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O Estado de S.Paulo 08/05/2005 Caderno 2



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O Estado de S.Paulo


08/05/2005

Caderno 2

Cinema marca vida do autor cearense


Recusando o regionalismo, Ronaldo Correia de Brito deve mais a Kurosawa que à geração do romance de 1930
Antonio Gonçalves Filho
Nascido há 55 anos na cidade de Saboeiro, no sertão cearense de Inhamuns, e formado em Medicina no Recife, o escritor Ronaldo Correia de Brito não guarda parentesco com a literatura de Euclides da Cunha ou Guimarães Rosa. Nem mesmo é devedor da tradição do movimento regionalista, iniciado há 70 anos e que marcou os autores do Nordeste como gado numa feira literária, tratados de forma pejorativa em outras regiões do Brasil. Sua grande paixão é o cinema - e por isso talvez seja mais justo buscar em cineastas como Kurosawa, Bresson e Pasolini referências que entram de contrabando numa escrita seca e épica, como se o escritor estivesse reelaborando alguma tragédia de Ésquilo em pleno agreste.

Seus personagens se movem condenados à solidão. Erram por um território bíblico, já em ruínas, mais ou menos como a terra proibida do filme Stalker, de Tarkovski, autor com o qual divide algumas preocupações de ordem religiosa. Um deles é a casa. Em Tarkovski, ela assume uma dimensão cósmica, sendo ao mesmo tempo espaço que acolhe e expulsa seus habitantes. Em Correia de Brito, a casa grande nordestina, cheias de alpendres e anexos, é como a nave que vaga na órbita do estranho planeta de Solaris. Seus personagens embrutecidos, fantasmagóricos, parecem ter saído direto de uma tragédia grega para a aridez desértica do sertão nordestino, sofrendo as perplexidades e angústias do homem moderno. Deve escolher: ou honram a casa ou nunca mais voltam para ela, porque seus nomes estão registrados no Livro dos Homens.

Na seqüência de sua entrevista ao Estado, o autor fala de sua filiação cinematográfica e explica por que tem dificuldades para aceitar personagens da literatura pós-moderna - segundo ele, seres "surtados" e bem diferentes do herói clássico, que comete um erro, expia sua culpa e tenta reconstruir o mundo após instaurar o caos.

O cinema parece ser mesmo uma das maiores fontes de inspiração de sua literatura. Quem são seus ícones?

Kurosawa, Pasolini, Peter Brook. São tantos. Kurosawa, por aproximar Ocidente e Oriente em suas versões dos clássicos Rei Lear e Macbeth (Ran e Trono Manchado de Sangue, respectivamente). Brook, por ter se apropriado da cultura oriental e demonstrado como um conflito pode virar interação cultural, caso de Mahabh arata. No meu conto Brincar com Veneno há uma citação da história do rei cego de Mahabharata, aquela em que o monarca casa com uma mulher que venda os olhos para nunca mais ver o mundo, seguindo o marido em seu trágico destino. É minha maneira de contar a história de um marido impotente, lembrando Brook e também Eugene O'Neill, a quem presto uma homenagem ao citar, numa breve passagem, uma de suas mais conhecidas peças (Longa Jornada Noite adentro). A metáfora do cego à beira do precipício, no epílogo de Ran, do Kurosawa, também é para mim um dos grandes momentos do cinema.

E Pasolini?

Presto uma homenagem a ele num conto chamado Sapo, em que Pelosi, seu assassino, é transformado num rapaz da periferia paulistana. Não é uma outra versão para a tragédia, até mesmo porque não acredito que tenha sido uma cilada política. Pasolini foi vítima da própria contradição. Ele buscava o martírio, quase a santidade. Sapo é sobre o terror pela perda do sagrado. A exemplo de Pasolini, não sofro de nostalgia de uma certa religiosidade, mas sinto que estou de luto pela ruína do sagrado.

Como foi sua infância e em que seu sertão se distancia do sertão de Guimarães Rosa?

Minha infância foi trágica, embora marcada por certo deslumbramento, mais ou menos como a cena que descrevo no final do conto Da Morte de Francisco Vieira. Nele, Clara olha, admirada, as águas barrentas do Rio Jaguaribe que arrastam os agapés, sujando suas flores brancas e revelando o corpo do marido, que deixa atrás de si as ninféias enlameadas. O sertão de Inhamuns, onde nasci, parecia um deserto bíblico perto do Crato, a terra de minha mãe, onde aprendi a ler a Bíblia e os clássicos. Mas meu sertão não é o de Guimarães Rosa. É o deserto mesmo, a própria morte. Para ter água, lavávamos os túmulos dos ancestrais na esperança de chover. Em compensação, tínhamos lá a Fátima Paletó, nossa Gradisca (referência a uma prostituta, personagem do filme 'Amarcord', de Fellini), pela qual todos suspirávamos. Fui iniciado no teatro da igreja e, quando cresci um pouco mais, comecei a escrever cartas para as pessoas iletradas, à maneira de Fernanda Montenegro em Central do Brasil. Eram cartas trágicas que as pessoas enviavam a parentes em São Paulo, quase sempre falando da morte. Esses foram meus primeiros contos. Finalmente, formei-me como médico e psicanalista e fui trabalhar no hospital de Crato.

Depois dos contos sempre vem um romance. O que você guarda escondido em sua gaveta?

Muita gente me cobra um romance ao ler os contos. Sou muito borgiano e, talvez por preguiça ou fastio, como Borges, ainda não o tenha escrito. Mas tento produzir um romance há anos, cujo tema é o encontro de três gerações de uma família que comparece a uma festa dedicada ao patriarca. Só que, durante os preparativos, o patriarca morre e eles acabam testemunhando seu sepultamento. Há aí uma confluência dramática de várias histórias, um grande acerto de contas na família. Escrevo esse romance há muito tempo, mas ele tomou outro rumo quando visitei um tio-avô. Só encontrei homens em torno desse tio, sendo um deles um grande empresário do ramo de aviação, que usava laptop e transitava à noite pelos cabarés locais em busca de prostitutas. É uma leitura do universo que aproxima todos os dramas em torno da figura central do patriarca.

Qual a sua opinião sobre o romance contemporâneo?

O romance contemporâneo nega a construção, a narrativa clássica, em que o herói fere o cosmo, instaura o caos, expia seu crime e reconstrói finalmente o mundo. O herói pós-moderno, ao contrário, é um surtado, entra em surto como nos livros do espanhol Enrique Villa-Matas ou de João Gilberto Noll, de quem, aliás, gosto muito, principalmente pelo clima delirante de suas histórias, embora ele não tenha nada a ver comigo. Em certo sentido, talvez seja esse o modelo de personagem psicótico inaugurado por Kafka. Como o cego de Ran, nos encontramos à beira do precipício, no crepúsculo da civilização, num castelo em ruínas. Resta saber se vamos ou não dar o passo fatal.




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