ContribuiçÃo da geologia à pesquisa de água subterrâNEA NO CRISTALINO LUIS SIQUEIRA contribuiçÃo da geologia à pesquisa de



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CONTRIBUIÇÃO DA GEOLOGIA À PESQUISA DE

ÁGUA SUBTERRÂNEA NO CRISTALINO

LUIS SIQUEIRA

CONTRIBUIÇÃO DA GEOLOGIA À PESQUISA DE

ÁGUA SUBTERRÂNEA NO CRISTALINO

LUÍS SIQUEIRA

1ª Edição - SUDENE - 1963
2ª Edição Digital – Fac-símile – 2005



PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
Recife, abril de 1963. Geologia não havia sequer despontado como profissão entre nós, e Luis Siqueira - então um fedelho recém-formado de apenas 25 anos - ousou um texto “para orientar os colegas que em climas semi-áridos e terrenos cristalinos se disponham à pesquisa de água...”

E foi assim, com simplicidade que surgiu a pedra angular da hidrogeologia dos terrenos cristalinos, o embasamento de todo um edifício ainda em construção, e altamente dependente daqueles alicerces iniciais.

Nessa época, Geologia Estrutural era descritiva, primária, e Billings um compêndio avançado. A Hidrogeologia, em todos os seus livros-texto (Tolman, Todd, etc) esquecia ou negligenciava os sistemas aqüíferos cristalinos. A busca de água subterrânea era campo de aventureiros de várias matizes, empirismos e tramas, sem quaisquer bases e registros escritos, entre passíveis e possíveis.

Com seu inabalável ânimo, sua impetuosidade e seu caráter de gostar de enfrentar desafios, com uma vontade juvenil e a “experiência” de 400 poços preexistentes em cadastro, Siqueira se atreveu a escrever a primeira síntese embasado no conhecimento geológico e consignou um clássico no tema, semente que produziu muitos ramos, flores e frutos nas décadas posteriores.

Já nos anos 60, tive oportunidade, nos Estados Unidos e na Europa (Suécia e Itália), de apresentar e discutir as idéias e os métodos de locação formulados por Siqueira para a surpresa e o arrepio de especialistas calejados. Ainda este ano, na Europa (Grécia e Chipre), voltei a discutir estes princípios com especialistas de muitos países, agora para a minha surpresa muitos deles seguindo os métodos hauridos aqui no Nordeste.

O texto inicial de Siqueira foi a um só tempo singelo, honesto e de extraordinário efeito multiplicador. Daquela semente nasceu a CONESP e com ela se desenvolveu a Divisão de Hidrogeologia da SUDENE. E destes, em qualquer parte do Brasil hoje - do Amazonas ao Rio Grande do Sul - há sempre uma descendência, um subproduto, um discípulo, um continuador da mesma árvore tecnológica embrionada em Pernambuco. Nestes termos, disseminando e explorando nossas idéias e métodos, fomentando a Hidrogeologia e o desenvolvimento sócio-econômico do Brasil. Há em todos rincões do Brasil um elo, ostensivo ou não, explícito ou não, com aquelas experiências sudenianas, germinadas a partir do texto original de Siqueira.

Em verdade, sem favor, no contexto do seu tempo, e pelos desmembramentos produzidos, a síntese simples e despretensiosa de Siqueira é um “milestone” do próprio desenvolvimento da Hidrogeologia. Hoje ainda, quando a Geologia Estrutural se aproxima das ciências exatas, quando o conceito de fractais é discutido para os sistemas de fraturas, e quando várias experiências são bem sucedidas na sistematização de equações para a hidrodinâmica dos meios fraturados, a assertiva inicial desta sentença continua válida. As observações de Siqueira, ao seu tempo e circunstâncias, abrem hoje as facetas do problema para a vida moderna da Neotectônica, permitindo que novas jornadas do conhecimento venham a ser percorridas no futuro próximo.

Hoje, quando vários tipos de sistemas aqüíferos cristalinos são reconhecidos, e quando se conta com um universo de cerca de 25.000 poços no nosso semi-árido, é possível melhor aquilatar qualitativamente todas as observações simples de Siqueira, e até a felicidade incomum com que ele as logrou. A idéia de uma segunda edição deste “paper” já clássico é saudada com alegria e merecedora de todos os estímulos. Trata-se do resgate de um trabalho pioneiro e valioso, para que ele sirva de referencial e reflexões construtivas, nas mesmas proporções com que foi ponto de partida de um novo ramo das disciplinas das Geociências.

O progresso no conhecimento dessa face da Hidrogeologia não foi tão grande como queríamos e deveria (faltaram incentivos oficiais e agressividade das nossas universidades), nem tanto como precisávamos, por motivos óbvios. Nesta década há muitas perspectivas, pelo desenvolvimento do conhecimento tectônico e reológico, e devido ao crescente progresso nos meios de exploração. Há perspectivas de muitas luzes, o tema água subterrânea em terrenos cristalinos está em pleno estágio de fluxo. Mas é plenamente possível reconhecer ainda a centelha daquele farol primordial que trouxe todos nós até a este ponto.

Os editores desta segunda edição tiveram a clarividência de perceber como eram óbvias a carência deste referencial (a primeira edição é mais conhecida por suas reproduções xerográficas) e o poder de fogo desta chama, aparentemente tímida e remota, mas de muito calor latente, porque pura, simples, inteligente e honesta.
S. Paulo, Setembro de 1997

BENJAMIM BLEY DE BRITO NEVES

Professor Titular - DGG Igc USP
Í N D I C E

R E S U M O

I N T R O I T O ................................................................................7

CAPÍTULO I. Ruturas ...............................................................8

CAPÍTULO II. Camadas de Quartzito, Metarcósio e Calcáreo

Cristalino ..........................................................-25-

CAPÍTULO III. Faixas de Contato Geológico .............................. -27-

CAPÍTULO IV. Zonas de Profunda Decomposição ......................-31-

CAPÍTULO V. Dobramentos .....................................................-39-

CAPÍTULO VI. A Água no Cristalino ..........................................-41-

B I B L I O G R A F I A ................................................-50-

R E S U M O

O presente trabalho é uma primeira tentativa de equacionar todos tipos de estrutura que nos permitam obter água subterrânea do cristalino. A própria enumeração dessas estruturas, se verifica na ordem decrescente da importância da mesma como corpo acumulador de água subterrânea.

Mais adiante, o autor dá a primeira tabela para cálculo de reservatório de água no cristalino. O cálculo, em sua essência é simplista, porém tem se apresentado positivo, nas várias aplicações a que tem se submetido.

Por fim, o trabalho menciona indicabilidade de se perfurar uma região, visando não agora a quantidade de água, mas a sua qualidade química. O autor menciona entre os diversos fatores limitantes, aqueles atinentes à morfologia, drenagem, pluviosidade e petrografia da região.

Em resumo, visa o autor, com o presente trabalho, orientar os colegas que em climas semi-áridos e terrenos cristalinos se disponham à pesquisa de obtenção de água para o consumo humano e dos rebanhos. É um amontoado de experiência que, cerca de 400 poços perfurados no Nordeste do Brasil, nas regiões do Curimataú, Sabogí, Carirí, Petrolina e Ouricurí, lograram dar ao autor e que por meio deste modesto trabalho ele deseja transmitir aos interessados.

RECIFE, 29 de Abril de 1963


LUIS SIQUEIRA


CONTRIBUIÇÃO DA GEOLOGIA À PESQUISA DE ÁGUA

SUBTERRÂNEA NO CRISTALINO
INTROITO
Devendo ser o mapeamento geológico detalhado, o primeiro passo a ser dado em uma região da qual se pretende conseguir água subterrânea, é obter-se desse mapeamento as seguintes informações básicas.


  1. Coluna estratigráfica

  2. Petrografia

  3. Tectônica

Derivados dessas informações básicas essenciais, estão os seguintes fenômenos que devemos observar em uma região cristalina, e de cujos fenômenos dependerão os bons ou maus resultados obtidos na pesquisa de água subterrânea:


A. Ruturas: Falhas, fendas e fissuras.

B. Camadas de quartzito, metarcósio e calcáreo cristalino

C. Faixas de contato geológico, a saber:

I - Grandes intrusivos

II - Diques e veios

III - Juntas de estratificação, de duas camadas

de grande diferenciação petrográfica.
D. Zonas de profunda decomposição

I - Em peneplanos.

II - Em lagoas.

E. Dobramentos

CAPÍTULO I


  1. RUTURAS: Falhas, fendas ou fissuras.

Na tentativa de disciplinar a interpretação das deformações ou ruturas sofridas pelas rochas, provocadas por esforços tectônicos, tentaremos estabelecer os seguintes princípios:


Iº - Toda rocha, ao ser solicitada, por qualquer tipo de esforço:

I - Deforma-se, sem desdobramento ou fraturamento

II - Dobra-se

III - Sofre rutura.


O Segundo princípio, disciplina o primeiro.
2­º - Cada unidade petrográfica distinta, corresponde diferencialmente a uma solicitação de esforços de igual intensidade.
Daí a comum classificação de rochas em incompetentes, ou seja, as que bem se amoldam aos esforços que as solicitam, deformando-se, dobrando-se; e as competentes; aquelas que logo atingem o ponto de rutura, sem se amoldarem aos esforços tectônicos que as solicitam.
Para um mesmo esfôrço tectônico, será incompetente a rocha que se deformar ou dobrar sem rutura; e menos competente (ou competente) que aquela, a rocha que logo atingir à rutura.
Por êsse motivo verificamos sempre, em certos dobramentos onde rochas competentes se alternam com rochas incompetentes, um fendilhamento naquela e uma acomodação ao dobramento ou simples deformação, nesta. Seria o exemplo de camadas finas de calcáreo cristalino e xisto dobradas. O calcáreo se apresenta todo fraturado, ao passo que o xisto, dobrado, i. é o xisto acomoda-se servindo inclusive de lubrificantes. Pois os blocos separados de calcáreo, ao se deslocarem, sobre a estrutura laminada do xisto confirmam essa classificação grosseira deste como “lubrificante”.
Em uma sequência de rochas metamórficas, de diferentes composições petrográficas, verificamos deflexões da linha de uma fenda ou fissura que a atravesse transversal ou ortogonalmente. Esta deflexão é sempre observada na camada mais competente. Essa observação foi constatada tanto em grande como em pequena escala; isto é, tanto em escala regional, como em escala de afloramento a amostra. ( Ver fig. 1).

EXEMPLO EM GRANDE ESCALA


A = GNAISSE GRANÍTICO

B = BIOTITA XISTO

FENDA

d = DEFLEXÃO

LINEAÇÃO


Fig. 1

EXEMPLO DE PEQUENA ESCALA







Encontramos nas mais diferentes regiões do mundo, constituídas de terrenos cristalinos, os mais diversos tipos de falhas, fendas etc. as quais são geralmente ordenadas na sistemática, segundo a sua gênese, ou segundo a sua disposição, em função do levantamento geológico local. Em hidrologia do cristalino, achamos conveniente classificá-las em função de sua posição em relação à lineação das rochas. A gênese, contudo, é deveras importante na análise tectônica da rutura, pois é desta que se depreenderá a utilitariedade ou não desta mesma rutura.

Considerando sua posição em relação à lineação, as falhas, ou fendas, ou fissuras classificam-se em:

A. Longitudinais ou paralelas à lineação.

B. Transversais ou ortogonais à lineação.

C. Radiais.

D. Concêntricas.

E. Em forma de rabo de cavalo.

F. Horizontais.



  1. A ANÁLISE TECTÔNICA

Observadas as fendas presentes na área que pretendemos estudar, partimos então para a análise tectônica dessas ruturas.


Fig. 2







A - LONGITUDINAL OU PARALELA.

B - TRANSVERSAL OU ORTOGONAL.

C - RADIAL

D - CONCÊNTRICAS

E - RABO DE CAVALO

LINEAÇÃO



FENDA
A FENDA HORIZONTAL, GERALMENTE PROVOCADA POR PAR DE FORÇAS, NÃO PODE SER REPRESENTADA, A NÃO SER EM PERFIL.
Essa análise só poderá ser feita logo após a conclusão do mapeamento geológico. Ela quase sempre exige que o geólogo se desloque para mais além da área limitada aonde pretende aplicar os seus estudos na pesquisa hidrogeológica, e pretenda extender suas atuações profissionais à região circundante limítrofe. Com essas observações, quase sempre tomadas em forma de um reconhecimento, o geólogo tem uma visualização global do comportamento tectônico regional, podendo daí, inferir conclusões a partir das observações tomadas no levantamento detalhado da área menor que ele mapeia. É partir do geral para o particular .
É inegável que as mais diminutas ruturas ou dobras têm, muitas vêzes, suas origens em deslocamentos de massas rochosas ao longo de grandes distâncias; ou em movimentos de ascenção ou subsidência de blocos que possuem milhares de quilômetros quadrados de área de superfície, ou de um sem número de motivações dinâmicas em grande escala. Isso, todavia, não exclue os fenômenos de pequeno porte, que geram ruturas ou deformações locais, e restritas a uma determinada área.

O interêsse, portanto, de se fazer um levantamento generalizado da tectônica em uma área maior que a que se pretende estudar, ou periférica a esta, é satisfatoriamente justificado.

Sabida, então a gênese das ruturas de uma região poderemos dentro desta limitá-las quanto à sua utilitariedade como estruturas favoráveis à acumulação de água. Separaremos as ruturas regeladas, das obstruídas e das abertas. Saberemos inferir a profundidade média dessas ruturas. Poderemos avaliar o seu prolongamento, quando estiverem mascaradas sob o manto de decomposto (regolito). (Ver fig. III).
Da análise tectônica de uma área cristalina que se estuda visando água subterrânea, poderemos constatar a reabertura ou obstrução de uma rutura anteriormente existente, por movimentos tectônicos posteriores àquele que a criou.

Em suma, a análise tectônica de uma região estudada, pode, logo de início, aconselhar ou desaconselhar o prosseguimento dos trabalhos de pesquisa. Patenteie-se aí a extraordinária importância dessa análise, sob todos os prismas sob os quais ela for encarada.


Em nossos levantamentos de campo, procuramos aplicar, sempre que é possível os métodos do geólogo Marland P. Billings, principalmente aqueles dos elipsoides de esforço e de deformação.
2. AS FENDAS MESTRAS
Verificamos, (mais no levantamento de campo do que nas aerofotos e mapas, uma sequenciação lateral e mais ou menos paralela, decrescente em parte, nos fenômenos de ruturas rochosas. É a reconfirmação do princípio que rege os reflexos paralelos, sequenciados e decrescentes de uma

mesma atuação tectônica.








Fig. III
Como as microdobras apresentam parâmetros com direções e valores iguais aos das grandes estruturas dobradas, também as microfendas ou fissuras refletem as grandes ruturas de escala regional. Por isso é que, ao verificarmos uma certa fenda de vários quilômetros de extensão, constatamos lateralmente a esta e quase sempre paralelas a esta, uma série de fendas menores, de poucos quilômetros à hectômetros de comprimento; paralelas também a estas, verificamos ainda fendas de terceira categoria, da ordem de poucos hectômetros a decâmetros. E a sequenciação lateral e paralela continua, refletindo-se em escala de decímetros e centímetros em afloramentos e amostras.

A essas fendas de maior porte, denominamos de Fendas Mestras.


As fendas mestras são também chamadas:

Paráclases - quando se trata de falhamento

Diáclases - quando se trata de fendilhamento sem

regeito.
As fendas secundárias, são também chamadas de Leptoclases ou Adventícias.


As fendas de terceira categoria são também chamadas Piezoclases ou Terciais.
( A nomenclatura Paráclases, Diáclases, Leptoclases e Piezoclases, é uma adaptação de vocábulos utilizados pelo eminente IMBEAUX, em seu trabalho “Essai d’Hidrogeologie”. (Ver fig. 3).



Lineação das ESTRUTURAS

E


XEMPLO EM ESBÔÇO DE DUAS

FENDAS MESTRAS, F1 F’1 e F2 F’2

COM AS FENDAS SECUNDÁRIAS PARALELAS

3. AS FENDAS COMO VAZIOS


Longitudinais - Em tese, acreditamos que todas ou quase todas as fendas transversais são fendas de tensão, e portanto, abertas. Em tese ainda cremos que as fendas longitudinais são geralmente regeladas. São resultantes de esforços de compressão e cisalhamento, e por isso, o mais frequente é ter suas paredes tão firmemente sotopostas que provocam a vedação da fenda ao invés de sua abertura. Contudo o regelamento das paredes de uma fenda longitudinal dependerá, na verdade, da intensidade e duração do esforço de compressão que gerou o dobramento e fendilhamento ou falhamento longitudinal. (Pode também ter sido outro tipo de esforço. Não importa. Importam apenas a sua intensidade e duração).
Esse esforço, por sua vez, é inferido a partir do período de dobramento. Via de regra, o período de dobramento será considerado como tendo sido tão pequeno quanto maior intensidade e duração tiver sido o esforço gerador do dobramento, ou seja, pela distância ortogonal entre os eixos estruturais de duas cúpulas anticlinais paralelas. Pode ainda ser avaliada pelo valor médio dos mergulhos de ambos os flancos dos diversos anticlinais da área em estudos isso é claro, para as rochas metamórficas solicitadas por esforços tectônicos de dobramento e rutura.
Consideremos o seguinte quadro válido para todas as áreas onde se sequenciam anticlinais e sinclinais de metamórficas:

1.1.) Dobramento resultante de pequeno esforço:

Mergulhos de 5 a 30 graus.

1.2.) Dobramentos resultantes de esforços médios:

Mergulhos de 30 a 50 graus.

1.3.) Dobramentos resultantes de grandes esforços:

Mergulhos de 50 a 85 graus.
Ao primeiro caso corresponde uma boa possibilidade de acumulação de água em suas falhas, fendas e fissuras longitudinais, e em suas juntas de estratificação.

Ao segundo caso corresponde uma regular possibilidade de acumulação de água, nas mesmas estruturas acima citadas.

Ao terceiro caso corresponde uma remota possibilidade de acumulação de água em suas falhas, fendas ou fissuras longitudinais e em suas juntas de estratificação. (Ver fig. 4).
É irônico o fato de que, exatamente nas regiões de grande esforço, onde resultam dobramentos de pequenos períodos, se verifica mais frequência de falhamento e fendilhamento longitudinal. Os esforços de cisalhamento (onde as forças tangenciam a linearidade das estruturas) são os que provocam um maior número de ruturas longitudinais.


A = PEQUENO ESFÔRÇO
B = ESFÔRÇO MÉDIO
C = GRANDE ESFÔRÇO


Fig. - 4
Verifica-se frequentemente em rochas metamórficas, a disposição em leques, das estruturas anticlinais e sinclinais. Essa disposição disciplina a utilitariedade das fendas ou falhas longitudinais, e principalmente das juntas de estratificação, quanto ao armazenamento de água subterrânea em seus vazios. Isto é, as fendas, falhas ou juntas, estão tão regeladas quanto mais próximas estiverem do vértice do leque, e, consequentemente, menos regeladas, mais porosas (sob o ponto de vista de porosidade de ruturas ou vazios planares) quanto mais distanciadas desse mesmo vértice. (Ver fig. 5).
Para as fendas radiais, concêntricas e em rabo de cavalo, sugerimos uma análise tectônica à que se efetua para as ruturas longitudinais e para as transversais. Todavia esses tipos de fendas antes mencionadas estão mais intimamente ligados às rochas ígneas. São geralmente pouco espessas e muito profundas. Aquelas concêntricas, são geralmente resultantes de intrusão de diques de uma única massa magmática plutônica daí a sua disposição concêntrica. São por sua própria gênese, preenchidas por material de afiliação magmática. A criação de vazios nesse tipo de ruturas é quase sempre provocada por alteração de minerais:
a) Intemperização das rochas que preenchem as fendas.

b) Alteração pirometamórfica e desagregação mecânica de minerais componentes da rocha encaixante que constitue as paredes da fenda.





Fig. - 5

Á


REA DE PEQUENAS POSSIBILIDADES HIDROGEOLÓGICAS PARA FENDAS OU

FALHAS LONGITUDINAIS, E JUNTAS DE ESTRATIFICAÇÃO.


ÁREA DE MÉDIAS POSSIBILIDADES.



ÁREA DE GRANDES POSSIBILIDADES.

Ambas as alterações criam vazios. Resta determinar localmente qual a intensidade de atuação de cada um desses agentes atuantes para se criar uma idéia do volume de vazios existente nesse corpo de fenda, e a que profundidade ele se extende racionalmente aproveitável do ponto de vista hidrogeológico. Nos climas tropicais úmidos, as alterações por intemperização são muito profundas.

As ruturas horizontais, por serem muito estreitas, e por sua própria natureza sub-horizontal, pouca importância têm como reservatórios.


(As fendas em disposição de rabo de cavalo, são geralmente causadas por condições particulares e específicas de certas áreas. Por exemplo, pelo deslocamento de massas rochosas em sentidos opostos).
Em resumo: a análise tectônica feita no campo e na interpretação de mapeamento resultante, deverá concluir sobre a natureza das ruturas e demais estruturas como fornecedoras de vazios aonde se tenha acumulado água subterrânea. É essa, em resumo, a aplicação prática da análise tectônica.





FFIG. 6

4. A ALIMENTAÇÃO DAS FENDAS

Qualquer que seja o tipo de fenda ou estrutura tendo capacidade de acumular água, necessita, naturalmente, de ser abastecida regularmente.


A rutura, por exemplo, pode ser alimentada através de infiltração direta ou indireta, das águas das precipitações. Um manto de rocha decomposta poderá recobrir a rutura, ou deixar de fazê-lo. No segundo caso, temos a alimentação direta; no primeiro caso, onde a percentagem de água que se infiltra passa gradativamente para o sub-leito cristalino fendilhado, temos o exemplo da alimentação indireta.
A importância da constatação da modalidade de alimentação, reside no fato de ser a alimentação indireta a maior fornecedora de águas demasiadamente mineralizadas, e da alimentação direta não resultar em tal fato.
Todavia, não se faz necessário discutir as possibilidades quantitativas do tipo de alimentação indireta. Basta lembrar o fato de que nas regiões semi-áridas (logicamente as que mais se ressentem da falta de água) apenas 5 a 10% da água precipitada, se infiltra.
Esse tipo de abastecimento, portanto, nem nas melhores hipóteses, pode ser o responsável pelas extraordinárias vazões obtidas em vários poços perfurados na região cristalina do Nordeste brasileiro, e que contam já com decênios de utilização constante.

Em regiões metamórficas e ígneas, é muito frequente observa-se que a drenagem se rege, parcialmente, ao longo de linhas de rutura das rochas. No seu percurso, em sua rota à procura de níveis mais baixos na topografia regional, a água procurará escolher as linhas de menor resistência mecânica ao seu deslocamento de massa líquida. Procurará as ruturas rochosas já parcialmente desagrEgadas, para delas fazer o seu leito.


Quando isso se verifica, o normal é estabelecer-se uma alternância de direções. Nas áreas metamórficas, a drenagem ora segue a lineação, ora segue a direção do fendilhamento transversal. No caso de existir apenas fendilhamento longitudinal, o normal é verificar-se a predominância quase completa de uma só direção de drenagem.
Nos granitos e rochas ígneas, a drenagem oscila. Ora segue a direção das fendas (ortogonais entre si nos granitos) ora segue um rumo inconsequente, em meandros. Esse último caso se verifica mais comumente nas rochas profundamente decompostas. Todavia, mesmo nessas regiões, um bom pesquisador encontrará os locais em que a drenagem coincide com as ruturas.

Esse comportamento da drenagem em função das ruturas regionais, às vezes saltam logo à vista do estudioso do local. Isto acontece quando as rochas são muito expostas, dando à região uma abundância de afloramentos. Em outras regiões, ao contrário, parece fazer desvanecer por completo todas as possibilidades de uma boa locação de poço. Um manto muito extenso e algo profundo de decomposto é, quase sempre, o responsável por isso.

Um estudo detalhado de interpretação fotogeológica no laboratório, com todo o apoio de levantamento de campo, anula, quase sempre, as dificuldades advindas do exemplo acima mencionado.
A coincidência, portanto, da drenagem com o ruturamento das rochas regionais, é a forma de abastecimento mais proveitosa para o preenchimento dos vazios nessas ruturas. É bem frequente nas regiões semi-áridas. Permite, essa modalidade de alimentação de ruturas, um reabastecimento periódico dos vazios, mesmo por ocasião das mais parcas precipitações anuais.
O deslocamento abrupto e torrencial dos cursos de água intermitentes ao longo de seus leitos nas regiões semi-áridas, como por exemplo o Nordeste brasileiro, servirá, talvez de argumento para excluir a possibilidade de infiltração de água nas ruturas subjacentes aos leitos dos ri-achos. Todavia, cremos que isso não é verdadeiro devido à e-levada porosidade dos aluviões componentes dos leitos dos riachos nessas regiões semi-áridas. O próprio deslocamento brusco da caudal líquida, carreia consigo quase totalmente todo o material argiloso e em suspensão, e até mesmo o material clástico fino: É o funcionamento do grande poder de deslocamento de carga do regime torrencial. Fica no leito - ressequido apenas a areia grossa solta, a mais pedregulhos e seixos. As possibilidades de infiltração de água em um material de tal porosidade e permeabilidade, são portanto extremamente favoráveis, mesmo com o deslocamento rápido e turbulento das enchentes periódicas. (Ver fig. 7).
Há possibilidade de pouca obtenção de água a partir de ruturas ao longo das quais correm riachos intermitentes, alimentadores nos casos:

1. - As fendas se situam a uma grande elevação e

deixam esvair-se a água, para as partes mais baixas através de exutórios naturais.

2. - A água é drenada para outras fendas secas, liga-

das àquela abastecida, através de uma rede interna.
Constatado que uma fenda se enquadra em qualquer destas duas situações e que lidamos com uma região semi-árida, deveremos abandonar ao projeto para essas ruturas específicas.
Somente em uma região tropical, úmida, com um elevado índice pluviométrico, é que se pode estudar a possibilidades de perfuração de poços em tais fendas. (Todavia, as regiões de grande precipitação, via de regra, procuram outros métodos para se abastecerem de água.) A perfuração de poços em uma fenda que se enquadrasse em qualquer das duas situações acima mencionadas, forneceria uma elevada vazão, com uma grande e constante variação do nível dinâmico.




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