ContribuiçÃo para o estudo de estaçÕes arqueohistóricas em cabo verde os concheiros de salamanza e joão d'Évora ilha de s. Vicente



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PARTE II - OS CONCHEIROS DA BAÍA DE JOÃO D'ÉVORA - ESTUDO DOS MATERIAIS FORNECI­DOS

l - PREÂMBULO

A segunda parte do nosso trabalho vai centrar-se no estudo das cerâmicas recolhidas nos concheiros da Baía de João D'Évora (pelo seu descobridor), em 1913, dada a sua importância e ainda porque um concheiro é um registo silencioso da vida passada.



14 Flora Ilustrada do Senegal, tomo III, 1975.

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CONTRIBUIÇÃO PARA O ESTUDO DE ESTAÇÕES ARQUEOHISTÓRICAS EM CABO VERDE

Depois dos contactos estabelecidos com a instituição a quem o arqueólogo O. G. S. Crawford entregou o espólio recolhido nos concheiros que localizou em São Vicente (Cabo Verde), tivemos já a oportunidade de, a convite da mesma, estudar o material arqueológico e de efectuar uma atenta leitura da sua autobiografia editada nos anos 50. As dificuldades da vida das populações em São Vicente, estão ali referidas e assinala a presença dos concheiros por ele encontrados quando passeava ao longo da costa, bem como o tipo de materiais que recolhera.



2 - INTRODUÇÃO

Nesta fase do nosso trabalho são objecto de estudo os materiais inéditos recolhidos em estações que se podem considerar arqueo-históricas - os concheiros localizados na pequena baía de João d'Évora.

O espólio recolhido pelo Dr. Crawford, aquando da descoberta dos concheiros, incluía con­chas, fragmentos cerâmicos e de metal, referindo ainda aquele investigador nos seus escritos a presença do que chamou "Molucca beans", flutuando nas ondas junto à areia e que considerou como provenientes das índias Ocidentais.

Vamos procurar fazer um estudo destes materiais, centrado na caracterização do núcleo de cerâmica dita "tradicional" fornecido por estes concheiros, dada a sua importância no contex­to da ceramologia da Idade do Ferro africana.



3 - LOCALIZAÇÃO DA ESTAÇÃO

Os concheiros da baía de João d'Évora situam-se também na face norte da ilha de São Vicente e localizavam-se de cada lado do extremo da ribeira com o mesmo nome. Situando-se essa baía geograficamente na continuidade da de Salamanza e próxima de uma aldeia piscatória, isto é, a Oeste do concheiro de Salamanza, na ilha de S. Vicente. A sua distância à cidade do Mindelo será de cerca de 12 quilómetros. A sua localização está também referenciada no esboço da carta que Crawford elaborou a partir do Mapa da Comissão de Cartografia, datado de 1887, de que se apresentam cópias, (Hg. 9 a) -b)).

Coordenadas aproximadas: 24° 57' 20" longitude oeste - 16° 54' 40" latitude norte, carta 1:75.000 da Comissão de Cartografia de 1932 (Fig. 3).

4 - PROSPECÇÃO

Tudo aponta no sentido de Crawford ter começado por analisar a área dos concheiros, que fotografou; situando-se estes junto da orla marítima e desenvolvendo-se dos lados do final do leito da ribeira de João d'Évora. Na orla marítima, flutuavam pequenas sementes igualmente recolhidas por despertarem a atenção daquele investigador.



5 - TRABALHO DE GABINETE
5.1 - Os Materiais - Inventário

Tornou-se difícil a localização deste espólio, ao fim de tantos anos, como nos disseram, muito embora a autora deste artigo tivesse já conhecimento da sua existência desde finais dos anos 70. Por outro lado não sabemos hoje o seu número real, apenas o tipo, dado que o inventá­rio total a que tivemos acesso, tal não aparece referido e na carta escrita pelo próprio Crawford, em Julho de 1913, também não o esclarece; apenas refere os materiais e assinala os locais de recolha, documentados por fotografias a preto e branco, que foram digitalizadas para melhorar a sua leitura e que agora apresentamos (Fig. 10 a) -b) - c)).

Os dados disponíveis referem uma prospecção efectuada ao longo da costa junto ao seu limite. Na areia da duna vêm-se os elementos que constituíam os concheiros, sendo o horizonte

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superficial difícil de definir. Evidenciavam-se as conchas, os fragmentos cerâmicos e os de metal, que Crawford assinalou com setas nas fotografias (Fig. 10 b)-c)). Não sabemos se foi efectuado qualquer levantamento sobre as dimensões destes concheiros, nem dispomos de qualquer refe­rência sobre estratigrafia, apenas de fichas actuais com o registo dos materiais.

O estudo dos materiais fornecidos pelas recolhas efectuadas e que documentam estes concheiros são constituídos por:


  • Fragmentos de cerâmica 41

  • Fragmentos metálicos 6

  • Espécies de conchas 16.

5.2 - Os Materiais - Caracterização

O núcleo cerâmico que estudámos apresenta uma certa homogeneidade, embora o seu estado de conservação levante algumas questões, dado que alguns fragmentos estão muito fragilizados e outros apresentam a superfície muito corroída.

É uma cerâmica de uso comum, sendo alguns dos fragmentos de grandes dimensões, pertencendo na sua grande maioria a bojos e a alguns bordos que fotografámos (Fig. 11). Regista-se a presença de cinco fragmentos de bordo (12,2%), dois fragmentos de fundo convexos (4,9%) e não se dispõe de nenhum recipiente cuja reconstituição seja plena.

A falta de dados estratigráficos não permite avaliar adentro da utilização as várias fases em que se possam ter sucedido.

5.2.1 - Cerâmica dita "tradicional"

O seu estudo iniciou-se pelo registo em desenho tipológico (efectuado pela autora) em verdadeira grandeza, dirigido para os fragmentos mais representativos, após determinadas as associações possíveis, o que permitiu também avaliar a sua morfologia e definir os diferentes tipos de recipientes. Foram desenhados dezasseis fragmentos cuja ordenação teve em atenção o seu tipo morfológico e o n.° de inventário, (Fig.12 e 13).

A análise do material cerâmico, quanto aos aspectos de manufactura, revelou um tipo de fabrico manual sem roda de oleiro e quanto aos conceptuais apresentam formas simples sem qualquer tipo de decoração. As observações de carácter tecnológico permitiram determinar quan­to aos atributos técnicos, o que se pode considerar um tipo de fabrico médio, com inclusão de elementos não plásticos, paredes espessas e superfícies alisadas apenas aquando da sua ma­nufactura.

No que respeita à cor, predomina a tonalidade castanhado acinzentado na face exterior (não há manchas de afogalhado) e regista-se também a presença da cor castanha e castanho alaranjado escuro, com diferentes tonalidades (Fig. 11). As alterações verificadas na superfície e a presença de fuligem parecem dever-se fundamentalmente à sua larga utilização e foram causa­das pelo fogo.

Da leitura das cores segundo o Código Munsell registamos:

HUE 10 R - valor 4 / l e 4 / 2 - Dark reddish gray e Weak red

HUE 10 R - valor 4 / 4 - tonalidades diversas dentro de Weak red

A caracterização técnica permitiu identificar um número mínimo de 14 recipientes distribu­ídos por diferentes tipos morfológicas atendendo à distinção entre formas abertas e fechadas: tipo l - recipientes esferóides; tipo 2 - recipientes globulares; tipo 3 - recipientes ovalóides; tipo 4 - recipientes elipsóides, com variantes, representados no Quadro l (Fig.14), os quais incluem

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formas fechadas e abertas definidas a partir dos bordos e bojos existentes.

Assim, temos:

Tipo 1 - recipiente esférico - variante A - de bordo fechado (frag. 24); variante B - de bordo aberto (frag. 41) e de profundidade variável.

Tipo 2 - recipiente globular (frag. 39).

Tipo 3- recipiente ovalóide em que os fragmentos n.°s 28 e 34 permitem determinar a convexidade dos fundos .

Tipo 4 - recipiente elipsóide - variante A - elipsóide horizontal de bordo aberto (frag. 8); variante B - elipsóide vertical de bordo fechado (frag. 19 e 26) e de profundidade variável.

Em relação aos bordos, identificámos dois tipos de orientação presentes no Quadro 1(Fig. 14).


  • bordo secante inclinado para o interior e de perfil exterior arredondado convexo (B1) -
    fragmentos n.°s 24, 41. e 19.

  • bordo secante inclinado para o exterior e de perfil exterior arredondado côncavo (B2) -
    fragmento n.°39.

Os lábios são arredondados (LI) - fragmentos n.°s 19, 41 e 39 - e arredondados adelgaça­
dos (L1.2) - fragmentos n.°s 24 e 8 - para o interior ou exterior como o documentam os
desenhos tipológicos (Fig. 12 e 13).

Regista-se um predomínio dos recipientes globulares e elipsóides, mas não é possível determinar o seu número. Os fundos deviam ser na sua maioria convexos.

Foram também avaliados os diâmetros prováveis em quatro recipientes, registando-se a presença das grandes categorias, sendo os valores obtidos compreendidos entre os 19 cm e os 37 cm referenciados no Quadro 1 (Fig. 14).

5.2.2 - Metálicos

Os fragmentos metálicos recolhidos não permitiram determinar a que tipo de peças ou artefactos pertenceram. Dispomos de seis pequenos fragmentos de ferro de difícil identificação, apresentando o maior alguns relevos que levou a considerar ser parte de uma argola (Fig.15).

5.2.3 - Materiais Malacológicos Marinhos

Quanto ao tipo de materiais malacológicos15 os exemplares recolhidos distribuem-se pelas seguintes espécies de conchas:


  • Patella lugubris (nove exemplares - de 6 a 4,5 cm).

  • Thais neritoidea (Linné) (um exemplar - de 4 cm).

  • Cypreaecassis testículus ou Cass/s testiculus (Linné) (um exemplar - de 5,8 cm).

  • Thais haemastoma (Linné) (três exemplares - de 4,9 a 4,4 cm).

  • Cypraea Lurida (Linné) (um exemplar - de 3 cm ).

  • Spondylus powelli (E. A. Smith) - (Spondylus gaederopus) (Linné) (um exemplar de 5,4 cm).

5.2.4 - Elemento Paleobotânico

A referência às "Molucca Beans" levou-nos a efectuar uma intensa pesquisa sugerida pelo interesse que tal planta, ou melhor, as suas sementes (como conseguimos identificar) haviam despertado. Conseguimos determinar que esta planta era também do conhecimento dos portu­gueses que a denominavam por Fava de Molaqua, sendo a designação de Molucca beans o nome pelo qual era conhecida em Inglaterra.



15 Os dados referentes a esta matéria foram obtidos com a colaboração da Investigadora Maria dei Pilar do Centro de Zoologia do IICT.

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A pesquisa permitiu reunir os vários estudos realizados acerca deste arbusto 16, de frutos espinhosos, ao longo de mais de cem anos e que o mesmo teve várias definições, sendo a mais recente Caesalpinia bonduc (Linné), em estudos desenvolvidos por A. Aubréville 17 e por Jean Berhaut18, os quais empregam a mesma terminologia (Hg. 16).

Estas sementes são muito resistentes e vêm à deriva no mar, no qual se conservam muito bem e podem até ser usadas como contas em colares, isto é, na elaboração de peças de adorno, razão pela qual resolvemos incluir este dado no nosso trabalho.



III - ESTUDO QUÍMICO MINERALÓGICO DA CERÂMICA FORNECIDA PELOS CONCHEIROS

Esperávamos poder incluir neste estudo a constituição mineralógica e a temperatura de cozedura deste núcleo de cerâmicas, dada a importância de que se reveste essa caracterização.



IV - CONSIDERANDOS FINAIS

No que respeita ao concheiros da ilha de São Vicente, começamos por referir que ao longo do desenrolar dos trabalhos de campo na baía de Salamanza, não foi esquecido o horizonte da ocupação continuada das ilhas de Cabo Verde, com início no século XV, sendo 1462 a data aceite, o que posiciona esse povoamento no que se considera ser a 2a Idade do Ferro africana -LI.A.- em relação à terminologia arqueológica proposta para a África Austral.

Na observação do corte estratigráfico, após os trabalhos de campo que permitiram a defi­nição do concheiro de Salamanza, houve da nossa parte uma tendência para estabelecer compa­rações com outros da costa ocidental da África. O sítio forneceu cerâmicas que se podem enqua­drar, quanto à morfologia e técnica de manufactura no segundo período da 2a Idade do Ferro africana, situação igualmente válida para as cerâmicas da baía João d' Évora 19.Quanto aos materiais de ferro, estes não permitem, em qualquer dos concheiros, identificar o tipo de peça ou artefacto a que possam ter pertencido. As conchas e os ossos possibilitaram a datação do concheiro de Salamanza, cuja cronologia corresponde, de acordo com os dados históricos, ao período do início da ocupação continuada das ilhas de Cabo Verde e à fase do desenvolvimento do comércio entre as costas do Atlântico nomeadamente nos séculos XVI e XVII. Este comércio desenvolveu-se a partir da inter-relação Cabo Verde / costa da Guiné, que se estendia entre o Senegal e a Serra Leoa, com algumas exclusividades, no que se refere a áreas que permaneciam nas mãos do Rei de Portugal.

O povoamento levou ao desenvolvimento da agricultura e da pecuária, praticada pelos es­cravos, obtidos no trato com a Guiné, sendo estes considerados uma mercadoria e avaliados apenas em função da sua compleição física.

Com efeito, foram os escravos que contribuíram para a prosperidade do arquipélago com o desenvolvimento da agricultura e da pecuária, além de assegurarem esse mesmo trato. A agricul­tura era praticada de um modo rudimentar e realizada apenas com enxadas. No que respeita à pecuária, esta era largamente praticada nas ilhas não integradas no grande circuito do tráfico de escravos desde os primeiros anos da ocupação, como era São Vicente, nas quais os animais eram criados nos montes livremente e sem grandes cuidados, guardados por escravos-pastores e mortos periodicamente, revertendo o lucro apenas para o armador.

16 Os dados sobre este tema foram obtidos com a colaboração do Investigador António Gonçalves do Centro de Botânica do
IICT.

17 Flora du Gabon, 1968.

18 Flore Ilustrée du Senegal, 1975.

19 Lamentamos o facto de não termos concretizado esta fase do trabalho referida no ponto III.

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Esta era a situação do exclusivo colonial, no período mercantilista, que tudo aponta poder quadrar a formação dos concheiros nas baías de Salamanza e João d'Évora.

Da leitura dos dados históricos ressalta a influência do Atlântico que constituiu, enquanto sistema socio-económico, um campo de relações entre povos de diferentes proveniências e com os mesmos objectivos, os quais estabeleceram contactos a partir do século XV, altura em que o arquipélago começou a ser povoado e conduziram à formação de redes mercantis, mas com grande interdependência. Assistiu-se à criação de transportes que promoveram a circulação entre as costas do Atlântico, em conexão com a formação e desenvolvimento dos portos-cidades como Ribeira Grande e São Filipe e os privilégios dos armadores.

Os concheiros documentam a presença de populações que se alimentavam fundamental­mente de produtos marinhos, Nuno de Miranda refere no capítulo dedicado a Cabo Verde 20, que os escravos em São Vicente eram alimentados com carne de tartaruga e moluscos e, que estes ainda produziam objectos de adorno e de artesanato, muito embora não assinale a fonte. Terá sido apenas uma situação de recurso, porque segundo António Pusich 21, os produtos marinhos não eram muito do agrado da população rural que preferia o milho, o feijão e a abóbora, comendo somente em dias de festa carne das suas cabras, que criavam sobretudo pelo leite que forneci­am.

Esta situação leva a considerar que em relação ao que consideramos o Nível 2 do concheiro de Salamanza, se possa estar na sua primeira fase de ocupação ou a mais antiga e documentada com a presença de restos deixados por uma população de escravos, forros ou fujões, que estive­ram ou permaneceram naquele sítio, não tendo outro recurso para sobreviver do que se alimentar de peixes, gastrópodes, tartarugas, etc. Utilizavam recipientes cerâmicos e o fogo. Será que estaremos na presença de vestígios deixados por populações que puderam ali ter estado durante períodos mais ou menos longos ou apenas ter passado por lá sazonalmente ao longo dos anos e com objectivos específicos, como seja o da época da caça às tartarugas?

O pavimento de argila e a presença de recipientes de cerâmica tradicional, pressupõe a existência de algumas preocupações com as condições de vida, com um objectivo determinado, registando-se ainda a presença de cinzas e lentículas de carvão, atestando o facto de ali terem sido preparados alimentos utilizando o fogo. A presença de um recipiente cerâmico com a boca virada para baixo, sugere tal como foi encontrado, intencionalidade e também simbologia.

No Nível l do concheiro de Salamanza, regista-se a presença de restos de espinhas e ossículos de peixes, grande quantidade de conchas (patellas), mais ou menos queimadas, o que documenta igualmente a sua preparação naquele local usando o fogo. Os fragmentos metálicos e os diversos fragmentos de cerâmica dispersos, que se apresentavam na areia da duna, na qual se distribuíam desordenadamente grande número de pedras, podem testemunhar uma significa­tiva ocupação. Este contexto distribuía-se por cerca de 10 metros ao longo da frente do concheiro de Salamanza , na sua zona mais elevada, situação verificada também ao longo dos concheiros de João d'Évora, como foi assinalado por Crawford. (Fig. 10 b) - c )).

Este Nível, relativamente ao concheiro de Salamanza, representará em nosso entender uma segunda fase de ocupação, ou a mais recente e poderá ser também esta estada a responsá­vel pela presença do amontoado de ossos de caprino localizado na areia da base do concheiro do lado Oeste. A escolha deste local para a sua deposição deve ter sido feita após uma ocorrência festiva de características mágico-religiosas em que os caprinos (entre outros alimentos) serviram

M arte popular, ilhas adjacentes e ultramar, 1968, pp. 319 a 379. L Memórias, 1810.

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de repasto aos convivas, ou altura em os escravos podiam procurar com este tipo de refeições recrear os seus antigos hábitos socio-culturais inerentes às práticas alimentares que foram com-pletamente alteradas após o resgate, tendo estas perdido todo o seu significado social ou a ligação aos familiares. Quanto à presença de um fragmento lítico sobre os restos pode ser vista como uma atitude cultural comum na África ocidental, na sequência da leitura das entranhas dos animais depois de mortos, antes de serem cozinhados.

Consideramos que a natureza dos materiais exumados com as suas diversificações, carac­terizam a especificidade do lugar.

O período cronológico que se determinou para o concheiro de Salamanza, parece mostrar uma cultura bem integrada no sistema ecológico local, perfeitamente adaptado ao meio ambiente e explorando bem as potencialidades locais, como eram os recursos marinhos, sem afastar a hipótese de ocupações periódicas ou circunstanciais, como parece ser o momento do repasto dos caprinos.

A cronologia atribuída ao concheiro de Salamanza, poderá também alargar-se ao concheiro João d'Évora, permitindo considerar que no período compreendido entre os finais do séculos XV até meados do século XVII, este sítio das baías de Salamanza e João d'Évora, designado "ilha adentro", pode ter adquirido uma dinâmica própria devida às suas potencialidades, ou terem sido apenas um refúgio, mas não um local de estabelecimento permanente, no qual as populações sem grandes meios, como escravos, nomeadamente os fujões e até brancos menos afortunados, podem ter conseguido sobreviver, muito embora esta prática possa ter restringido o crescimento da população, mas servindo a pesca como meio de subsistência e também ainda durante os graves períodos de seca e de fome, como os ocorridos no século XVI, como refere A. Correia e Silva 22, atendendo à sua boa posição geográfica, que permitia uma fácil obtenção de alimentos.

Relativamente aos períodos de ocupação em que a pesca ou a apanha de marisco tiveram lugar, estes podem ter sido esporádicos ou ciclicamente efectuados, permitindo a sobrevivência das populações e desenvolvidos quando as actividades agrícolas eram nulas durante a fase de ausência de chuvas, podendo os intervenientes ser também agricultores, dado que os concheiros se localizam no que se pode considerar um limite do mundo rural. Sem esquecer que a escrava­tura tornou o africano para ali levado num deserdado cultural e a marginalidade do lugar pode traduzir a marginalidade social; mas pode por outro lado revelar estratégia e esta ser mais ou menos consciente e um modo de preservar a liberdade.

A cerâmica utilizada nos concheiros poderá ser uma produção das zonas rurais em locais do interior e trazidas ou permutadas com os utilizadores dos concheiros o que pode explicar também a sua tipologia, dada a proveniência africana dos escravos levados para as ilhas de Cabo Verde.

O desinteresse posterior por estes sítios, poderá ter estado na sequência do alargamento da economia baseada em espaços tendencialmente fechados ou restritos, como a actividade piscatória e a agro-pecuária de subsistência, dado existir uma elevada correlação entre estes dois factores na sociedade cabo-verdiana enquanto valores históricos.

Ao contrário do que se passou no século XVI, em que se verificou uma expansão do sector portuário-mercantil com subordinação ao sector agro-escravocrata, no século XVII começou a dar-se o inverso, ou seja, as relações económico-sociais e políticas que comandavam a dinâmica no Atlântico e que se haviam largamente desenvolvido desde o século XV, foram alteradas pela dinâmica histórica. O valor geo-estratégico de Cabo Verde perdeu vitalidade e a sociedade come-

22 História Geral de Cabo Verde vol. II, 1995.

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çou a mudar. Os filhos da terra ficaram com o poder nas ilhas e viraram-se para o interior de onde lhes vinha a maior parte do sustento, devido aos recursos naturais nomeadamente a água, fican­do as cidades apenas como locais de comércio, nas quais dominava o provisório e o efémero. As cidades estavam sujeitas ao calendário agrícola, às variações de preços e aos transportes marí­timos, no entanto ainda não está esclarecido pelos dados escritos de como a sociedade rural comunicava no seu interior e com os seus limites.

Todos estes dados, porém, parecem dever ser ponderados para a compreensão da presen­ça de populações que estão na base do aparecimento dos concheiros, como os das baías de Salamanza e João d'Évora nos estudos a desenvolver.

Lisboa, Novembro de 1999



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