Coordenador: prof dr. Luís Guilherme Pontes Tavares jornais monarquistas piauienses



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GT 4 – História da Mídia Impressa

Coordenador: prof. dr. Luís Guilherme Pontes Tavares


JORNAIS MONARQUISTAS PIAUIENSES


- mapeamento da temática republicana no final do Segundo Reinado -
Ana Regina Barros RÊGO Leal 1


RESUMO


Este trabalho analisa o comportamento dos jornais monarquistas piauienses no que concerne ao posicionamento da temática republicana, em seus conteúdos, publicados desde o final da década de 1860, quando o partido republicano ensaiava os primeiros passos, ao final da década de 1880 com a proclamação da república. Vale ressaltar que a analise em pauta subsidiou outro trabalho referente a Imprensa piauiense e os ideais republicanos. Aqui são analisados os jornais conservadores A Época, A Moderação, A Opinião Conservadora e A Phalange, e, os liberais, A Imprensa e A Reforma, por comporem a amostra necessária aos objetivos pretendidos.

A seca assola o Piauí pré-republicano. De todos os cantos da Província e até de outros estados, pessoas emigram para a capital, Teresina, que, embora não tão próspera, situa-se entre rios, com água abundante e terra fértil. Nesse período, a educação só atende a uma parcela diminuta da sociedade, mas, mesmo assim, o Piauí possui uma reduzida casta de intelectuais que atua diretamente na imprensa. A formação mais comum é o direito. Os bacharéis dominam tanto a imprensa quanto a política, o que torna difícil definir o limite entre as duas. Os jornais, assim como os redatores, mantêm posições partidárias definias e defendem seus interesses de forma contundente e, por vezes, agressiva.

A imprensa piauiense, nascida quase três décadas depois da nacional, não segue a mesma trilha que o jornalismo da Corte, pelo menos, não em toda a trajetória do Segundo Reinado. No entanto, a exemplo deste, seu primeiro periódico emerge sob os auspícios do governo. Do mesmo modo que a Gazeta do Rio de Janeiro, O Piauiense tem caráter oficial.

Em 1835, com a criação da Assembléia Legislativa Provincial, surge o Correio da Assembléia Legislativa da Província do Piauí, também de cunho oficial. Anos depois, em 1839, é a vez de O Telégrafo, em meio ao conflito da balaiada, e com ele, iniciam-se as lutas político partidárias via imprensa escrita, mas também das lutas oligárquicas com a definição dos lados em que se encontram as famílias Sousa Martins e Castello Branco.

Posteriormente, com o fim do conflito e após a queda do Visconde, os Castello Branco instituem a folha O Liberal Piauiense, redigido por Lívio Lopes Castello Branco. Como um dos chefes do Partido Liberal e pertencente ao clã dos Castello Branco, adere aos balaios visando à derrubada do poder dos Sousa Martins no Piauí. Este jornal apresenta um discurso claramente elitista e discriminatório. Nele, percebe-se que as divergências entre as famílias tem sua origem na distribuição das terras e na dimensão das riquezas acumuladas por cada uma.

Para dialogar e combater o discurso liberal e castello branquista, os conservadores editam O Analytico e, logo a seguir A Voz da Verdade, ambos mantendo o nível do diálogo no patamar das questões político-familiares e pessoais. Os liberais contra-atacam com o jornal oficial O Governista, de1847 e 1848, para logo em seguida perderam o poder e o periódico e os deixa momentaneamente sem voz, até que Tibérico César de Burlamarqui adquiri uma tipografia usada com ela lança O Echo Liberal, um jornal combativo, em cujas páginas, as “ picuinhas” familiares e políticas dão lugar ao debate amplo sobre a mudança da capital da Província para Vila Velha do Poty às margens do rio Parnaíba, operada pelo Presidente José Antônio Saraiva.

Com a mudança da capital da Província, os conservadores saem na frente em termos jornalísticos. Em 1853, publicam A Ordem, o primeiro jornal impresso em Teresina, editado por Antônio da Costa Neves e redigido por José Martins Pereira de Alencastre. Os liberais e novamente os Castello Branco, na figura de Lívio, lançam O Conciliador Piauiense, um nome que remete à nova ordem política do País, ao qual segue-se O Propagador e Liga e Progresso, ambos na década de 1860. Ainda nesta década, especificamente em 1865 os liberais publicam o primeiro exemplar do jornal A Imprensa. Os conservadores terminam a década de 1850 com O Semanário, ao qual se segue A Moderação, O Piauhy, A Opinião Conservadora até A Época em 1878.

Nos anos que seguem até a queda do Império, os jornais que mantém suas edições regularmente e conseguem certa visibilidade, são, pela ala dos liberais, A Imprensa, e no caso dos conservadores, A Época. Neste último, aparecem como redatores Teodoro Alves Pacheco, Raimundo Arêa Leão, Antônio Coelho Rodrigues e o polêmico Simplício Coelho de Resende. No entanto, o Partido Liberal mantém outros veículos. O Telefone, de Antônio Joaquim Diniz, e A Reforma, de propriedade de Marianno Gil Castello Branco, o qual encampa a campanha abolicionista tem como redatores, entre outros, Clodoaldo Freitas e Antônio Rubim.

Na verdade, não há indícios de um periodismo áulico ou de um debate mais abrangente, nem mesmo no período da conciliação. Acredita-se que, mesmo na relativa paz de meados do Segundo Reinado a imprensa piauiense não vivencie uma trégua, mudando o caráter panfletário para uma discursividade mais profunda acerca dos problemas estruturais da Província ou da Nação como ocorre na Corte. As exceções ficam por conta dos assuntos relacionados à guerra com o Paraguai e do abolicionismo, que mobilizam tanto liberais quanto alguns conservadores.

No estilo dos jornais piauienses do século XIX transparece um panfletismo agressivo. A virulência prepondera sobre o debate público, não obstante as construções muito bem elaboradas com riqueza de vocabulário, demonstrando alto conhecimento, não só gramatical, como das ciências e filosofia que preponderam no referido século. No geral, não há um “dialogar” com as instituições constituídas, mas sim, “um apedrejar” seus dirigentes, como se estes fossem inimigos políticos. As perseguições políticas efetivadas pelo partido monárquico, então no poder, aos correligionários do outro partido, saem da esfera do debate político e ganham a imprensa com ares de batalhas pessoais.

No final dos anos 60 do século XIX, a situação agrava-se mais ainda. Tanto as lutas políticas como as mudanças de partido ocorrem com maior freqüência. Os ânimos, antes acirrados, enervam-se bem mais, e o linguajar jornalístico cai definitivamente no panfletismo, na ausência de compostura, nos ataques pessoais, inimagináveis nos dias atuais. Os artigos doutrinários e de cunho ideológico não são tão freqüentes, mas aparecem principalmente, nos jornais de David Caldas, que expressa e defende as idéias em que acredita, tendo sempre por base os princípios éticos e de liberdade. No meio da década de 1880, novamente é possível registrar a presença filosófica nos discursos da imprensa, sobretudo, da corrente positivista, trazida pelos estudantes da Academia de Direito de Recife.

O presente trabalho, no intuito de desenhar o mapa do movimento republicano nos jornais monarquistas piauienses, analisa os jornais: A Imprensa, A Opinião Conservadora, A Moderação, A Época, A Reforma e A Phalange, por comporem a amostra necessária à representação do universo do debate público envolvido de forma direta ou indireta na questão republicana. Os jornais são separados, cronologicamente, em função do diálogo existente entre os mesmos, no âmbito da conjuntura política em que se inserem. Como exemplo, A Imprensa e A Época atravessam a década de 1880 debatendo entre si. A pretensão desse corte sincrônico visa tão somente a identificar a pluralidade discursiva dos periódicos.


OS JORNAIS MONARQUISTAS E A TEMÁTICA REPUBLICANA

A IMPRENSA
O Segundo Reinado dá seus primeiros sinais de cansaço. Os acordos entre os partidos monárquicos já não acontecem com freqüência. Os atritos com a República paraguaia tornam-se mais graves. Vem a Tríplice Aliança e com ela, a deflagração definitiva da guerra que perdura por cinco anos e arrasa o povo paraguaio. É em meio a esta realidade, com os progressistas na Corte e os liberais governando a Província do Piauí, que os liberais piauienses, liderados por Deolindo Moura, lançam em 1865, A Imprensa . Por sua longevidade, configura-se como o jornal de maior vida útil, de 1865 a 1889, e, portanto, como o de maior importância como formador de opinião.

O patriotismo está em alta. Os redatores deslancham através do jornal, campanhas civilistas para o recrutamento de voluntários e coleta de dinheiro para o fundo de guerra. Desde os seus primeiros anos de vida, A Imprensa, além de apoiar a atuação brasileira na guerra contra o Paraguai e a luta pela emancipação do povo negro.No entanto, o seu caráter político-partidário, é o mais visível ao longo de todos os exemplares analisados, que cobrem, praticamente, toda a vida do jornal. Já no editorial de lançamento, é possível divisar os princípios norteadores que o acompanham nas quase três décadas de vida – a liberdade e ordem encravadas dentro da doutrina liberal.

Artigos de cunho iluminista são publicados tanto por Deolindo Moura como por David Moreira Caldas. No discurso de aclamação, do qual seguem, abaixo, alguns trechos, Deolindo ataca o despotismo paraguaio, exalta o direito à liberdade em todos os campos da vida humana, e, nitidamente influenciado pelos princípios da Revolução Francesa- igualdade, fraternidade e liberdade-, conclui com um pedido de libertação de alguns escravos em louvor ao momento de júbilo pelo término da guerra e vitória brasileira:

...A organização e o regime de liberdade, engrandecem e ilustram os povos (...). A barbaridade flagrante em que vivia o povo paraguaio, devido à organização e regime governamental de um tirano, estava acima de toda a hipocrisia dos déspotas. Os povos que toleram um mau governo, causa de desventuras, são cúmplices de um grande crime (...). Quem não combate pela liberdade não pode ter exércitos, porque voluntários exprimem liberdade, direito e humanidade e tais exércitos só encontram em oposição a miserável apoteose do orgulho e da ambição de algum tirano, e por isso mesmo oposição fraca e incapaz de sustentar-se. É que, procedimento como o vosso, o procedimento voluntário nasce sempre da nacionalidade, da liberdade, da vontade geral, e, portanto, vos tornam soldados-cidadãos; ao passo que os soldados ou homens máquinas; e no dia em que vós, os cidadãos da propaganda libertadora, dispersastes com vossos canhões e vossos sabres estas máquinas, com elas se dispersou tudo quanto restava de um povo, porque só vivem os povos quando têm alma, e só tem alma quando se tem liberdade (...). Fostes testemunhas do espetáculo mais horrendo que se imaginar pode: a perda de um povo; fostes testemunhas do empobrecimento da individualidade. Em compensação, porém, vistes e apreciastes do inefáveis dons e gozos elevados da liberdade e da riqueza industrial do povo que tem a fraternidade como dogma, como encanto da vida. Vistes a prosperidade dos Estados Argentinos. Vistes ai a liberdade do culto, a liberdade do ensino, a liberdade de imprensa, e, quem goza dessas três liberdades, tem completa a felicidade (...) É missão árdua, porém não impossível. Zelai na Pátria os foros de cidadãos livres; não tolerareis jamais a mistificação de vossa individualidade; proclamai bem alto a liberdade de ação individual, e teremos aberto as válvulas que têm entorpecido o engrandecimento e a prosperidade da terra do Cruzeiro. Solicitai ao delegado do governo nacional nesta província, a graça de, no dia de vossa dissolução, no momento solene de vossas despedidas, livrar dos horrores da escravidão, alguns dos infelizes que nela jazem...” ( TRANSCRIÇÃO, 1870, paginação irregular).


Seguindo o estilo jornalístico da época, A Imprensa, como periódico liberal, debate as questões públicas abertamente com os jornais opositores, destinando mais da metade de sua mancha gráfica para este fim, incluindo também, no referido espaço, os artigos de aceitação ao governo liberal, quando o partido encontrava-se o poder. No jornal em pauta, David Moreira Caldas abre espaço para a defesa de suas idéias, a princípio, coniventes com as liberais. Também defende os dogmas iluministas, deixando transparecer influência filosófica e política profunda. Combate o centralismo e defende reformas estruturais no sistema de governo, principalmente a reforma eleitoral, uma dúvida constante na trajetória do Segundo Império. Na verdade, esta é a posição do jornal, expressa não apenas por David Caldas, que permanece no periódico até meados de 1870, mas por todos os seus redatores. Percebe-se que, ao contrário dos conservadores, que chegam a parecer verdadeiros libelos, os jornais liberais são mais pacíficos. Isto não significa que não combatam a oposição, mas sim, que o fazem através de um diálogo mais cordial.

Em 1868, os redatores de A Imprensa enfrentam a primeira situação conservadora, cuja ascensão é traumática para o Partido Progressista, com o qual os liberais de todo o País identificam-se. É, nesse momento, que a força do Poder Moderador se faz presente de forma decisiva, revoltando os políticos brasileiros. O jornal expõe em suas páginas toda a indignação do partido e prega, explicitamente, a descentralização e a redução do poder do Imperador. Também é, quando, os ataques aos conservadores aparecem com mais assiduidade e objetividade. Isto porque as críticas à situação conservadora ocorrem, às vezes, de modo feroz, mas geralmente buscam caminhos mais amenos, utilizando a razão como arma principal contra os desmandos governamentais. Mesmo quando a Província parece falida, como decorrência da seca, da falta de investimentos e de uma gestão pública deficiente, os liberais raramente saem com descomposturas discursivas. Ao contrário, procuram nas falhas do partido opositor a ocasião necessária para a exposição de seus princípios. Mas não se apregoa, aqui, a inocência dos liberais e o banditismo dos conservadores, principalmente, porque a postura ou descompostura existe nos dois partidos, variando apenas o grau de agressividade.

Nesse periódico, são freqüentes referências às idéias e ao Partido Republicano. Algumas condenando, outras apenas contestando ou ainda relatando, mas, no final da década de 1880, chega a concordar com algumas posições republicanas. No exemplar de 14 de agosto de 1873, número 388, A Imprensa reproduz um artigo de Joaquim Nabuco, intitulado As ilusões republicanas, que contesta as vantagens anunciadas pelos republicanos e esclarece quais as desvantagens de um sistema bem sucedido apenas nos EUA, devido às peculiaridades de sua colonização, bem divergente do restante da América. Doze anos depois, a mesma temática novo espaço nas páginas de A Imprensa. Desta vez, para combater A Época:

Na referida Época do dia supra citado, sob o título Juízo insuspeito, vem transcripto um artigo do jornal Federação, órgão filiado à escola republicana, como diz a própria Época. Enthusiasmada a Época pela linguagem calorosa da Federação não teve tempo para reflectir, e cremos que nem mesmo para ler o artigo que transcreveu (...). Principia o tal artigo da Federação dizendo que para o futuro o partido Liberal há de ser julgado como o principal instrumento da monarchia, e como o mais perigoso inimigo da democracia nesta parte da América. Está visto que o órgão republicano considera o partido Liberal inimigo perigoso da democracia porque julga o principal instrumento da monarchia. Ora, si a Época, electrizada pelas idéias do contemporâneo, fez suas as idéias exhibidas por elle, vem por sua vez criminar a forma mornachica. E não será isso por ingenuidade(interroga) Qual a forma de governo que adopta o partido Conservador (interroga) Não é esse partido essencialmente monarchista (interroga) Onde pois a sua sinceridade em acompanhar o órgão republicano na censura que faz ao partido Liberal (interroga)....” ( A ÉPOCA,1885, paginação irregular ).


Em 1887, registra-se a evolução do pensamento liberal, que consegue divisar na República a solução para os problemas da nação. Acredita-se, porém, que a posição do redator, autor do artigo, não é unânime dentro das fileiras do seu partido na Província, pois algumas indisposições ocorrem entre os liberais, como a de Clodoaldo Freitas e Marquês de Paranaguá, motivadas, exatamente, pelas idéias republicanas do primeiro:
Não somos absolutamente infensos às idéias republicanas. Basta lembrar que é sob a forma republicana que os Estados Unidos se constituíram a mais forte nação da América e talvez do mundo occidental, basta lembral-o para não nos oppormos fanaticamente à república, o ideal do futuro, o sonho encantador da mocidade, a mais nobre aspiração dos corações generosos...” ( PARTIDOS políticos, 1887, paginação irregular ).
A Imprensa, ao longo dos quase 25 anos de atuação, mantém diálogo com diversos jornais conservadores. Por exemplo, o fascículo de 7 de agosto de 1866 faz referência ao número 42 de A Moderação, enquanto o de 2 de fevereiro de1871 debate com O Piauhy, e, depois com A Opinião Conservadora. A Moderação tem nova edição a partir de 1877, permanecendo até 1878, quando entra em cena o seu principal opositor, A Época. A Phalange é um dos últimos jornais com o qual A Imprensa polemiza.
A OPINIÃO CONSERVADORA
Essa folha política surge e se extingue dentro da situação conservadora. Logo, em condição oficial, destina espaço significativo para a publicação dos atos governamentais. O editorial defende o governo com uma retórica familiar aos políticos conservadores.

Sua importância dentro do contexto pré-republicano, talvez não seja, para a presente pesquisa, maior ou menor do que a dos demais jornais monárquicos, que mais se ocupam com suas disputas do que com os destinos do Brasil. Entretanto, é um dos veículos que dialoga com David Moreira Caldas, quando ele trabalha no jornal Oitenta e Nove, e quando de seu retorno à redação de A Imprensa, o que eleva o seu grau de interesse para este estudo. Isto não significa que o debate mantido pelos periódicos supracitados privilegie temáticas republicanas. Ao contrário, no geral, nem as citam. Dirigem-se mais à pessoa do próprio David Caldas, numa tentativa de desmoraliza-lo, como o faz Simplício Coelho de Resende:

Tive a velleidade de acreditar que o Sr. David já tinha deixado de ser o antigo redactor do jornal O Amigo do Povo para ser um homem circunspecto e reflectido, incapaz de trahir a verdade invocada por um seu adversário que, acreditanto na sua lealdade, não a mendigava , mas a pedia nua e crua como se havia passado em uma familiar e ligeira conversação (...). Continuarei a ser o homem do partido da constituição, para não ser um Marat nascido e devazado pelo cataclisma do Oitenta e Nove, procurando uma utopia, isto é, união, fraternidade e igualdade absolutas”. ( RESENDE, 1874, paginação irregular).
Nos exemplares analisados, compreendidos entre 1874 e 1875, o perfil dos conservadores que debatem com os liberais até o desabrochar da República já está delineado, mesmo porque segue a linha definida por essa facção no final da Regência. Sustentar uma situação conservadora requer, além das habilidades de negociação de seus parlamentares, muito “jogo de cintura” nas eleições. Daí vem a ojeriza da maioria dos conservadores pelas reformas eleitorais. Decerto, elas os impedem de levar adiante as “mutretas” e demais recursos usados na época do pleito, muito embora também existam no lado liberal.

Na esfera desse jornal, como dos demais monarquistas, a bandeira mais visível é a defesa do partido de origem, seguindo-se, imediatamente ou ao mesmo tempo, os debates contínuos realizados contra as pessoas que engrossam as fileiras opositoras. Mas a preocupação da maioria dos políticos com os destinos da educação na Província, chega a unir, na mesma sala, conservadores, liberais e republicanos. Por um momento, um espaço reduzido dos jornais é destinado a essa questão, significando uma trégua de pouca duração. A criação da Sociedade Promotora de Instrução Popular tem destaque garantido nas maiores folhas. Todavia, a temática republicana não ocupa espaço algum em suas linhas, ficando A Opinião Conservadora fora do mapa ora traçado.


A MODERAÇÃO
Sobre este periódico há dois registros em épocas diferentes. O primeiro, entre as décadas de 1850 e 1860, quando já mantém uma linha de debates com A Imprensa, como citado. Em 1878, exemplares analisados trazem no cabeçalho o escrito ano II. Não se sabe ao certo qual a diferença entre os dois periódicos de mesmo nome. Ao que tudo indica, ambos, são conservadores e também não se pode atestar se os redatores são comuns.

O fato é que A Moderação assume o discurso conservador mais extremado, partindo, nos fascículos pesquisados, sempre, para o ataque. A situação liberal, haja vista que os liberais retornam ao poder em 1878, facilita o uso de um linguajar mais agressivo:


A missão do partido Liberal segundo A Imprensa, não é gosar simplesmente as doçuras do poder; mas restaurar as finanças do paiz, moralisar a administração pública e economisar o producto dos impostos, que é o sangue do povo. O paiz já está cançado de ouvir theorias bonitas, que se desmentem na prática e não acredita mais na parolagem artificiosa dos arautos de uma situação, que subio ao poder falseamento do systema que nos rege e pervesão de caracteres até então considerados como animados de puros e patrióticos sentimentos...” ( EDITORIAL, 1878, paginação irregular).

As críticas são diárias e chegam a ocupar cerca de 70% do espaço gráfico. O restante destina-se a uma seção particular que veicula cartas pessoais, mensagens políticas e disputas interpartidárias, sem esquecer a divulgação de notícias de fuga de escravos. Traz, ainda, um pequeno noticiário, cujo texto não tem grande relevância, em comparação com o enfoque dado às demais matérias. Os anúncios publicitários utilizam pouco espaço.

Considera-se que a amostra analisada não é suficiente para definir o perfil do conservadorismo então praticado. No que concerne aos argumentos usados pelos conservadores, comprova-se que estes se restringem a criticar o governo liberal, mas não a estrutura governamental ou a Monarquia Constitucional. O enfoque maior recai nos atos liberais que, em tese, não divergem muito das próprias decisões conservadoras, quando no poder. Presentes, também, críticas à competência dos políticos opositores. Passam a imagem de que os melhores e mais honestos são os seus correligionários. No tocante à causa republicana, não há registro ou qualquer alusão, seja de crítica ou de aceitação, de tal forma que é este mais um jornal que fica à margem do mapa aqui delineado.
A ÉPOCA
No dia 08 de abril de 1878, é impresso o primeiro número do jornal A Época, que substitui A Moderação, na condição de órgão do Partido Conservador. Governa, então, o Piauí, o liberal José Araújo Costa, vice-presidente da Província e principal alvo das investidas agressivas dos primeiros números desse veículo. Assinam o texto de lançamento vários conservadores, entre eles, o chefe do partido, Simplício de Souza Mendes, Agesilao Pereira da Silva, Padre Tomaz de Moraes Rego, Odorico B. Albuquerque Rosa, José Félix Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, Raimundo Arêa Leão, Theodoro Alves Pacheco e Antônio Gentil de Sousa Mendes.

A exemplo de A Moderação, o novo jornal é diagramado em quatro colunas, impresso em quatro páginas, das quais aproximadamente três destinam-se a questões políticas, entre denúncias, debates políticos, intrigas pessoais, injúrias, calúnias etc. O espaço excedente divulga anúncios publicitários, algumas poucas notícias, cartas de particulares e publicações oficiais, quando o Partido Conservador está no poder, além de manter uma seção “a pedidos”. Na verdade, os redatores ocupam-se, sobretudo, com as rixas partidárias. Quando estão no poder, tratam de se defender. Se, na oposição, priorizam o ataque. A exceção fica por conta do problema da seca que assola o Piauí nas décadas 1870 e 1880, e que constitui prioridade em todos os periódicos. Entretanto, mesmo este tema é motivo de brigas e xingamentos via imprensa. No geral, os conservadores acusam os liberais no poder de manipularem verbas destinadas aos flagelados da seca.

O exame dos jornais liberais e conservadores comprova a tese defendida pela maioria dos historiadores de que, a análise da evolução dos principais partidos políticos atuantes no Segundo Reinado, atesta o fato de não existirem grandes discrepâncias entre os dois grupos. Ambos possuem a mesma origem e defendem interesses parecidos, ou seja, estão a serviço da classe dominante. No Piauí, os partidos colocam-se, explicitamente, ao lado dos grandes proprietário de terra e criadores de gado, defendendo e legitimando suas prioridades. Acredita-se que, aqui, bem mais do que nas províncias do Sul e Sudeste, a identificação da origem social dos elementos dos partidos monárquicos seja maior, sem a leve dicotomia apresentada por José Murilo de Carvalho (1996). Em sua opinião, os conservadores congregam funcionários públicos e proprietários rurais, cujas atividades incentivam a centralização do poder, enquanto os liberais, compostos por profissionais liberais, mas também por proprietários de terra, buscam maior autonomia para as províncias. Mesmo assim, eles se definem como diferentes e criticam os opositores via denominações depreciativas. É, neste momento, que a temática republicana ressurge carregada de uma adjetivação crítica perante o sistema monárquico. Os liberais ao serem enquadrados como “republicanos” são chamados de “traidores do trono”.
Entre nós os liberaes compõem-se de várias espécies, e com

quanto ceivados dos mesmos defeitos, abrigam no seio da mesmas ambições e nutrem esperanças impossíveis, como se o sobrenatural podesse vir em seu auxílio. Assim temos: os monarchistas moderados ( os hypocritas), os exaltados, descambando para republicanos; os republicanos imperialistas, ( em quanto governam), os intolerantes republicano, que constituem a numerosos phalange de deputados geraes, senadores e empregados públicos de várias espécies e cathegorias, jurando manter as instituições da monarchia e ser leaes ao imperador”. (OS LIBERAES, 1879, paginação irregular).
Sob outro ângulo, a linguagem metafórica utilizada pelos redatores tanto de A Época como de A Imprensa é similar, com um grau de agressividade maior no primeiro. O conteúdo dos debates impressos consiste em perseguições políticas, críticas à má gerência administrativa e a posições tomadas pelo partido de oposição, publicação de fatos da vida particular e íntima do adversário.

O diálogo aberto se dá com A Imprensa, mas, uma vez ou outra, há referências a outros jornais, como O Semanário, A Reforma e A Phalange. Um tema presente nesse jornal é o da escravidão, não o abolicionismo puro, mas o desejo de emancipação dos escravos através de cartas de alforria. Apesar de o Partido Conservador nacional ter posição contrária ao abolicionismo, é nos gabinetes conservadores que as leis emancipacionistas ganham vez. Muitos conservadores piauienses aderem à causa, como Antônio Coelho Rodrigues, que funda instituições emancipadoras e lidera o movimento na Província. Assim, localizam-se vários artigos em prol da causa, como também diversas notícias, tanto da criação de caixas para a libertação de escravos, como de solenidades nas quais se alforriam, com freqüência, negros, como a noticiada no fascículo de A Época, 21 de julho de 1883, referente à festa de confraternização do Partido Conservador, quando quatro escravos são libertados.

Outro assunto que merece destaque é a questão militar. No ano de 1885, Coelho de Resende utiliza, além da tribuna e dos jornais da Corte, A Época, para defender o Capitão Pedro José Lima e atacar e o Coronel Cunha Matos, que termina punido, o que provoca ampla insatisfação no meio militar. Aliás, o debate liderado pelo deputado piauiense não questiona os embates Poder Moderador e exército. Ao contrário, detém-se a agredir Cunha Matos, acusando-o de desonesto, e, até mesmo, de “ traidor da pátria”.

A partir de 1880, A Época passa a veicular mais notícias, inclusive internacionais. Outros temas passam a compor o seu discurso. A justiça ganha mais espaço, bem como festas carnavalescas e religiosas conquistam maior cobertura. Os emigrantes, por sua vez, continuam em pauta. Entretanto, mesmo com maior abrangência temática, o espaço político não é ameaçado. É, também, nesse período, que se inicia a publicação de folhetins, marcando a presença de um jornalismo mais literário. Nos exemplares compreendidos entre o número de 1882, edita-se o folhetim Recordações do Passado. Em 1883, já se registram anúncios de páginas inteiras, geralmente de medicamentos, produtos predominantes entre as propagandas.

Diante do exposto, é difícil delinear, de forma exata, um perfil do conservadorismo piauiense, uma vez que sua composição abriga os mais diferentes tipos políticos e variações conceituais. Existem os conservadores convictos e centralistas declarados, os abolicionistas “de carteirinha”, os ex-liberais convertidos “com um pé” no liberalismo, e outros. Entretanto, é ponto pacífico: concordam com a Monarquia Constitucional.

O republicanismo, por seu turno, não consegue destaque nas páginas do jornal. Em verdade, não são localizados artigos alusivos a essa questão, excetuando uma ou outra transcrição de escritos nacionais, onde a crítica à forma de organização do Partido Republicano e suas aspirações são tratados com desdém. No entanto, A Época integra o mapa ora em construção, uma vez que, mesmo raramente, trata da causa republicana ainda que com opinião de combate.


A REFORMA
A Reforma atua na mesma conjuntura, mas de forma diferente dos demais periódicos pré-republicanos. Lançado por redatores liberais, traz como epígrafe, os dizeres: Órgão do Commercio, Neutro entre os Partidos. E, de fato, há consenso no que concerne à anunciada neutralidade, ou, ao menos, quanto a uma inusitada divisão de mancha gráfica: liberais e conservadores têm espaço garantido em suas páginas. Os liberais, como proprietários do jornal, devem, teoricamente, dispor de um maior número de matérias. Em termos genéricos, é o que acontece. Contudo, os conservadores, mais precisamente Simplício Coelho de Resende e seus seguidores, também dispõem de uma longa coluna denominada Página Conservadora. O que teria levado um conservador radical como Coelho de Resende a abrigar-se num jornal de tendência política oposta. Os escritos da Página Conservadora dão indícios de uma profunda divergência pessoal do deputado Coelho de Resende com toda a ala conservadora apoiada por Gabriel Ferreira, Theodoro Alves Pacheco e Raimundo Arêa Leão, acirrada nas eleições de 1888 para deputado geral, quando os conservadores se dividem e Coelho de Resende só consegue ser eleito com apoio de votos liberais.

Tal acontecimento dá origem a um modo de atuação ímpar entre os jornais do Piauí do século XIX. Pela primeira vez, verificam-se, no mesmo periódico, críticas e elogios, ataques e defesas da autoria tanto de liberais como conservadores, muito embora tenham o mesmo alvo, qual seja, a situação conservadora. Os liberais combatem os governos da Província e da Corte, e os conservadores apenas o governo provincial, com cujos representantes romperam.

A coluna conservadora destaca-se pro seus textos longos e bem escritos, com larga utilização de metáforas e outras figuras estilísticas, mas sobretudo, pela agressividade, marca constante de Coelho de Resende. Os liberais não se detém somente a criticar os atos e desmandos do governo conservador. O abolicionismo defendido por eles tem presença marcante, aparecendo como a face mais visível do jornal, não sobrepujada nem mesmo pela ocupação concomitante de espaço pelos partidos monárquicos. Os artigos de cunho libertadores não se ocupam, como nos periódicos conservadores, com a divulgação de leis e ações de emancipação imediatas, mas tentam conscientizar a população sobre os males da escravidão, apelando para os sentimentos humanos e para o grau de civilidade das pessoas.

No que se refere à temática republicana, os historiadores Teresinha Queiroz (1994) e Celso Pinheiro Filho (1972) são unânimes em reafirmar o caráter republicano inicial do periódico, levantado por Clodoaldo Freitas. Entretanto, nos números pesquisados, entre os meses de outubro a dezembro de 1887 e janeiro a dezembro de 1888, raramente se encontra alguma referência ao republicanismo.



A PHALANGE
A situação conflituosa existente nas fileiras conservadoras do Piauí continua mesmo após a queda do gabinete Cotegipe, em maio de 1888, levando Coelho de Resende a lançar, em janeiro de 1889, A Phalange. Segundo sua concepção, surge para substituir a Página Conservadora, constante do periódico liberal A Reforma, e como porta-voz legítimo dos conservadores, em contraposição ao jornal A Época. Suas páginas ocupam-se muito mais em degradar os opositores intrapartidários, do que a denunciar ou guerrear com os liberais, situação incomum, levando-se em conta a trajetória dos dois partidos ao longo dos quase 50 anos.

A Phalange, cuja edição finda com o advento da proclamação da República, segue o estilo dos demais meios de comunicação conservadores, utilizando a maior parte de suas páginas para o debate político partidário, com uso de expressões idiomáticas de forte caracterização agressiva, mantendo, grosso modo, as questões mais conflitantes como carro-chefe de seu discurso. Acredita-se que a folha em discussão possui o mesmo perfil conservador, como a concordante centralização e defesa dos interesses de seus correligionários, embora o questionamento ao excessivo poder exercido pelo monarca, graças ao Poder Moderador, já seja debatido até mesmo pelos que votam contrariamente às reformas desejadas pelos liberais. Nos fascículos pesquisados, não há registro de crítica às idéias republicanas. Ao que parece, os partidos da Monarquia estão tão ocupados com suas disputas inter e intrapartidárias, que mal se dão conta de que os republicanos, progridem e estão na iminência de tomar o poder. Neste sentido, é ainda Coelho de Resende quem percebe a aproximação republicana e tenta alertar os monarquistas:

Nas actuaes circunstâncias do paiz, quando por toda parte impera a anarchia moral e política, parecendo que um cataclismo geral tende a abalar as nossas instituições (senão sepultadas) até os alicerces, vem a propósito fazem conhecidos os intuitos dos velhos partidos monarchicos, quase confundidos e assas enfraquecidos pelos golpes recebidos do poder Moderador, desse poder que é a chave de ouro da instituição monarchica, que nomeia e demite livremente (...) Temos por líquido que, no dia em que os liberaes forem apeados do poder pelo systema adaptado pela coroa, todos elles transporão as fronteiras da República, onde estabelecerão suas tendas de guerra, assestando contra as muralhas da Monarchia seus aríetes”. ( PROGRAMMAS e manifestos, 1889).


    1. O pensamento republicano nos impressos monarquistas

Em síntese, acredita-se que os jornais de tendências monarquistas que atuam no âmbito do Piauí no século XIX, possuem não apenas os perfis partidários de origem, mas um perfil monárquico definido, de onde se acredita, advêm todas as semelhanças. Há, dentre eles, similaridade quanto às posições políticas e conjunturais, e quanto à forma de condução dos diálogos e das políticas governamentais. E mais, há semelhança na diagramação dos jornais, na prática discursiva, na eloqüência, na retórica e na agressividade, ainda que a marca agressiva seja mais visível entre os conservadores. As temáticas também coincidem entre si, pois são debatidos sob a forma de diálogo entre os órgãos de cada partido.

No que concerne à temática republicana, existem divergências. Os conservadores não debatem o republicanismo, e quando o fazem é para desdenhar, ou então, nos umbrais da República, quando já é muito tarde para aderir. Os liberais, de postura radical, aderem ao republicanismo, e o restante mantém-se ao lado da Monarquia, muitos, não por convicção, mas sim, por ambição de poder. Com o avançar dos anos, há quem se declare simpático à chamada utopia republicana, talvez por a considerar, em antítese, uma real utopia, mas sem a firmeza necessária para aderir à causa.

Em suma, os jornais dos partidos monárquicos do Piauí ficam, praticamente, fora do debate em torno do republicanismo, com exceção de um ou outro artigo publicado em A Imprensa, A Reforma, A Época e A Phalange.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A ÉPOCA. A Imprensa, Tereina, 19 set. 1885, v.20, n.883.

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

_____.Teatro de Sombras. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1996.

_____. A formação das almas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

EDITORIAL. A Moderação, Teresina, 27 ago.1877. v.1, n.1.

OS LIBERAES. A Época, Teresina, 2 ago. 1879. v.2, n.70.

PROGRAMMAS e manifestos. A Phalange, Teresina, 24 ago, 1889, v.l, n.30.

PINHEIRO FILHO, Celso. História da Imprensa no Piauí. Teresina: COMEPI, 1972.

QUEIROZ, Teresinha. Os literatos e a República: Clodoaldo Freitas e Hygino Cunha e as tiranias do tempo. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

REGO, Ana Regina Barros Leal. Imprensa Piauiense: atuação política no século XIX. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2001.

RESENDE, Simplício Coelho de. Respostas a David Caldas. A Opinião Conservadora, Teresina, 31 jan. 1874. v.1, n.4

TRANSCRIÇÃO. A Imprensa, Teresina, 8 set. 1870. v.5. n.263.





1 Ana Regina Barros RÊGO Leal é mestra em Comunicação e Cultura e Profa. UFPI.


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