Corpus Christi: o corpo profanado



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Encontro29.07.2016
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Corpus Christi: o corpo profanado

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

     A festa de Corpus Christi que celebramos na última quinta-feira é uma ocasião adequada e prenhe de significado para refletir sobre acontecimentos recentes que em nosso país profanaram corpos humanos com uma onda irrefreável de violência. Venerar e proclamar a fé no Corpo de Cristo presente na Eucaristia nos remete necessariamente a pensar sobre o lugar do corpo na revelação cristã.
      A experiência e a reflexão teológica no cristianismo são experiência e reflexão teológica sobre um Deus encarnado.  Fora deste dado central e absolutamente necessário, não há cristianismo.  Não havendo encarnação, não há a possibilidade de Deus assumir todas as coisas por dentro e viver a história passo a passo, por assim dizer “na contramão” de sua eternidade.  Não havendo encarnação, não há cruz, não há redenção, não há salvação.  Não há, portanto, aliança entre a carne e o Espírito.
       Nada, portanto, do que é humano é estranho ao cristianismo e toda nova descoberta e toda nova ênfase em termos de humanidade vêm não ameaçar a experiência cristã, mas pelo contrário, alimentá-la, nutri-la, fazê-la mais de acordo ao sonho de Deus Pai, Filho, e Espírito Santo, que a tudo e a todos deseja cristificar e plenificar por sua práxis santificadora que preside a história e trabalha por dentro a carne do mundo.

      Toda tentativa de escapar disto, é tentação que descaracteriza o cristianismo, em sua pessoalidade, em sua configuração trinitária, em sua dinâmica histórica e encarnatória.

    Confessar com a boca e o coração que o Verbo se fez carne e o Espírito foi derramado sobre toda carne implica buscar a experiência e a união com Deus que assim determina comunicar-se com a humanidade através desta carne na qual é possível experimentá-Lo. Desde aí somente é possível começar a reflexão sobre a corporeidade humana e pensar igualmente sua conflitiva interlocução com a violência.
        O corpo humano está no centro da revelação cristã, do momento em que se trata de algo que foi assumido pelo próprio Deus na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo.  A Encarnação do Verbo, que toma corpo humano e habita entre nós, embora carregue consigo uma forte dimensão de despojamento e humilhação, pois Deus se esvazia de suas prerrogativas ao assumir a carne humana, por outro lado eleva e engrandece a corporeidade humana, resgatando-a de uma vez para sempre, pois a divindade a abraça por dentro.
           Através das Escrituras cristãs podemos ver que a presença da violência se encontra no meio do mistério da Encarnação.  A corporeidade humana assumida pelo Filho de Deus está desde o início exposta ao flagelo da violência que sempre assolou a humanidade.  Assim como Deus não se revela impondo-se, mas expondo-se, entregando-se amorosa e indefesamente,  assim também a violência não é por ele driblada ou desviada, mas sim assumida em seu próprio corpo semelhante ao nosso.  A corporeidade redentora e redimida passa pela vulnerabilidade e a exposição à violência.  

O mistério da Encarnação coloca o próprio Filho de Deus e a corporeidade humana por ele assumida  em meio à violência e ao pecado presentes no mundo. Neste sentido, Jesus em sua vida e em seu caminho histórico não se encontra preservado nem invulnerável às ambiguidades que implica viver num mundo onde a paz ainda não é uma realidade plena.


  Jesus, além disso, entra na história sempre recomeçada de um povo ingrato e indócil, de má-fé, que não quer dar a Deus o que deve. Assume em sua carne e em sua vida a visão e a experiência dos profetas, rejeitados, perseguidos. É uma lei da história que os homens queiram se desembaraçar, sumária e injustamente, dos enviados de Deus. E Jesus lê nessas histórias de sangue e violência o destino que o espera.
  A Bíblia e, especialmente o Novo Testamento, revela que a violência presente no mundo, Deus não a evita, mas a assume sobre si mesmo. E que a fé nesse Deus implica fazer o mesmo que Ele: dispor-se a tudo suportar, tudo sofrer, para poder persistir amando. Para isso, decidir-se a tudo perdoar, preferindo antes sofrer injustiças e perseguições do que preservar-se, deixando o câncer da violência seguir seu curso. O Mestre dá o exemplo supremo com a maneira pela qual vive e sofre o processo que o levará à Paixão e à morte.  Seu Espírito derramado após Sua Ressurreição indicará que este é o caminho e a vocação da corporeidade humana à luz da fé cristã. A festa de Corpus Christi nos ensina que esse corpo entregue é alimento para uma vida pautada no amor e não na violência.  
 


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