Conteúdos de leccionação Primeira aula (4 de Agosto 2009) a revolução científica dos séculos XVI e XVII



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Conteúdos de leccionação
Primeira aula (4 de Agosto 2009)
A revolução científica dos séculos XVI e XVII
1. O que foi a revolução científica? A complexa constelação cultural que modelou a emergência do novo conhecimento científico. Novas concepções do conhecimento assimilado à ciência. O projecto de alcançar o conhecimento sobre o que a natureza “faz” e sobre “o que acontece”. A valorização do conhecimento e do novo conhecimento científico.

2. A ciência não se opõe à fé, mas serve a fé. A desocultação das leis naturais e da natureza pela luz da ciência moderna. A capacidade de fazer descobertas como indicação dos poderes do homem e da adaptação entre estes poderes e o mundo natural. O trabalho da criação de Deus manifestado na ciência moderna. As descobertas científicas como confirmações da glória de Deus e do homem.

3. As explicações mecanicistas e sua diversidade. As tentativas de afastamento do mecanicismo: Francis Glisson.

4. Cenários institucionais da ciência moderna: da ciência amadora ao reconhecimento da ciência – o exemplo da Royal Society.


Bibliografia

Bachelard, Gaston (1951), L’Activité Rationaliste de la Physique Contemporaine, Paris, PUF.

Bacon, Francis (1620) Novum Organum XXXX

Bacon, Francis (1623)Da Dignidade e Incremento das ciências

Bacon, Francis (1627), Nova Atlantida, XXXX

Descartes, René (XXXX), Discours de la Méthode

Koyré, A. (s. d), Galileu e Platão, Lisboa, Gradiva, s/d (trad. de Maria Teresa Brito Curado).

Shapin, Steven (1999 [1996]), A Revolução Científica, Lisboa, Difel.


Citações para primeira aula
Aqueles de entre os mortais mais animados e interessados não no uso presente das descobertas já feitas, mas em ir mais além, que estejam preocupados não com a vitória sobre os adversários por meio de argumentos, mas na vitória sobre a natureza pela acção, não em emitir opiniões elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ciência, que se juntem a nós, para, deixando para trás os vestíbulos das ciências, penetrarmos em seus recônditos domínios.

O homem, interprete e ministro da natureza, faz e entende na medida em que observa na realidade e pela mente a ordem da natureza; nem pode saber o poder mais.

A ciência e a potência humana coincidem no mesmo, pois a ignorância da causa destitui o efeito. (…) Aquilo que na contemplação é causa, na operação é regra.

Sobre um dado corpo gerar e acrescentar uma nova natureza ou novas naturezas, eis o trabalho e o objectivo da potência humana.

Se se encontra um mortal que não tenha mais nenhuma ambição que não a de ampliar o império e o poder do género humano sobre a imensidão das coisas, terá de se convir que essa ambição é mais pura, mais nobre e mais augusta que todas as outras.
F. Bacon, Novum Organum
Em vez dessa filosofia especulativa, que se ensina nas escolas, pode encontrar-se aí uma prática, que conhecendo o poder e as acções do fogo, da agua, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres dos nossos artesãos, os pudéssemos utilizar de igual modo em tudo aquilo para que servem, tornando-nos assim senhores e possuidores da natureza.
René Descartes, Discours de la Méthode
Matematismo platónico como pano de fundo metafísico do surgimento da ciência moderna
Em 1943 e 1948, ensaios de Koyré argumentam, no marco de uma discussão sobre as duas tradições platónicas – a da especulação mística acerca dos números e a da ciência matemática -, que o matematismo platónico é o “pano de fundo metafísico” da ciência moderna, do empreendimento de Galileu e Descartes. São dois artigos com uma importância capital para uma história da ciência situada na perspectiva filosófica das condições de possibilidade do conhecimento científico

O movimento governado pelos números em substituição dos princípios do movimento grego estaria na origem da revolução científica moderna. A razão por que a technê grega permaneceu durante muitos séculos (apesar de Arquimedes) num estádio pré-tecnológico tem a ver com o facto de que só com Galileu e Descartes se alteraram por completo os princípios do movimento grego para o movimento governado pelos números.


Conhecemos tão bem os princípios e os conceitos da mecânica moderna, ou, melhor, estamos tão habituados a eles, que nos é quase impossível ver as dificuldades que foi necessário ultrapassar para os estabelecer. Estes princípios parecem-nos tão simples, tão naturais, que não notamos os paradoxos que implicam. Todavia, o simples facto de os maiores e mais poderosos espíritos da humanidade – Galileu, Descartes – terem tido de lutar para os fazer seus basta para demonstrar que estas noções claras e simples – a noção de movimento ou a de espaço – não são tão claras e simples como parecem. Ou então são claras e simples de um certo ponto de vista unicamente, como parte de um conjunto de conceitos e de axiomas, para além dos quais deixam de ser simples1
Galileu crê ter demonstrado a verdade do platonismo “de facto”. Para Galileu, a ciência nova era uma prova experimental do platonismo, “a redescoberta da linguagem falada pela natureza”. A ciência de Galileu e Descartes não é a de engenheiros ou artesãos; o surgimento da ciência não se explica pelo desenvolvimento da técnica da Idade Média; pelo contrário, a tecnologia é que é explicada pelo desenvolvimento da ciência, aquela não foi criada por técnicos mas por teóricos e filósofos.

O que Galileu e Descartes tiveram de fazer na qualidade de fundadores da ciência moderna foi


destruir um mundo e substituí-lo por outro, reformar a própria estrutura da nossa inteligência, formular de novo e rever os seus conceitos, conceber o Ser de uma nova maneira, elaborar um novo conceito de conhecimento, um novo conceito de ciência – e mesmo até substituir um ponto de vista bastante natural, o do senso comum, por um outro que o não é de modo algum2.
E este projecto teve como meios, por um lado, a destruição do cosmo aristotélico, o cosmo como “estrutura finita” de um “mundo qualitativamente diferenciado do ponto de vista ontológico”, para “um universo aberto, indefinido e infinito, no qual todas as coisas pertencem ao mesmo nível de Ser, ao contrário da concepção tradicional, que distinguia e opunha os dois mundos do céu e da Terra”3 empreendimento realizado pela geometrização do espaço, no sentido da “substituição do espaço homogéneo e abstracto da geometria euclidiana pela concepção de um espaço cósmico qualitativamente diferenciado e concreto, o da física pré-galilaica”.
A matematização (geometrização) da natureza e, por consequência, a matematização (geometrização) da ciência

- Assim resume Koyré as duas características principais da atitude intelectual da ciência moderna4.


MAS,

resvalar para uma tese de platonismo estrito de Galileu, seria não compreender as mudanças do quadro de pensamento operadas pela época de Galileu e pós-Galileu.



Uma coisa é o plano de fundo metafísico outra a de reduzir o pensamento de Galileu a uma causa e ordem metafísica. A interpretação “platonizante” de Galileu feita por Koyré não pode fazer esquecer que, ao contrário de Platão, Galileu (como noutro vulto da altura, Thomas Hobbes) não aponta para um isomorfismo entre o que hoje chamamos de estrutura do aparelho cognitivo e a estrutura do real
A. Koyré, Galileu e Platão, Lisboa, Gradiva, s/d (trad. de Maria Teresa Brito Curado), p. 50.


1 Op. cit., p. 39

2 A. Koyré, op. cit., p. 19.

3 Ibidem, p. 18.

4 Ibidem, p. 17.


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