Correio Braziliense 3 Economia 3 a guerra do vinho 3 Correio Braziliense 4


O Estado de S.Paulo 08/05/2005 Caderno 2



Baixar 330.68 Kb.
Página13/21
Encontro29.07.2016
Tamanho330.68 Kb.
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   21

O Estado de S.Paulo


08/05/2005

Caderno 2

Opinião severina

Daniel Piza


O Brasil tem intelectuais capazes de tudo: que se orgulham de não ler jornais, que acham que os tempos da inflação alta eram bons, que nunca leram a Ilíada, que adoram Bukowski e detestam Joyce, que defendem como Chávez uma coisa estranha chamada socialismo democrático... E agora tem os que elogiam Severino Cavalcanti porque representaria uma "voz do povo" ao criticar juros e impostos por puro oportunismo político. É a doença da opinião no Brasil: quando não é covarde, é delirante. Parafraseando Claudio Abramo, os poucos que dizem o que pensam não pensam o que dizem.

Severino não é alternativa a PT e PSDB; é um subproduto do beco ideológico em que essa antiga "esquerda" brasileira se meteu. Tampouco é um sintoma do que a "racionalidade" desse programa tucano-barbudo seria obrigado a enfrentar em Pindorama. Não há nada racional em ter a mais alta taxa básica de juros do mundo, combinada com uma das cargas tributárias mais pesadas e burras e um dos serviços sociais mais cruéis e desiguais. A vitória do "baixo clero" é conseqüência dessas diversas trapalhadas econômicas e das leviandades políticas, do endosso à fisiologia oligárquica que é incompatível com qualquer coisa que possa merecer a definição de capitalismo democrático moderno.

Me queixei muito dessa semelhança e vagueza dos programas de PT e PSDB durante a campanha de 2002. Ambos dizem representar um "centro", um meio-termo entre socialismo e liberalismo, o qual identificam com o conceito de social-democracia. Mas a social-democracia passa por crise na Europa; até mesmo nos países escandinavos o movimento dos últimos anos tem sido o de redução dos impostos e encargos. E tanto o governo FHC como o governo Lula fizeram o contrário: aumentaram o tamanho do Estado, não só na forma de tributos, mas também de dívidas e de gastos sociais, cujos programas anunciam como salvadores - o pior é que com a credulidade da enorme maioria.

Sim, o governo FHC pelo menos derrubou a hiperinflação, rompeu com o tabu da privatização - embora em áreas como a energética tenha sido de um amadorismo catastrófico - e abriu fronteiras para a globalização comercial e institucional. Mas cometeu erros como o câmbio fixo no primeiro mandato, construiu a armadilha dos juros e, na postura de príncipe uspiano, não conseguiu mudanças de fundo. O governo Lula-Duda aprendeu com alguns desses equívocos macroeconômicos - adotou superávit primário, desdolarizou a dívida, incentivou mais as exportações - e se beneficiou da bonança mundial. Mas não enxergou que isso pouco adiantaria em face do colapso infra-estrutural e do atraso cultural com os quais, na oposição como agora, tanto colaborou. Pois nem se livrou da praga utopista, da ânsia de controlar o pensamento alheio.

A hegemonia dessa social-democracia-da-boca-para-fora é o banho-maria em que se multiplicam os reacionários. Num governo que diz fazer mas não faz reformas estruturais, o troca-troca de verbas não pára de fumegar e a corrupção fermenta. Enquanto isso, áreas ainda mais essenciais no mundo contemporâneo como a educação e a tecnologia se congelam em valores da era analógica; e sistemas como o político e o jurídico ficam ainda mais atrás, nos tempos das capitanias hereditárias. Ou seja: bem ao paladar de Severino.

RODAPÉ

A biografia Roosevelt, de Roy Jenkins, não por ter prefácio de Fernando Henrique Cardoso, bem poderia ser distribuída de presente para os membros do atual governo. Lorde Jenkins, autor da excelente biografia de Churchill (presente na mesma saborosa coleção da Jorge Zahar, assim como o Hitler de Joachim Fest e o Stalin de Dmitri Volkogonov), morreu quando faltavam poucas páginas para terminar esse livro sobre Franklin Delano Roosevelt, que foi completado por Richard E. Neustadt. Não tem o mesmo porte, mas é uma introdução muito competente e esclarecedora sobre o presidente americano de três mandatos (1933-1945), um estadista de verdade, apesar de tantos defeitos.

Jenkins mostra o improviso que foi o New Deal, pelo qual os investimentos públicos tiveram um papel importante na retomada de uma economia em crise, mas não tão definitivo quanto o dos negócios gerados pela Segunda Guerra. Também mostra o quanto o programa pressupunha um orçamento sob controle, ao contrário do que muitos pensam. Ao mesmo tempo, FDR era intervencionista, acreditava na vocação ordeira dos EUA no mundo, o que algumas pessoas no Brasil acham que é exclusivo dos republicanos; demorou a entrar na guerra, mas sem os EUA ela teria se estendido com custos incalculáveis. "Todos os nossos grandes presidentes", disse Roosevelt, "foram condutores do pensamento quando certas idéias na vida da nação precisavam ser esclarecidas." Líderes pensam.

UMA LÁGRIMA

Com atraso, para o escritor paraguaio Augusto Roa Bastos. Só li dele Eu, o Supremo, considerada sua obra-prima, e de fato o livro ficará para sempre como retrato-síntese do tirano latino-americano. E fica não por uma narrativa convencional, linear, mas que mescla guarani e castelhano e, inspirado em Cervantes, faz digressões e ironias, sem perder a tensão da história. Roa Bastos passou mais da metade de sua vida no exílio, fugindo das ditaduras paraguaias não muito distintas das do século 19 que descreveu.



OS 'BRIGHTS';

A qualidade da divulgação científica disponível no Brasil está aumentando. Pelo menos nas bancas de jornal. Um exemplo é a versão nacional da Scientific American, editada por Laura Knapp, que também tem traduzido números especiais sobre os grandes gênios, dos quais o último é sobre Richard Feynman. A National Geographic também tem versão local, comandada por Matthew Shirts, com Einstein na capa deste mês. Há ainda a Sapiens, desdobramento mais aprofundado da Superinteressante, Mente & Cérebro e Discovery, entre outras. Grande novidade, agora num patamar mais acadêmico, é a Neurociências, editada por Suzana Herculano-Houzel, que no penúltimo número tratou das relações entre psicanálise e neurologia e no atual destaca o tema da célula-tronco. As bancas trazem também alguns DVDs sobre ciência e história, como os da BBC. Vi um sobre a evolução humana que é muito bem-feito.



POR QUE NÃO ME UFANO (1)

A saída de Cláudia Costin da Secretaria estadual de Cultura, depois de 2 anos e 4 meses, deixa uma lição para o meio cultural: "gestão" não é palavrão, não é inimigo da criatividade, mas o contrário; só tira espaço de patotas e dos respectivos desvios de verba. Ela provou que com o mesmo orçamento se pode fazer muito mais, criando bibliotecas, recuperando museus, aprimorando orquestras. Mas o orçamento continua a ser uma tristeza; a secretaria é a última pasta na pilha sobre a mesa dos governos.



POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Da série "perguntas surreais": como a "cartilha do politicamente correto" lançada - e depois escondida - pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal diz que devemos nos referir a "traseiro"?



INTÉ

Vou tirar quatro semanas de férias - quer dizer, me dedicando a terminar um livro. No dia 12/6 esta coluna volta. Aforismos sem juízo Na cultura antropofágica brasileira, os criticados só sabem pedir a cabeça do crítico. Mas jamais vão conseguir lhe tirar a mente.





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   21


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal