Contradições entre Globalização e Educação formal brasileira: Contextos históricos e políticos



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contradições entre Globalização e Educação FORMAL BRASILEIRA: Contextos históricos e políticos


1Renata Lopes da Silva

Faculdade de Telêmaco Borba- FATEB

Universidade Estadual de Ponta Grossa- UEPG

1. Introdução

A análise dos processos de mudança engendrados no contexto histórico, político e produtivo são necessárias a fim de revelar suas contradições. O presente texto discute a problemática que fundamenta a necessidade de contínuas investigações sobre a complexidade histórica do presente, a realidade contraditória em que a Educação está posta, bem como essa Educação pode ser entendida e transformada no contexto sócio-histórico e assumir uma postura contrária à lógica do capital2.

Abordamos o papel da globalização e do “globalitarismo” termo cunhado por Milton Santos3, fazendo um paralelo com a Educação formal brasileira contemporânea. Alicerçados nos pressupostos teórico-metodológicos da teoria marxiana, situamos a problemática no contexto macroestrutural, relacionando-a com as particularidades dos conceitos estudados, buscando fazer um paralelo com a totalidade, a luta de classes, a contradição e a hegemonia. Utilizamo-nos de fontes primárias dos teóricos que embasam a presente análise.

O estudo do contexto histórico e político fornecem subsídios analíticos para o entendimento deste contexto sócio-histórico contemporâneo em que se encontram as políticas voltadas para a Educação formal brasileira e em que são postuladas discussões sobre a sua transformação como também para o enfrentamento teórico e metodológico voltado para o debate sobre a Educação formal brasileira, a História da Educação e das Políticas Educacionais.




2. A Globalização versus o “Globalitarismo”

Embora a Globalização seja um fenômeno social estudado por diferentes autores4, neste trabalho optamos pela contribuição do professor Milton Santos. Ao considerar a sua análise, a primeira globalização advém da colonização, na época das viagens de descobrimento e conquista dos territórios que, como no caso brasileiro, não estavam desocupados. Foi um período marcado pela exploração, ocupação territorial e a imposição de uma nova cultura em detrimento dos nativos com suas culturas, suas línguas e suas religiões, como um “[...] processo de intercâmbio entre países, que marcou o desenvolvimento do capitalismo desde o período mercantil dos séculos XVII e XVIII” (SANTOS, 2002, p. 79)

Todo esse processo inicial5 expande-se com o desenvolvimento da industrialização já no fim do século XIX e, contemporaneamente, vem ganhando intensidade e uma nova forma de intervenção dentro da economia mundial, renovado pela técnica, pelo comércio, pela mídia e pelo meio cultural.

Marx, em sua obra “O Manifesto Comunista” (1848), apresentou uma reflexão sobre a economia mundial quando revelava que “por meio de sua exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países”. Ao visar ao lucro excedente, a burguesia avança com sua estratégia de alcançar novos caminhos e, assim, o mercado deixa de ter um objetivo apenas local, para ser mundial.


[...] As velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão destruindo-se dia-a-dia [...] Em lugar das antigas necessidades satisfeitas pela produção nacional, encontramos novas necessidades para a satisfação, os produtos das regiões mais longínquas e dos climas, os mais diversos. Em lugar do antigo isolamento local desenvolvem-se, em todas as direções, um intercâmbio e uma interdependência universais (MARX, 1848, p. 42).

O caminho da globalização então vem se estendendo pelo século XX, com o desenvolvimento das tecnologias, das transnacionais, fragmentam-se os territórios para expandirem suas produções e com ele o ideal de consumo mundial.

Questionado em entrevista intitulada “O sonho obriga o homem a pensar” sobre como conceituaria a Globalização, Santos retoma a história da humanidade para situá-la criticamente.

[...] A globalização, parafraseando o teórico e revolucionário russo Lênin, é a face suprema do imperialismo. A humanidade esperou milênios para se globalizar, o que não aconteceu antes porque não havia as condições materiais necessárias. Com o aumento da produção e o desenvolvimento de técnicas avançadas, um pequeno grupo de empresas as seqüestrou. As corporações usam estes recursos extraordinários em seu próprio benefício e em prejuízo da humanidade (SANTOS, s/d, p. 1-3).
Seguindo este raciocínio, caracterizou a Globalização como um modelo orquestrado pelos países que dominam o poderio financeiro mundial, como um estágio supremo da internacionalização. “[...] A globalização é fábula porque quando nos falam sobre a ‘aldeia global’ querem dizer que todos sabem o que se passa no mundo.” A ideologia a que temos acesso a tudo, em todos os instantes, “[...] há toda uma fábula, sem a qual a globalização não se mantém. [...] Esse discurso, que enaltece a situação atual, obscurece a sua perversidade” (SANTOS, 2000, p. 13 - 14), ilude e mascara a realidade, a distorce e romantiza em um modelo de contos, de fábula.

A fábula, descrita na citação acima, demonstra uma realidade mistificada que abusa do papel ideológico para a manutenção da hegemonia predominante. Esse papel ideológico fica evidenciado na obra “Território e Sociedade” (2000) como forma consensual encontrada para cooptar adeptos para um único pensamento6.

[...] A globalização conseguiu materializar a metafísica, mediante o papel desempenhado pela ciência e pela técnica na produção das coisas. Há uma materialização física e uma realização primitiva, embora sofisticada, da ideologia. Tudo é ideológico. Estamos dentro de um mar de ideologias. Tudo é produzido a partir de uma ideologia, mas as coisas não aparecem como tal. Somos cercados por coisas que são ideologia, mas que nos dizem ser a realidade. Isso nos constrange, porque forma um sistema muito forte; e qualquer discussão que indique ser aquilo ideológico é desqualificada (SANTOS, 2000, p. 36).

A informação a todo instante e ao mesmo tempo conflituosa junta-se com o poder indiscriminado do dinheiro. Porém, a utilização dos benefícios trazidos com as novas técnicas e tecnologias são usufruídas por apenas uma mínima parcela da população mundial, “[...] o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do alargamento de todos os contextos para consagrar um discurso único” (SANTOS, 2000, p.18).

A realidade é modificada, suas nuances, o modo de produção, a luta de classes são misturados com uma vida de acesso, um romance irreal ganhador de muitos adeptos, “[...] o fenômeno descrito como globalização não é senão um capítulo, claro que com muitas especificidades, do movimento geral da internacionalização, insisto ao capitalismo” (CASTANHO, 2003, p. 21).

Para tanto, Santos considerando esse contexto capitalista, desenvolveu a relação entre três mundos: o primeiro, como fazem que o vejamos, cercado de ideologias e crenças hegemônicas; o segundo, como de fato ele realmente se mostra, com suas mazelas, discriminações, explorações e determinismos históricos, políticos, sociais e econômicos; e o terceiro, como a possibilidade do novo, de uma transformação, de uma nova globalização, a que seja para todos.

A ideologia apregoada nesse primeiro mundo analisado por Santos é uma ideologização maciça, com altos incentivos consumistas e que, neste mundo real, acabam como condição inerente para o seu funcionamento, como se a ideia de homem estivesse estritamente relacionada com a de consumo, um consumo desenfreado que nem sempre tem uma justificativa.

A máquina ideológica que sustenta as ações predominantes da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema. “[...] Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal” (SANTOS, 2000, p. 19).

A produção da ideologia se expressa, referindo-se a uma distorção do pensamento que nasce das contradições sociais e as oculta (MARX, 1989, p. 29). As relações sociais, o modo de produção capitalista, as explorações que são impostas e postas harmonicamente escondem ideologicamente a verdadeira luta de classes.

[...] O modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida depende, antes de tudo, da natureza dos meios de vida já encontrados e que têm de reproduzir. Não se deve considerar tal modo de produção de um único ponto de vista, a saber: a reprodução da existência física dos indivíduos, determinado modo de vida dos mesmos. Tal como os indivíduos manifestam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem, como com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção (MARX, 1989, p. 28).


Tendo como base esse homem concreto e determinado por múltiplas relações, têm-se presentes alguns privilégios que, nos diferentes âmbitos da sociedade em que vivemos, são adquiridos por intervenção do poder financeiro. Esses privilégios recaem na discussão do acesso e da permanência na escola, como ao acesso e amplo desfrute das informações presentes nos meios de comunicação, mídia em geral e na internet.

Hoje, a internet ainda é um meio pago e, apesar da proliferação da ideia de que todos têm acesso a esse recurso, o que é visto é que ainda há um longo caminho para atingir esta condição de igualdade.


[...] A tirania da informação não é, apenas, a da mídia, porque inclui, também, o nosso trabalho na universidade. Quero insistir nessa tecla, porque o nosso trabalho como professores é a base com a qual se educam e se re-educam as gerações. Quanto mais o nosso trabalho for livre, mais educaremos para a cidadania7. Quanto mais o nosso trabalho for acorrentado, mais estaremos produzindo individualidades débeis (SANTOS, 1999, p. 39).
Dentro dessa análise, podem ser mencionados os canais de televisão abertos ao público em geral que são recheados de informações duvidosas, baseando-se, na maioria, em programas de auditório com atrações musicais, em que predomina a exposição do homem como objeto.

Em contrapartida, em canais privados, temos apresentações de programas que contam com um tipo de programação mais variada, com curiosidades e até um entretenimento de melhor qualidade; entretanto, é destinado ao público que paga por esse serviço e que tem uma maior possibilidade de escolha.

Nos finais de semana, a população que possui internet pode migrar para esse meio; mas quem não tem esse recurso e não tem acesso a canais privados deverá se contentar com a maioria dos programas sensacionalistas embebidos de quadros que analisamos como uma “apresentação de uma solidariedade comercial”, em que o ser humano é exposto, configurando-se e reafirmando-o como objeto fetichizado.

De acordo com Santos, “[...] os direitos humanos estão ligados à espetacularização do sofrimento de algumas pessoas, bem colocadas para produzir o espetáculo” (1998, p.8). Por isso, desenvolvemos a ideia de uma “solidariedade comercial” advinda da intensa influência mercadológica no cotidiano das pessoas, em uma espécie de comercialização de préstimos cujo pagamento se faz por meio de uma exposição vexatória das condições da pobreza humana.

Reiteramos que essa realidade global é ideológica; mas o que é a verdadeira realidade? Em um artigo intitulado “O professor como intelectual na sociedade contemporânea” (1998), apresentado no IX Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, Milton Santos refletiu sobre a realidade atual.

[...] Esse absolutismo das técnicas, a que nos temos referido, tem muito que ver com a forma como o ensino, hoje, é dado e com a forma como o ensino é hoje um resultado da perversidade dos nossos tempos. Há, em primeiro lugar, esse imaginário das técnicas, um enorme, um extraordinário, imaginário. Um outro dado, levando ao absolutismo das técnicas, é o papel da informação. Todos somos, mais ou menos, seduzidos pelos progressos técnicos, sobretudo na área da informação e, com freqüência, os aceitamos sem nenhuma crítica, como se o progresso técnico valesse por si só e não como função da maneira como a sociedade se organiza (SANTOS, 1998, p. 3).


A realidade que temos é um meio contraditório de disputa hegemônica da qual a educação faz parte. Uma disputa em um campo de batalha real, onde não são necessariamente usados recursos de punição física para se conseguir algo, mas um lugar em que as técnicas possuem um grande destaque.

Surge a partir dessa conjuntura, o conceito desenvolvido por Milton Santos, que se refere à Globalização arraigada com forte autoritarismo, um totalitarismo renovado, o chamado Globalitarismo. Porém, acreditava que a Globalização, na perspectiva desse Globalitarismo perverso, não é irreversível, já que ela é tampouco parte das ideias possíveis de se perdurar e muito mais fruto da ideologia vigente.


[...] Estou querendo chamar a atenção para o fato de que a atual globalização exclui a democracia. A globalização é, ela própria, um sistema totalitário. Estamos em um mundo que nos reclama obediência. Uma frase que se ouve com grande freqüência, quando reclamamos algo, é: "O senhor é o primeiro a reclamar". Vocês nunca ouviram isso? Há um totalitarismo na vida cotidiana, que inclui o trabalho intelectual. Não é só no trabalho não intelectual, não é só na fábrica, que o totalitarismo está presente. Também no chamado setor de serviços (SANTOS, 2000, p. 42).


Ao analisar a exposição de ideias que Santos desenvolveu sobre Globalização, vemos o quanto se desvirtuou o conceito inicial e, por se reconhecerem as possibilidades de mudança, é que há a necessidade do aprofundamento para se saber em qual realidade global vivemos.

3. A inserção do “Globalitarismo” na Educação.

Milton Santos foi um grande crítico da globalização referida como globalitarismo (união dos conceitos de globalização e totalitarismo). Influenciado pelas ideias de Jean-Paul Sartre8 sobre a experiência da escassez9, acreditava que os pobres seriam os deflagradores de uma nova globalização.

Em “Por uma outra globalização - Do Pensamento Único à consciência Universal” (2000), trouxe à discussão esse pensamento, que nos revela a sua profundidade e a necessidade de ser melhor analisado, justamente por reconhecer os problemas sociais e considerar imprescindível o debate teórico e o enfrentamento de ideias, com vistas ao aprofundamento da crítica e à reelaboração de projetos democráticos de incorporação da cidadania e direitos nos quais estão o dos excluídos.

Qualquer estudo do “[...] sistema educacional não pode ser separado de alguma análise implícita ou explícita dos propósitos e do funcionamento do setor governamental” (CARNOY, 1984, p.19) e, desse modo, é fundamental compreender a história e a política envolvida no pensamento de Milton Santos no que diz respeito à educação.

À medida que a educação apenas atende a demanda do mercado de trabalho, devemos questionar as determinações neoliberais destinadas para o sistema educacional. Há a necessidade de propiciar condições para que os trabalhadores possam construir coletivamente, ao longo do processo educacional, um processo emancipatório no meio formal da educação.

Entretanto, há uma mudança na relação entre o Estado e mundo do trabalho que não corresponde à emancipação humana, mas sim, em essência, essa mudança em direção ao Estado mínimo, que, cada vez mais orientado pelas necessidades do mercado, parece trazer consigo uma redução da condição do “ser profissional”, buscando, dessa forma, um tarefeiro bem preparado e não um ser pensante.

A globalização, nesse contexto, não é uma imposição tecnológica tampouco apenas um fenômeno puramente econômico, que envolve somente novas formas de dominação, estratégias e imposição vitoriosa de determinados interesses, tanto no plano internacional quanto no espaço interno dos Estados Nacionais. Santos mencionava que, para entender a globalização, é preciso passar por dois elementos fundamentais: o estado das técnicas e o estado de política. A globalização se definiria de certa forma pelo “[...] ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista” (SANTOS, 2000, p. 23).

Visto isso, recorre-se à necessidade de uma educação que tenha em sua base o movimento da história, não descuidando da análise das técnicas, de sua utilização e sua relevância, do pensar sistematizado e comprometido para a construção de um mundo diferente.


[...] É urgente que o ensino tome consciência dessa situação, para esboçar a merecida reação, sem a qual corremos o grande risco de ficar cada vez mais distante da busca ideal da verdade. Sabemos que nunca a alcançaremos completamente, mas essa busca é o nosso destino, o nosso dever e é, também, a forma com a qual encontramos a nação, que tanto espera do nosso trabalho. Do outro lado, fica a ameaça do divórcio entre a função de ensinar e o papel do intelectual (SANTOS, 1998, p. 3).

Ao manter como prioridade o desenvolvimento do homem para o debate e o enfrentamento, defende-se uma educação para todos, sem distinção de raça, de credo, de classe social, que seja utópica, mas que tenha bases reais para concretizar seus projetos. Que se liberte das dificuldades da falta do saber, que seja parte integrante da mudança social, do desenvolvimento de intelectuais engajados e que crie novos ideais para a transformação humana.



4. Algumas considerações finais

O fenômeno social da Globalização, como vimos em um paralelo com o Globalitarismo deste trabalho, pode ser um meio para auxiliar um modelo de educação mais humana e consistente. Porém temos a educação seguindo moldes estreitamente parecidos com os exageros do tecnicismo e unido a isso um forte comando do mercado. Milton Santos descrevia essa questão como o uso desmedido da “tecno-ciência”, termo que para ele designa a restrição do pensamento do homem.


[...] O nosso tempo consagra a união da técnica com a ciência e marca uma grande mudança histórica, com a emergência do que se chama de “tecno-ciência”. Agora, e de um modo geral, já não é a ciência que comanda a técnica, mas esta que comanda a ciência. E como as técnicas acabam sendo comandadas pelo mercado, o trabalho de pensamento dos homens torna-se limitado e estreito. É essa a tragédia da atividade científica na era da globalização (SANTOS, 1998, p. 2).

A ciência, a pesquisa, a educação, nesse sentido, desenvolvem-se a partir de interesses mercadológicos, a serviço da venda e não para o bem comum da sociedade. Certos de que a educação é um processo histórico, que deveria ser pensado e realizado por e para seres humanos, dentro de um contexto social, temos que considerar as influências do sistema econômico, do modelo produtivo vigente, da concepção de Estado e de fenômenos sociais.

Milton Santos destacava esse totalitarismo renovado, impregnado na Globalização, na falta de mudança substancial da sociedade e o quanto devemos repensar os objetivos da educação do país. Há de se pensar em um modelo de educação mais voltada para a análise crítica, pensar em que tipo de educação queremos, que pessoas iremos formar futuramente, o respeito e o cultivo da cultura local, para que o interesse social unido ao interesse do indivíduo não constitua em uma dinâmica que permita a exclusão do homem em qualquer medida de discussão.

O professor Milton Santos já apontava ao que seria esse modelo renovado do totalitarismo ao afirmar que “[...] há, portanto, um novo totalitarismo que, todavia, se apresenta como um convite a fazer as coisas bem-feitas, ordenadas. É um ritmo infernal que se impõe. É a eliminação do debate [...]” (SANTOS, 2000, p.32). Na política, por exemplo, o discurso revela que todos os que não pensam como o governo são considerados errados, de modo a não admitir discrepâncias com o seu pensamento.


[...] Em cada sociedade, a Educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais, e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo (SANTOS, 2002, p. 149).

Para Milton Santos, a educação, a universidade em especial, nesse sentido, organiza-se em um formato de “fabricação de ideias”, um lugar estratégico para a produção da globalização. Em uma entrevista com o título “A universidade se burocratizou” (2000, p. 9), Milton Santos mencionava uma maior formação de letrados em que definia como “[...] aqueles que não são capazes de ampliar e aplicar o conhecimento apreendido.”


[...] A universidade é o lugar de intelectuais, o sujeito que dedica todo o tempo a busca da verdade, e também de letrados. Você pode ser um bom professor e um pesquisador. Tem espaço para os dois na Universidade. Mas, é verdade também que, embora ela esteja formando intelectuais, ela tem produzido em maior número letrados. O espaço universitário se define por ser o lugar do livre pensar, de criar ideias e discuti-las. Esse é o sentido real da vida universitária. No entanto, acho que o clima atual não favorece a liberdade de pensar. O sistema universitário, no qual deveria prevalecer a diversidade de ideias, tem sido vítima da doença da globalização [...] E a universidade não tem defesa completa contra essa doença. Nesta fase de globalização, onde a realização hegemônica e as coisas mais importantes que são feitas são precedidas por um discurso ideológico, o trabalho de análise e crítica fica muito mais difícil (SANTOS, 2000, p.10).

As universidades vivem um dilema: produzir pesquisa em larga escala ou deter-se em produções com aprofundamento teórico e prático mais elevado, apresentando com maior qualidade as pesquisas desenvolvidas.

A universidade, como um espaço de democratização do saber e teoricamente lugar para o desenvolvimento dos níveis mais altos da intelectualidade, cai em um utilitarismo sem medida e deixa muitas vezes de lado essa formação ideal e necessária. Milton Santos criticava a valorização exacerbada da técnica e, durante a entrevista “Geógrafo ataca o uso das técnicas” (2001), salientava a grande diferença entre ser educado e ser instrumentalizado, “[...] você é treinado, mas não educado. [...] Se você só é treinado, você não está apto a discutir o seu lugar na sociedade, e esse é o debate central” (SANTOS, 2001, p. 4).

É nesse sentido que Santos criticava os índices estatísticos como meios simplificadores de se apresentar resultados, pois eles passam a ilusão de uma realidade nem sempre “real”. Os números podem ter diferentes interpretações, porém a que mais prevalece é a que diz que há qualidade nesse mercado voltado para a educação. A universidade pública conta com dificuldades estruturais e, dependendo do setor, enfrenta maiores ou menores dificuldades para a pesquisa.

Setores ligados ao “progresso tecnológico” e ao “imediato reconhecimento nacional e mundial” recebem seus investimento em larga escala. Mas setores de pesquisa nas ciências humanas, como é o caso da educação, ainda necessitam de maior investimento.
[...] a universidade é o exemplo formidável desse totalitarismo. Todos os dias somos solicitados a cumprir regulamentos, as normas... Mas é exatamente a norma que se opõe à essência do trabalho intelectual. Sem contar que rompe com a liberdade de o professor decidir o que é mais conveniente ao seu magistério. E tem-se isso a cada momento, em tudo (SANTOS, 2000, p. 29).

Pode-se exemplificar com a questão da obrigatoriedade de expor resultados de pesquisa. Embora esse quesito seja necessário, não deve sobrepor-se ao debate das ideias e resultados pesquisados, ou seja, pesquisar é mais de que apenas compor um currículo e cumprir as formalidades de protocolo.

Ainda na entrevista concedida com o título “Geógrafo ataca uso político de estatísticas” (2001), Milton Santos afirmava que o que está havendo com o Brasil é uma preocupação estatística de educação. E dá o exemplo da alfabetização como algo pensado primeiramente em quantidade estatística e, em outro aspecto relevante, destaca
[...] o que eu faço com a minha alfabetização? Essa questão é importante. Hoje, a Educação mínima não é apenas a alfabetização, você precisa ter um nível mais elevado de Educação para melhorar. Eu posso fazer uma distinção puramente estatística ou fazer uma distinção metodológica. A alfabetização custa barato, custa pouco tempo. Rapidamente, as condições de alfabetização são mais universais. [...] Mas como o Brasil quer retardar a distribuição de renda, há um esforço para deixar os pobres como pobres. Aí tem esse discurso de glorificação (SANTOS, 2001, p. 4)

A educação sozinha não consegue resultado de mudança, não vai a nenhum lugar. São necessárias outras formas intencionais para ocorrer uma mudança significativa, “[...] não é pela educação sozinha que se vai a algum lugar. Isso é balela. [...] é preciso esta aliada a uma revolução social” (SANTOS, 2001, p. 3).

Lembramos do professor Anísio Teixeira10, um dos intelectuais de maior destaque em favor da defesa pela escola pública de qualidade, que fosse obrigatória e laica. Em sua obra, “Educação não é privilégio” (1994), deixa sua crítica e sua reivindicação por melhores condições educacionais a toda a população, “[...] uma escola com um espaço concreto de estudo, de atividades de trabalho, de recreação e arte” (TEIXEIRA, 1994, p. 63).

Santos alertava para a necessidade de uma mudança estrutural para haver mudanças mais significativas na dimensão educacional. O fenômeno da Globalização (não assumindo uma visão de um Globalitarismo) pode vir a ser um recurso usado a favor da educação se retirado esse caráter elitista, excludente e utilitarista para a maioria da população.


[...] Primeiro educar num outro nível. [...] Educação é um instrumento, mas não é algo que sozinha seja uma produção. [...] Nós devíamos ter uma cruzada pela ascensão social, que está em baixa e só seria possível com a mudança de estrutura dentro da sociedade. Teríamos que ter uma preocupação sistêmica com a melhoria das condições de todos os brasileiros (SANTOS, 2001, p. 3).

A educação que tem contribuído para reproduzir a contradição estrutural da sociedade capitalista, pode se constituir como um dos instrumentos que promova, conforme os pressupostos desenvolvidos por Marx, uma transformação radical da sociedade. No contexto atual, é essencial garantir que os processos educativos realmente promovam a socialização da cultura socialmente produzida. Um trabalho pedagógico que vá além da “pedagogia das competências”.

Conscientes da relevância da educação bem como das políticas públicas voltadas para as necessidades sociais para que ocorra essa “melhoria das condições de vida para todos”, a Globalização, enquanto fenômeno social mundial desenvolveria implicações positivas que poderíamos exemplificar como sendo auxiliares à educação: o livre acesso ao conhecimento e às teorias clássicas mundiais; a popularização das mídias para um real desenvolvimento humano; formação aprofundada e crítica; democratização da escolarização consistente de maneira real, não ideológica e sem a manutenção de desigualdades mundiais, considerando que nenhum projeto emancipador se consolida sem uma ativa intervenção da educação para a construção de uma ordem social que supere os ditames do capital.
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1 Professora da Faculdade de Telêmaco Borba- FATEB; professora pesquisadora vinculada ao grupo História, Sociedade e Educação nos Campos Gerais, GT situado na Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG, sob a orientação da professora Doutora Maria Isabel Moura Nascimento.

2 O presente trabalho é resultado das análises empreendidas ao longo do Mestrado em Educação, sob a orientação da professora Doutora Maria Isabel Moura Nascimento.

3 As pesquisas realizadas pelo intelectual Milton Santos (1926-2001) dimensionam os fundamentos de uma nova Geografia e, apesar de não ser uma referência comum na área da Educação, os conceitos analisados e elaborados em suas pesquisas contribuem para a compreensão da representação real do contexto social em que a Educação está inserida e, para tanto, consideramos a relevância de suas ideias.

4 Conferir a obra do professor Octavio Ianni (1926-2004) como “A sociedade global” (1992) e “Teorias da Globalização ( 1996). Ao longo da década de 90, Ianni enfocou suas pesquisas na crítica à nova ordem global. Por suas teoria crítica, foi um dos sociólogos mais influentes do Brasil.

5 Para tanto, a existência de uma relação estreita entre o princípio da globalização e a origem do Capitalismo estão em concordância estudiosos da área, dentre os quais citamos Braudel (1995) com uma das obras que auxiliam o estudo sobre a problemática “Civilização material, economia e capitalismos séculos XV-XVIII”.


6 Santos utilizou o termo “pensamento único” como exemplo da distorção da realidade, tratamos ainda desse conceito mais especificamente na seção “Do pensamento único ao pensamento global: uma transformação possível e necessária ” presente no capítulo III do trabalho de mestrado intitulado Milton Santos: Pensamento global e Educação.



7 O conceito de cidadania na perspectiva miltoniana ficará expresso ao longo do Capítulo III, mas especificamente na seção “Milton Santos: Educação e cidadania dentro do contexto do mundo do trabalho” do trabalho de mestrado intitulado Milton Santos: Pensamento global e Educação.



8 Intelectual francês (1905-1980), um dos maiores representantes da corrente filosófica do Existecialismo, atuou efetivamente na filosofia, na literatura e na política. Seu pensamento foi seguido por boa parte da juventude do pós-guerra, nas décadas de 1950 e 1960. Sua teoria tem por base o conceito de liberdade.


9 O conceito Experiência da Escassez será trabalhado posteriormente no CAPÍTULO III na seção intitulada “Da Experiência a sabedoria da escassez: uma possibilidade para a transformação social” do trabalho de mestrado intitulado Milton Santos: Pensamento global e Educação.


10 Anísio Spínola Teixeira ( 1900-1971) formado em direito, escritor brasileiro, é considerado um dos intelectuais e educadores mais importantes da história da educação brasileira. Difundiu ao longo das décadas de 20 e 30 o movimento da Escola Nova e teve destaque como representante do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. Exerceu cargos executivos e pôde reformar o sistema educacional da Bahia e do Rio de Janeiro. Sua defesa pelo ensino público, gratuito, laico e obrigatório tornou-se sua marca registrada dentre tantas lutas em favor da educação. Consultar obras correlatas à defesa educacional de Teixeira como “Educação é um direito”; “Educação para a Democracia”; “Educação e Universidade” e “Educação no Brasil”.

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