Contos de fadas na construçÃo da auto-estima e do autoconceito em criança operacional concreta



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CONTOS DE FADAS NA CONSTRUÇÃO DA AUTO-ESTIMA E DO AUTOCONCEITO EM CRIANÇA OPERACIONAL CONCRETA
Janete Schmidt de Camargo Cesar - Pedagogia

Orientadora: Anterita Cristina de Sousa Godoy - Faculdade de Educação UNIFIAN
Resumo

Auto-estima e o autoconceito consistem na percepção de que somos adequados para a vida e suas exigências, e são construídos de forma gradual durante o ciclo vital do indivíduo, sendo constructos diferentes, mas não excludentes, sofrendo grande influência do meio social, particularmente da relação e da interação com os “outros” significantes do seu meio.

Nosso objetivo,consiste em avaliar, de forma qualitativa, a influência que os contos de fadas tem sobre o processo de construção da auto-estima e do autoconceito de crianças operacionais concretas, a partir da inserção dos contos de fadas clássicos da literatura infanto-juvenil, que trabalhem aspectos que fazem parte do cotidiano dessas crianças.

Palavra-chave: crianças, auto-estima, autoconceito, conto de fadas.

INTRODUÇÃO
Os contos de fadas, nos últimos tempos, ficaram restritos às crianças muito pequenas e geralmente na sua versão para a televisão. Nas raras vezes que os vemos sendo usados nas salas de aula dos primeiros ciclos do Ensino Fundamental, eles se apresentam de forma muito fragmentada.

Em pesquisa realizada por Amarilha, junto aos professores que participaram do programa “Salas de Leitura da FAE”, no ano de 1991, ficou constatado que os professores, em sua totalidade, reconhecem que ao anúncio de uma história as crianças se aquietam, concentram-se e ficam extremamente interessadas (1997, p.18). Mas, apesar do grande fascínio que os contos despertam e mesmo sendo considerados, por inúmeros pesquisadores, um ótimo instrumento para o desenvolvimento integral da criança, proporcionando a possibilidade do desenvolvimento de uma auto-estima positiva, as narrativas têm sido relegadas a um segundo plano na educação ( idem , p.55).

O presente estudo considera a auto-estima e o autoconceito como necessidades humanas fundamentais e, parafraseando Branden (2002), quando plenamente construídas, constituem-se na vivência de que somos adequados para a vida e suas exigências.

Assim, auto-estima e autoconceito constituem-se em pilares importantes para o desenvolvimento das competências e habilidades dos educandos, pois tanto um quanto outro não são fixos, mas construídos pela criança ao longo de sua vida. Isto nos faz entender que ambos dependem muito do sucesso da criança nos relacionamentos ou nas tarefas consideradas importantes em cada estágio de seu desenvolvimento. No início do período operacional-concreto (7-8 anos), quando o sucesso escolar é uma tarefa primordial para a criança, a capacidade em se sair bem pesa muito sobre a sua auto-estima e seu autoconceito.

Pesquisa realizada por Coopersmith (1967), mostrou haver uma forte relação entre o autoconceito e o desempenho na leitura, já que instrumentos de medida do autoconceito aplicados em crianças da 1ª série foram capazes de predizer sua habilidade para a leitura. (apud Moysés, 2001:37).

Acreditamos que a escola necessita propiciar oportunidades para a criança se entender e entender este mundo complexo em que vivemos e os contos de fadas podem se constituir em um ótimo instrumento para esse fim. Uma história para enriquecer a vida da criança e contribuir no seu desenvolvimento cognitivo e emocional deve estimular a imaginação e, para além de entreter, precisa ajudar na construção do intelecto e tornar claras as emoções, para isso precisa estar harmonizada com as ansiedades e aspirações, na intenção de reconhecer e, ao mesmo tempo, sugerir soluções aos problemas que as perturbam.


Esta é exatamente a mensagem que os contos de fadas transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra as dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que se a pessoa não se intimida, mas se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa. (...) O conto de fadas (...) confronta a criança honestamente com os predicamentos humanos básicos. (Bettelheim, 1980, p.14:15).

Desta forma, constitui-se em objetivo desta pesquisa avaliar, de forma qualitativa, a influência que os contos de fadas têm sobre o processo de construção da auto-estima e do autoconceito em crianças operacionais concretas, a partir da inserção de contos de fadas clássicos da literatura infanto-juvenil, que trabalhem aspectos pertinentes ao cotidiano dessas crianças, tais como: separação, morte, inveja, amor, felicidade, o duelo entre o bem e o mal entre outros. A pesquisa foi realizada com 77 crianças de ambos os sexos, pertencentes à 2ª série do ensino fundamental da E.M.E.F. “Prof. Próspero Grisi”, localizada no município de Pirassununga, SP.



APORTES TEÓRICOS

Embora muitos autores utilizem o termo auto-estima e autoconceito como referentes a um mesmo constructo, estamos considerando nessa pesquisa a distinção usada por Cesar Coll e colaboradores (2000) que diferenciam auto-estima e autoconceito da seguinte forma: a auto-estima implica uma avaliação afetiva do próprio eu (p.97) enquanto que o autoconceito constitui-se na percepção de competência ou de auto-eficácia que as pessoas têm sobre si mesmas.

Ao se constituírem na percepção de que somos adequados para a vida e suas exigências, auto-estima e autoconceito, que são construídos de forma gradual durante o ciclo vital do indivíduo, são constructos diferentes, mas não excludentes, pois sofrem influência do meio social, particularmente da relação e da interação com os “outros” significantes do seu meio.

Wigfield e Karpathian (1991), nos ajudam no entendimento desta idéia quando apontam para uma evolução do autoconceito, que passa de um autoconceito inicial indiferente até um autoconceito na infância em que diversas dimensões são diferenciadas e hierarquizadas. Destas, algumas predominam e organizam as restantes para, na adolescência, assumir o perfil de um autoconceito claramente diferenciado e não-hierarquizado ao longo da juventude e idade adulta. (apud Salvador et.al., 2000).

Podemos então presumir que auto-estima e autoconceito acompanham o desenvolvimento físico-psíquico e social do ser humano sendo construídos concomitantemente às suas estruturas cognitivas e afetivas, apoiados nas idéias de Freud e Piaget pois consideram que há uma formação instintiva inicial que se desdobra em estruturas mais sofisticadas a partir da elaboração da realidade (cf Fiori in Rappaport, 1981). Em função disso, passaremos a analisar o desenvolvimento da auto-estima e do autoconceito a luz dos referenciais da epistemologia genética de Piaget e da teoria psicanalítica de Freud, enfocando o desenvolvimento do sujeito operacional-concreto. A tentativa será a de, através da convergência entre cognição e afetividade, contemplar as dimensões da organização lógica e da significação simbólica que permeiam a relação do sujeito com o objeto de conhecimento.

A construção do conhecimento só pode ser pensada através de uma aliança entre três grandes eixos: a dimensão cognitiva, que se caracteriza pela ação do sujeito no objeto, bem como pela estruturação dessa ação em percepções, organizações e conceitos, constituindo, assim, o sujeito epistêmico; a dimensão relacional, que contextualiza o sujeito da aprendizagem e a dimensão afetiva ou desiderativa, que explicita a implicação do desejo nessa construção. (Silva, 1998 – apud Sisto et.al. 2001).

Com o advento da psicanálise e a postulação do inconsciente, que se constitui numa estrutura-estruturante de representações (símbolos) que se delineiam numa organização da lógica do desejo e que tem na vigência do princípio do prazer a sua orientação, se fez necessário à investigação acerca do processo de construção do conhecimento para além da consciência. Freud ressalta a importância do inconsciente na vida mental ao afirmar que tudo que se manifesta na consciência esteve antes reprimido no inconsciente.

Para a psicanálise, nossa psique se constitui em três estruturas dinâmicas: o Id (princípio do prazer), o Ego (princípio da realidade) e o Superego (princípio moral). Dessas três estruturas, segundo Freud, nascemos dotados apenas do Id sendo que Ego e Superego serão construídos durante o desenvolvimento do sujeito em interação com o seu meio.

O Id representa a fonte de nossa energia vital, a libido, que nos impulsiona em direção à satisfação dos nossos desejos, denominados pulsões. Para o Id, os desejos do indivíduo não precisam se realizar de forma concreta, eles podem acontecer no nível da imaginação simbólica, já que é atemporal, ou seja, tudo o que acontece é no aqui e agora. Os contos de fadas, por sua vez, são tão atemporais como o Id, pois o reino do qual se fala pode ser qualquer um, em qualquer tempo ou lugar, o príncipe ou a princesa também podem ser qualquer pessoa, o que dá oportunidade à simbolização da criança que se identifica com o conto.
Através do processo e identificação com os personagens, a criança passa a viver o jogo ficcional projetando-se na trama da narrativa. Acrescenta-se à experiência o momento catártico, em que a identificação atinge o grau de elação emocional, concluindo de forma libertadora todo o processo de envolvimento. Portanto, o próprio jogo de ficção pode ser responsabilizado, parcialmente, pelo fascínio que (o conto de fadas) exerce sobre o receptor. (Amarilha, 1997, p.18).
Esse processo de identificação com os contos de fadas desempenha um importante papel no desenvolvimento integral da criança, do qual faz parte, também, a aprendizagem escolar, pois lhe permite elaborar seus sentimentos desde os mais profundos e contraditórios.

A criança operacional-concreta se encontra na condição de iniciante no processo de escolarização formal, para quem o sucesso ou o fracasso repercute diretamente nas relações sociais e nos valores pessoais possuindo forte conotação afetiva. Para Piaget, existe um estreito paralelismo entre o desenvolvimento da afetividade e das funções intelectuais, já que estes são aspectos indissociáveis de cada ação (1964, p.38).

Em trabalho realizado por Cesar, no ano de 2001, do qual faziam parte 70% das crianças envolvidas na atual pesquisa, ficou evidente que fatores de ordem emocional interferem no comportamento dos indivíduos e que uma boa estruturação afetiva torna-se fundamental ao processo de aprendizagem do sujeito, o que corrobora a idéia de Piaget de que a criança constrói as estruturas de seu conhecimento cognitivo ao mesmo tempo em que progride em suas condutas afetivas.

Traçando um paralelo entre Freud e Piaget, podemos dizer que a criança operacional-concreta, agora menos egocêntrica e dotada da moral de autonomia, é cada vez mais capaz de controlar as pulsões do Id. Entretanto, para que este “controle” seja saudável faz-se necessário fornecer à ela recursos para que possa elaborar seus conflitos internos e construir uma auto-estima e um autoconceito positivos. Os contos de fadas nos parecem ótimos instrumentos nesta tarefa, principalmente porque descrevem o mundo através de sua riqueza simbólica levando em consideração a subjetividade da mente humana.

No momento em que se admite ser o conto um mediador entre o mundo do inconsciente e o da cultura, entre o imaginário da criança e o simbolismo dos sistemas de comunicação convencionais, no qual a escola quer faze-la entrar, tem-se fundamento para querer medir as finalidades e os efeitos. (Gillig, 1999, pg.174).
(RE)CONHECENDO AS CRIANÇAS: APLICANDO INSTRUMENTOS DE MEDIÇÃO
Participaram desta pesquisa 77 crianças cursando a 2ª série do Ensino Fundamental na faixa etária entre 8 e 12 anos, sendo 44 meninos e 33 meninas, organizados em três classes distintas, sendo 44 no período matutino (22 em cada classe) e 33 no período vespertino, todos regularmente matriculados na E.M.E.F. “Profº Próspero Grisi”, na cidade de Pirassununga, SP.

A escolha desses sujeitos deu-se em virtude da percepção da importância do desenvolvimento da auto-estima e do autoconceito para o aprendizado escolar, obtida através da pesquisa-ação realizada por César, em 2001, envolvendo 70% dessas crianças, então cursando a 1ª série.

Como parâmetro de medida optamos pela utilização do instrumento denominado P.A.I. (Percepção do Autoconceito Infantil), elaborado por Sánchez e Escribano (1999), por ser um teste que propicia um estudo detalhado dos vários elementos que podem exercer influência na construção da auto-estima e do autoconceito da criança em início do processo de escolarização. Sendo este instrumento apresentado sob duas formas: individual e coletiva, escolhemos a forma individual de aplicação porque, segundo os autores, é a que apresenta melhores resultados.

O P.A.I.1 é composto por 34 itens, em forma de cartões, sendo que cada um é constituído por um desenho com duas cenas nas quais a criança2 encontra-se em situações do dia-a-dia: uma representa a situação sob conotação positiva e outra negativa.

Esse instrumento foi aplicado pela pesquisadora durante o mês de março de 2002, sendo realizado também uma investigação a cerca das relações interpessoais3 de cada classe, visando detectar possíveis inter-relações entre estas e o índice medido pelo P.A.I. A análise dos dados, nos possibilitou perceber que algumas crianças são mais afetadas pela exclusão social do que outras e que para os meninos, cujas brincadeiras presentes em nossa cultura requerem a participação de um grupo maior, a popularidade parece afetar mais a construção de sua auto-estima.

Os resultados apresentados nesta primeira aplicação, a princípio, corroboraram a idéia já apresentada da construção individual da auto-estima e do autoconceito, levando-nos a buscar nos resultados individuais de cada criança com índices abaixo da média de sua classe, o suporte para o desenvolvimento de nosso trabalho.

Para uma melhor análise dos dados em função da natureza da pesquisa, decidimos agrupar as questões do P.A.I. em quatro categorias: AUTONOMIA, AFETIVIDADE, AUTOCONCEITO e AUTO-ESTIMA.

Esta análise apontou para a necessidade de se trabalhar histórias que auxiliassem as crianças na elaboração de seus conflitos afetivos, principalmente os decorrentes de situações familiares. Tal fato não apresentou surpresa à pesquisadora, pois os estudos psicanalíticos apontam para a ambigüidade das figuras materna e paterna nos sentimentos da criança: a mãe boa, a mãe suficiente e necessariamente má, o pai omisso, o idealizado, o real, o fantasiado, o terrível. Destacam, também, a existência da rivalidade fraterna, que faz com que os sentimentos oscilem entre a raiva e o afeto. É preciso considerar, concomitante a estes dados, que as crianças que se encontram no início do período operacional concreto, segundo a teoria piagetiana, estão em fase de elaboração de seus valores morais que devem gradativamente passar de heterônomos para autônomos, o que implica no julgamento do que antes era imposto pela família e pela sociedade, e, conseqüentemente na construção de seus próprios julgamentos morais. As vivências e os desejos pessoais com carga afetiva são expressados preferencialmente pelo símbolo, pela imitação, pelo desenho e pelo jogo (...). (Piaget, apud, Sisto, 2000).


A simbologia do conto não é dissociável dos sistemas semióticos de representação da atividade humana e das diferentes linguagens usadas para comunicar. Entrar no simbólico significa (...) aceder à comunicação com outrem tanto pela linguagem do corpo como pela linguagem verbal e escrita, aceder, portanto, à cultura, ao mundo dos símbolos e, posteriormente, ao mundo dos signos, ultrapassar o estágio da fusão com o objeto primário, renunciar parcialmente à onipotência imaginária, tornando-se autônomo e capaz de transferir seus interesses e seus desejos para objetos secundários sempre novos: o jogo, por exemplo, mas também a experiência cultural que deriva do jogo, como diz Winnicott (op.cit.,p.142). (Gillig, 1999, p.184).
TRABALHANDO A AUTO-ESTIMA E O AUTOCONCEITO COM OS CONTOS DE FADAS

Etapa I - Narração

A introdução dos contos deu-se através da realização de uma dinâmica onde solicitou-se aos alunos que desenhassem o personagem de contos de fadas que mais gostavam e depois cada criança foi convidada a escrever, no verso do desenho do amigo, uma característica desse personagem. O objetivo dessa atividade foi o de conhecer o repertório de histórias conhecidas pelas crianças e os seus personagens favoritos.

Na intervenção seguinte, foi narrada a história de Sherazade, visando demonstrar às crianças a importância histórica da narração de histórias para a humanidade e ao mesmo tempo em que elas podem despertar a nossa emoção, nos divertir e informar.

Nas demais intervenções, utilizamos contos de fadas que, segundo a psicanálise, pudessem transmitir importantes mensagens à mente consciente, inconsciente e pré-consciente da criança, auxiliando e ao mesmo tempo encorajando o seu desenvolvimento através da elucidação de problemas humanos universais.


Para dominar os problemas psicológicos do crescimento – superar decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de abandonar dependências infantis; obter um sentimento de individualidade e autovalorização, e um sentido de obrigação moral – a criança necessita entender o que está se passando dentro de seu eu inconsciente. (Bettelheim, 1980 p.16).
Os contos narrados foram os seguintes: João e Maria; Branca de Neve e os Sete Anões; Rapunzel; Os Três Porquinhos; Cinderela; O Princípe Sapo; O Alfaiate Valente e O Pequeno Polegar, nas suas diferentes versões.

Para que os momentos de contar as histórias fossem prazerosos utilizamos diversos e diferentes recursos como: flanelógrafos, máscaras, vários tipos de fantoches, sempre seguidos por atividades concretas como a escrita ou o desenho.



Etapa II – Jogos de Criatividade Literária
Nas intervenções seguintes, elaboramos seguindo as sugestões de Gillig (1999 p.137) um “Baralho de Contos de Fadas”4, a principio composto por personagens conhecidos pelas crianças, a fim de facilitar a sua compreensão e adequar as atividades sugeridas a idade e realidade educacional dos educandos.

Com a utilização do Baralho, realizamos atividades como: “Salada de Contos”; “Introdução de um personagem mágico” e “O que aconteceu depois?”.



ANALISANDO OS DADOS OBTIDOS

Durante os meses de outubro e novembro de 2002, após o desenvolvimento dos trabalhos, procedeu-se a reaplicação do P.A.I. e do teste sociométrico. Embora os dados tenham sido analisados, também, individualmente, estaremos apresentando aqui a comparação dos dados globais5 das respectivas classes, os quais foram separados por gênero.

O embate entre a 1ª e a 2ª aplicação do PAI pode ser melhor visualizado nos gráficos abaixo.



O gráfico acima nos permite observar que no grupo A, as meninas ganharam muito em AUTONOMIA e AUTO-ESTIMA, enquanto que no grupo B houve uma pequena queda na categoria AUTONOMIA havendo aumento da AFETIVIDADE. No grupo C podemos notar um aumento de todas as categorias sendo mais significativo o aumento das categorias AUTO-ESTIMA e AUTOCONCEITO.









Podemos observar, comparando os gráficos das meninas e dos meninos, que os índices analisados pelo P.A.I., no que se referem aos meninos possuem um maior equilíbrio, ou seja, não são grandes as variações existentes entre as quatro categorias o que nos ajuda a pensar sobre as diferenças e as comunalidades existentes na educação de homens e mulheres em pleno século XXI, bem como nas características tipicamente femininas e masculinas que nos constituem.

O grupo A apresentou aumento em três categorias: AUTONOMIA, AUTOCONCEITO e AUTO-ESTIMA, após o desenvolvimento dos trabalhos com os contos de fadas, tendo sido mais expressivo o aumento da AUTO-ESTIMA; o grupo B também apresentou aumento em três categorias: AUTONOMIA, AFETIVIDADE E AUTOCONCEITO, sendo mais significativa a variação na categoria AUTONOMIA, o que acreditamos possa ser explicado pela média de idade da turma (a menor entre os grupos); no grupo C, tivemos um acréscimo nos itens AUTONOMIA e AFETIVIDADE, seguidos por uma queda nas categorias AUTO-ESTIMA e AUTOCONCEITO, o que acreditamos ser devido ao alto índice de reprovação desta classe (35% dos meninos).

É importante ressaltar, mais uma vez, que a auto-estima e o autoconceito não são inatos, são construídos ao longo do desenvolvimento afetivo, cognitivo e social do indivíduo e que, embora tenham sido analisados separadamente nos gráficos acima, todas as categorias fazem parte de uma construção única do sujeito.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste trabalho apontaram para a importância dos contos de fadas , que, pela natureza simbólica implícita nos enredos e personagens, atuam no nível do inconsciente da criança, se mostrando importantes para o processo de construção da sua auto-estima e do seu autoconceito , por abordarem conteúdos que causam impacto em seu psiquismo, porque versam sobre experiências cotidianas, permitindo que as crianças se identifiquem com as dificuldades ou alegrias de seus personagens cujos feitos narram a condição humana frente às provações da vida. Por exemplo, quando a criança representa seus pensamentos mágicos através do conto de fadas: seus desejos destrutivos, na bruxa malvada de “Branca de Neve”, suas incertezas na vitória do “Alfaiatezinho Valente” dos Irmãos Grimm, ela encontra elementos que a encorajam na busca de seus desejos, o que, conseqüentemente, propiciam a construção positiva de sua auto-estima e do seu autoconceito (cf. Bethelheim, 1980).

Acreditamos que ao incentivar um trabalho com contos de fadas nas séries iniciais da escolarização torna-se possível, dentre outras coisas, ajudar no desenvolvimento integral da criança pelo fato de poder proporcionar a ela a ajuda necessária para lidar com a construção de sua auto-estima e de seu autoconceito, conseqüentemente, com os desfechos de suas atitudes e as atitudes do outro nas interações e inter-relações sociais das quais inerentemente, como seres humanos, fazemos parte.

Sabemos que há muito mais a explorar neste universo que é a formação integral do ser humano e há muito mais a explorar, também, no universo dos contos de fadas e nas contribuições que ele tem a dar para o crescimento saudável de nossas crianças.

Sara Paín (1993), diz que “Educar é ensinar a pensar”, gostaríamos de acrescentar que educar é mais do que ensinar a pensar, educar é também ensinar a entender o que pensamos e o que sentimos e isso só será possível se considerarmos o ser humano através da convergência entre cognição e afetividade.


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1 Optamos pelo não uso de quatro questões: (nºs 10 e 17) por não representarem situações que fazem parte do cotidiano das crianças envolvidas na pesquisa e (nºs 18 e 28) por não refletirem valores sociais condizentes a realidade social das crianças envolvidas na pesquisa.

2 Existem cartões para meninos e para meninas. As cenas são as mesmas, entretanto, para facilitar a identificação da criança com a cena apresentada distingue-se o gênero nos cartões.

3 Utilizamos o esquema de sociograma segundo Helen Jennings, apud Nérici, p.245).

4 Elaborou-se um baralho contendo o herói e/ou a heroína do conto; o objeto ou personagem mágico; os amigos; os inimigos e o lugar, sendo que, as cartas possuíam diferentes cores, conforme as suas caracterísitcas.

5As análises individuais se encontram na Monografia O Papel dos Contos de Fadas na Construção da Auto-estima e do Autoconceito em Crianças Operacionais Concretas do Programa de Iniciação Científica, Faculdade de Educação, Centro Universitário Anhanguera, 2002.



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