Convivência no útero afeta capacidade reprodutiva



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Encontro01.08.2016
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Convivência no útero afeta capacidade reprodutiva
Algumas poucas vezes a religião colabora com o progresso da ciência. É o caso da Igreja Luterana Finlandesa. No período pré-industrial toda a população da Finlândia pertencia a Igreja Luterana e as paróquias registravam os principais marcos da vida de cada um de seus membros. Os nascimentos, casamentos e mortes eram meticulosamente anotadas nos livros das igrejas. Estes registros que existem desde o século XVI e que a partir de 1749 cobrem toda a população finlandesa são uma mina de outro para os epidemiologistas. Eles permitem estudar a história de vida de uma população em uma época em que o tratamento médico ainda não influenciava de maneira marcante o destino das pessoas. Um dos resultados obtidos recentemente é intrigante. Comparando a história de vida de pares de gêmeos onde os dois filhos eram do mesmo sexo com pares onde os filhos eram de sexos diferentes os cientistas descobriram que meninas que dividiram o útero com irmãos do sexo masculino têm menor sucesso reprodutivo.
O primeiro passo foi localizar todos os registros de pares de gêmeos que nasceram, entre 1734 e 1888, em cinco paróquias espalhadas pela Finlândia. Do total de 377 pares de gêmeos identificados, em 105 pares os dois irmãos eram do sexo masculino e em 117 pares os irmãos eram do sexo feminino. Nos 155 casos restantes os pares continham um filho do sexo masculino e um do sexo feminino. O destino de cada uma destas 754 crianças foi estudado utilizando os registros das paróquias. Assim foi possível descobrir se cada um deles se casou, se teve filhos e quantos filhos sobreviveram até a idade adulta. O resultado foi surpreendente. Nos meninos não foi encontrada nenhuma diferença entre aqueles que haviam dividido o útero com outro menino ou com uma menina. Em ambos os casos 85% deles se casaram, 80% tiveram filhos e, em média, cada um teve 5 filhos, dos quais 3 chegaram aos 15 anos de idade. A grande diferença foi encontrada entre as meninas. As meninas que haviam sido gestadas em companhia de outra menina tiveram uma história semelhante a dos meninos, 95% se casaram, 90% tiveram filhos. Em média estas meninas tiveram 5 filhos dos quais 3 sobreviveram além dos 15 anos. O impressionante foi o que aconteceu com as meninas que haviam dividido o útero com um menino. Destas 80% se casaram mas somente 65% tiveram filhos. Em média, esta meninas tiveram 3 filhos dos quais somente 2 chegaram aos 15 anos de idade. O estudo também demonstrou que o número menor de descendentes deixados por estas meninas não se devia à criação na presença de irmãos do sexo masculino. Foi possível comparar meninas dos dois grupos que haviam perdido seus irmãos ou irmãs logo após o parto. Apesar destas meninas terem sido criadas sem o irmão gêmeo elas apresentavam menores taxas de reprodução.
Estes resultados demonstram que ao menos na era pré-industrial o fato de uma menina ter sido gestada juntamente com um menino diminui sua capacidade de reproduzir. A explicação mais provável é a presença de hormônios masculinos produzidos pelo feto masculino durante a gestação. Estes hormônios, que sabidamente atravessam a placenta, de alguma maneira afetam o desenvolvimento das meninas. Este fenômeno já havia sido observado em outros mamíferos, mas esta é a primeira vez que foi detectado em populações humanas.
Apesar de não sabermos se este fenômeno existe em sociedades onde a população tem acesso à medicina moderna, vale lembrar que atualmente, nas sociedades desenvolvidas, o uso cada vez mais disseminado de métodos de reprodução assistida e fertilização “in vitro” tem aumentado de maneira significativa o nascimento de gêmeos.
Mais informações: Male twins reduce fitness of female co-twins in humans. PNAS vol. 104 pag. 10915 2007
Fernando Reinach (fernando@reinach.com)


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