ContribuiçÃo para o estudo de estaçÕes arqueohistóricas em cabo verde os concheiros de salamanza e joão d'Évora ilha de s. Vicente



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Nova Série, Vol. XXI-XXII, 2000-2001

CONTRIBUIÇÃO PARA O ESTUDO DE ESTAÇÕES ARQUEOHISTÓRICAS EM CABO VERDE

OS CONCHEIROS DE SALAMANZA E JOÃO D'ÉVORA ILHA DE S. VICENTE

M. Conceição Rodrigues *



ABSTRACT

With this work we present the results of the first phase of the archaeological excavation that took place on the shell middem discovered in 1913 by O. G. S. Crawford, in the Salamanza Bay - St. Vincent Island, Cape Verde. In the second part of this work we present the study of the materiais collected bythis Archaeologist in the shell middems of João d'Évora Bay. The prospecting and collection of the sherds were only carried out in 1998 and it followed a visit to the shell middem four years ago. The archaeological excavation was conducted due to the decision of the Ministry of Culture of this African country to find out the shell middems' scientific importance.



PARTE l - O CONCHEIRO DE SALAMANZA l - PREÂMBULO

O trabalho agora apresentado é o resultado de uma leitura arqueo-histórica de actividades desenvolvidas em duas fases distintas. A primeira parte tem por base o trabalho de campo desenvolvido no ano de 1998 e a segunda centra-se no estudo posteriormente efectuado dos materiais arqueológicos recolhidos aquando da descoberta dos concheiros na ilha de S. Vicente - Cabo Verde em 1913, que foram estudados monograficamente.

A primeira fase dos trabalhos surge por decisão do Governo de Cabo Verde e teve lugar na baía de Salamanza. O centro de interesse dos trabalhos de intervenção arqueológica foi um concheiro a que demos o nome da baía onde este se localiza, Concheiro de Salamanza, o qual havia sido revisitado há cerca de quatro anos por elementos ligados ao Centro de Actividades Subaquáticas (CPAS), muito embora sua descoberta tivesse sido em 1913.

A decisão da realização dos trabalhos de campo neste concheiro coube ao responsável pela Cultura daquele país africano, Arquitecto António Delgado, que o considerou de grande inte­resse e também porque pela primeira vez um concheiro era estudado em Cabo Verde. O objectivo

* Investigadora do IICT.

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era esclarecer a sua dimensão e valia. Nesse propósito, foi constituída uma equipa com elemen­tos do CPAS, da Universidade Nova de Lisboa e do IICT, cujos trabalhos tiveram início no dia 26 de Março de 1998 e desenvolveram-se por um período de cerca de duas semanas.

2 - INTRODUÇÃO

A descoberta dos concheiros da ilha de São Vicente em 1913, foi feita por um cidadão inglês e ainda hoje não sabemos por que razão o achado ficou esquecido.

Este dado, porém, fazia parte há já alguns anos dos registos da autora, nomeadamente desde os finais dos anos 70, pois na sua qualidade de especialista em Pré-História e Arqueologia africana dispõe de registos das diferentes estações ou locais de interesse arqueológico, nomea­damente os relativos às ex-colónias, obtidos em diferentes museus e instituições nacionais e estrangeiras que tem visitado. Estes elementos permitiram, após ter sido solicitada a sua colabo­ração para trabalhar naquele local e antes mesmo do início dos trabalhos, ter já a confirmação da existência de concheiros precisamente na ilha de S. Vicente, bem como a informação do nome do seu descobridor e data da descoberta, permitindo estabelecer contactos, bem como obter infor­mações sobre o espólio então recolhido.

Com esta intervenção arqueológica efectuada em Cabo Verde, pretendeu-se, entre outros aspectos, valorizar, salvaguardar e preservar a parte possível daquele património e integrar os resultados no âmbito da História de Cabo Verde, que está a ser construída, como é do conheci­mento geral, por investigadores portugueses e cabo-verdianos com o apoio de instituições dos dois países.



3- AMBIENTE GEOGRÁFICO

Geograficamente, o arquipélago de Cabo Verde fica na zona de separação das águas frias da corrente das Canárias e das águas meridionais, como refere Ilídio do Amaral 1. Duas estações caracterizam o clima das ilhas: «tempo das brisas» ou estação seca (de Dezembro a Junho) e «tempo das águas» ou estação das chuvas (de Agosto a Outubro). As chuvas são muito irregula­res e frequentemente os valores de pluviosidade são muito reduzidos ou quase nulos.

O clima deste arquipélago é oceânico e temperado, embora muito seco.

A ilha de São Vicente onde o nosso trabalho se desenvolveu situa-se no Grupo Ocidental das ilhas do Barlavento (Fig. 1), sendo esta ilha de uma aridez impressionante. Tem uma superfí­cie aproximada de 227 quilómetros quadrados e uma altitude máxima de 725 metros. O ponto mais alto da ilha situa-se no Monte Verde, do qual se desfruta um panorama de uma beleza misteriosa.



4 - ASPECTO GEOLÓGICO

A ilha de S. Vicente é árida e o solo de natureza eólica está sob a influência das areias saarianas. O seu aspecto é, segundo António Serralheiro 2, um grande vulcão misto desmantela­do. A morfologia dominante corresponde à da grande caldeira, parcialmente invadida pelo mar, na qual se situa o porto da ilha (chamado Porto Grande) e sobrepujada pelos relevos da bordeira.

A caldeira parece ter uma dimensão exagerada em relação ao cone do vulcão, mas, como refere A. Serralheiro, tal facto deve-se ao recuo da bordeira que, embora retalhada pelos vales, conserva a forma circular.

Este aspecto está bem patente na carta, considerada dos finais do século XVIII, atribuída a



1 História Geral de Cabo Verde, vol. l, 1991.

2 Contribuição para o conhecimento Geológico da ilha de S. Vicente - Cabo Verde, 1966. O reconhecimento geológico (parcial)
da ilha de S. Vicente a que tivemos acesso, foi o realizado, em 1963, pelo investigador António Serralheiro, sob o patrocínio da JIU.

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António C. Andreis (existente na Biblioteca Municipal do Porto) (Fig. 2).



5 - LOCALIZAÇÃO DA ESTAÇÃO

O Concheiro de Salamanza situa-se na face norte da ilha de São Vicente e na baía que lhe deu o nome e localiza-se a cerca de 11 Km do centro da cidade do Mindelo. Aproximadamente a um quilómetro e para Oeste do concheiro, localiza-se a aldeia piscatória com o mesmo nome.

Coordenadas aproximadas: 24° 56' 40" longitude oeste - 16° 54' 20" latitude norte, carta 1:75.000 da Comissão de Cartografia de 1932 (Fig. 3).

6 - O PASSADO HISTÓRICO

De acordo com os registos históricos, as ilhas de Cabo Verde foram descobertas no ciclo das navegações portuguesas, entre 1460 e 1462 e estavam desertas 3. Tal situação contraria o que António Pusich assinala (Memórias, 1810) no Artigo 3° ao afirmar que "quando se descobri­ram estas ilhas unicamente se achou povoada a de S. Tiago". Segundo a tradição, estes habitan­tes teriam vindo da costa da Guiné, mas, tal dado carece de fundamento 4. Outro autor, Ilídio C. Baleno 5, considera as provas e os argumentos existentes insuficientes, relativamente ao povoa­mento das ilhas antes da chegada dos portugueses. O Prof. Luís Albuquerque considera também, vagas as informações sobre o conhecimento de algumas ilhas antes do século XV e as visitas consideradas prováveis foram certamente esporádicas, nunca dando lugar a uma ocupação e ficaram esquecidas 6.

O povoamento daquele arquipélago foi iniciado pela ilha de S. Tiago a partir de 1462, por razões geoestratégicas. A sociedade insular criada era composta por dois estratos: os brancos e os africanos, estes, na sua maioria, escravos. Foram assim, introduzidos nas ilhas (europeus e africanos) dando origem à sociedade crioula através das permutas culturais, fundidas em diferen­tes aspectos da vida diária, da estrutura social, das crenças, das formas musicais, dos usos linguísticos e outros, respondendo ao desafio da sobrevivência local.

No que concerne à ilha de S. Vicente, esta ilha surge referida pela primeira vez numa carta régia datada de 19 de Setembro de 1460, conjuntamente com os nomes de Brava, Sam Nycollao, Rasa, Branca (ilhéus) e Santa Lusia 7. Este investigador assinala ainda que, noutra carta de 29 de Outubro de 1462, se regista o seu descobridor - Diogo Afonso. A sua representação gráfica surge, com algumas outras ilhas do arquipélago, numa carta da costa de África, desde o Cabo Branco até ao Cabo Mensurado, apresentada num Atlas de 1468 e referida por Armando Corte­são 8 pertence ao Museu Britânico (Add. Ms. 6390 - London) (Fig.4).

Numa aproximação aos factores considerados mais favoráveis à colonização deste arquipé­lago temos: a ausência de outro local para os portugueses desenvolverem, a partir de um ponto fixo, a sua estratégia comercial com os Rios da Guiné, dado que aqueles viviam e comerciavam postados em frente da costa da Guiné em "feitoria", que funcionava a bordo de um navio e precisavam de uma alternativa, a partir da qual pudessem implantar com segurança a sua sobe­rania. O povoamento daquelas ilhas que tanto interessava ao então Rei de Portugal, dada a sua localização geográfica, podia também permitir o reconhecimento da faixa costeira africana e do sul do Atlântico. Muito embora os reis de Portugal se intitulassem "senhores da Guiné", desde o

3 Ilídio do Amaral, História Geral de Cabo Verde, vol. l ,1991.

4 Orlando Ribeiro, As ilhas de Cabo Verde no principio do século XIX, 1956.

5 História Geral de Cabo Verde, vol. l ,1991.

6 História Geral de Cabo Verde, vol. l, 1991.

7 Teixeira da Mota, Cinco Séculos de Cartografia das ilhas de Cabo Verde, 1961.

8 Armando Cortesão, History of Portuguese Cartography, vol II, Lisboa, JIU, p. 186.

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século XV, não parece ter havido qualquer ligação ou laço real, nem de dependência política com os reis Guineenses.

Na sociedade cabo-verdiana os brancos eram, segundo M. Emília M. Santos 9, um grupo minoritário e constituído por reinóis portugueses, castelhanos e genoveses, atraídos pela situa­ção geográfica das ilhas em relação à costa da Guiné. As possíveis razões para o seu estabeleci­mento eram os privilégios que usufruíam, assim como certas isenções fiscais. A colonização, como vantagem geográfico-comercial, era vista como uma oportunidade única de se exercer com facilidade uma actividade lucrativa sem confrontação com populações que por vezes se revela­vam hostis, como as que habitavam na costa africana.

O estrato dos escravos, compulsivamente "capturados" e trazidos da costa africana, para serem reexportados para a então América Espanhola ou para a Península Ibérica, constituíam uma "mercadoria" altamente rentável, sendo esta uma das principais razões da implantação do povoamento nas ilhas, que funcionavam como interposto comercial, com relevância para a ilha de S. Tiago. A existência do comércio de escravos levou ao alargamento das actividades dos morado­res à agricultura e pecuária, sendo o escravo empregue como mão-de-obra nessas produções e simultaneamente assim, se obtinham produtos e artigos exportáveis, quer para as permutas na costa da Guiné, quer até para o Reino (Portugal).

A estruturação da sociedade nas ilhas foi sendo determinada por estes dois estratos: o grupo europeu que impôs o modelo de sociedade na qual os escravos foram integrados sem outra opção mas, essa integração também os nivelou, atenuando as heterogeneidades.

Quanto ao privilégio de armar para a costa da Guiné, este era exclusivamente outorgado pela Coroa a indivíduos munidos de licença (passada pelo rei de Portugal), o que proporcionou a formação de grupos sociais privilegiados, sob o estatuto de "moradores" e "vizinhos", cujo de­senvolvimento levou a que os primeiros passassem a ser designados por armadores-moradores. Este tornou-se o eixo em torno do qual girava o circuito do comércio entre as ilhas de Cabo Verde e a costa da Guiné. A limitação destes privilégios foi imposta pela Carta de 1472, na qual se determinava que os armadores usassem no resgate apenas as mercadorias produzidas local­mente, o que tornou vital o fomentar da produção interna, levando deste modo ao desenvolvimen­to da agricultura, da pecuária e do artesanato.

Como consequência, o escravo passou a ter um papel de grande significado, pois o arma­dor dependia muito mais dele, para fazer render o seu capital. Este era simultaneamente um proprietário rural e um armador e o escravo tornou-se indispensável para obtenção de produtos que permitissem ao armador controlar o resgate de mais escravos, o que colocou estes no centro da economia insular.

Esta estabilidade comercial foi possível devido à divisão e repartição do Atlântico com a homologação papal, na sequência dos Tratados das Alcáçovas (1479) e de Tordesilhas (7 de Julho de 1494), tratados esses estabelecidos apenas com as coroas portuguesa e espanhola. Estes "Tratados" estabeleceram uma ordem geo-política válida para a cristandade e, na prática, permitiram territorializar o Atlântico, o que mostra que na época, as razões de Estado se projecta­vam sobre as terras, os mares e os homens.

Os interesses comerciais assentavam no comércio de escravos. Estes eram resgatados nas costas da Guiné pelos armadores de Cabo Verde (principalmente das ilhas de S. Tiago e Fogo) dando resposta a contratos de compra feitos com antecedência por mercadores europeus,



1 História Geral de Cabo Verde, 1991.

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nomeadamente de Sevilha, o que permitia um rápido abastecimento dos navios, quando estes aportavam nas ilhas, com destino às então chamadas "índias de Castela" (hoje ilhas de Cuba e Haiti).

Esta sociedade de burguesia mercantil era contudo muito vulnerável, com dependências e geradora de grandes desigualdades. Na sociedade cabo-verdiana viviam também homens bran­cos pobres e sem ofício. Estes eram considerados inúteis pelos poderosos e quanto aos negros forros, cuja oferta de trabalho se substituía com vantagem pelo trabalho de escravo, levou a que ambos tivessem uma vida difícil. Viviam de esmolas e eram considerados marginais. Houve tam­bém negros forros que conseguiram algumas ocupações como "serventia" de porteiro, carcerei­ro, além de serem também utilizados como marinheiros e "línguas" entre outras actividades 10.

A territorialização do Atlântico como exclusivo ibérico, não se poderia manter e alterou-se: primeiro, devido às filosofias do direito universal de circulação – o jus communication – (11) e segun­do, quando uma parte significativa das cidades portuárias europeias aderiram ao movimento protestante, o cisma que dividiu a cristandade, e assim se libertaram da obrigação jurídica e moral que lhes fora imposta com o Tratado de Tordesilhas, o qual permitia o acesso exclusivo dos navios portugueses às costas da Guiné.

Deste modo, o espaço comercial africano no qual se jogava a sobrevivência económica de Cabo Verde, começou a ser alterado com o surgir das primeiras incursões exploratórias, mercan­tis e corsárias dos armadores dos portos franceses, apesar de muito reivindicado pelos portugue­ses como área exclusiva de domínio político. O arquipélago passou a sofrer ataques de surpresa e acções de pilhagem. Os ingleses, os holandeses e os franceses vão poder comerciar no Atlân­tico, que era um espaço económico altamente elaborado e obter lucros já na segunda metade do século XVI 12.

Esta situação conduziu a uma alteração do meio socio-económico e a partir do século XVII, a Guiné passou a dispor de um capitão-mor, sendo os factores dessa decisão, a defesa dos "Rios" de comércio da região, e a qual é lamentada por toda a sociedade cabo-verdiana ligada aos armadores-mercadores. Estes homens, que se haviam tornado poderosos, controlavam a Câmara, formaram e dirigiram as parcerias comerciais entre si e com os mercadores estrangei­ros, levaram à ocupação efectiva das ilhas do arquipélago completada com a introdução de espé­cies animais e vegetais, sendo estas de origem europeia, africana e ameríndia. Mandaram cons­truir casas de pedra e cal servidas por jardins, pomares e hortas e ainda dirigiram as confrarias religiosas. Todo este poder foi obtido através do comércio de milhares de escravos que, como mão-de-obra, criaram e desenvolveram uma produção interna centrada na agricultura e pecuária, que fornecia os produtos necessários para o resgate na costa.

Com estas alterações, os filhos da terra vão começar a ter peso e a preencher os lugares na administração, quando a renovação de homens brancos se tornou insuficiente, porque os atractivos deixaram de existir, os filhos dos brancos permitiram aos filhos mulatos (legitimados) a administração dos bens paternos. Esta situação foi intensificada na 2a década do século XVII, com o despontar da crise comercial e a diminuição dos lucros com o trato na costa africana.

Esta sociedade mercantil de Cabo Verde, que cresceu e subsistiu cerca de duzentos anos à custa das relações mercantis com a costa da Guiné, era uma sociedade "escravocrata", como lhe chamou António Carreira. Entrou em declínio quando, com autorização régia, se tornou possí­vel resgatar directamente nos Rios de Guiné, o que levou os barcos com destino ao Novo Conti-



10 Iva Cabral, História Geral de Cabo Verde , vol. II, 1995.

"-12 A. Correia e Silva, História Geral de Cabo Verde, vol. II, 1995.

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nente a passar ao largo, isto aliado ao alto custo de vida, à pirataria e ao corso que largamente se fizeram sentir. Para lá das cidades e do porto, erguia-se o espaço no qual predominava a agricul­tura, a pecuária e o povoamento disperso, e onde a sociedade verdadeiramente inserida no sector primário com uma organização de espaço e funções económicas próprias, vai prosseguir. Sem nos determos em análises minuciosas, julgamos importante sublinhar o significado e o valor do passado histórico que conduziram ao desenvolvimento socio-cultural da sociedade cabo-verdiana, constituída por habitantes que tinham ali chegado como resultado de imigrações voluntárias ou forçadas, centrando-se nestes últimos, em nosso entender a razão da existência destes concheiros e eventualmente de outros, que possam existir ou ter existido em outras ilhas do arquipélago.



7 - O TRABALHO DE CAMPO

O trabalho de campo no Concheiro de Salamanza centrou-se na prospecção, definição, levantamento e recolha de espólio, com o objectivo de permitir a datação daquele concheiro.

A área com interesse arqueológico centrava-se numa zona de duna que formava uma plata­forma ligeiramente mais elevada, entre os vestígios de duas ribeiras, junta à orla marítima, mas de certo modo defendida das marés pela barreira rochosa natural existente dentro de água. De cada lado desta zona mais elevada, o espaço era utilizado como arrastadouro de barcos de pesca artesanal pelos diversos pescadores da zona. Regista-se também a presença de dois núcleos habitacionais de uma reduzida população estante a Este do concheiro.

71- Descrição e Análise dos Trabalhos - Metodologia

7.1.1 - Prospecção

Começou-se por analisar a área envolvente da estação, situada junto da orla marítima e o concheiro. Este desenvolveu-se entre os leitos secos das ribeiras de Amargosa e a de Salamanza, as quais foram também prospectadas. No leito seco da primeira, verificou-se a existência de uma significativa quantidade de uma espécie de cucurbitaceae, de que recolhemos dois exemplares para identificação. Segundo leva a crer, são de geração espontânea, porque não parece que a população que passava e vivia naquelas paragens delas fizesse caso. Recolhemos ainda o que à primeira vista nos pareceu uma pequena "pedra rolada", que se encontrava no plano superior do concheiro na areia molhada, que despertou a nossa atenção devido à sua cor azul.

7.1.2 - A Intervenção Arqueológica

Os trabalhos desenvolveram-se sob a orientação da autora durante a primeira semana, depois da análise da cartografia disponível e publicada na escala 1:75.000 (Comissão de Carto­grafia, Ministério das Colónias, 1932), com vista à identificação da área, sua localização geográ­fica e topográfica.

O primeiro passo da intervenção consistiu no reconhecimento dimensional do concheiro, o qual permitiu obter um registo de cerca de 23 metros de comprimento. Procedeu-se depois à sua marcação no terreno de modo a permitir a identificação do espólio por sectores. A marcação foi desenvolvida de Este para Oeste com espaçamentos de l metro e o seu ponto mais elevado situava-se no sector O (compreendido entre o marco 15 e o 16), no qual se registou uma altura de 110 centímetros; apresentando nos extremos, marcos O e 23, uma altura de cerca de 10/15 centímetros.

Os aspectos mais significativos do que era à partida visível, foram registados no esboço do concheiro que elaborámos (Fig. 5a). A zona de derrube tinha grande predomínio e precisava de ser retirada para permitir a completa definição da estratigrafia do concheiro, bem como a sua altura

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total. Assim, a intervenção nesta estação arqueológica circunscreveu-se inicialmente à zona de derrube que se nos oferecia, e cuja remoção se iniciou pelos extremos. Nos três primeiros metros a Este, esta forneceu parcos materiais: conchas fragmentadas e uma acumulação de fragmentos de algas fósseis (corais) inseridas em areias friáveis, definindo-se desde logo o que se conside­rou ser a base do concheiro (b.c.).

Entre os marcos 22 e 23 no extremo Oeste, a área de derrube não forneceu nada de significativo, apenas permitiu delimitar o concheiro no sector V. Os trabalhos prosseguiram com as recolhas de superfície na zona de derrube, respeitando os sectores previamente marcados no terreno. Registou-se um predomínio da presença de grandes patellas, fissurellas e algumas cypreae, uma grande representação de ossículos e de espinhas de peixe, de pequenos fragmentos de bordos e bojos de cerâmica comum, registando-se também a presença de alguns grandes frag­mentos de placas de argila, com fuligem na face não alisada, um pequeníssimo fragmento de porcelana oriental e vários fragmentos metálicos, nos quais se incluía uma parte de garfo que se encontrava à superfície.

Após esta fase, foi possível proceder à regularização do corte para definição da estratigrafia cujo aspecto final se apresenta (Fig. 5b) 13. A definição da orla frontal do concheiro, para registo da sua estratigrafia foi por nós desenvolvida e depois continuada sob a orientação do Doutor João Cardoso da UNL, bem como a recolha de materiais para permitir a datação por Carbono 14.

7.1.3 - Sequência Estratigráfica

Da observação atenta da duna (Fig. 5b), verificou-se que o horizonte superficial do concheiro era definido por inúmeros blocos de pedra de diferentes dimensões, os quais permitiram a sua consolidação, dado que estes se posicionam praticamente ao longo da sua orla, se bem que irregularmente distribuídos. Segue-se um estrato constituído por areia de cor cinzenta escura sobre a qual assentavam grande quantidade de conchas, com destaque para as grandes patellas, estando estas largamente concentradas dos sectores G ao T (o espaço compreendido entre os marcos 7 e 20), assim:

- No sector O (entre os marcos 15 e 16), que abarcava o ponto mais alto do concheiro, concentrava-se grande número de pedras de diversos tamanhos, dispostas desordenadamente numa areia cinzenta escura, bem como um significativo número de patellas e outras conchas, espinhas e alguns pequenos fragmentos de cerâmica que se apresentavam mais ou menos so­brepostos e presentes à superfície. Este horizonte do nível superior constituído por pedras e areia cinzenta era bem evidente ao longo da parte central do concheiro e apresentava uma altura de cerca de 50 centímetros. Em alguns pontos era subdividido em camadas delgadas, formando uma bancada rochosa, bem identificada nos sectores Q, R e parte do S.

Estes dois aspectos formavam o que se pode considerar o primeiro nível ou nível superior do concheiro.

O estrato que consideramos corresponder ao segundo nível do concheiro, era principalmen­te definido por várias bancadas, dispostas horizontalmente, fazendo zonagem, as quais apresen­tavam diferentes tonalidades de cinzento, determinando uma nítida separação entre estas cama­das e a areia mais ou menos friável, que seguia e se distribuía até à base do concheiro, a qual apresentava tonalidade e textura diferente.

Foi neste segundo nível e paralelamente a estas bancadas dispostas horizontalmente a



13 Devido a um acidente sofrido pela signatária não nos foi possível elaborar na altura a representação gráfica e a descrição final da estratigrafia do Concheiro, tendo sido registados apenas os seus aspectos mais significativos e os materiais que este~forneceu.

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cerca de 40 centímetros da base do concheiro que se detectou, o que se considerou ser, uma zona de ocupação. Esta era formada por um pavimento de argila com cerca de 2 centímetros de espessura, distribuindo-se nitidamente desde o sector H / l ao sector L e prolongando-se. Este pavimento pode ter sido o chão de uma construção, à qual teria estado associado um "amontoa­do" de pedra seca, que se apresentava derruído para o exterior, podendo ter formado uma estru­tura doméstica ou servido de paravento.

No exterior do pavimento concentrava-se um nível de cinzas e lentículas de carvão, que podemos considerar provenientes de varreduras (que podem ter sido efectuadas durante a fase de ocupação) ou apenas o resultado dos ventos.

Voltando ao sector O, este apresenta neste segundo nível uma série de camadas horizon­tais de diferentes tonalidades de cinzento, bem definidas e a partir das quais até à b.c. se concentraram diferentes variedades de conchas das quais se salientam as fissurelas, os maxila­res de esparídeos (Sparedae) (como pargos, besugos e douradas), um dente provavelmente de caprino e alguns fragmentos de cerâmica, sendo um deles decorado por impressão de motivos circulares. Este estrato distribuía-se a cerca dos 50/40 centímetros da base do concheiro e a partir do qual se concentravam fragmentos de plastrão (face ventral de tartaruga) e de carvão dispostos próximos uns dos outros e até cerca de 30 centímetros da b.c., no qual se registava também a presença de conchas, de menores dimensões.

Merece ainda especial destaque o sector S, que apresentava abaixo do primeiro nível e a seguir ao estrato definido pela bancada rochosa, grandes quantidades de patellas (bem visível na Fig. 5b). Evidenciam-se ainda outros tipos de conchas, ossículos, espinhas e grandes fragmentos de plastrão que se distribuíam quase até à b.c. Este sector forneceu também alguns fragmentos de cerâmica comum. Na areia da base do concheiro e a cerca de 60 centímetros do seu topo - no sector T (no estremo oeste), registou-se a presença de um amontoado de ossos de caprino, estando alguns em conexão anatómica e no centro deste amontoado, como se fosse uma mensa­gem, encontrava-se um fragmento de seixo que parece ter sido ali colocado intencionalmente.



8 - OS MATERIAIS - CARACTERIZAÇÃO

O inventário total do espólio que poderia ter interesse estatístico não será possível apre­sentar, muito embora a escavação tivesse sido feita, inicialmente, segundo as unidades definidas e utilizando o colherim, o que devia permitir a avaliação dos materiais existente, além da defini­ção da estratigrafia ou camadas. Houve também um processo de crivagem e triagem, mas acon­tece que, posteriormente, não houve interesse pela importância dos mesmos.

No que concerne aos materiais do horizonte superficial, que foram já anteriormente cita­dos, nesta fase passamos apenas a referir a distribuição espacial dos mais representativos e recolhidos na regularização dos diferentes sectores, para a definição da estratigrafia no perfil frontal do concheiro. A combinação de todos os elementos e materiais recolhidos ou observados podem servir para documentar aspectos da vida, economia e da dieta alimentar dos utilizadores/ habitantes do sítio .

A regularização do corte para "leitura" da estratigrafia permitiu definir estruturas articula­das com artefactos e resto de fauna, além de calhaus cuja presença pode ter duas causas possíveis: a acção do homem (sendo nesse caso "manuports") ou o resultado de acção natural.

Desta definição destacamos:


  • O sector F (entre os marcos 6 e 7) forneceu um fragmento de bojo de cerâmica comum, de
    cor cinzento, proveniente de uma camada de areia sem conchas e a cerca de 30cm da b.c.

  • No sector J (entre os marcos 10 e 11), sob a estrutura de um pavimento de argila, numa

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abertura que os seus construtores/utilizadores produziram no pavimento, recolheu-se um recipi­ente cerâmico intacto. Curiosamente, apresentava-se com a boca virada para baixo e em bom estado de conservação. Quanto à sua morfologia, apresenta uma pança ovalóide, colo ligeira­mente divergente, fundo convexo e localizava-se a uma distância de cerca de 30 centímetros da b.c.


  • No sector O (entre os marcos 15 e 16), merecem destaque 3 fragmentos de cerâmica sem
    decoração, sendo possível determinar num deles a sua morfologia: recipiente globular que apre­
    sentava um fragmento do bordo e pança, com colo divergente, permitindo considerar que o fundo
    seria convexo e de cor vermelha acastanhada.

  • O sector P (entre os marcos 16 e 17), forneceu um fragmento de cerâmica comum que se
    encontrava por cima de restos de plastrão (a cerca de 40 centímetros da b.c). Este fragmento
    pertencia ao bojo de um recipiente globular. Na camada superior foram recolhidas duas amostras
    líticas, variedades de sílica amorfa, sendo uma, um pequeno nódulo jaspóide e a outra uma
    esquírola de cherte.

8.1 - Material Cerâmico

O núcleo de materiais cerâmicos dito de "cerâmica tradicional" recolhido nesta fase do trabalho, revelam um fabrico manual sem roda de oleiro. As paredes apresentam uma espessura média da ordem de l cm a 1,5 cm, uma pasta bem elaborada, cuja superfície exterior foi apenas alisada e a interior ainda menos cuidada. Regista-se a presença de vários tipos de bordos e identifica-se pelo menos seis formas distribuídas por três tipos de recipientes no que concerne à morfologia: recipientes aparentemente esféricos, globulares e ovalóides, com colos mais ou menos divergentes e fundos convexos.

Quanto à decoração, verifica-se a existência de motivos impressos, obtidos com carimbo denteado, que se apresentam bem marcados na pasta e desenvolvem-se em banda apenas no bojo, como parece documentar o fragmento (Fig. 6).

Muito embora não tenha sido possível efectuar a análise comparativa da pasta das cerâmi­cas fornecida pelo concheiro com a das argilas recolhida nos barreiros actuais da ilha de S. Vicente, estas parecem integrar-se, quanto ao tipo morfológico, no contexto das cerâmicas da Idade do Ferro africana, na sua fase final. Tendo em atenção a terminologia adoptada, estas podem enquadrar-se na segunda fase da 2a Idade do Ferro africana.

A cerâmica dita de "importação" está documentada por um pequeno fragmento de porcela­na de tipo oriental, no qual se evidencia o vidrado branco e motivos de cor dourada, o que permite considerar tratar-se de um fabrico recente e ter sido certamente levado pelas marés.

8.2 - Metálicos

Os fragmentos metálicos que o concheiro forneceu não permitiram determinar a que tipo de peças ou artefactos pertenceram. São sobretudo fragmentos de ferro e pequenas placas que não se tornou possível identificar.



8.3 - Material Malacológico

Quanto aos materiais malacológicos marinhos fornecidos, destacamos as diferentes espé­cies de conchas (ou esqueleto externo de um animal de corpo mole -molusco):



  • Thais nodosa (Linné, 1758)

  • Thais haemastoma (Linné, 1758 )

  • Cypreaecassis testiculus (Gmelin, 1791) - 6,5 cm, também conhecida por Cassis testiculus
    (Linné, 1758).

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  • Cypraea Luria lurida (Linné, 1758) - 4,5 cm

  • Spondylus senegalensis (E. A. Smith) (antes Spondylus powelli)

  • Spondylus gaederoupus - 7,5cm (Linné,1758)

  • Patella (Patellona) lugubris (Gmelin, 1791) - 4,2 a 5,4 cm

  • Patella guttata D'0rbigny (Gmelin, 1791) (sinónimo de Patella piperata)

  • Fissurella alabastrites Reeve (Fig. 7).

Estas espécies são análogas às do concheiro de João d'Évora, representados na figura 16, não estando, porém, nesse referenciadas as fissurellas, que apenas foram recolhidas no concheiro de Salamanza.

8.4 - Material Osteoiógico

Os vestígios osteológicos de origem marítima são predominantemente ossículos e espi­nhas de peixes muito fragmentadas, placas da face ventral da tartaruga (plastrão); os terrestres estão documentados por uma significativa quantidade de ossos de caprino.



8.5 - Elementos Botânicos

Os elementos botânicos fornecidos pela recolha na zona envolvente do concheiro, que procurámos igualmente caracterizar, são exemplares de cucurbitaceas recolhidos no leito da ri­beira - plantas herbáceas, cuja designação botânica actual é Colocynthis vulgaris (Linné) Schrad, tal como aparece documentada por J. Berhaut14. É uma planta anual e desenvolve-se em terre­nos arenosos, com folhas de cor verde, apresentando um contorno triangular e um comprimento de 8 a 12 centímetros. Os frutos do tipo pequena meloa, são de cor amarelada com zonado ligeiramente esverdeado ou amarelo mais intenso, consoante o estado de maturação (Fig. 8).



8.6 - Elemento Mineralógico

Na plataforma superior do concheiro, por onde a água das marés circulava livremente, foi recolhido o que se pode considerar um pequeno "seixo" silicatado de cor azul turquesa. Mineralogicamente é essencialmente constituído por sílica quartzosa.



9 - CRONOLOGIA

Relativamente ao trabalho de datação do Concheiro de Salamanza, obtida pelo método do Carbono 14 com base dos materiais orgânicos ali recolhidos, constituídos por conchas e ossos, efectuada no Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN), os resultados permitiram estabelecer a crono­logia absoluta do concheiro definida entre os séculos XV e o XVII d.C.

Pela análise dos resultados, podemos considerar que esta cronologia abarca o período que se considera representativo da fase inicial da ocupação das ilhas, ao período áureo do comércio de escravos. Somente com o seu desmonte se poderão obter elementos que permitam novas datações para a confirmação da sua cronologia.

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