Conto popular a tradiçÃo oral ricardo Sérgio



Baixar 17.92 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho17.92 Kb.
CONTO POPULAR
     A TRADIÇÃO ORAL 


Ricardo Sérgio

Publicado no Recanto das Letras em 22/02/2007


http://recantodasletras.uol.com.br/

    
Introdução


● O conto, como hoje vemos, é uma forma literária reconhecida e utilizada por muitos escritores de renome. No entanto a sua origem é muito mais humilde. Começou na tradição oral dos povos, como um simples e despretensioso relato de histórias imaginárias. Além propor aos ouvintes modelos de comportamento; era, o conto, próprio dos momentos de lazer. Na tradição oral brasileira, após um jantar, se organizam, as «rodas» em varandas cobertas, nos galpões ou em volta do fogo, onde, sobre a chapa de ferro do fogão a chaleira de água ferve para o cafezinho da noite. Formada a roda, o contador de histórias, geralmente um visitante, narra ao reduzido e familiar auditório, um causo (um conto) considerado interessante. Todavia, a sua narrativa está sujeita as certas circunstâncias que impõem «a história» sua brevidade: a limitação da memória do contador, o pouco tempo que dispõe e a simplicidade da roda.


● Essas mesmas circunstâncias determinam a limitação do número de personagens, a sua caracterização vaga e estereotipada, a redução e imprecisão das referências de espaço e tempo, bem como a simplificação da ação. E foi a partir dessas circunstâncias que se estruturou o conto como forma literária, e é, ainda hoje, a base do conto moderno.


Autoria
● Dentro da tradição oral, o conto não tem propriamente autoria. Na realidade ele constitui uma criação coletiva, dado que cada «contador» lhe introduz, inevitavelmente, pequenas alterações e, assim passando sob modificações, de povo para povo. Daí vem o dito popular: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”.


● É admirável ver como essas tradições orais, se submetem no tempo e no espaço, ao fenômeno da transplantação sem perder o sinal de origem. Passam de um a outro país, revivendo em raças e povos, as mais das vezes, tão diferentes.

● Não podemos esquecer que os contos populares com os quais hoje temos contato, são diferentes dos que se perpetuaram na tradição oral. A transplantação destes para a escrita implicou, necessariamente, alguma adaptação. Sim, porque a narrativa oral, além da ênfase, da entoação, era acompanhada por outros tipos de linguagem como os movimentos corporais, a mímica, variáveis de contador para contador e irreproduzíveis na escrita. Outro fato está em que às pessoas presentes na roda do conto, cerceavam com suas perguntas e comentários, a narrativa; impedindo que o contador desse vazão a sua imaginação criadora. Na transposição para a escrita, o escritor, evidentemente, não é submetido a essa censura de roda, podendo dar vazão a sua imaginação.




As Coletâneas

● O interesse dos intelectuais pelo conto popular surgiu no século XVII, quando, em 1697, Charles Perraut publicou a primeira coleção de contos populares franceses, que incluía histórias tão conhecidas como "A Gata Borralheira", "O Capéuzinho Vermelho" e "O Gato das Botas". Esse interesse pela literatura popular acentuou-se no século XIX, com os trabalhos dos irmãos Grimm, na Alemanha, que tiveram consciência do valor dessas produções anônimas e as coligiram magnificamente, conservando-lhes o cunho popular e a graça com que ouviram dos lábios das mulheres e camponeses de sua pátria. Da mesma forma, temos no Brasil, Sílvio Romeiro, Lindolfo Gomes, entre outros.

● A maioria dos contos populares do Brasil são de importação européia; alguns de procedência africana e bem poucos de origem indígena.

A Tradição Oral Brasileira

● Todos os contos populares começam com o tradicional: Era uma vez... Foi um dia...




● Essa formula inicial (era uma vez... foi um dia...) remetia os ouvintes para o passado e, desse modo, funcionava como um sinal de que se ia passar do mundo real para um mundo irreal, “o da fantasia”, onde tudo é possível. Esse mergulho no imaginário terminava com a fórmula final: "...e viveram felizes para sempre."

● Antes do contador começar a história, fazia-se de muito rogado, e se o pedido era feito ainda de dia, desculpava-se logo, dizendo: Quem conta história de dia cria rabo de cutia. O dito, apesar de um modismo velho e gasto, era sempre recebido com gargalhadas. 

● Os indígenas americanos só contavam suas histórias quando nevava, para que as plantas não esquecessem de crescer. No Haiti, como aqui, não se pode contar histórias de dia, à noite é que é o momento sagrado.


Os Nossos Símbolos

● O caboclo contador de histórias, geralmente, empregava, nas suas narrativas, o pronome «Fulano», seja para substituir o nome das pessoas, seja das localidades: Foi um dia o fulano morar na cidade fulana...

● Quando não utilizavam do pronome fulano para as localidades, davam denominações, com certo cunho de simbolismo: cidade das Flores, das Maravilhas, das Amarguras, dos Prazeres, do Sol, da Lua, etc.

● Na verdade, estas vagas referências aparecem apenas porque é uma exigência da narrativa, visto que nada acontece fora do tempo e do espaço. Não é «o onde» nem «o quando» que interessa, mas sim o que acontece, «a ação». Por isso as indicações de lugar e tempo eram sempre limitadas e vagas, em geral, não se determinava com rigor a duração da ação ou a localização histórica precisa. O mesmo acontecia com o espaço: um palácio, uma casa, uma fonte, uma floresta... As próprias personagens são um mero suporte da ação, daí também a sua caracterização estereotipada.

● Essas características (personagens, espaço e tempo) davam às histórias um caráter atemporal e universal, que permitiam a sua atualização permanente: é algo que poderia acontecer em qualquer tempo e em qualquer lugar.

● As narrativas eram constantemente interrompidas pelas interrogativas dos ouvintes. Muitos, curiosos de conhecerem o fim dos episódios, perguntavam: E depois? E depois? Às vezes a pergunta era substituída por esta outra: — Entonces, vai daí? E o caboclo remendava: E vai daí que o príncipe...

● Não raro, o contador terminava sua história com a célebre tirada: “Era um dia uma vaca chamada Vitória; morreu a vaquinha, acabou-se a história”.

● Os caboclos empregavam certos números, para indicar uma quantia indeterminada, havendo preferência pelo «sete» (conta de mentiroso): bota de sete léguas; morrer de sete tiros, de sete facadas, etc.

● Quando se tratava de fortuna, de dinheiro, a preferência era pelos mil e milhão: mil contos; mil léguas de terras; milhão de escravos. Às vezes usavam também o cem e cento.

● Ao terminar alguma história, cujo epílogo fosse um casamento ou uma festa, ou mesmo um pagode qualquer, o contador jamais deixava de salientar que houve uma festa ou arrasta-pé, onde haviam muitos convidados, dos quais foi um deles, com comes e bebes.

● Nos contos populares universais tradicionais, a referência sistemática mais evidente é a do número três, símbolo da perfeição desde tempos imemoriais. A rosa aparece como símbolo do amor puro e total. O beijo desperta e faz renascer. A heroína é frequentemente a mais nova (e por isso a mais pura e inocente). O herói quase sempre tem que enfrentar uma série de provas antes de alcançar o objeto - símbolo do amadurecimento que fará dele um homem. Outras vezes sai da casa paterna em busca da autonomia. Neste caso, do herói e da heroína, o mesmo se dava no conto popular brasileiro; e mais: os heróis concentram em si os traços positivos, enquanto os vilões evidenciam todos os aspectos negativos da personalidade humana. Dessa maneira personifica-se o bem e o mal e manifesta-se insistentemente a vitória do primeiro sobre o segundo.

Classificação
São muitos os temas tratados nos contos populares, daí a possibilidade de várias classificações. De maneira que acho viável a seguinte classificação: 

● maravilhosos ou de encantamento;

● de exemplo;

● religiosos ou morais;

● de animais;

● etiológicos (relativos à fundação de um local).


Lindolfo Gomes, em seu Contos Populares Brasileiro, classificou os nossos contos em ciclos temáticos:


● Ciclo do Preguiçoso;

● Ciclo do Coelho e da Onça;

● Ciclo de Pai João;

Ciclo do Diabo

● Ciclo de Pedro Malazartes. 

_______________________________________


Ajudaram na elaboração deste texto:
Lindolfo Gomes, Contos Populares Brasileiros.
Basílio de Magalhães, O Folclore no Brasil.
Cornélio Pires e Leonardo Mota, Conversas ao Pé do Fogo.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal