Corda de palavras: ciranda de emoçÕES: emoçÃO À flor da pele



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Encontro28.07.2016
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CORDA DE PALAVRAS: CIRANDA DE EMOÇÕES: EMOÇÃO À FLOR DA PELE

Lauren Souza do Nascimento – Pedagoga - Colégio Santa Rosa de Lima (CSRL) Botafogo, RJ

A história da Corda de Palavras: Ciranda de Emoções começou assim:

As professoras dos segmentos Educação Infantil e Ensino Fundamental no dia 11/03/03, depois de uma tarde quente e ainda com cheiro de Carnaval, partiram para visitar a tal oficina de leitura, idéia gestada pela Irmã Edith desde que chegou para dirigir o Colégio Santa Rosa de Lima, em 2002.

Ao chegar à sala da oficina de leitura, Seline, coordenadora do ensino fundamental há vários anos, aproximou-se silenciosamente das estantes, percebendo cada novo título ali colocado. Ela aguardava as professoras e tinha, como todos envolvidos com a literatura, um interesse e uma expectativa sobre o novo projeto a ser apresentado naquela tarde, pela Consultora Pedagógica.

As professoras chegaram e pouco a pouco foram convidadas à exploração livre do espaço da oficina. Minha intenção metodológica naquele momento escolhia como ponto de partida o contato singular, intransferível e direto de cada uma com os livros, as formas, as cores e as percepções que estavam sendo inscritas em seus sentidos, desejos e consciências. Deixá-las entrar em contato com as suas leituras e interpretações diante do novo ambiente e projeto facilitou a divulgação do grande objetivo da oficina: criar livre acesso aos livros e garantir as leituras pelo prazer de ler, através do jogo lúdico.

Para garantir que as professoras experimentassem o jogo lúdico e revisitassem o lugar da criança, propus uma brincadeira com palavras. Estas foram distribuidas aleatoriamente para provocar reações, julgamentos e atrai-las à leitura do texto poético. Aceitando a proposta de brincadeira, sentaram-se no tapete e receberam, pelas costas, uma palavra-chave. Ao sinal, foram pegando-as e lendo os seus significados. Algumas até começaram a ensaiar um texto oral com as palavras, mas sugeri uma cantiga da minha infância Chicotinho queimado para embalá-las. Não surtiu efeito. Elas não sabiam a canção e uma versão perversa da mesma foi levantada e logo rechaçada pelo grupo. Retornamos à tentativa de composição levantada por algumas, mas o cansaço parecia desanimar a todas.

Diante dessa percepção, apresentei a coleção de livros da onde havia extraído as palavras-chave. Elas rapidamente se mobilizaram porque já tinham visto de longe a coleção – Grandes Poemas em Boca Miúda, Organizada por Laura Sandroni e Luiz Raul Machado, editada pela Arte Ensaio em parceria com a RIOARTE. Cada uma tinha a tarefa de localizar, no título dos livros, a palavra-chave recebida. Risos, disputas e um clima de leveza tomou o ambiente. Comentários foram elaborados e o diálogo aflorou como prática espontânea de leitura. Em seguida, a sugestão do texto oral foi reaproveitada. “Que tal amarrarmos essas palavras e o que criamos aqui hoje numa corda de palavras?” Surpreendi-me com a resposta favorável do grupo. Logo todas estavam buscando cola e outras tiras de papel para registrar novas palavras.

Palavras que expressavam suas emoções, sentimentos, sonhos e consciência do que tinham entendido do novo projeto de literatura na oficina de leitura. Leitura que era grafada ali, de forma coletiva e diversificada, com sujeitos prenhes de diferenças mas com um brilho inscrito nos olhos de boa vontade para lutar pela coerência e pela necessidade de ler-se e reler-se.

Analisando toda essa história, faço hoje a releitura do movimento incessante que tem enlaçado a mim e a todos nessa Corda de Palavras: Ciranda de Emoções. A corda parece concretizar, em primeiro lugar, a compreensão das professoras e coordenadoras do novo projeto de leitura do colégio. A síntese clara que pretendo estabelecer com esse princípio de construção coletiva e pedagógica com a leitura, numa instituição religiosa e dominicana, é o direito à diversidade de leituras por parte dos agentes adultos envolvidos com a oficina de leitura. Meu desejo secreto é permitir aos professores valorizar a sua leitura e palavra e, com isso, a sua estima de ser desejante.

Acredito que gostar-se é um dos primeiros sentidos para o gostar de ler, dizer, contar e recontar-se novas histórias. Precisava garantir para mim mesma e para a direção do colégio que não seria “a dona” da oficina. Minha trama com as professoras e coordenadoras naquela tarde foi garantir o projeto coletivo do pensar e fazer as leituras. Pensar e fazer singular que desemboca no coletivo da sala de aula, atravessa os corredores da escola, migra para a família e para a rua marcada pela violência, seqüestra vazios e rotinas fragmentadas dos conteúdos escolares e desfaz a solidão do verbo ser, transformando-o em somos; conjugação libertária e poética: nós somos e podemos juntos. Um pouco do ofício de comungar, com comunhão para par-ti-ci-par, ser e estar parte num todo menos disforme e mais doce...

Fazer e pensar respostas e soluções para as leituras de abandono de Marias e Joões pós-modernos, deixados em florestas-apartamentos em Botafogo prontos a serem devorados pela devastadora bruxa-loucura...

Pensar para escrever as histórias de prazer e querer viver contra as frustrações e medos tão atualizados pela violência urbana, anunciados, por exemplo, numa sexta-feira ensolarada de junho a uns 200 metros da oficina de leitura, quando uma mulher foi violentamente assassinada. Esse fato provocou grande angústia nas crianças da educação infantil, entre os professores e espalhou-se por toda comunidade escolar. Nessa tarde, ler a vida de um outro ângulo foi preciso...

Foi necessário e árduo, por tudo isso, construir e estar construindo a história da oficina de leitura dentro da Corda de Palavras: Ciranda de Emoções e, para fazê-las acontecer, só implicando todos os professores no desejo pela leitura. Convidá-los à roda, ciclo de vida e gestação de vida. Não me interessavam os alunos naquele momento inicial. Estava, com muita fraqueza, diante de um princípio rigoroso para mim e, com pouca coragem mas intensa determinação, propondo-me a reacreditar que uma história coletiva e institucional com a leitura seria possível, inventável... mas para isso precisava exterminar os tutores legais da leitura e todo patrulhamento ideológico e de poder para deixar florescer, com os professores e coordenadores, a ação desejante de cada um e de todos os sujeitos e atores imbricados na cena da leitura.

Sujeitos representados pelo que sentem e querem com a leitura. Essa Corda de Palavras: Ciranda de Emoções parece legitimar a expressão livre da palavra-emoção-imagem dos usuários que chegaram e chegam à oficina. Ela é o lugar do “eu posso?” Fico a pensar agora, enquanto elaboro este texto, que talvez as palavras e imagens postas e entretecidas na corda representem a história de um certo tipo de pedágio para os que passam pela oficina ...

Finalizando, vale destacar que os sujeitos que visitam semanalmente à oficina, atualmente batizada de SALA DOS SONHOS, estão distribuidos em sessões previamente agendadas de 30/40 minutos. São os alunos da educação infantil à 5ª série e suas professoras – aproximadamente 350 pessoas. Eles constroem diversas leituras nesse novo ambiente. Ambiente que é utilizado para estar com os livros, para ler, ser, fazer, desconfiar, descobrir, construir, desconstruir, reconstruir, desfazer, refazer, brincar, encantar-se, descobrir-se, chorar, contar, cantar, ouvir, ver, desenhar, escrever, perder, achar, entreolhar-se, surpreender-se, querer-se, abraçar muitos outros, num exercício necessário e delicioso de ser um eterno aprendiz, como poetizou Gonzaguinha.



Então, vamos aumentar a corda? Vamos tecer novos fios de uma história que não acaba porque rica de surpresas e sonhos, como a própria vida?


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