Contratempo: o novo tempo do mundo de Paulo Arantes



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Contratempo: O novo tempo do mundo de Paulo Arantes

Pedro Rocha de Oliveira



Passarinho no ninho

Tudo envelheceu

Cobra no buraco

Palavra morreu

Você que é muito vivo

Me diga qual é o novo
– Belchior

Em O novo tempo do mundo, Paulo Arantes faz o mapa de um tempo – o nosso – marcado pela ausência de perspectiva. O autor identifica a falta daquela consistência histórica que, em períodos anteriores, permitia que os filósofos se lambuzassem na intimidade entre realidade e racionalidade, enxergando signos prenhes de futuros possíveis por todos os lados do presente. Ao invés desses signos, temos experiências sociais com cara de escombros, e sinais de fumaça na figura dos numerosos pensadores contemporâneos com os quais o sempre antenado Arantes dialoga abundantemente. Com a vertiginosa destreza peculiar à “paciência do conceito”, nosso autor recolhe aqueles dispersos fragmentos do espírito do tempo sem espírito, mostra seu emaranhado íntimo, provoca os discursos (às vezes, os mais reacionários) até que eles apareçam também como sintomas caqueirados, e cutuca os escombros mudos e chocados até que eles ganhem voz.


Confrontando desde a acumulação primitiva até a sociedade penal, passando pelo fascismo e pela guerra fria, a pergunta que o livro faz é: o que é a experiência social sob o capitalismo? Como o sentido global da sociedade capitalista – leia-se, as práticas de exploração, expropriação e dominação produzidas pelas elites – se impõe sobre a esfera da vida? O diagnóstico do tempo sem perspectivas representa a resposta para essa pergunta com um eloquente e destrutivo conjunto vazio: a ausência de perspectivas denota justamente uma experiência social onde, por um lado, o sentido amplo e histórico determina o conteúdo da vida, mas, por outro lado, o conteúdo da vida assim determinada não oferece trampolins para fora da determinação mesma. Isso porque aquela determinação se dá através de uma combinação de medo, trabalho e uma organização inteiramente vertical do espaço e do tempo. O argumento de Arantes é montado num espiral de análises detidas de fenômenos sociais paradigmáticos à história do capitalismo, nos quais reluz, por um lado, a tediosa violência dessa história e, por outro, o desenvolvimento progressivo (e, por isso, novidadeiro) dos dispositivos dessa violência, indissociável da intensificação das relações sociais capitalistas. Assim, a tal ausência de perspectivas do novo tempo do mundo é um diagnóstico sobre uma forma de socialização específica, no momento específico da culminância cega do gradiente histórico da modernização burguesa.
Tempo vivido nas dimensões do mundo”
O primeiro ensaio da coletânea – o qual também lhe dá o título – se confronta com o problema da experiência social na época em que a acumulação primitiva de capital inaugura a dimensão planetária para a ação das classes envolvidas nas operações comerciais trans-oceânicas. Para falar dessa aurora do tempo mundial que marca o capitalismo, Arantes apropria-se malandramente da ideia da Escola dos Anais do conflito entre história totalizante e experiência quotidiana, lendo-a em termos do problema da violenta imposição colonial de uma ordem proto-capitalista mundial sobre populações inteiras. Por um lado, para as populações exterminadas e escravizadas, e a nesga de mulheres e homens “livres” espremidos entre tais populações e os capitães da modernidade, evidentemente o caráter global da experiência social moderna não oferecia, em sua alvorada, qualquer horizonte. Por outro lado, tanto a atuação das elites metropolitanas, quanto a articulação de classes comerciais dominantes nas colônias, testemunha o esforço de elites em se fazerem sujeitos globais, tornando comensuráveis, na marra, através da organização para tanto, a experiência quotidiana e o aspecto totalizante da lógica capitalista que estava sendo inaugurada.
A comensurabilidade entre a lógica totalizante e a especificidade local, portanto, é possível como gesto de classe. No caso preciso das elites coloniais, o que esteve em jogo foi a descoberta de interesses comuns entre “comunidade de proprietários” que formava a elite colonial e a hegemonia global britânica do livre comércio (p. 8). Em meados do século XVII, quando aparece o artefato político que viria a dar forma definitiva à organização dos interesses globais a nível local – a “comunidade política imaginada” através do “artefato político” da Nação (p. 8) – tal aparecimento coincide com a cristalização, no lado metropolitano do mundo, da ideia de “modernidade” – o tempo novo, acelerado.
Modernização permanente e normalização da mudança social
Ora, a modernidade desde muito cedo se pensa como processo, como modernização: os processos de transformação tecnológica, econômica e social que a marcam – a sociedade do Capital – surgem sob a égide da expansão permanente. Assim, a modernidade é uma época marcada por experiências sociais cujo caráter díspar implica uma “generaliza[ção] da contemporaneidade do não-contemporâneo” (p. 17): onde aparece o moderno, aparece também o pré-moderno, território para a expansão do moderno, espaço a ser colonizado e transformado, a fonte de mão-de-obra e matéria-prima barata, o espaço pré-econômico de cujo sangue a economia moderna e civilizada se alimenta. Esse sentido histórico paradoxal empresta à expansão e intensificação das relações sociais capitalistas, bem como o discurso através do qual a burguesia pensava a si mesma, um potencial “anti-sistêmico” (p. 25): trata-se da conhecida ideia – fundamental para o marxismo – de que determinados componentes da socialização burguesa apontam para além da dominação de classe que a caracteriza. A participação da plebe urbana e rural no processo político desencadeado pela Revolução Francesa, as consequências imediatas dessa participação tais como o transbordamento transcontinental do universalismo burguês na rebelião negra de São Domingos (1791) (p. 7), ilustram bem esse potencial anti-sistêmico. O argumento de Arantes é que, desde muito cedo, tal potencial imbuiu as elites, do medo do risco de possíveis conjunções entre disputas pelo poder econômico e rebeliões populares (p. 39), e de uma resultante “avalanche democrática desierarquizante”. Esquematicamente, Arantes sugere que, para responder a esse risco a sociedade capitalista normalizou a mudança social (p. 40), rapidamente sedimentando uma cultura moderna de expectativas. A persistência da associação discursiva entre o desenvolvimento econômico e o progresso civilizatório dá testemunho do longo alcance dessa cultura; mas a realidade daquela associação ao longo da história é um dos elementos em questão no texto de Arantes, que insiste como a normalização da mudança social foi acompanhada em paralelo pela normalização da guerra civil contra a plebe.
Progresso
A noção de progresso desponta como articuladora do imaginário sócio-temporal da mudança permanente na sociedade burguesa. Através dela, é inaugurado um discurso que atribui à expansão e aprofundamento das relações sociais de dominação – inicialmente, a expropriação colonial –, entre outras tarefas, a de superar justamente as mazelas da dominação. Em sua alvorada, quando tratava-se de substituir os territórios inúteis do Novo Mundo por espaços economicamente organizados, de quebra desencadeando uma conversão semelhante dos seus habitantes originários, o discurso do progresso é francamente exterminista; ao longo da história da sociedade moderna, porém, vai assumindo tonalidades diferenciadas. Não obstante, o objetivo do progresso é mais progresso e, com essa autocentralidade, aquele discurso expressa o caráter abstrato do capitalismo, “o sempre igual da acumulação como fim em si mesmo” (p. 17). Trata-se de um imanentismo total, que Arantes encontra no argumento de Moishe Postone1: “não obstante se tratar de uma temporalidade direcional, [o] movimento ascensional [da modernidade] não conduz a um futuro qualitativamente diferente, quer dizer, embora reais e exponencialmente aceleradas, as transformações orientadas para o futuro, na condição de armadura abstrata de todo o processo, na verdade reforçam a necessidade do presente” (p. 28).
Moralização permanente
Na medida que pretende unificar a experiência social, subsumindo-a à perspectiva da atividade da elite global, o ideário do progresso, na aurora do capitalismo, conecta-se ao universalismo iluminista que inaugura a perspectiva de uma humanidade que é sujeito de sua própria história. Com isso, obscurece a diferença entre os “horizontes de expectativa”2 da elite global com mobilidade global, de um lado, e das populações localmente enraizadas e sem perspectiva, por outro. Ao mesmo tempo, no contexto especificamente metropolitano, aquela confusão de perspectivas contida no conceito de humanidade, bem como o problema da contemporaneidade do não-contemporâneo, emergem como uma fratura social dinâmica, geradora de crise e luta entre uma burguesia emergente e (certas) estruturas econômico-políticas do sistema absolutista. Lida através do prisma do progresso, a guerra civil desencadeada pela burguesia como resposta àquela crise engendrou um discurso a respeito da revolução e da evolução3. O fundamento moralizante da transformação política aparece no reclame liberal por uma dissociação entre interesse de dominação e procedimento econômico (Smith), ou como necessidade de superar uma sociedade fundamentalmente corrompida, animando, por exemplo, o pensamento de Rousseau e o teatro de Diderot, para não falar de legados mais distantes tais como os esquemas patologizantes de Durkheim, ou – como veremos adiante – a fantasiosa versão nazista de anticapitalismo (c.f. tópico “Holocausto e acumulação” abaixo).
A ideia moral do progresso afoga a perspectiva do interesse político, e com isso apaga o conteúdo de guerra civil da crise do “Antigo Regime” e do processo de ascensão da burguesia: não há lados em conflito, há a roda da história correndo no sentido certo, aqueles que se comprometem a fazê-la girar mais rápido, e aqueles que precisam ser atropelados. Mas Arantes enfatiza a persistência dessa tendência moralizante na continuidade entre a ideologia moderna primeva e manifestações bem recentes de imanentismo do imaginário despolitizado: o discurso neoliberal da administração competente e desprovida de ideais, vigente numa época em que, nas palavras de Maggie Thatcher “não há alternativas”, e para a caracterização da qual Francis Fukuyama empregou a famosa formulação do “fim da história”.
Ponto de chegada do projeto inacabado
Arantes revisita a tese de Fukuyama4. A bizarra mistura de utopia e distopia fala de um mundo dividido. No lado definitivamente moderno, um espaço de a-historicidade onde todas as relações políticas seriam tornadas obsoletas por uma suave operação econômica: uma confluência local entre experiência finita e tempo do mundo (ou falta dele). Esse espaço de a-historicidade deixaria de fora (ou estaria cercado por) um espaço consumadamente pré-moderno de “violência da luta mal-sucedida pelo reconhecimento entre atores embrutecidos pela ineficiência econômica”. Trata-se de uma reedição, em versão estática e terminal, da contemporaneidade do não-contemporâneo que animava o imaginário burguês primevo, e também uma cristalização da prática primeva da guerra de expropriação permanente.
Guerra civil permanente
No texto de Fukuyama, a era neoliberal fala de si mesma nos termos da modernidade clássica (leia-se: liberal), mas se representa como fechamento dela, um fechamento que é sua cristalização ad aeternum. Por isso mesmo, explicita o teor violento que o jargão moralizante clássico meio escondia, meio justificava, por trás do signo da revolução e do progresso. Teríamos, assim, um contínuo de socialização violenta, aspectos da guerra civil permanente: primeiro, extermínio colonial; depois, luta para dominação burguesa; depois, o regime normal de expropriação capitalista. Arantes explora insistentemente essa concepção de uma socialização que não é beligerante e violenta por acaso, mas por causa de seu princípio de funcionamento, de sua temporalidade de elite, da máquina de moer gente da acumulação como fim em si mesma. Nesse sentido, estão colocadas as bases do argumento que mostrará o quanto fenômenos tais como os campos de extermínio nazistas e a Guerra Fria não constituem exceções surpreendentes à história dessa civilização global, mas episódios-chave para a compreensão da sua normalidade assassina.
Holocausto e acumulação
Para recuperar o nazismo e o Holocausto enquanto resultados específicos da socialização capitalista, Arantes começa apelando à leitura que Moishe Postone apresenta na sua contribuição ao volume Catastrophe and Meaning5. Postone parte da já citada ideia da autocentralidade da acumulação capitalista, apresentada no Time, Labor and Social Domination, e enfatiza o paradoxo do conteúdo moralizante do pensamento clássico burguês. As noções de revolução e de progresso como superação através da repetição engendram, na figura do nazi-fascismo, uma espécie de anticapitalismo capitalista cuja essência seria o anti-semitismo. O projeto de revolução moral contido no anti-semitismo teria sua síntese na operação dos campos de extermínio, nos quais o que estava em jogo era uma operação de revelação – a modo de sintoma – da essência abstrata que o capital impõe sobre os seres humanos: no campo, os judeus eram primeiramente convertidos em números; em seguida, eram aproveitados enquanto valor de uso, através da pilhagem de suas posses e do consumo físico pelo trabalho; finalmente, ao serem executados, o nazismo empreendia o gesto final de revolta “fetichizada” (p. 34), a destruição de valor (p. 35), resposta psicótica à época da crise de superprodução, e da passagem do capitalismo de livre-concorrência ao capitalismo administrado (p. 34).
O trabalho do nacional-socialismo
Também fica sugerida, na leitura de Postone, uma associação entre a imposição da lógica exterminista sobre a realidade pelo aparato de governo nacional-socialista e o gesto revolucionário, o que Arantes interpreta qualificando o Nazismo como revolução autoritária, alinhada às “aberrações regressivas da via prussiana” (p. 35). Entretanto, a já consagrada ideia de uma revolução “desde cima” tende a empurrar para baixo do tapete o problema fundamental de como um golpe de classe se torna um fenômeno social. Esse tema é retomado na segunda parte do livro de Arantes, que começa seguindo os psiquiatras Christophe Dejours6 e Joseph Torrente7 em sua tentativa de pensar a (aparente) exceção histórica do horror nazista como chave para decifrar as violências quotidianas da normalidade neoliberal da acumulação flexível – e vice versa. A comparação entre nazismo e neoliberalismo, aparentemente forçada, é sugerida pela pegunta – proposta por Primo Levi – a respeito do conteúdo das “zonas cinzentas” que separam “não só nos Lager nazistas, as vítimas e os opressores”8 (apud. p. 46), ou seja, a questão da população alemã que colaborou e/ou foi coordenada aos milhões para que o sistema de vida nacional-socialista acontecesse. Na formulação do próprio Levi, contudo, a questão não só textualmente extrapola o caso extremo da violência social nazista, como é colocada em termos que pretendem penetrar concretamente na oposição entre a fonte da opressão – classes dominantes, etc. – e o seu objeto, tangendo uma esfera que, provocativamente, poderíamos denominar de “microfísica”. A análise dos autores franceses sugere que “a colaboração da gente comum no genocídio resultou de uma gigantesca barganha em termos de benefícios materiais, comprava-se diariamente sua satisfação” (p. 46). Trata-se de um “welfare de exceção” preparado pelas décadas de fordismo que também realizaram a massificação social do trabalho e pelo trabalho (p. 49). Essa massificação, aspecto do fenômeno que Max Weber tinha vislumbrado e expresso em termos do sepultamento do capitalismo do livre-empreendimento sob o monolito burocrático do capitalismo monopolista (p. 48), predispõe a população para uma “mobilização total” que será fundamental para o aparato de governo nacional-socialista (p. 47).
Flexibilização neoliberal e submissão racional
Ora, o regime nacional-socialista é responsável pela modernização acelerada da indústria alemã, a equiparação ao capitalismo dos EUA e da Inglaterra, o patamar de produto social e de emprego que permite o desempenho das funções de welfare previstas pelo lado “socialista” do nacional-socialismo. Ao mesmo tempo, o aparato de governo nazista transforma o medo num componente palpável e constante da vida social. A combinação de inclusão econômica e medo é também marca do neoliberalismo. Nele, a empresa capitalista contemporânea – tipicamente gigantesca, transnacional e dotada de poder de fogo econômico suficiente para chantagear países inteiros, ao mesmo tempo que quase monopoliza as possibilidades de venda de força de trabalho – confere tratamento arbitrário e violento a todas as relações sociais, legislativas, ambientais e trabalhistas, numa abordagem que David Harvey quis capturar empregando sarcasticamente a denominação marketeira “acumulação flexível”9. Diante desse tratamento, o cidadão comum de bem – o habitante da “zona cinzenta” de Primo Levi – é compelido à socialização forçada, mas não através do emparedamento num gueto ou atrás do arame farpado do Lager, e sim por uma desgraçada opção desesperada pela inclusão econômica, em contextos sociais nos quais a alternativa é o extermínio ou a inanição. Torrente chama esse mecanismo de “submissão defensiva”10.
O que Arantes quer colocar em jogo é a centralidade da figura totalmente ordinária do trabalho para compreender os horrores da sociedade alemã sob o governo nazista – horrores estes que, diante daquele caráter ordinário, perdem sua marca de extrema excentricidade. No que diz respeito à condução do extermínio dos judeus, seus arquitetos ora a viam como “trabalho sujo” a ser desempenhado pelos próprios judeus – os Sonderkommandos – ora como “a mais gloriosa página de nossa história”, nas palavras de Heirich Himmler (apud. p. 54). A realização dessa suposta missão civilizatória estava ancorada num empreendimento administrativo – de proporções gigantescas, é verdade, mas, especialmente na “zona cinzenta”, não muito diferente da atividade usual sob o capitalismo monopolista: memorandos, telegramas, trabalhos quotidianos, enfim. Assim o indivíduo comum, usualmente alijado do processo de dominação histórico conduzido numa temporalidade de elite, pode recuperar a experiência e o sentido históricos – a comensurabilidade entre a esfera da atividade individual e o “tempo do mundo” – através do mesmo trabalho massacrante, massante, fragmentado, que já tanta crítica mereceu por seu caráter alienado. O cumprimento do dever no trabalho alienado não acontece a despeito da subjetividade do cumpridor, mas com sua contribuição autônoma (a submissão defensiva), micro-peça fundamental da gigantesca máquina burocrática, a qual seria ineficaz se compreendida unicamente através de sua qualidade remota. Daí o paralelo com a “acumulação flexível” do neoliberalismo, o qual, nas palavas de Arantes, “enquanto atividade de ‘governo’ das condutas (não confundir com a instituição estatal) (…) não se define nem contra nem a despeito da liberdade, mas através da liberdade de cada um, no sentido de que se conformem por si mesmos a certas normas” (p. 49) expressivas da violência econômica, fora das quais a opção é o que Karl Marx chamava, com sua acidez costumeira, de violência extra-econômica.
O fundamental desse argumento é entender a correlação entre alienação – em sentido rigoroso, e não na equivocada porém popular acepção psicologizante – e comprometimento subjetivo. A ideia é que o “trabalho sujo”, aquele com o qual nenhum trabalhador pode se identificar ou sentir prazer – aquele que envolve um sofrimento, e que faz violência ao trabalhador – é também aquele que obrigado o trabalhador a encontrar estratégias subjetivas para se concentrar exclusivamente nas operações mínimas exigidas, e que tem, portanto, potencial de tornar-se o trabalho mais eficientemente desempenhado. Assim, o comprometimento do trabalhador com o trabalho acontece a despeito do trabalhador – “pelas suas costas”, para empregar a expressão de Marx. No trabalho violento executado com sofrimento, diminui a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho realizado (p. 58). A eficiência é filha do asco, e alternativa equivalente da loucura: Primo Levi, falando dos Sonderkommandos, observa como “ao fazer este trabalho, ou se enlouquece no primeiro dia, ou então se acostuma” (apud. p. 50). E o costume fala tanto de um entranhamento moral quanto de uma produtiva e obediente rotinização na qual já entrou, entretanto, o componente do que Torrente chama de “zelo”: a “mobilização dos mecanismos afetivos e cognitivos da inteligência” (apud. p. 59), os “macetes, gambiarras, truques” (p. 60) que a prática constante com o sofrimento introduz entre ele e o sujeito que lida com ele, de modo a atenuá-lo.
Zelo, gambiarra, macete
Ora, esse elemento da contribuição subjetiva que extrapola o trabalho prescrito de modo a realizá-lo mais eficientemente é levado ao paroxismo na “reorganização dita ‘flexível’ do trabalho” sob o neoliberalismo (p. 61). A burocratização extrema conflui, portanto, com o compromisso subjetivo, a astúcia quotidiana sem a qual a vida fica impossível diante de um sistema de relativização da vida. E, por causa dessa confluência, aparecem os limites do estereótipo prussiano da obediência cega evocado, por exemplo, por Zygmund Bauman11 e, até certo ponto, por Hannah Arendt12: o zelo brota da burocracia, e a suprassume. A constelação resultante rescende à compatibilidade, identificada entre nós por Roberto Schwarz, entre a malandragem da precariedade colonial terceiro-mundista e os altos preceitos da capitalismo metropolitano, chamado desenvolvido13. Ademais, no que vai além do meramente prescrito, o zelo é também uma espécie de trapassa, mas sua convivência necessária com o normatizado evoca a lógica do estado de exceção permanente (p. 64) – tema caro a Arantes, tratado em outros trabalhos, e também no presente, mais adiante.
Macete, arbitrariedade, fascismo, exceção
Arantes enxerga uma afinidade entre aquilo que o conceito de zelo expressa para a microesfera do empenho subjetivo e o que havia sido identificado também por Franz Neumann em seu Behemoth na esfera macro do capitalismo mundial: quanto mais se intensificava o regime monopolista de acumulação, mais necessários e correntes se tornavam as arbitrariedades improvisadas dos comandos administrativos de exceção (p. 67). A distância do Füher – que, no dizer de um trabalhador, evidentemente não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo (p. 65) – exigia, além do cumprimento da norma emanada dos escritórios de controle, a invenção zelosa e criativa de novos deveres e normas na zona cinzenta entre aqueles escritórios e o quotidiano da operação. Ou seja: para empreender a estrita administração e dominação sociais características do governo nacional-socialista e fazer valer a vontade do Füher que, no regime nazista de exceção, é a lei, era necessária uma prática de improviso sob responsabilidade dos oficiais do Reich: a exceção dentro da exceção.
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