Coração em Fúria The Sheik´s Bartered Bride Lucy Monroe



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CAPÍTULO NOVE

Catherine acordou com o cheiro de café. Suas pálpebras se agitaram, mas ela não as abriu.

— Bom dia. Eu trouxe o café-da-manhã.

A voz de Hakim foi uma intromissão bem-vinda em meio ao seu sono até a dor e a mágoa das quais ela havia conseguido escapar durante as poucas horas de inconsciência voltaram à tona.

Ela sentiu os dedos masculinos dele acariciarem os seus cabelos.

— Você está bem, minha gatinha?

A estupidez da pergunta a fez abrir os olhos imedia­tamente. Hakim estava sentado ao seu lado, na cama, usando um thob. Era evidente que ele também havia acabado de acordar. Seu cabelo estava despenteado, sua barba por fazer e seus olhos enevoados, prova­velmente devido a uma noite tão mal dormida quanto a dela.

Como um homem podia parecer tão masculino e atraente vestindo algo que parecia praticamente um robe ou um vestido? A típica roupa árabe acentuava a sua masculinidade e ela não queria achá-lo atraente.

Catherine havia tomado algumas decisões muito difíceis durante a longa noite. Lembrar-se do que ela teria que abrir mão não ia ajudar em nada a sua resolu­ção, nem diminuir a dor que ela estava sentindo.

Determinada a ignorar a masculinidade gritante de Hakim, ela se forçou a sentar, puxando as cobertas para cobrir a sua camisola. Não queria que Hakim pensasse que.ela estava se insinuando para ele.

Ele arqueou as sobrancelhas em reação ao gesto de Catherine, mas não disse nada, colocando apenas a bandeja sobre o seu colo.

Havia dois croissants no prato e duas xícaras de café bem escuro, além de uma pequena tigela de figos.

Ela pegou uma das xícaras.

— Obrigada.

— É meu prazer.

Não vendo nenhuma razão para adiar a comunica­ção de sua decisão, ela foi direto ao assunto.

— Quero voltar para Seattle.

— Nós vamos voltar de qualquer jeito. Meus negó­cios estão lá, assim como o seu trabalho.

Catherine pousou a xícara cuidadosamente sobre o pires branco.

— Eu quis dizer hoje.

A tensão em seu queixo ficou ainda mais evidente.

— Isso não é possível.

— Por quê, o seu avião quebrou? Ele fingiu ignorar o seu sarcasmo.

— Não.


— Então não vejo problema algum.

— Não mesmo?

A ameaça em seu tom de voz fez com que Cathe­rine se lembrasse de que ele era um homem treinado desde pequeno para exercer grande autoridade sobre os outros.

— Não — ela insistiu.

— Você se esqueceu da cerimônia de casamento que está sendo preparada pelo meu povo?

Ele fez aquela pergunta num tom mais do que na­tural, como se eles estivessem discutindo um simples compromisso social, mas ela não estava disposta a compartilhar de tanta hipocrisia.

— Seria ridículo participar de mais uma cerimônia de casamento já que eu pretendo voltar para casa e pedir o divórcio, você não acha?

O corpo de Hakim ficou completamente tenso, como se estivesse se preparado para uma batalha.

— Não haverá divórcio algum.

— Não vejo como você pode me deter.

A expressão em seu rosto lhe deu a entender que ela não tinha muita imaginação, e por mais que se enver­gonhasse, ela tremeu.

— Estou falando sério, Hakim. Não vou permane­cer casada com um homem que só me vê como um meio de alcançar os seus objetivos.

— Você não é uma conveniência. É minha esposa.

— Engraçado, eu não me sinto assim. Algo feroz atravessou os olhos dele.

— Eu posso cuidar desse probleminha. Catherine compreendeu o que ele quis dizer e ba­lançou a cabeça veementemente.

— Eu não vou cair nessa novamente.

— Cair? — ele perguntou, lentamente, numa voz doce que a fez desejar estar completamente vestida e não de camisola, na cama, com uma pequena bandeja em seu colo.

Ela, porém, se recusou a deixar que ele percebesse o quanto havia ficado intimidada.

— Na cama — ela disse com franqueza.

— Mas nós somos muito compatíveis na cama — ele disse, acariciando o seio dela com a ponta de seus dedos.

Catherine respirou fundo, mas não conseguiu im­pedir que sua pele se arrepiasse, nem que os bicos de seu seios despontassem por debaixo das cobertas.

Seu coração estava morto por dentro. Por que seu corpo não seguia o exemplo?

— Isso é apenas sexo, e eu tenho certeza de que você já foi compatível com muitas outras mulheres antes de mim.

— Nunca como com você.

Como ela gostaria de poder acreditar nele.

Teria sido um alívio para o seu orgulho ferido, mas depois do que acontecera ontem, ela não confiava em mais nada do que ele dizia.

— Conta outra.

Ele riu com amargura.

— Eu não quero fazer amor com nenhuma outra mulher a não ser você.

— Não se trata de fazer amor, já que você não me ama.

O sorriso superior de Hakim fez com que Catherine tivesse vontade de gritar.

— O que é, então?

— Sexo, ou se você preferir... — ela disse, antes de proferir um termo que ela nunca havia dito antes.

Depois deu uma mordida em seu croissant, tentan­do mostrar a ele que não estava afetada por aquela conversa.

— Esse tipo de rudeza não combina com você.

— Eu não estou interessada no que você acha apro­priado ou não. Não mais.

Hakim se ergueu com um gesto de frustração.

— Basta.


— Você não pode mandar em mim como se eu fos­se uma criança.

— Por que não, se você está se comportando como uma? Você está feliz por ter se casado comigo. Você me ama, mas está ameaçando dissolver o nosso casa­mento por quase nada.

— Eu não considero traição quase nada!

— Eu não a traí!

Catherine nunca o tinha ouvido gritar antes e não gostou nem um pouco da experiência: Ele fez um esforço visível para se conter.

— Você estava tão feliz quando nos casamos que chegava a brilhar.

Catherine abriu a boca para responder, mas ele a deteve com um gesto.

— Não negue.

— Eu não ia negar.

— Que bom. Finalmente, avançamos.

— Mas eu não estou feliz agora.

— Isso é evidente, mas não é algo que não possa ser reparado.

— Isso nunca vai poder ser reparado — ela disse, tomada de desespero.

Tinha estado feliz porque acreditava que o homem que ela amava nutria o mesmo sentimento por ela, mas isso já não era verdade.

Hakim balançou a cabeça decisivamente.

— Eu não acredito nisso.

— Isso pode ser um choque para você, mas ser ma­nipulada tanto pelo meu pai quanto pelo meu marido não é algo que me faça feliz, e como esse fato não pode ser alterado, eu não entendo como você espera que os meus sentimentos mudem.

O tempo curava todas as feridas, ao menos era isso o que dizia o ditado, mas no momento, o futuro à sua frente parecia negro.

— Sei que você se ressente da interferência do seu pai em sua vida, mas é uma prerrogativa do pai en­contrar um marido adequado para a sua filha, e todo o prazer que nós encontramos, um nos braços do outro, está apenas à espera da sua aceitação disso.

— Sexo sem amor é algo degradante e um pai preo­cupado com o bem-estar de sua filha não a vende em troca de uma sociedade.

— Ele não a vendeu.

Parecia impossível que ela ainda tivesse lágrimas para derramar depois da noite anterior, sozinha em sua cama, mas elas recomeçaram a rolar pelo seu rosto.

— Vendeu, sim. Você pagou por mim e tomou o que lhe era devido.

A dor era tanta que parecia que seu coração estava sendo triturado.

Catherine virou o rosto, não querendo que ele visse a dor que se apoderava dela.

A bandeja foi retirada do seu colo e no momento seguinte, ela estava sendo puxada por ele para junto de si.

— Não chore. Por favor.

Ela não queria que ele a consolasse, mas não ha­via mais ninguém ali, e a dor era muito grande para que ela a suportasse sozinha. Suas mãos acariciaram as suas costas, enquanto ele lhe sussurrava palavras reconfortantes e ela encharcava o seu thob.

— Você é mais que um dever para mim.

— Você não me ama — ela disse com a voz em­bargada, tentando conter seus soluços. — Só se casou comigo por ordem do seu tio.

Ele a prendeu em seus braços, mas não negou.

Catherine pressionou o seu rosto contra o peito de Hakim, querendo apagar a realidade, mas não havia como ignorá-la. Ela só estava adiando o inevitável permitindo que Hakim a abraçasse pela última vez.

Ela respirou fundo, contendo um soluço e finalmen­te conseguiu recuperar o controle, afastando-se dele.

— Eu tenho que levantar. Ele franziu a testa.

— Nós ainda não terminamos a nossa conversa.

— Preciso me preparar para viajar.

Hakim tentou encará-la, mas ela se esquivou. Ele, por fim, suspirou.

— Você tem razão. Nós temos que nos preparar para a nossa viagem a Kadar. Vamos de helicóptero. Por mais que eu odeie isso, tenho que lhe pedir que prenda o seu cabelo.

Será que ele não tinha ouvido uma palavra do que ela havia lhe dito?

— Eu não vou com você para o deserto. Vou para casa — ela disse explicitamente como uma criança obtusa.

— Você está errada — ele disse com uma expres­são duríssima. — Você virá comigo para a nossa casa no deserto.

— Eu não vou.

— Irá sim.

De pé, ao lado da cama, ele era o típico príncipe árabe, certo de sua autoridade absoluta.

— Você não pode me obrigar.

— Não mesmo?

Ela sentiu um arrepio correr pela sua espinha, mas continuou desafiando-o com os olhos.

— Eu não vou me dispor a passar por um segundo casamento fraudulento.

— Não há nada de fraudulento no nosso casamento.

— Essa é a sua opinião, mas isso não mudará a minha.

— Já chega! Nós vamos participar da cerimônia beduína amanhã como planejado. Eu não permitirei que o meu avô seja envergonhado diante do seu povo — disse Hakim, saindo tempestuosamente do quarto.,

Duas horas depois, Catherine estava vestida com um suéter castanho-claro sem mangas e calça de couro para viajar. Usava também um casaco combi­nando até a altura de seus tornozelos que era perfei­to para a transição do clima de Jawhar para Seattle. Ela ia voltar para casa, independente do que o seu mal­dito marido arrogante e enganador tivesse decretado.

Checou a sua bolsa para se assegurar de que o seu passaporte ainda estava lá, satisfeita ao ver o pequeno documento azul. Tinha dinheiro vivo, cartões de cré­dito e tudo o mais do que precisava. Havia telefonado para o aeroporto depois de Hakim ter saído daquela maneira pela manhã e pediu que preparassem um carro para levá-la ao aeroporto.

Hakim não havia deixado nenhuma ordem para detê-la. Certamente havia suposto que ela esperaria por ele. Que eles continuariam a discutir o seu casa­mento. Mas não havia mais o que discutir.

Ela estava mais magoada do que jamais imaginara ser possível e não estava disposta a se expor ainda mais.

Foi até a sacada para esperar que lhe avisassem que o carro estava pronto.

O sol bateu contra a sua pele, aquecendo o seu cor­po, sem, no entanto, atingir o seu coração.

Um som na sala de estar alertou-a da chegada do empregado.

Não foi difícil para ela, enquanto membro da famí­lia real, encontrar lugar num vôo de primeira classe.

A porta do avião se fechou e o piloto anunciou a partida. O avião taxiou e então parou, certamente à espera de uma autorização para decolar.

Com a demora, os passageiros começaram a con­versar entre si e pedir explicações à tripulação, mas Catherine não conseguia compreender o que eles es­tavam dizendo.

A porta então se abriu e ela viu, aterrorizada, o seu marido entrar no avião.

Seus olhos encontraram imediatamente os dela e a ira estampada na neles deixou a sua garganta seca.

Hakim não se importou em ir até a sua fila. Apenas gritou uma ordem para a aeromoça que rapidamente retirou a mala de Catherine do compartimento acima de seu assento.

Catherine não se moveu, encarando-o com uma ex­pressão de desafio.

Ele podia ficar com a sua mala. Ela não desceria daquele avião.

— Eu vou voltar para casa.

Hakim não respondeu. Falou outra vez com a aero­moça, mas desta vez seu tom não foi áspero, embora implacável.

A aeromoça se aproximou de Catherine.

— Sua Alteza decretou que não poderemos decolar até que a senhora deixe o avião.

Ela não podia segurar todo mundo lá. Não havia dúvida de que Hakim tinha o poder de manter o avião em terra indefinidamente e sua expressão deixava bem claro que ele estava disposto a fazê-lo.

Catherine desafivelou o seu cinto de segurança e se levantou. Hakim deu as costas e saiu do avião. Ela o seguiu, pisando incerta nos degraus da escada portátil que havia sido levada até a pista de decolagem para q seu marido.

Ao chegar ao chão, foi conduzida a uma limusine por um dos seguranças vestidos de preto que estavam à sua espera.

Ela se sentou, recusando-se a olhar para o marido. Estava furiosa e assustada.

Lágrimas estúpidas quiseram irromper, mas ela não cederia a elas. Não outra vez.

Tinha chorado mais nos últimos dois dias do que nos últimos 10 anos.

Um silêncio resignado imperou por toda a viagem. Eles pararam e um outro segurança abriu a porta. Hakim saltou primeiro e lhe estendeu a mão para aju­dá-la a sair.

Catherine o ignorou.

— Você vai ter que sair daí, nem que seja carregada.

— Vá para o inferno.

Ela nunca tinha xingado alguém assim antes, mas não ia segui-lo humildemente.

Os homens começaram a discutir fora da limusine. Hakim então se inclinou e sua intenção ficou óbvia.

Ela foi para o outro lado e abriu a porta com força para então ser pega com mãos de ferro.

— Solte-me!

Ela lutou para se desvencilhar, tentando chutar os testículos do seu capturador, sem conseguir. Dois braços de aço a ergueram por trás.

— Fique calma, Catherine.

— Solte-me agora mesmo!

— Não posso.

Ela deu um chute para trás e acertou a sua canela. Hakim grunhiu, mas não a soltou.

— Por favor, aziz, não torne as coisas ainda mais difíceis.

— Você está me seqüestrando. Eu não tenho a me­nor intenção de facilitar as coisas para você!

— Você não pode voltar para Seattle sem mim.

— É o que você pensa.

— Estaria correndo risco de morte se o fizesse. Com aquelas palavras assustadoras, ele a virou, imobilizando seus braços e pernas e a carregou até o helicóptero, entrando logo atrás para que ela não ti­vesse chance de fugir.

Você não pode fazer isto.

Aquilo era estúpido. É claro que ele podia. Hakim estalou os dedos e o piloto deu a partida.

O barulho tornava qualquer conversa dentro do he­licóptero impossível, portanto eles nem tentaram.

Aquilo era inacreditável. Seu sheik, a quem ela jul­gara civilizado demais para tal atitude, a estava seqüestrando no melhor estilo das fantasias árabes de As mil e uma noites. A expressão dura de Hakim era i mais do que real, assim como a sua raiva e o que ele lhe dissera antes de carregá-la até o helicóptero. Ela poderia morrer se voltasse para casa sem ele. O que significava aquilo?

Seus pensamentos giravam confusos enquanto o helicóptero seguia em direção à região de Kadar.

Catherine olhou pela janela, esforçando-se para enxergar as primeiras montanhas da terra natal de Hakim.

Hakim se debruçou sobre ela e falou em seu ouvido para que ela pudesse escutá-lo.

— Coloque o seu suéter.

O ar de noite do deserto estava gelado, especial­mente tão longe do solo, por isso ela aquiesceu sem discutir. Além do mais, seu corpo, apesar da raiva, ha­via reagido desastrosamente à proximidade de Hakim É e ela queria mantê-lo a uma distância segura. Ela podia sentir o cheiro do seu corpo, aquele que ela passara a identificar como sendo de seu amante, seu companhei­ro e a um desejo que deveria estar tão dizimado quanto o seu coração, porém...

Aproveitando o pretexto para colocar o suéter, ela se afastou um pouco mais dele. Depois que ela o ves­tiu, Hakim se inclinou outra vez até sua boca pratica­mente tocar a sua orelha.

— Você pode fechá-lo?

Catherine tremeu ao sentir a carícia da respiração dele em sua orelha. Ele não tinha direito de fazer isto com ela. Hakim sabia o quão facilmente ela reagia a ele. Será que ele a estava atormentando de propósito?

— Ele é usado assim aberto — ela respondeu quase gritando para não ter que se aproximar dele novamente.

Catherine não sabia do que seria capaz se seus lá­bios traiçoeiros se aproximassem da orelha dele.

O helicóptero começou a descer.

Hakim só voltou a falar quando eles aterrissaram e ele a tirou do helicóptero, pousando-a sobre a areia do acampamento.

— Seria melhor fechá-lo. Meu avô é muito tradi­cional.

Seu avô? Sua atenção foi atraída em direção às ten­das. Algumas eram tão pequenas quanto uma barraca, enquanto outras tão grandes quanto um bangalô com vários quartos, todas banhadas na luz rosada do pôr-do-sol. Uma delas pertencia ao avô de Hakim.

— Achei que estávamos indo para o seu palácio. Ela não estava com a menor disposição para ser amável com os membros de sua família.

— Mudei de idéia.

— Então mude de novo. Eu não quero conhecer mais nenhum de seus parentes.

— É uma pena, porque é exatamente isto o que está prestes a acontecer.

Quem era aquele homem?

Certamente não o mesmo que tinha concordado em esperar que ela tivesse o casamento dos seus sonhos, nem aquele que tinha sido tão paciente com a sua ti­midez, que havia se contido com tanta delicadeza na primeira vez em que eles fizeram amor... e todas as outras vezes desde então.

Aquele homem à sua frente era um perfeito estranho.

— Eu não o conheço — ela sussurrou. Os olhos de Hakim se estreitaram.

— Eu sou o homem com quem você se casou.

— Mas não é o homem que eu acreditava que fos­se. O homem que eu conheci em Seattle não teria me seqüestrado contra a minha vontade e me levado para o meio do deserto.

— Fui forçado a tomar medidas drásticas por causa do seu comportamento irracional.

— Isso não é verdade.

— Basta. Você só vê as coisas do seu ponto de vista. Conversaremos depois que você estiver mais calma.

— Pelo menos me explique o que viemos fazer aqui. Ele fez um gesto, ordenando que o helicóptero de­colasse outra vez.

— Não há telefones por aqui.

Ela olhou para o helicóptero que desaparecia ao longe.

— Nem outro meio de transporte, eu suponho? Ele não ia correr o risco de que ela tentasse fugir novamente.

— Não, a menos que você saiba andar de camelo.

Catherine voltou o seu olhar novamente para o ma­rido, esperando encontrar uma expressão de triunfo em seus olhos depois daquele comentário, mas não o encontrou.

Ela passou a língua sobre os lábios secos.

— Você sabe que eu não sei.

— É verdade.

— Quer dizer que além de me seqüestrar, você pre­tende me tornar sua prisioneira?

— Se for necessário, sim. Catherine franziu a testa.

— Eu diria que isso já é um fato.

— Só se você escolher ver as coisas dessa maneira.

— E de que outra maneira se pode ver o que está acontecendo? — ela perguntou agressivamente.

— Você é minha esposa. Está aqui para conhecer a minha família. É algo que nós já planejamos há dias.

— Uma hora você vai acabar tendo que me levar de volta a Seattle.

— Sim.

Ela teria continuado a falar, mas um grito atrás de­les a fez silenciar. Hakim ergueu a mão e disse alguma coisa em árabe.



— Venha, vamos encontrar o meu avô.

Ela se afastou dele e amarrou o xale que combinava com a sua roupa em torno da sua cintura, transpassando o seu casaco.

— Está bem.

Hakim a surpreendeu ao tomar a sua mão e cami­nhar em direção à tenda maior e à delegação que havia se reunido para recebê-los, iluminada pelas tochas. Ao centro, havia um homem quase tão alto quanto ele. Sua pele enrugada e o pano vermelho que usava sobre a sua cabeça usado pelos sheiks indicavam que aquele só poderia ser o avô de Hakim.

Ele deu um passo adiante para saudá-los.

— Seja bem-vinda entre o meu povo.

Ele havia se dirigido a ela em inglês e Catherine fi­cara muito impressionada com aquela gentileza vinda de um homem tão obviamente acostumado à autori­dade.

Hakim se deteve a poucos passos dele, soltou a mão de Catherine e então se lançou nos braços do avô.

— Agradeço pelas suas boas-vindas, Pai de minha mãe.

Depois então, voltou para o lado de Catherine e se­gurou sua mão novamente com firmeza.

— Meu avô, esta é Catherine, minha esposa. O ancião estreitou os olhos.

— Sua noiva, você quer dizer.

Catherine olhou para Hakim à espera de uma expli­cação, mas a atenção dele estava fixada em seu avô.

Teve início então um rápido diálogo em árabe. Hakim parecia zangado. Seu avô, teimoso.

Ao final, Hakim soltou a sua mão.

Uma bela mulher despontou por detrás do velho senhor. Usava um vestido tradicional das mulheres beduínas e tinha a cabeça e o pescoço completamente cobertos por um xale preto.

Ela sorriu para Catherine.

— Sou Latifah, esposa de Ahmed bin Yusef e irmã de Hakim. Você deve vir comigo.

Catherine olhou mais uma vez para Hakim em busca de explicações. Desta vez, sua expressão era severa.

— Meu avô não reconhece o nosso casamento por­que não o testemunhou. Ele decretou que você vai dormir na tenda da minha irmã esta noite. Você, sem dúvida, vai ficar contente com isto.

Aquelas palavras deixaram Christine desconcertada. Ainda sorrindo, Latifah tocou o braço dela.

— Venha. Nós temos muito o que fazer a muito sobre o que conversar.



CAPÍTULO DEZ

No final da noite, Catherine tinha se dado conta de que muito o que fazer havia sido um eufemismo de proporções monumentais.

Um casamento beduíno, ao que parecia, envolvia tanta ou mais produção que a cerimônia ocidental.

Quando será que ela ia ver Hakim novamente? Es­tava na tenda de sua irmã desde que havia chegado e Latifah havia se furtado sorridentemente a responder a essa pergunta. A resposta parecia ser quando o seu avô achasse conveniente.

Será que ele estava arrogantemente supondo que ela ia participar da cerimônia, ou preocupado com a possibilidade de ela insistir na recusa?

Nem ela mesma sabia ainda o que ia fazer. Suas feridas ainda estavam em carne viva. Felizmente, La­tifah estava tornando as coisas mais fáceis para ela.

A irmã de Hakim falou o tempo todo enquanto as duas cuidavam dos preparativos para um casamento com o qual Catherine não concordava. Ela era extre­mamente bondosa e amigável. Contara a Catherine como havia sido crescer em Kadar até os oito anos. Tinha lhe contado também por que Hakim fora viver com o Rei Asad e ela com o avô. A tentativa de gol­pe de estado, ocorrida há 20 anos, havia tirado a vida de seus pais. Latifah e Hakim quase tinham morrido também, mas o rapaz de apenas 10 anos, na época, tinha conseguido tirar a irmã do palácio e consegui­do alcançar a tribo do seu avô no deserto. As duas crianças estavam desidratadas e desnutridas quando encontraram os beduínos, mas vivas.

Catherine sentiu pena de Hakim, não só por ele ter perdido os seus pais, mas também porque os arranjos subseqüentes o mantiveram afastado de seus parentes mais próximos. Latifah tinha sido criada entre os be­duínos, e Hakim preparado para ser o sheik de Kadar, como filho adotivo do rei Asad.

As obrigações que ele devia ao rei tinham origem em algo bem mais profundo que uma simples questão de honra.

Como poderia ser diferente se o rei tinha se torna­do a única pessoa com quem Hakim podia contar na vida?

— E estes dissidentes são os mesmos que estão ameaçando a família real agora? — ela perguntou a Latifah.

Latifah franziu suas sobrancelhas escuras com raiva.

— Sim, embora eles hoje sejam em menor número. Os filhos deram prosseguimento ao que os pais inicia­ram. Eles são criminosos. Não têm apoio da população e ainda assim continuam com essas coisas horrendas. Eles teriam conseguido matar Hakim se ele não fosse tão bem treinado em combate.

Um temor inoportuno agitou Catherine.

— Eles tentaram matar Hakim?

— Sim. Ele não lhe contou? Ah, os homens. Eles escondem estas coisas de nós, acreditando que assim estão protegendo os nossos sentimentos. Mulheres podem dar à luz. Ninguém vai me convencer de que somos fracas demais para saber a verdade.

— Quando foi que isto aconteceu?

— Na última viagem que Hakim fez a Kadar. Meu avô ficou muito perturbado e pela primeira vez não se queixou quando Hakim voltou aos Estados Unidos.

Ele havia se casado com ela, não só por força do dever, mas também por uma necessidade muito con­creta de proteger a sua família do horror do passado. Aqueles vistos representavam uma oportunidade de proteger a sua família. Algo que ele não podia fazer por si só, mesmo com toda a sua riqueza.

Catherine era capaz de compreender isso. Era capaz de compreender também que um casamento arranjado não tinha o mesmo significado para ele que para ela. Isso ficara claro quando Latifah a ajudou a costurar várias moedas de ouro no seu adorno de cabeça para o casamento. Aquele era um dote oferecido pelo sheik mais velho para demonstrar o valor que Catherine ti­nha para o seu povo. Um arranjo como aquele era, não apenas era aceitável entre eles, mas até mesmo esperado.

A compreensão, porém, não diminuía em nada a sua dor. Catherine tinha acreditado que ele a amava e isso não era verdade. Ela estava se sentindo traída por ele, pelo seu pai e pela própria interpretação equivo­cada que havia feito da situação. Tinha se convencido de que ele a amava, mas Hakim nunca havia empre­gado essas palavras.

— E quanto ao amor? — ela perguntou a Latifah quando esta terminou de costurar a última moeda.

Latifah franziu novamente as sobrancelhas.

— Como assim?

— Vocês não levam o amor em conta na hora de se casar?

A irmã de Hakim arregalou os olhos, chocada.

— É claro. Como você pode duvidar disso? Eu amo muito o meu marido.

— E ele a ama? — perguntou Catherine, sem con­seguir se conter.

Latifah sorriu feminina e maliciosamente.

— Ama sim.

— Mas...

— O amor é muito importante para o nosso povo. Latifah ergueu o adorno e o admirou.

— Mas vocês decidem os casamentos com base em questões econômicas.

Latifah deu de ombros.

— Espera-se que o amor e o afeto se desenvolvam depois do casamento.

— E isso sempre acontece?

Será que Hakim esperava vir a amá-la um dia? Será que ele estava aberto a esse tipo de possibilidade?

Latifah colocou o adorno cuidadosamente de lado e observou Catherine.

— É dever do marido e da esposa desenvolver o afeto um pelo outro. Você não deve se preocupar. Isso virá com o tempo.

Catherine olhou nos olhos exóticos de Latifah.

Será que uma mulher tão bela como ela era capaz de compreender as suas inseguranças? Seu marido provavelmente havia achado muito fácil se apaixonar por ela. Eles provinham do mesmo mundo, comparti­lhavam as mesmas esperanças e expectativas e ala era simplesmente deslumbrante.

Hakim, por outro lado, havia se casado com uma mulher que tinha sido criada de uma forma muito di­ferente da dele. Além disso, ela era uma mulher abso­lutamente comum e tímida.

Naquela noite, ela obteve autorização para ver Hakim sob o olhar agudo de seu avô. Eles não ti­veram oportunidade de conversar sobre nada muito particular, e isso a deixou frustrada. Catherine tinha compreendido muitas coisas sobre Hakim, mas pre­cisava conversar com ele antes de se comprometer a participar do casamento beduíno.

O fato de que ela sequer estava considerando a possibilidade de se recusar a fazê-lo, no entanto, era muito revelador do efeito que a ausência dele por duas noites havia tido sobre ela. Como seria, então, passar o resto de sua vida sem ele?

Apesar de o seu casamento ter sido um arranjo de negócios, Hakim tinha se esforçado para desenvolver um relacionamento pessoal entre eles. Havia passa­do bastante tempo com ela, provando-lhe que eles ti­nham prazer na companhia um do outro. Ia ser difícil abrir mão da sua amizade, bem como de fazer amor com ele.

Seu corpo havia se viciado nele para sempre. O de­sejo que ele tinha provocado nela pulsava incessan­temente em seu íntimo. Catherine sentia vergonha de reconhecer o quanto estava afetada por uma neces­sidade física, mas quando se lembrava do quão glo­riosamente ele a satisfazia, sentia vontade de chorar. Como seria a sua vida se ele a deixasse ir embora? Catherine sabia que nunca mais amaria outro homem como a Hakim. Independente do que ele sentia por ela, os sentimentos que ela nutria por ele eram muito profundos. Profundos demais para serem revividos com outra pessoa.

Catherine foi dormir muito frustrada aquela noite. O casamento ia acontecer dali a dois dias e pelo andar da carruagem, ela não teria chance de conversar com Hakim.

Ela se deitou na cama coberta por uma colcha e almofadas de seda, prestando atenção aos sons do deserto e da vida noturna do acampamento.

Um grupo de homens passou lá fora, gargalhando.

Catherine se enfiou debaixo das cobertas, feliz por ter várias camadas protegendo-a do frio.

Já estava quase caindo no sono quando sentiu uma mão se fechar sobre a sua boca. A descarga de adrena­lina fez com que ela se sentasse num sobressalto.

— Sou eu, Hakim.

Seu corpo relaxou quase que automaticamente ao ouvir a voz dele sussurrada em sua orelha.

Ele tirou a mão da boca de Catherine.

— O que você está fazendo aqui?

— Shh.


Ele cochichou outra vez em sua orelha e a sua respiração quente fez com que a centelha de desejo sempre presente dentro dela se transformasse numa verdadeira chama.

— Não fale alto ou seremos descobertos. Nós temos que conversar.

Ele a ajudou a se levantar e a envolveu num capote que tinha o seu cheiro antes que ela pudesse expressar qualquer incômodo com o ar frio da noite.

Depois a conduziu para fora da tenda, através de uma passagem que ela havia notado antes. Tinha fi­cado surpresa de ver que havia mais de uma saída da tenda. Foi só quando já estava lá fora que Catherine percebeu que havia se esquecido de colocar os sapa­tos, ao sentir algo pontiagudo ferir os seus pés.

Mais uma vez, Hakim pareceu saber do que se tra­tava antes mesmo que ela dissesse alguma coisa e a tomou em seus braços, carregando-a para fora do al­cance da luz das tochas do acampamento beduíno.

Ele se deteve e afundou graciosamente no chão, mantendo-a em seus braços. Ela se surpreendeu no colo do seu marido e sentiu a evidência inconfundível de sua excitação contra o seu quadril.

Ela tentou se afastar.

— Relaxe.

— Você está...

Ela não conseguiu concluir a frase.

— Eu sei.

Hakim parecia decepcionado e zangado, mas ao menos Catherine teve certeza de que o seu desejo por ela era real.

Ela também gostou de saber que Hakim também estava sentindo necessidade de conversar com ela an­tes da cerimônia. Isso significava que ele não estava completamente seguro do que ela ia fazer. Sua arro­gância, afinal, tinha limites.

Esperou que ele começasse a falar, mas Hakim pa­recia preocupado. Passou uma mão nos fios do cabelo dela e desviou o olhar, como se estivesse contemplan­do as estrelas.

—Nós estamos prestes a nos casar numa cerimônia beduína.

— Já me disseram. Ele a encarou.

— De acordo com o marido de Latifah, você pas­sou o dia todo envolvida nos preparativos da festa.

— E verdade.

Se ele quisesse saber se ela pretendia participar da cerimônia, teria que perguntar explicitamente.

— Já passou pela sua cabeça que você pode estar carregando um filho meu?

A pergunta foi tão diferente da que ela estava es­perando, que Catherine demorou até compreender do que se tratava, mas quando o fez, chegou a perder a respiração por alguns segundos.

Será que ela podia mesmo estar grávida? Seu casa­mento havia ocorrido no período mais fértil do seu cor­po. Ela não tinha planejado nada disso, mas a verdade era que poderia muito bem haver outro ai Kadar a caminho. O seu filho. O filho de Hakim. O filho dela com Hakim.

Ela não poderia se divorciar do pai de seu filho an­tes mesmo que ele nascesse.

— Não.


— Não, de você não pensou nisso, ou não, de você não está grávida?

— Eu não tinha pensado nisso.

— Engraçado, porque eu pensei freqüentemente desde a primeira vez em que plantei minha semente em você.

Catherine ficou toda excitada ao ouvir aquelas pa­lavras e tornou-se ainda mais consciente do seu mem­bro ereto dele em contato com o seu quadril.

— Você não sabe se ela foi plantada.

— Considerando a freqüência com que fizemos amor, eu diria que é muito possível.

Ela não podia negar, por isso, preferiu não dizer nada.

— A idéia de ter um filho meu a desagrada? Tinha lhe pedido que fosse sincero e não seria ela a mentir.

— Não.

Catherine percebeu o alívio nas feições de Hakim.



— Você vai amar o meu filho?

— Como você pode me perguntar uma coisa des­sas?

— Não é tão difícil acreditar que o ódio que você nutre pelo pai passe para a criança.

— Eu nunca odiaria o meu próprio filho — ela dis­se, recusando-se a responder ao seu comentário.

— Você aceitaria participar da cerimônia em nome desta criança?

— Mas nós nem sabemos se ela realmente existe — ela disse, embora a idéia fosse doce.

— Mas também não temos certeza de que não.

— Seria realmente humilhante para você se eu me recusasse, não é?

— Sim, e também lançaria vergonha sobre o fruto de nossa união.

Ele havia descoberto o seu ponto fraco e parecia obviamente disposto a fazer uso disso em seu favor.

— Eu não posso fazer juramentos que não tenho intenção de cumprir.

— Não há nenhum juramento de amor na cerimô­nia beduína.

Hakim realmente acreditava que ela havia deixado de amá-lo. Como ela desejava que fosse assim tão fá­cil. Mas ela não ia compartilhar isso com ele.

— Você se casou comigo como parte de uma ne­gociação.

— Não posso negar, mas isso não invalida o nosso casamento.

Catherine não tinha tanta certeza disso, mas deci­diu fazer outra queixa.

— Você me seqüestrou.

— Foi necessário.

— Para que você pudesse fazer as coisas à sua ma­neira.

— Para a sua segurança.

— Isso não faz sentido.

Como ela poderia estar correndo perigo a caminho de sua casa em Seattle?

— Recebemos ameaças contra a sua vida logo de­pois do nosso casamento.

— O quê? Como assim?

— Enviaram uma carta ao palácio. O rei Asad a mostrou para mim no dia em que você partiu.

Não era de admirar que ele tivesse detido o avião no aeroporto.

— É meu dever protegê-la. Eu não podia deixar que você partisse.

— Dever — ela repetiu com repugnância. Estava começando a odiar aquela palavra.

— Sim, dever. Responsabilidade. Eu aprendi o sig­nificado destas palavras ainda muito jovem. Sou um sheik. Não posso abrir mão das minhas promessas com a mesma facilidade que você faz com os jura­mentos de casamento.

Aquilo a enfureceu, fazendo com que ela saísse do seu colo, erguendo-se meio desajeitada.

— Eu não estou abrindo mão deles. Ele se ergueu também.

— Não? Você ameaçou se divorciar de mim poucas horas depois de prometer me amar e respeitar até que a morte nos separasse.

— Eu fui enganada.

— Você foi cortejada.

— Como pôde dizer uma coisa dessas?

— É a verdade. A sua verdade. Ela suspirou.

— Tenho que voltar antes que a sua irmã perceba que eu deixei a tenda.

— Nós ainda não acabamos de conversar.

— Você quer dizer que eu ainda não concordei com os seus planos.

— Quero que você me prometa que irá à cerimônia.

— Quero um tempo para pensar.

— Você tem dois dias.

— O que você vai fazer se eu disser não.

Em vez de responder, ele a beijou. Havia raiva na­quele beijo, uma raiva que ela nem sequer havia per­cebido que ele estava contendo, mas também havia paixão. Desejo. E sedução.

Quando ele se afastou, ela estava mole em seus bra­ços e mal conseguia se manter de pé.

— Você vai participar da cerimônia para se tornar minha esposa aos olhos do meu avô e, então, nós faremos amor e você se esquecerá desta história de di­vórcio.

Sua crença de que acabaria conseguindo seduzi-la e convencendo-a a fazer a sua vontade a deixou muito zangada.

— Por que não? Nós já passamos por um casamento de mentira antes. Um a mais não vai fazer diferença.

Hakim parecia muito tenso, mas disse apenas:

— É verdade.

Ele a tomou novamente nos braços e a levou de volta para a tenda, até pousá-la sobre sua cama. Incli­nou-se então sobre ela e disse-lhe, com os lábios tão próximos a ponto de seus hálitos se mesclarem:

— Boa noite, aziz. Depois a beijou.

Mais raiva. Mais sedução. A carícia suave em seus lábios ainda estava latejando. E então ele se foi.

Catherine torceu o nariz ao ver e sentir o cheiro do camelo ajoelhando-se diante dela.

Latifah havia lhe informado que seu marido tinha vencido três corridas com aquele animal, mas saber disso não a ajudou muito quando ela teve que montar nele.

Ela se ajustou em seu assento e quase perdeu o fôlego quando a cadeira começou a balançar com os movimentos do animal. Ao que parecia, aquele era o equivalente beduíno ao seu sonho romântico de che­gar à Igreja numa carruagem.

O próprio sheik estava conduzindo o camelo, uma vez que seu pai não estava lá para fazê-lo.

Parecia que havia mil olhos fixados nela durante a travessia.

Os pequenos guizos de prata no adorno de seu pes­coço tilintavam enquanto o seu corpo se movia sobre o camelo.

Ao chegarem ao local do casamento, o velho sheik a ajudou a descer e a conduziu até Hakim. Ela não olhou para ele, mas manteve o seu olhar baixo como Latifah lhe havia instruído.

A cerimônia não foi muito longa, mas o Mensaf, um jantar preparado para celebrar a sua união, sim.

Os homens comeram separados das mulheres e só se encontraram depois para a festa. Todos se sentaram ao ar livre rodeados por tochas. Os homens tocavam instrumentos e as mulheres cantavam, numa bela har­monia oriental.

Hakim traduziu as letras para ela com uma voz rou­ca ao pé de seu ouvido e os dedos fechados em torno do seu pulso.

Catherine não podia ignorar o efeito que o toque de Hakim tinha sobre ela e o desejo crescente que to­mava conta de seu corpo. Não depois de quatro noites longe da sua cama. Já era bem tarde quando Latifah a conduziu para os aposentos de Hakim, na tenda de seu avô. Catherine estava bastante nervosa, tentando conter os seus sentimentos.

O quarto era inesperadamente grande, iluminado por tochas suspensas. Belos lenços de seda coloridos cobriam as paredes do interior da tenda e o chão esta­va coberto de belos tapetes.

A cama de Hakim ficava bem ao centro. Uma enor­me almofada sobre o chão, sem nenhum estrado. Várias almofadas indicavam a cabeceira, cercadas por uma seda branca que pendia de uma armação redonda do alto da tenda.

Parecia uma tenda dentro de outra tenda.

Havia ainda diversas almofadas turcas e uma pe­quena mesa.

Ela optou por esperar por Hakim sobre uma das al­mofadas. Como desconhecia as tradições da tribo do avô de Hakim, Catherine não tinha idéia de quanto tempo ele ainda iria demorar. A festa ainda prosseguia lá fora. Foi então que ela ouviu a inconfundível voz de tenor de seu marido do lado de fora.

Catherine estava impressionada em ver como a rea­lidade estava se assemelhando à sua fantasia.

Ela havia sido seqüestrada por um sheik e estava esperando para ser possuída por ele. A diferença era que Hakim era de carne e osso. Ela podia tocá-lo e ele certamente a tocaria.

Catherine tremeu de expectativa ao pensar nisso.

Hakim se deteve na entrada do quarto.

Sua esposa tinha encantado Latifah com sua doçu­ra, impressionado o seu avô com sua humildade e es­candalizado as mulheres que tinham ajudado Latifah a prepará-la para o casamento por ter se recusado a pintar o cabelo.

Ela, contudo, havia permanecido muito calma du­rante toda a festividade. Ao menos não tinha se recusado a participar da cerimônia. Hakim não havia tido certeza disso até ver o seu avô conduzindo-a no came­lo, mas então se lembrou de que ela considerava Judô aquilo uma fraude. Outra fraude.

Esta noite ele lhe mostraria que não havia nada de falso naquele casamento.

Adentrou o quarto e se deteve ao vê-la. O adorno que ela havia usado sobre sua cabeça estava agora em seu colo. Seu cabelo loiro estava solto, emanando o cheiro doce do óleo com o qual havia sido tratado.

— Meu avô está encantado com você.

Seus olhos profundos e azuis se voltaram para ele, atordoados.

— Ele sabe por que você se casou comigo?

— Ele não sabe do arranjo entre o meu tio e o seu pai. Catherine ergueu o xale carregado de ouro.

— Latifah me disse que isto é considerado um belo dote, mesmo para a noiva de um sheik.

Como Hakim desejava saber o que ela estava pen­sando.

— Meu avô a tem em muito alta conta.

Ela baixou a cabeça, deixando que seu cabelo co­brisse o seu rosto para evitar o olhar de Hakim. Seus pequenos dedos femininos traçaram o contorno das moedas por vários segundos em silêncio.

— E você?

— Se eu a tenho em alta conta?

— Sim.


— Como você pode ter alguma dúvida?

Ela era sua esposa. Um dia, se Deus quisesse, ela finalmente compreenderia o que isto significava para um homem que havia sido criado como ele.

— Se não duvidasse, não estaria perguntando.

A lembrança de sua desconfiança o deixou zanga­do, mas ele se forçou a falar num tom suave, sem re­criminá-la.

— No dia em que chegamos a Jawhar, eu lhe fiz uma promessa.

Ela franziu as sobrancelhas.

— Você prometeu nunca mais mentir para mim.

— E não menti.

Catherine assentiu, aparentemente aceitando aquilo por fim.

— Mas eu fiz uma outra promessa antes disso, mi­nha gatinha.

Ela pareceu confusa.

— Prometi que sempre colocaria as suas necessida­des e desejos em primeiro lugar. Como alguém pode­ria valorizar outra pessoa mais que isso?

— Está me dizendo que se houvesse um impasse entre mim e a sua família, você ficaria ao meu lado? — ela perguntou ceticamente.

— Isso mesmo.

— E se eu lhe dissesse que não quero que você os patrocine para que obtenham os seus vistos?

— Você realmente faria isso se soubesse que eles estavam correndo risco de morte? — ele perguntou, em vez de responder.

Catherine baixou a cabeça novamente.

— Não.


Sua recusa persistente em enxergar o lado bom de seu casamento o estava deixando extremamente frus­trado.

— Você é muito pessimista.

— O quê?

— Você só vê o lado negativo das coisas.





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