de Pedro Leopoldo, seu superior, embora não esposando a fé Espírita, recebeu o pedido de um amigo de São Paulo que, interessado na mediunidade segura que espoucava, em Chico, gostaria de conhecê-lo e convidá-lo para uma semana espírita que se realizaria em São Paulo.

O chefe da seção "sugeriu", então, que seu comandado viesse a São Paulo para entrevistar-se com seu amigo paulistano, ao que, humildemente, Chico acedeu. Ingênuo, porém, e sem nunca ter saído dos arredores de sua terra natal, Chico descreve essa sua viagem como extremamente pitoresca, já que, imaginando ser São Paulo pertinho de Pedro Leopoldo, tomou o trem com a roupa do corpo pensando retornar no dia seguinte. Só que ninguém lhe avisou que só a viagem demorava trinta e seis horas...

Foi em São Paulo, então, que avistou-se com Cairbar Schutel, que o convidou para acompanhá-lo até a residência de Dna. Maria Elisa de Oliveira Borges para lhe ministrar um passe, pois a benfeitora da RIE encontrava-se muito mal de saúde.

Não puderam, no entanto, entrar no quarto da doente devido à precariedade de seu estado, mas realizaram uma comovida prece na sala. Chico se recorda bem deste dia, em que descreve a casa como sendo muito fria, triste, o que comoveu muito Cairbar.


***
Além de diversas psicografias recebidas de Cairbar, Chico relata que por volta de 1975, em sessão de materialização com a médium Dna. Hilda Odilon Negrão, ele voltou a conversar com o Espírito de Cairbar através do fenômeno da voz direta.


XXXI
O Pioneirismo da "Assoc. de Prop. Esp. do Estado de São Paulo"
Sempre preocupado com os destinos do movimento doutrinário espírita, Cairbar Schutel investe em outro projeto: a "Associação de Propaganda Espírita do Estado de São Paulo".

Folheando publicações do início do século até a década de 50, vamos notar o uso, amiúde, do termo "propaganda" para a divulgação doutrinária, um termo já um tanto esquecido no meio espírita, mas muito usado para outros fins. Por isso, não devemos estranhar a titulação da entidade, que teve em Cairbar um dos fundadores e seu 1.° Presidente, já que esta, na realidade, tinha em seus Estatutos finalidades que se aproximavam das diretrizes atuais de entidades federativas como a U.S.E. em São Paulo; daí não estamos incorrendo em erro se dissermos que a "Associação de Propaganda Espírita do Estado de São Paulo" pode ser considerada uma precursora da U.S.E. em nosso Estado.

E mais uma vez temos que render ao "Bandeirante do Espiritismo" nossa homenagem, não só pelo pioneirismo, mas pela visão de futuro que teve da necessidade de unificar o movimento espírita do Estado em torno de princípios doutrinários comuns a todos e promover uma maior confraternização entre as instituições.

Vejamos como a RIE de 15 de maio de 1931 noticia o acontecimento:

"Dia 24 último, em reunião efetuada em São Carlos, no salão do Centro Espírita local, presentes os representantes de diversas Associações Espíritas do Estado de São Paulo, deliberaram fundar a "Associação de Propaganda Espírita do Estado de São Paulo".

Foram por seus Presidentes e Procuradores representados os seguintes Centros: (segue-se lista com 83 entidades e respectivas cidades).

Para dirigir a "Associação Espírita de Propaganda do Estado de São Paulo" foi aclamado o seguinte triunvirato: Presidente, Cairbar Schutel; Secretário, João Fusco; Tesoureiro, Francisco Crestana".

Na RIE de 15 de novembro de 1931 temos mais explicações de como funcionava a idealística entidade:

"(...) Esta sociedade composta de Centros aliados está destinada a prestar ótimos serviços ao Espiritismo, porque o seu fim exclusivo é a propaganda espírita pela palavra e pela imprensa, e o esforço que expender é para orientar os Centros que lhe são aliados no estudo da Doutrina e no desenvolvimento moral e filosófico dos seus componentes.

A sociedade não admite para seus aliados Centros sem cultura, imbuídos de idéias pessoais e preconcebidas, dadas à prática de um charlatanismo deprimente que se põe como pedra de escândalo à marcha progressiva do Espiritismo. A sociedade prefere se manter com 10 Centros treinados nos princípios Kardecista, do que contar com 100 ou 200 que selecionem o estudo, o livre exame e a moralidade, deixando de obedecer estes princípios básicos da verdadeira regimentação espírita. (...)".

A Associação, como pode-se notar, tinha Centros adesos e representantes nas cidades ou regiões (à semelhança de UDES, UNIMES, etc..) que eram denominados Intendentes e selecionados pela Diretoria da Associação.

A esses Intendentes competia visitar os Centros adesos, fazer palestras, promover intercâmbio de oradores, orientar os Centros dentro das bases doutrinárias, enfim, eles realizavam uma série de atividades que hoje as Uniões Municipais Espíritas e outras subdivisões da USE promovem.




XXXII
Conferências Radiofônicas
Cairbar Schutel é tido por toda a família espírita como o precursor da divulgação espírita pelo Rádio, mas, a bem da verdade histórica, ele pode ser considerado um dos pioneiros, mas não o precursor.

Em carta ao próprio Schutel dirigida, Henrique Andrade, do Rio de Janeiro, além de animá-lo ao prosseguimento das palestras radiofônicas, faz um relato de sua experiência pessoal no campo da radiofonia já em 1932, quatro anos portanto antes de Schutel, e devido à importância do documento, que restabelece uma parte da nossa história, o reproduzimos na integra:

Rio, 10 de Maio de 1937

Meu Caro Cairbar.

Muita Paz.

Só hoje, aproveitando uma pequena folga, é que venho cumprir o meu dever de lhe agradecer muitíssimo a sugestão que me enviou para a formação aqui do "Departamento de Propaganda peio Rádio".

Como o meu bom amigo, eu também sustento a opinião de que o melhor meio de propaganda na hora agitada e rápida que vivemos é a que se faz através do Espaço, pelas irradiações radiofônicas.

Não há dúvida nisso.

Hoje, rara é a casa que não tem uma instalação de rádio: rara é a casa em que todas as noites, durante e após o jantar, não ouça pela transmissora de Rádio música, discurso, notícias sensacionais e outras vezes desagradáveis.

Assim, eficientíssima será sempre a propaganda da nossa Doutrina pelo Rádio, desde que ela seja feita, selecionadamente, com critério e versando assuntos que possam interessar aos que não são espíritas, despertando-os para o conhecimento da Doutrina.

Eu tive a grande ventura de ser o primeiro que assim trabalhou aqui na propaganda da Doutrina.

Falei durante dois anos consecutivos através do microfone da Rádio Educadora sobre Espiritismo.

Durante toda a Revolução de 1932, quando a censura sobre os Rádios era tremenda, eu não parei uma só noite de falar, a despeito mesmo das várias ameaças que recebia de ser assaltada a estação por dificultar a irradiação de São Paulo. Posso afiançar-lhe que falei mesmo entre metralhadoras e forca armada.

Depois a Direção da Educadora entendeu de não mais permitir que eu falasse gratuitamente, alegando dificuldades.

Consegui falar como parte de um programa particular, porém apenas três ou quatro vezes, porque a ordem superior era não falar. Tentei pagar o que me fosse exigido por 1/2 hora, mas tudo em vão.

Passados alguns meses fiz nova tentativa, mas ainda em vão.

Hoje, ainda há pouco tempo tive uma esperança, que logo se desvaneceu.

O Clero aqui tudo faz para evitar que a luz se levante. Certa vez o proprietário da oficina em que é impresso o nosso "Mundo Espírita" foi convidado por um ilustre reverendo a não mais imprimir "Mundo Espírita" sob a promessa de lhe ser dado novas impressões de maior valor e melhores resultados. Felizmente, o proprietário da Oficina soube responder que era negociante e não podia recusar trabalho que lhe compensasse o seu capital. Vê, pois, o meu querido amigo, que por enquanto nada poderemos fazer, mas espero e creio que em breve essa compreensão clerical arrefecerá, para permitir que possamos mostrar a luz a quantos nos queiram ouvir.

Aproveitando o ensejo, junto lhe envio Rs 24$000 para a reforma da minha assinatura da Revista, que cada vez mais se impõe como gênero de primeira necessidade em todas as boas bibliotecas.

Aceite o meu estimado confrade e muito amigo um afetuoso abraço do seu

Henrique Andrade"

Esse fato, no entanto, não obscurece o mérito de Schutel que, numa época de tanta tirania clerical, e nos primórdios ainda da radiofonia, compreendeu o instrumento valioso que eram as ondas hertzianas como meio de propaganda doutrinária.

Suas conferências radiofônicas "neo-espiritualistas" foram levadas ao ar pela Rádio Cultura Araraquara (PRD - 4), de 19 de agosto de 1936 a 2 de maio de 1937, num total de 15, enfeixadas posteriormente em livro sob o mesmo título.

Também realizou algumas conferências radiofônicas em Sorocaba e teve uma tentativa frustrada de realizá-las em São Paulo, juntamente com a reprodução de um disco em que foi gravada uma sessão de materialização com voz direta que ele recebera da Europa, conforme se deduz deste fragmento de carta enviada por Caetano Mero para Schutel em 21/10/37:

"Obediente ao seu pedido, procurei várias Estações de Rádio desta Capital. É uma lástima, meu amigo, estão todas sob domínio clerical. Não aceitam irradiações espíritas de jeito nenhum.

O gerente de publicidade da Rádio Difusora é nosso confrade, e tive o prazer de o saber agora, quando buscava alugar a meia hora para a irradiação do disco. Ele disse-me que o domínio clerical é completo e os proprietários das Estações mandam menos que o Clero.

Disse ele que o próprio Governo manda pouco, pois que também sofre influência clerical. Disse mais: que os candidatos precisam propagar aos quatro ventos que são católicos, que farão um Governo católico, pois, do contrário, o Clero os boicotam imediatamente. Boicotado pelos padres, o candidato não vai mais e isso é uma grande verdade.

Espiritismo, então, é taxativamente proibido de ser irradiado. (...)"

Nas primeiras vezes que foi à Rádio de Araraquara para apresentar seu programa, Cairbar sofreu um principio de oposição do Vigário local, que levava os marianos para vaiarem-no à saída da emissora. Porém, quando Schutel aparecia na porta, sua altivez, seu magnetismo e o respeito que despertava nas pessoas, fazia o grupo emudecer-se.

Para se ter uma idéia da repercussão que suas conferências obtinham, vejamos um trecho da carta de um ouvinte de nome Antônio Cruanes:

"(...) Meu amigo Schutel, quanto fiquei satisfeito de ouvir sua palestra pela Rádio de Araraquara, tanta foi minha alegria que parece ter sido um fortificante para meu corpo e para minha alma que se engrandeceu. Apesar de o tempo aqui estar feio, foi ouvida claramente. Que beleza será quando todas as estações nos forem franqueadas, meu caro amigo! Seu tema foi ótimo, instrutivo e belo.

Quem ouve sua palavra não diz que o meu amigo e irmão seja um homem alquebrado pelo trabalho insano de tantos anos, mas imagina pela voz que seja um moço cheio de vida que fala da vida; parece um jovem que está iniciando na pregação evangélica cheio de entusiasmo.

Saiba, meu amigo, que por isso é que readquiri minha coragem, já que permaneço fraco e doente de corpo (...)" (Dois Córregos, 24/12/37)

E de se registrar, também, que o horário na Rádio não era gratuito, mas pago por donativos de espíritas que, geralmente, não se identificavam.


***
Um fato assaz auspicioso aconteceu com relação a esses programas radiofônicos. As conferências na Rádio eram anunciadas na Revista Internacional de Espiritismo. Ernesto Bozzano, da Itália, recebendo a R.I.E. e vendo nela a noticia sobre a programação radiofônica espírita num pequeno lugarejo, à época, do Estado de São Paulo, mandou a Schutel um cartão de parabéns pelo trabalho. Mas não veio só um cartão; vieram dois, ambos com os mesmos dizeres. Isso foi providencial, porque naquela época estava no poder o Governo ditatorial de Getúlio Vargas e os Centros Espíritas estavam sendo ameaçados de fechamento. A própria Federação Espírita Brasileira foi ameaçada de ser fechada. Cairbar, ao receber os cartões de Bozzano, que era nome de muito prestígio naqueles idos, mandou um dos cartões para Getúlio Vargas, junto com alguns dizeres. E Getúlio, diante disso, se sensibilizou por ver que na Itália longínqua o maior dos seus cientistas estavam parabenizando um trabalho que ele, Getúlio, desconhecia. Tudo isso serviu para que o Centro não fechasse e ele continuasse seu trabalho de divulgação do Espiritismo.


XXXIII
As Crônicas no "Correio Paulistano" e "Gazeta de Notícias"
Por volta de 1935 a 1936, Schutel estendeu seus escritos à imprensa leiga da Capital, colaborando com o jornal "Correio Paulistano", por deferência do Superintendente e confrade, Antonio Herman Dias Menezes, mas que por imposição do Clero (sempre o Clero!) foi obrigado a suspender a coluna que saía às terças-feiras.

Os protestos se acumularam sobre a mesa do Editor. De todas as partes os espíritas protestaram e, se não surtiu efeito para a volta da coluna, o Espiritismo mais uma vez esteve em evidência, e muitos procuraram conhecê-lo por causa das discussões que se formaram em torno do caso.

1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   13


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal