ContribuiçÕes de max weber ao olhar sociológico



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CONTRIBUIÇÕES DE MAX WEBER AO OLHAR SOCIOLÓGICO1
ELSIO LENARDÃO

Professor do Departamento de Ciências Sociais da UEL


Resumo
O texto que segue é a exposição de uma proposta de aula introdutória à Sociologia de Max Weber (1864-1920), voltada ao aluno do ensino médio. Por meio do exemplo, indica-se uma possibilidade de exercício a ser desenvolvido pelo professor responsável pela disciplina neste nível de ensino. É uma tentativa de auxiliá-lo na tarefa de levar aos alunos a riqueza das contribuições weberianas, neste caso, algumas premissas e conceitos cujos conteúdos têm sido, muitas vezes, nega­dos aos jovens pelo fato de o professor considerar sua explicação muito trabalhosa. São utilizados vários exemplos (através de charge, artigos de jornal e revista) da vida cotidiana que ilustram algumas daquelas premissas e conceitos.
Palavras-Chave: ensino médio; sociologia; Max Weber.
A metodologia weberiana e suas aplicações são um grande estí­mulo ao desenvolvimento no aluno daquilo que Wright Mills chamou de a "imaginação sociológica", quer dizer, a capacidade de compreender como sua vida cotidiana está ligada a outros níveis mais elevados da organização social e aos processos mais globais de toda a sociedade. O desenvolvimento desta forma de imaginação, permite ao indivíduo perceber que os problemas pessoais que tem com o que o rodeia estão ligados a questões gerais da estrutura social; que a sua história pessoal (biografia) é moldada pelo que acontece à sua socie­dade (história); que, para compreender o que lhe está acontecendo, os homens têm de se considerar como simples pontos de intercepção da biografia e da história dentro da sociedade (WORSLEY, 1983, p.69-70) (grifado no original).

As análises de Weber permitem vislumbrar como boa parte das ações dos indivíduos são realizadas mirando os outros indivíduos, como há entre eles grande reciprocidade de intenções e expectativas, revelando a dimensão social do comportamento humano. Quer dizer que podemos compreender as ações de outros homens, que elas po­dem ser desveladas. Parte da metodologia weberiana demonstra que para conhecer o comportamento coletivo não basta considerar a legis­lação que o enquadra, o tipo de Estado que o conforma, tampouco basta verificar como se dá a divisão entre as classes e quais os interes­ses de classe que as mobilizam. Weber não ignora que há forças exter­nas, objetivas, que participam da modulação do comportamento huma­no, como, por exemplo, quando reflete sobre o poder e diz que: "poder significa a probabilidade de impor a própria vontade, dentro de uma relação social. mesmo contra toda resistência e seja qual for o funda­mento dessa probabilidade [...]" (WEBER apud CASTRO, 1997,p.31) (grifo nosso).

Na sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo encontram-se reflexões que insinuam um Weber que considera funda­mental a força de coerção das estruturas sociais, bem menos próximo do método "individualista", como supõem certas interpretações sobre sua teoria. Escreve, por exemplo, que a "[...] moderna ordem econômica e técnica ligada à produção em série através da máquina, [...] atualmente determina de maneira violenta o estilo de vida de todo o indivíduo nascido sob esse sistema [...]" (WEBER, 1999, p.130-131) (grifo nosso).

Mas observações desse calibre não seriam sua maior contribui­ção à Sociologia. Ao contrário, é aquela parte de sua metodologia que atenta mais para a conduta humana concreta e para a participação do indivíduo na construção do comportamento coletivo, ou seja, das rela­ções sociais, diria ele, que oferece uma riquíssima contribuição ao de­senvolvimento da "imaginação sociológica". Weber propõe que a So­ciologia seja capaz de revelar as intenções que estão por trás dos comportamentos dos indivíduos. É este viés de seu método que mere­cerá aqui algumas anotações que intentam explicá-lo didaticamente.



Sobre o objeto especial de análise das Ciências Sociais: o significado da ação humana
De acordo com Weber "[...] o conhecimento dos fenômenos culturais é inconcebível, exceto sobre a base da significação que as constelações concretas da realidade têm para nós em certas situa­ções particulares concretas" (WEBER apud ZEITLIN, 1973, p. l32­-133) (grifado no original/tradução nossa). Ou seja, o pesquisador das Ciências Sociais se concentra na particularidade característica da re­alidade em estudo. Mesmo que sejam necessárias proposições teóri­cas gerais, pressupostos (por exemplo, "tipos ideais") sobre os fenô­menos, o que sem dúvida tem grande valor heurístico, a compreensão da realidade exige que sua "particularidade" seja revelada. E, quem a dá é o conjunto de significados que tecem o conteúdo do fenômeno em foco. Por exemplo: podemos ter uma teoria geral (uma tipologia, diria um weberiano) sobre o voto nas sociedades capitalistas, que pressupõe relações plausíveis entre posição de classe e voto, sexo e voto, idade e voto, etc. Apesar de ser indispensável a uma investiga­ção a existência desses pressupostos gerais (teoria geral prévia), eles não garantem a compreensão da realização concreta de uma dada situação eleitoral. Será preciso ir além do entendimento permitido pelas formulações teóricas gerais iniciais e investigar os significados concretos e localizados dos votos previstos e/ou dados, conferindo até onde se aproximam ou se distanciam dos pressupostos gerais, da tipologia inicial.

Esse procedimento revela uma valorização dos aspectos quali­tativos dos fenômenos sociais em relação aos quantitativos. Não que Weber ignore a força das estruturas sociais sobre a ação dos indivídu­os, ele sabe que um fenômeno social determinado para ser compreendi­do na sua especificidade exige que sejam revelados os "sentidos", os "significados" das ações sociais e das relações sociais que o estruturam. Ou seja, o que os indivíduos "querem", "almejam", "desejam", "vi­sam", e quais valores expressam, exatamente, quando direcionam sua ação de votar num determinado partido ou personalidade?

Não bastaria supor, por exemplo, que é bem provável que o trabalhador vota no partido dos trabalhadores, que os católicos vo­tem no PHS ou na Social Democracia Cristã, etc. Essa seria uma pro­babilidade teórica e até mesmo uma ação baseada na racionalidade. Mas só a análise individualizada das "intenções" de voto é que po­deria permitir a verificação da concretização dessa probabilidade e dos possíveis "desvios" em relação a ela.

É comum ouvirmos afirmações "categóricas" e cheias de cer­tezas como: "trabalhador vota em trabalhador" ou, "Fulano é o candi­dato dos evangélicos, o que lhe garante n % de votos". Há "forças objetivas" (semelhanças de condições de vida, de interesses materi­ais, políticos; afinidade de crenças, influência corporativa, entre ou­tras) que estimulam de fato essas possíveis relações. No entanto, não há garantias de que se realizem absolutamente, porque haveria tam­bém a presença de outras incontáveis influências e circunstâncias que concorrem para o desenho da direção que tomarão os indivíduos na escolha de seus atos de votar. Eventos conjunturais podem alterar aquelas "tendências objetivas"; também podem concorrer para isso alguma circunstância de comoção geral: uma catástrofe qualquer, a morte de uma personagem "de expressão" na conjuntura; uma cam­panha de marketing eficaz pode, por sua vez, embaralhar aquelas "tendências objetivas", etc. Quem não se lembra do espanto que tomou a esquerda brasileira em 1989, quando boa parte dos pobres e miseráveis do país, os famosos 'descamisados', deu preferência de voto para o candidato das classes dominantes, o Sr. Collor de Melo? Observe o artigo de jornal que segue:



(LEAL, Luciana Nunes. Pesquisa indica perfil do candidato ideal em SP.

O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 dez. 2001.)

Ele mostra, através de uma investigação de tipo sociológica, como aparecem nas expectativas dos entrevistados, tanto a força das "condições objetivas" (posição de classe, por exemplo), como possibilidades de associações 'irracionais' entre "condições objetivas" e expectativas subjetivas, individuais, dos sujeitos. O artigo serve muito bem para demonstrar a realização, quer dizer, o "funcionamento" da premissa weberiana quanto à relevância da "intenção", do "significado" dos valores na orientação da ação humana.

Por outro lado, Weber não ignora a necessidade de, após "descortinadas as constelações concretas de significados de determinado evento social", situá-las dentro de grandes correntes de tendências sociais. Por exemplo, quando pensa a relação de influência geral entre a ética protestante e o capitalismo, ele o faz ao mesmo tempo que tenta compreender como, concretamente e com particularidades, essa relação se deu nos E.U.A, na Inglaterra e especialmente na Alemanha, onde teve de conviver, por um tempo mais longo que nos dois outros países, com o domínio político dos latifundiários e seus interesses materiais imediatos contrários àquela ética e às relações de produção de tipo capitalista.
Ação social: definição e exemplo
De acordo com Weber, a Sociologia pode ajudar a compreender a vida social esclarecendo como os homens organizam suas ações sociais. Por "ação social", Weber compreende "qualquer ação que o indivíduo faz orientando-se pela ação dos outros sendo dotada e associada a um sentido". Para ele, a "ação social", seria aquela marcada pelo seu "caráter subjetivo". Daí que interessaria à Sociologia "compreender a conduta social humana", revelando explicações das "causas" e "conseqüências" de sua origem. Quer dizer que seriam as "atitudes" que explicariam a "conduta social" dos indivíduos. Para compreendê-la seria preciso descobrir seus "sentidos", seus "motivos", suas inspirações e razões.

O termo "ação social" refere-se àquele comportamento humano que revela que o agente o carregou de significados, de sentidos culturais, como: ressentimento, aspirações, esperanças, decepções, sonhos, utopias, repulsas, ódios, etc. Enfim, tal "ação social" revela que os homens, ao contrário das rochas, das plantas ou das máquinas, pensam, valorizam e sentem. São portadores de "consciência". Quer dizer que o comportamento humano contém, na maioria das vezes, um elemento intencional. Assim, o trabalho de observar uma rocha, para a investigação que faz um geólogo, é bem diferente do trabalho de observar as ações humanas realizado por um cientista social. Nesse caso, é diverso porque os objetos têm diferenças acentuadas. É claro que o homem também tem comportamentos que exprimem mais puramente sua condição de animal, como, por exemplo, aqueles ligados às reações instintivas e aos estímulos fisicos.

Portanto, a ação social,
[...] é uma ação que leva em conta, ou é afetada, pela existência dos outros. Envolve a compreensão ou a interpretação do signi­ficado do seu comportamento - calculando o que os outros pensam, sentem ou tentam fazer: projectamo-nos nas mentes das outras pessoas. E, certamente, eles fazem exatamente o mesmo em relação ao nosso comportamento. Tem-se designado este processo recíproco por "dupla contingência". De maneira ainda mais complexa, prevemos o que os outros pensam de nós, etc. Isto não é uma complicação acadêmica e abstrata. É uma parte perfeitamente nonnal da vida quotidiana [...] (WORSLEY, 1983, p.58) (grifado no original).
Os quadrinhos abaixo (Lucy e Charlie Brown) ilustram com humor e clareza o fenômeno da "reciprocidade de significados" no comportamento humano.

(WORSLEY, Peter. Introdução à Sociologia. Lisboa, Dom Quixote, 1983.)


Considerar a importância do "sentido" na ação humana implica em observá-lo não só na iniciativa do homem, na iniciativa de sua ação individual, mas também considerá-lo como sentido já objetivado em instituições, na tradição e no costume, capazes de orientar numa mes­ma direção as ações dos indivíduos de um grupo. Daí, a religião e seus valores, sua ética, como objeto de estudo para Weber. Ele viu no pro­testantismo uma "fonte" de valores orientadores do comportamento, bastante adequada às necessidades da economia capitalista que se firmava na Europa nos séculos XVIII e XIX.
Ação social: relevância prática
Saber sobre as características da "ação social" torna possível desenvolver mecanismos de investigação que permitem apreciar a pro­babilidade do comportamento de uma pessoa ou de um grupo de pes­soas. Isto é, podemos levantar os "significados", os "sentidos", as motivações que parecem inspirar num dado momento e lugar, determi­nados comportamentos das pessoas e/ou dos grupos. Tais levanta­mentos podem revelar as tendências do comportamento dos indivídu­os e garantir, assim, certo controle e previsão, servindo tanto para antecipar situações (como a que revela a reportagem da revista Veja sobre tendências do voto, que segue abaixo), bem como para verificar os "sentidos" que as pessoas dão a comportamentos que comprome­tem a "ordem coletiva". Dessa maneira, torna-se possível a elaboração de medidas para a alteração desses comportamentos (como, por exem­plo, o caso de pesquisas que buscam revelar "quais os motivos" que levam alguns jovens a se aproximarem do mundo das drogas).

A matéria ao lado (A carta do eleitor da revista Veja), trata dos resultados de pesquisas eleitorais que são montadas considerando, também, os pressupostos da teoria weberiana sobre o comportamento social do homem. Vê-se, então, como são úteis suas teses quando se pretende conhecer as tendências do comportamento do "homem-elei­tor". O pressuposto básico que orienta essas pesquisas é o de que o "homem dá sentido à sua ação social: estabelece a conexão entre o motivo da ação, a ação propriamente dita e seus efeitos" (COSTA, 1987, p.63) Acrescente-se que o "motivo" (o objetivo) que está por trás da ação social revela o "sentido" dessa ação, e esse se revela, por sua vez, na sua gênese social, sempre que o agir de cada indivíduo leva em conta a resposta ou reação de outros indivíduos.




(A Carta do Leitor. Veja, p. 23-30, set. 1996.)

Vinculado ao conceito de "ação social" está o de "relação social". No limite é esta última, como objeto, que interessa à socio­logia compreensiva weberiana, que assim é chamada porque se preocupa com o "como" acontece a "ação social" e não com o "por quê" acontece.
A relação social diz respeito à conduta de múltiplos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade com um conteú­do específico do próprio sentido das suas ações. Na ação social. a conduta do agente está orientada significativamente pela con­duta de outro ou outros, ao passo que na relação social a condu­ta de cada qual entre múltiplos agentes envolvidos (que tanto podem ser apenas dois e em presença direta quanto um grande número e sem contato direto entre si no momento da ação) orienta-se por um conteúdo de sentido reciprocamente compar­tilhado (COHN, 1997, p.30).
As "relações" sociais são a estruturação de várias ações soci­ais que se motivam por um mesmo conjunto de significados. Podem estruturar comportamentos regulares e que se generalizam - por exem­plo, procedimentos em relação à vida conjugal, ou à relação de namoro - ou conformar-se numa "estrutura particular de relações sociais", materializando-se em instituições particulares - como, por exemplo, a família patriarcal, o código civil.
A influência externa na produção dos sentidos da ação
Na análise dos significados da ação é importante lembrar as influências exteriores que pesam sobre a ação, sobre o comporta­mento do homem. É preciso perscrutar a "origem", as fontes dos significados que orientam, que dão sentido às ações. Ou seja, não basta revelar o conteúdo dos sentidos das ações' que organizam certos comportamentos em relação ao consumo ou ao lazer. Seria preciso também buscar revelar como se originam, como se constróem esses "sentidos", esses "desejos". Atente-se para os dois artigos que seguem.

(BETTO, Frei. Religião do Consumo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 mar. 2001.)

(BUCCI, Eugênio. Cloaca do Penta. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 jun. 2002.)

Os artigos nas páginas anteriores, do escritor Frei Beto e do jornalista Eugênio Bucci, tratam de como se poderia perceber a produ­ção originária de certos "gostos", "desejos" e "significados" para even­tos e comportamentos dos indivíduos dos dias de hoje. Para BUCCI e BETTO, a publicidade - item da indústria cultural contemporânea - é hoje a principal "fábrica de sentidos e significações para a vida" dos sujeitos, criando e moldando comportamentos. Ou seja, as imagens e as idéias que ela produz e que são assimiladas pelo público "se conver­tem em forças efetivas na história", diria Weber.


O tipo ideal
Para facilitar a análise de casos concretos de fenômenos sociais e a possibilidade de compreender suas particularidades a partir da compa­ração com fenômenos parecidos mas situados noutro contexto, ou nou­tro tempo, Weber propõe o recurso de pesquisa reconhecido como "tipo ideal". Propõe que o investigador social que se dirige à compreensão de um fenômeno social o faça munido de uma "hipótese" bem apurada, "idealmente" apurada, sobre o que seria aquele fenômeno se pudesse apresentar-se de um modo "puro", "imaculado" e organizado racional­mente. Essa hipótese materializa-se em "quadros iniciais de referência" sobre o objeto em estudo, numa "noção prévia" que ajudará o investiga­dor a orientar-se na apreensão daquilo que realmente "se liga" ao seu objeto de interesse, evitando que se perca no emaranhado de dados e variáveis que tocam seu objeto, sem serem, para seu caso, relevantes.

É buscando esse suporte de orientação que Weber, quando visa a entender como o capitalismo moderno se firmou primeiro na Europa e não em outras regiões, parte exatamente de uma "definição" clara do que entende por capitalismo, de uma definição que o "tipifica", que fornece um "quadro de referência" que lhe permite observar a ausência daquele tipo de capitalismo na China ou na Índia, por exem­plo. E, por outro lado, sua existência nos E.U.A e na Inglaterra. Cons­truiu, desse modo, um "quadro de referência" que apresenta o capita­lismo, na sua forma típica, como,


[...] uma organização econômica racional assentada no trabalho livre e orientada para um mercado real, não para a mera especu­lação ou rapinagem. O capitalismo promove a separação entre empresa e residência, a utilização técnica de conhecimentos ci­entíficos, o surgimento do direito e da administração racionali­zados (COSTA, 1987, p.67).
Uma justificativa para o uso do recurso da tipologia dá-se, por exemplo, porque os fatos, os dados, que interessam ao cientista social, não podem ser recolhidos sem a existência prévia de uma concepção com o que recebem certa ordem, ganham organização e sentido. Quer dizer, os fatos não se ordenam por si mesmos e, até na mais simples das investiga­ções, estão presentes hipóteses teóricas construí das primeiramente no espírito do investigador. Tais premissas sugerem as espécies de fatos e dados que o investigador deve procurar e quais delas são provavelmente relevantes ou irrelevantes e podem, por estas razões, ser aproveitadas ou desprezadas. Essas mesmas hipóteses teóricas prévias orientam, inicial­mente, o investigador sobre quais as "causas prováveis" que deve procu­rar, quais as "conexões" que valem a pena ser estudadas, etc.

Esse procedimento é bastante evidente nas análises que os clássicos realizaram, como, por exemplo, nas pesquisas feitas por Durkheim. Este, mesmo quando analisava a tão conflituosa sociedade francesa do final do século XIX e início do XX, não deu importância às contradições de classe como uma causa relevante para a gravidade daqueles conflitos, priorizando, ao contrário, os fatos ligados a pro­blemas como o do controle social e suas ligações com a moral social, com a solidariedade coletiva, enfim, com a harmonia social.

Um exemplo mais cotidiano sobre a seleção que um olhar munido de uma preparação prévia realiza, é dado pelo policial militar, que na sua ronda não deve olhar a realidade cotidiana como outra pessoa qualquer, mas sim de forma a procurar indícios que possam denotar a presença de delitos. A maioria de nós não vê o mundo prestando atenção à presença de criminosos potenciais. Mas a função do policial o leva a fazer isso mesmo: procurar elementos "significativos", como provas, vestígios, sinais, que revelem delitos ou crimes. Ou seja, nem todos os fatos com os quais se depara durante sua ronda são relevantes para o policial, muitas vezes não são nem enxergados; importarão, mesmo, aqueles que tenham significado dentro do "quadro de referências" que o move, que o motiva. De certa forma, o uso do recurso do ''tipo ideal" funciona com este objetivo: como "quadros de referência" que iluminam os fatos e dados que são relevantes e os que não o são, num dado momento, para o investigador social.
Exemplo de "funcionamento" da ação social e do recurso da tipologia social na produção do conhecimento
Podemos, de modo simplificado, pensar no seguinte exemplo: quando nos preparamos para dar uma aula ou um curso qualquer, lem­bramos primeiramente do "público-alvo" ao qual se destina. É muito provável que, sabido qual é ele, recorramos às "noções prévias" que temos sobre esses públicos: sendo alunos do noturno de escola média da rede pública o grupo, terá determinado perfil, certas características comuns e gerais, que o marcam nas noções do imaginário mais divulga­do. Se o público-alvo é de alunos de colégio privado, cujas mensalida­des são altíssimas, também tentamos formular uma "noção prévia" so­bre seu perfil de conjunto. Da mesma forma procederemos se o público-alvo for composto por professores de Sociologia oriundos do ensino médio da rede pública, e assim por diante. Essas "noções prévi­as" acabam por nos fornecer tipologias ("tipos ideais") sobre esses públicos. Fornecem-nos "quadros de referência" sobre eles, que ser­vem para orientar a montagem de nossas aulas e cursos.

Porém, normalmente, somos cautelosos quanto à exatidão destes "quadros de referência" (tipos), sabendo que eles ajudam a conhecer an­tecipadamente algumas coisas sobre o público-alvo, mas nem todos os seus detalhes, as suas particularidades. Por isso, é comum que em seguida a esse primeiro raciocínio e também a partir dele busquemos informações mais detalhadas, mais minuciosas sobre as pessoas que compõem esse público-alvo, tentando levantar (através de uma ou outra conversa infor­mal, ou mesmo alguns depoimentos) as expectativas de algumas pessoas desse público, o que esperam da aula/curso, o que desejam, do que não gostam, o que já sabem sobre o objeto abordado, etc. Procuramos, nesta etapa, um refinamento do conhecimento sobre esse público concreto, o que exige que caminhemos para além da 'noção prévia' (da tipologia) que tínhamos sobre ele, mas que ajudou a posicionarmo-nos e a olharmos inicialmente, já com certo cuidado, para nosso público-alvo.



Referências
CASTRO, Magali de. A análise do poder em instituições educacionais: a presen­ça de Max Weber na sociologia da educação de Pierre Bourdieu. Educação em Revista, Belo horizonte, n 20-25, jun. 1997.
COHN, Gabriel. Weber: sociologia. São Paulo: Ática, 1997.
COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 1987.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1999.
WORSLEY, Peter. Introdução à sociologia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1983.
ZEITLIN, Irving. Ideologia y teoria sociológica. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1973.

Abstract
The following text is the explanation of a suggestion of an introductory class to Max Weber's Sociology (1864 -1920), focused on the Secondary Education student. Through the example, it is recommended a possibility of an exercise to be developed by the teacher who is responsible for that subject matter in this level of education. It is an attempt to help him/her with the task of introducing the students to the richness of Weber's contributions, such as, premises and concepts whose contents have been constantly denied to these students, due to the fact that the teacher considers his explanation too laborious. Several examples obtained from political cartoons, newspaper and magazine articles, based on the daily routine, are used to illustrate some of those premises and concepts.


Key words: secondary education; sociology; Max Weber.

Anexo
Para que serve a teoria da ação social ?
Durante uma aula introdutória à Sociologia de Max Weber, certa aluna me surpreendeu com uma série de questionamentos a respeito da capacidade heurística da teoria da ação social, de maneira que me le­vou a um esforço maior para explicá-la através de exemplos. Segue a transcrição do que teria sido, mais ou menos, esse diálogo. Vale a pena fazê-Io porque é mais uma experiência de caminhos possíveis para ini­ciar uma aula sobre o sociólogo alemão.
Uma aluna, muito arguta, perguntou se a Sociologia podia 'prever' como votarão os brasileiros em outubro de 2002. Respondi que 'prever' talvez não, mas seria possível, sim, levantar as prováveis tendências de voto. Principalmente as tendências mais imediatas.
Ela continuou bastante curiosa, e acrescentou que seriam mais ou menos uns 115 milhões de votos. Como poderíamos saber o que se passa na cabeça de cada um? Como saber como cada brasileiro vai se comportar no cantinho reservado da urna?

Eu disse que não precisávamos questionar cada brasileiro, um por um, sobre como agiria no dia 3 de outubro e que bastava conhecer a previsão de comportamento de uma parcela desses 115 milhões, inclusive apenas uma pequena parcela. Isso porque a Sociologia sabe que, quando os indivíduos agem, eles agem com certo sentido, com certas expectativas, desejos, utopias, movidos por certos valores, etc. E, o mais instigante é que determinados grupos de individuos compartilham esses sentidos, expectativas, desejos e valores, de modo que boa parte de suas ações, de seu comportamento, é bem parecida, repete-se.


E ela me questionou novamente: - mas por que comungam as mesmas expectativas e desejos?

Respondi que a razão era simples. Já que vivem em grupos, em coletividades, toma-se necessário que se comportem, que ajam e reajam de maneira semelhante, garantindo assim a comunicação, a troca, o entendimento, o acerto nas relações que mantêm. Para os indivíduos do grupo saberem como se comportar sem ferir e magoar os demais é preciso que considerem, quer dizer, que de certo modo prevejam as reações daqueles. Ou, noutros termos, é preciso que 'vejam a mente' dos outros indivíduos. Para ilustrar essas observações mostrei-lhe os quadrinhos do Charlie Brown (ver texto anterior). Enfim, têm que compartilhar conteúdos parecidos de expectativas, intenções, motivos e valores. Essa partilha permite a previsibilidade nas ações, logo, garantem que se estruturem relações sociais duradouras.


E o voto do brasileiro? Insistiu a curiosa.

Disse-lhe que no caso do ato de votar revelava-se com toda clareza a reciprocidade da ação dos individuos quando estão em grupos. Na situação de eleição, os indivíduos se baseiam na ação e na opinião de outros indivíduos para definir seu voto. Conversa-se com outras pessoas, lêem­se revistas, jornais, vê-se tv, consultam-se pesquisas de opinião, etc. Quer dizer, o eleitor escolherá como agir na uma tomando como referência, e muito o comportamento e a opinião das outras pessoas. Essa necessidade de compartilhar opiniões cria "correntes de opinião", "conteúdos compartilhados de opinião" que revelam as direções, os sentidos prováveis daquelas ações individuais que se parecerão bastante nos meios e nos fins. Daí, munidos de instrumentos de pesquisa, podemos 'captar' partes representativas do conteúdo dessas "intenções de ação", desses "sentidos" do agir. Por isso é possível pesquisar as "intenções de voto" dos indivíduos em dado momento e em determinado lugar.


Sem me dar descanso, desafiou-me a curiosa: - Mas as pessoas não são exatamente iguais em muitos aspectos: há ricos, pobres e remediados, há empregados e desempregados, há homens e mulheres, letrados e analfabetos, etc. Sendo diferentes, votam do mesmo jeito?

Argumentei que todas as diferenças que ela havia lembrado devem influenciar também diferentemente nas ações dos indivíduos, aproximando os que compartilham caracteristicas e distanciando os que não as compartilhassem. Mas que isso também não era tendência garantida 100%. Por isso, na tentativa de levantar as "intenções" de voto, bem como as tendências de qualquer outra situação, deveriamos levar em conta essas 'diferenças' presentes entre os indivíduos que queremos conhecer, através de uma seleção de amostra que considerasse, por exemplo: renda, escolaridade, sexo, idade, local de moradia (cidade/campo), religião, etc. Com esse cuidado poderíamos garantir que o resultado de nossa pesquisa revelaria não só as tendências de voto, mas também como essas tendências variariam de acordo com aquelas diferenças.

Para ilustrar melhor o que eu vinha dizendo, convidei a 'curiosa' à leitura de duas matérias que apresentavam o resultado de pesquisas eleitorais e que revelavam bem o que discutíamos (1º: Pesquisa indica perfil do candidato ideal em São Paulo e 2°: A carta do eleitor - ver artigo anterior). A partir dessas duas matérias, mostrei também as possibilidades de entendimento do comportamento coletivo, levando em conta o pressuposto da ação com reciprocidade.
Não satisfeita, e testando minha resistência, a pequena curiosa avançou em suas dúvidas e questionou: - Já sabemos que dá pra ver as 'probabilidades mais prováveis' das intenções de voto, ou seja, dá mesmo para prever essas possibilidades mas, falta responder uma dúvida importante: quem ou o que fornece essas intenções, expectativas, desejos e valores, para os indivíduos? E, quem os divulga, distribui, de maneira que quase todos ficam sabendo mais ou menos como os outros pensam? Cada um inventa seu conjunto de valores, divulga-o e espera que se espalhe, sendo assumido pelos outros? Ou seriam as religiões as produtoras de valores, desejos? Ou a televisão, quem sabe? Ah! Agora quero saber, como apareceram as primeiras "expectativas"? Como foram "socializadas"?

Falei que seria difícil saber sobre a forma das primeiras relações sociais mas que certamente desde esse momento os homens combinaram regras, fundaram sonhos e desejos, dividiram obrigações e compromissos e toda essa tarefa deve ter-se consolidado como um conjunto de "sentidos" para a vida que organizavam juntos.

Hoje não seria diferente. Há várias obrigações, deveres, compromissos que os homens formam e mantêm durante o tempo e que aparecem, em boa parte das vezes, materializados nas instituições que organizam a sociedade em que vivem (leis, governo, família, escola, religião). Esses compromissos e obrigações sociais giram em tomo de "valores" (o que é certo e errado, bom e ruim) sobre a vida em coletividade e podem reproduzir-se também por vias não institucionalizadas, como os costumes, a etiqueta, os modos, os hábitos, etc.

Quer dizer que, nesta dimensão da vida, o comportamento do indivíduo é formalmente previsto, porque é orientado, guiado (o caso do respeito à lei, é claro, como exemplo). Por certo que há desvios, mas se os há é porque há padrões de comportamento. Como as instituições e os costumes organizam a vida coletiva dando-lhe direção, uma parte das relações sociais fica institucionalmente orientada, ou seja, uma parte dos comportamentos está submetida a esta previsão.É uma garantia mínima da vida em grupo.

Acontece que, para essas obrigações, compromissos e os valores que as justificam funcionarem, é preciso que os indivíduos as assimilem, que as aceitem e as desejem. Isso quer dizer que elas (e aí incluem-se suas materializações: as instituições) não se mantêm se não forem 'realizadas' pelos indivíduos. Ao mesmo tempo que se impõem a eles, só existem porque eles as vivenciam individualmente nas relações sociais. Se não as desejarem mais, se disserem que 'não vêem mais sentido' nelas, elas se extinguem. Veja este exemplo: observa-se no Brasil (processo também comum a alguns outros países) que muitos jovens (em algumas regiões 4 de cada 10, segundo o IBGE) já não querem viver a vida conjugal como 'manda' a santa madre igreja, como reza o modelo social até então vigente (modelo celular burguês), baseado na união estável de dois indivíduos coabitando o mesmo espaço e prometendo-se fidelidade absoluta pelo resto de suas vidas. Esses jovens têm testado outras formas, outros tipos de relacionamento que não se enquadram neste último modelito: ter filhos e criá-Ios sozinho; "morar" junto mas não casar, por exemplo. Vê­se então uma alteração na forma e conteúdo da estrutura familiar que imperava. Não adianta a 'boa moral e os bons costumes' espernearem, não adianta a Igreja excomungar, ameaçar com a fogueira do inferno.

Neste ponto da mudança, a coerção já não é eficaz, porque os jovens ou não assimilaram a 'razão' para manterem-se naquele modelo anterior ou, por outras motivações, questionam o "sentido" daquela instituição e dos valores e expectativas que a sustentam, pretendendo novos "sentidos", novos "desejos", novos "valores", logo, novas relações sociais. É assim a dialética instituição-indivíduol relação social-ação social.


Impaciente com meus rodeios, ela volta à carga: - Mas e a criação de sentidos, há um momento exato para ela?

Respondi que, como vinha dizendo, talvez não dê para achar a hora exata de nascimento de uma "motivação" qualquer para a ação humana. Seria possível descobrir em que momento exato uma parte dos jovens brasileiros resolveu considerar as drogas como um componente importante da sua experiência de juventude? Daria para saber exatamente quando as mulheres decidiram enfrentar o machismo? Talvez não dê. Embora dê para se aproximar dos inícios dessas novas tendências de comportamento, de suas primeiras manifestações, como, por exemplo, é plausível situar o marco da explosão do movimento feminista nos anos 60, e dá até para tentar compreendê-las, tentando desvendar suas prováveis causas, a que tipo de expectativas responde. Para tanto, teríamos que questionar os agentes dessas mudanças para percebermos suas intenções, suas razões, seus motivos, como nos propõe Weber. E, nesse caso, podemos tentar vislumbrar se não há causas "externas" às intenções dos indivíduos, que ajudam a explicar o aparecimento e desenvolvimento dessas tendências novas.

Dou mais um exemplo: talvez o movimento feminista não tivesse, inicialmente, a intenção de romper, ao menos, com a estrutura - já não digo o mesmo quanto ao conteúdo - do modelo familiar anterior (marido-­mulher-filhos), mas o movimento conseguiu firmar novos espaços sociais para a mulher ampliando sua autonomia de vida. Esse componente (mais mulheres no mercado de trabalho; mais mulheres com estudo; mulheres menos coagidas pelos homens, etc.) pode ter facilitado/estimulado essas novas experiências de vida familiar, nas quais, por exemplo, a mulher cuida sozinha dos filhos, 'dispensando' o homem.

Um mercado de trabalho que abre oportunidades para as mulheres está, ao mesmo tempo, favorecendo aquelas novas experiências de vida associadas à maior autonomia sexual. O que quero dizer é que talvez teríamos aqui uma "variável causal externa" ao desejo dos agentes das novas experiências familiares. Noutros termos, sem esta variável poderiam não ocorrer tais experiências na quantidade relevante em que estão acontecendo. Não seria suficiente o desejo, a intenção, a expectativa das mulheres por novas formas de organização familiar se não pudessem dispor, por exemplo, de autonomia financeira, independência material em relação à família e a algum homem.


Ela insistiu, com um último pedido: Mostre-me um exemplo de produção de "sentido" para as ações, ou de 'razões para viver', que funcione hoje.

Disse-lhe: vou lhe mostrar uma "fonte de sentidos" para a vida de uma porção dos indivíduos que conhecemos. E é uma "fábrica de motivações" bastante poderosa. Peço-lhe licença para ler dois artigos que apresentam tal fábrica de valores. Um do Frei Betto e outro do jornalista Eugênio Bucci (ver no texto anterior).




1 Comunicação apresentada em 2002 ao grupo de professores do ensino médio que ministram aulas de Sociologia e que participam das atividades de capacitação promovidas pelo Laboratório de Ensino de Sociologia, vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina.







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