Correio Braziliense: 40 anos Do pioneirismo à consolidação



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1.2- Ideologia de Brasília


O processo de transferência da capital para Brasília mobilizou outros aspectos, além da questão da interiorização e da integração nacional. A nova capital representou a chegada do Brasil à modernidade, um desafio ao mesmo tempo de engenharia e de maturidade do país enquanto nação. Havia também a questão de uma nova mentalidade urbana e administrativa que Brasília faria brotar e exportaria para o resto do país1.

Brasília surpreendeu o mundo pela ousadia e pela promessa de futuro, e o país impregnou- se de uma já legendária atmosfera “de grande destino” que sempre cercou o Brasil e povoou o imaginário nacional2. Nos discursos pró-mudança havia um quê de romantismo, de plantar uma cidade em um “deserto econômico”, mostrando para o mundo do que o país que era capaz, era a chance de vencer um complexo de inferioridade nacional histórico. A reboque da construção da capital viria o progresso: a industrialização, os automóveis fabricados no país, a abertura de novas estradas do centro em direção a várias regiões.

Com este ânimo chegaram os pioneiros construtores ao vazio do Planalto Central. Em prol da realização deste sonho, operários, engenheiros e demais profissionais, muitas vezes sem as famílias - que ficavam em seus locais de origem -, habitavam casas toscas, comiam em restaurantes populares, enfrentavam o clima seco, a poeira e freqüentavam a zona do baixo meretrício da Cidade Livre3. Contam os que participaram desta aventura4, que a convivência de todos era pacífica, igualitária e animada pela forte vontade de entregar a capital no prazo estipulado por Juscelino. O presidente, em suas constantes visitas ao imenso canteiro de obras, levava o alento necessário para os que estavam envolvidos na empreitada da construção. Os operários suportavam cargas de trabalho quase desumanas, o “ritmo Brasília” funcionava 24 horas por dia5. Os números acidentes de trabalho eram cuidadosamente disfarçados, segundo registros dos historiadores do período.

Na construção da capital encontravam-se, naquele momento, as duas grandes vertentes culturais do país à época: o rural e o urbano6; o homem do campo, simples em seus modos e gostos; o urbano, sofisticado e intelectualizado. Mas nem por isso uma especial democracia social deixou de existir naquele princípio da cidade7. Nos primeiros anos esta democracia sobreviveu, quando os filhos dos candangos e dos funcionários públicos estudavam nas mesmas escolas, jogavam futebol juntos e os pais freqüentavam os poucos clubes existentes.

Os depoimentos dos pioneiros deixam transparecer o quanto as pessoas eram positivas quanto ao futuro do país, de Brasília, e ao seu próprio8. A solidariedade era o sentimento comum, pois as dificuldades eram de toda ordem e enormes. Registros da polícia naqueles anos apontam um baixo índice de violência e criminalidade, a maior parte dos casos era de bêbados, agressões a prostitutas e alguns poucos roubos9.

A nova cidade envolvia as pessoas com o mito da terra prometida, e aqueles que coordenavam sua construção sabiam manipulá-lo10. A chegada de “profetas” da nova civilização para os arredores da cidade, só aumentava a aura mística de Brasília: Tia Neiva e Yokanan iniciaram aglomerados urbanos que tinham nítidos contornos religiosos. Depois deles, outros profetas foram sendo atraídos pela Nova Era que se anunciava.

A relação espaço/tempo, durante a edificação, também foi uma experiência singular em Brasília. Ela foi construída em três anos e meio, fato que representou uma expressiva capacidade de adaptação por parte dos que participaram do projeto. Em suas memórias Juscelino comenta que, no mesmo salão onde, no Palácio do Planalto, organizou-se o baile de inauguração da nova capital, três anos antes ele já havia visto um lobo guará cruzar a frente de seu automóvel11.

As promessas de um amanhã completamente novo foram muito mais fortes que todas as campanhas contra a capital. O empresariado nacional e estrangeiro, apesar da acusação de fazer obras superfaturadas, contribuíra decididamente para o sucesso da edificação da cidade. As opiniões dividiam-se, mas Juscelino conseguia aprovar todos os pedidos de liberação de recursos para as obras junto ao Congresso.

A transferência da capital para Brasília começou a perder sua força com a posse de Jânio Quadros e todo o tumulto político que se seguiu. O país passou a estar dividido entre os setores que apoiavam a esquerda e os setores que apoiavam a direita. Além disso, havia o sentimento de que o Brasil estava paralisado politicamente e economicamente e algo precisava ser feito, nem que fosse a ascensão dos militares ao poder.

1.3- 40 anos de História

1.3.1 A implantação – décadas de 60 e 70

a) Aspectos urbanos

Materializada num terreno cujas feições geográficas assemelham-se ao deserto, o cerrado, a cidade pouco depois da inauguração ainda não possuía a configuração, nem o apoio do público para o qual se destinava: políticos, funcionários públicos e diplomatas estrangeiros. Mais parecia um descampado de grandes massas de concreto por entre os quais rugiam os ventos e os redemoinhos de terra vermelha12.

Saudada mundialmente pelo seu desenho arrojado e pela utopia social que cercava o surgimento de uma cidade planejada, Brasília, entretanto, teve suas obras praticamente paralisadas ao longo dos primeiros dez anos, este foi o período mais intenso de instabilidade política do país, com a renúncia de Jânio Quadros, o parlamentarismo durante o governo João Goulart, a deposição deste, a ascensão e a consolidação do regime militar13. Foram exatamente os militares da ditadura que perceberam quão estrategicamente seguro era, para eles, viabilizar a consolidação da capital no centro, longe do burburinho do eixo Rio-São Paulo. A partir da sucessão de generais no poder foi sendo retomada a viabilização de Brasília, com a vinda do Ministério das Relações Exteriores, das missões diplomáticas, a fixação de residência, na cidade, dos presidentes da República, dos presidentes das autarquias e da maioria dos ministros e alguns parlamentares14.

Apesar de ter sido concebida para sediar o Poder e a administração, Brasília não se originou exatamente destes núcleos. Seus primeiros habitantes foram os milhares de candangos (pioneiros operários construtores) que se espalharam pelo Plano Piloto, dando forma à futura capital que se anunciava. Eles vieram de todas as partes do país, mas especialmente do norte, nordeste e centro-oeste, em busca de emprego, melhores condições de vida15 que o campo não oferecia mais e, além disso, movidos pela ideologia da nova capital, de desbravar o centro do país.

Instalados em grandes acampamentos, os pioneiros foram fazendo, do local onde trabalhavam, as suas moradias. Durante a construção, alguns aglomerados populacionais foram se formando a partir dos acampamentos dos operários das construtoras - encarregadas de erguerem os prédios públicos - que junto com as invasões, espécies de favelas, formavam os núcleos daqueles que não tiveram condições de se fixar no Plano Piloto. Essas aglomerações foram transferidas para as cidades “satélites”, previstas no plano urbanístico do Distrito federal, exceção feita à Vila Planalto, que, anos mais tarde, foi incorporada ao tombamento do Plano Piloto. Quando Brasília foi inaugurada, já existiam vários núcleos habitacionais ao seu redor, como Taguatinga (1957), Planaltina (anterior a 1892) e Brazlândia (1933), onde passaram a residir os candangos excluídos do projeto da cidade. São estas as raízes da cidade: pessoas que chegaram trazendo as tradições, a cultura, os hábitos de seus locais de origem. Aos poucos, durante a construção, foram chegando também os primeiros funcionários públicos e suas famílias. Depois da inauguração, em 21 de abril de 1960, muito lentamente, mais funcionários foram se instalando, vindos especialmente do Rio Janeiro. Eram tempos de muita poeira, dificuldades de abastecimento, de lazer, de moradia, contam os pioneiros16.

No início tudo estava por ser feito, havia mercado para todos os profissionais qualificados, que se misturavam nos poucos apartamentos dos prédios recém-construídos. Havia, portanto, uma maior mescla entre as classes sociais: professoras primárias, políticos e altos funcionários do governo moravam nos mesmos edifícios e se solidarizavam nas caronas, pois o transporte urbano era precário17. Em 1962, existiam 11,6 mil veículos para uma população de pouco mais de 140 mil habitantes. A partir de 1965, entretanto, esta mescla foi quebrada pois a elite brasiliense foi se “encastelando” no Lago Sul e o Plano Piloto foi sendo ocupado pela classe média18.

Enquanto isso, as cidades-satélites iam tomando forma. A ex-Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, imaginada para durar apenas o tempo da construção da capital, permanece até hoje. Nela havia hotéis, mercados, bancos, lazer e até igrejas. Era lá que acontecia toda a movimentação de caráter urbano da incipiente Brasília dos anos 50. Foi a primeira e única satélite criada por lei federal.

Planaltina19 é anterior à construção da nova capital. Já era uma modesta localidade nos sertões goianos quando abrigou os membros da Comissão Cruls, que, em 1892, demarcou área para a localização do novo Distrito Federal. Com a inauguração de Brasília, ela se integrou ao complexo administrativo da capital. Em razão do seu perfil histórico, Planaltina difere das outras cidades por sua identidade, tradição e cultura locais próprias. Da área original de seu município uma parte foi incorporada ao Distrito Federal, inclusive ao Plano Piloto.

Assim como Planaltina, Brazlândia20 é anterior à inauguração da capital e nas suas raízes históricas estão a agricultura e a pecuária. A origem do nome da cidade vem do sobrenome de uma das famílias que fundou a cidade, os Braz. Quando Brasília foi inaugurada, Brazlândia contava com cerca de mil moradores. Em 1969, a cidade ganhou mais mil famílias assentadas, oriundas da invasão chamada Vietcong.

A região em que hoje se situa a cidade do Cruzeiro21 foi o palco para os trabalhos dos primeiros técnicos que vieram ao Planalto Central para estudar a localização da capital brasileira, ainda no final do século XIX, coordenados pelo astrônomo Luiz Cruls. No governo JK, próximo de onde hoje é a rodoferroviária, foi erguido um cruzeiro para demarcar a construção da cidade, vindo daí o nome da cidade-satélite. A primeira missa da cidade Brasília foi rezada ao pé deste cruzeiro, na qual estavam presentes, segundo registros, 15.000 pessoas22. As primeiras dez casas geminadas começaram a ser construídas em 58 e eram destinadas aos funcionários públicos transferidos para a capital23. No final do ano de 1961, já existiam 600 casas no Cruzeiro. Em 1970, foi criado o Cruzeiro Novo, constituído basicamente de edifícios de apartamentos.

Taguatinga24 estava nos planos do novo Distrito Federal, mas a proliferação de uma grande invasão ao lado da Cidade Livre, a Vila do IAPI, precipitou o início desta cidade-satélite. Foram transferidas para o local as primeiras famílias no ano de 1958. Ao final deste ano, o assentamento urbano já contava com 10.000 moradores. Em um ano já atingia 15.000 habitantes e, quando Brasília foi inaugurada, Taguatinga já contava com 30.000 pessoas.

Sobradinho25 nasceu junto com a capital. Os primeiros habitantes foram famílias transferidas de pequenas vilas existentes dentro da área de inundação do lago Paranoá, que começaram a ser transferidas em 1960. Segundo o planejamento da época, estava prevista a criação de um núcleo agrícola na região, que chegou a ser implantado. A cidade ganhou grande impulso durante o regime militar, com urbanização, escola, saúde e telefone, possuindo, desde então, um excelente padrão de qualidade de vida.

O Gama26 também foi fundado no mesmo ano da inauguração de Brasília. Os primeiros moradores foram as famílias que trabalhavam na pedreira para a barragem do lago Paranoá. A cidade foi planejada com as quadras de forma hexagonal, sendo que a cada dois triângulos existem centros comerciais, lembrando uma colméia.

O Guará I27 nasceu a partir de um projeto de mutirão de funcionários públicos que começaram a construir suas casas naquela área a partir de 1968. Os primeiros moradores vieram de vários pontos de Brasília: Taguatinga, Candangolândia, Vila Planalto, Gama e até da Vila do IAPI. O sistema de mutirão consistia em reunir grupos de dez famílias inscritas para a construção de dez casas, sendo que, após a conclusão das dez unidades havia um sorteio e as famílias encaminhavam-se para a habitação sorteada. O Guará II iniciou-se a partir de 1972, com um projeto do governo do DF para ampliação do Guará I.

Durante a década de 60, Brasília despertava atenção em todo o país. Muitos migrantes vinham em direção à capital em busca de melhores condições de vida. Havia um êxodo rural com rotas de migrações bem específicas naqueles anos, como era o caso daqueles migrantes que fugiam dos impactos das secas que assolavam os estados do nordeste. Estes migrantes dirigiam-se para áreas contíguas à então Cidade-Livre, originando grandes invasões que foram paulatinamente sendo retiradas. Segundo levantamento feito em 197028, existiam quase 15.000 barracos nesta região, com uma população superior 80.000 pessoas. Este contingente representava 15% da população existente em Brasília. O processo de urbanização do DF, assim como no resto do país, passou, então, a ser marcado por intensa favelização.

Ceilândia29 é o resultado de um plano de erradicação de favelas e invasões do Plano Piloto, do início da década de 70. As primeiras famílias foram instaladas em um local ao norte de Taguatinga, batizado depois com nome de Ceilândia (de Cei – Campanha de Erradicação de Invasões). A proposta era proporcionar a inclusão social daquelas comunidades em núcleo urbano com infra-estrutura, mas a falta de água, luz elétrica e saneamento básico dificultaram muito a vida dos primeiros moradores da cidade30. Além disso, houve o longo processo de transferência – mais de um ano - das chamadas invasão do IAPI e invasão Sara Kubitschek para o local.

No início da década de 70, com a demora da implantação do plano urbanístico, a infra-estrutura urbana na capital ainda era incipiente faltando as vias, o asfaltamento, a grama e os jardins. A Asa Norte era quase um deserto: existiam poucas quadras sendo isoladas uma das outras, a 403 e a 404 são as mais antigas. Nesta época, as avenidas W3 Sul e W3 Norte ainda não possuíam comunicação e o centro comercial da cidade era a avenida W3 Sul. Nesta época houve um surto imobiliário, os preços dos imóveis do Plano Piloto, Guará, Cruzeiro e Núcleo Bandeirante subiram e a população pobre foi deslocada para o chamado Entorno, principalmente para Luziânia, que cresceu 600% nos anos 70. Em termos de transporte, a cidade, em 1970, já dispunha de 36 mil veículos transitando por suas poucas ruas e, quase no final da década, este número já havia subido para 160 mil automóveis. O movimento do aeroporto da capital federal em 1978 já era de 1,2 milhão de passageiros, demonstrando o incremento que sofreu a cidade nos anos 70.
b) Aspectos políticos e econômicos

Nomeado por JK, o engenheiro e presidente da Novacap, Israel Pinheiro foi o primeiro prefeito de Brasília e o braço direito do presidente durante a edificação da cidade. Em fevereiro de 61, Jânio Quadro indicou Paulo de Tarso para o cargo, que enfrentou em Brasília muitas dificuldades - políticas particularmente - para alcançar um ritmo de implementação contínuo, isto apesar de possuir previsões orçamentárias de recursos, uma vez que naquele período a União era inteiramente responsável pela manutenção do Distrito Federal. As contramarchas da transferência estavam diretamente relacionadas com a vontade política do Executivo, que passou por várias turbulências quanto a ordem política. Em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou e a cidade viveu sua primeira crise institucional, que acabou desembocando no golpe militar de março de 64. Em 62, o presidente João Goulart nomeou Sette Câmara para a prefeitura da capital, que, no ano seguinte, também enfrentou um levante de sargentos da Marinha e Aeronáutica, logo sufocado, prenúncio dos acontecimentos que viriam a seguir.

O prefeito Sette Câmara foi substituído em 1962 por Ivo Magalhães, que permaneceu no cargo por dois anos. Com a revolução de 64, foi escolhido o coronel Ivan de Souza Mendes e, em seguida, o presidente Castelo Branco empossou Plínio Catanhede31. Entre 62 e 64, as obras da construção da capital estiveram paralisadas e geraram um contingente de 300 mil trabalhadores desempregados, que, para pressionar o governo, decidiram varrer as ruas da nascente cidade.

A partir de 64, a cidade não escapou dos efeitos da ditadura militar. A Universidade de Brasília, projeto de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, sofreu sua primeira invasão em 1965, quando 15 professores foram presos e 210 demitiram-se em solidariedade. Foi o primeiro golpe no nascente ambiente científico e cultural da capital. Deixaram a Universidade nomes como o poeta Décio Pignatari, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, o músico Rogério Duprat, o arquiteto Oscar Niemeyer, dentre outros. Em 1967, o presidente Costa e Silva nomeou Vadjô da Costa, o último prefeito da cidade. No ano seguinte, a Universidade de Brasília foi invadida novamente, ano em que foi preso o estudante Honestino Guimarães. Honestino foi o mártir local, dos movimentos estudantis do período, que se somou ao mártir nacional, o estudante Edson Luiz, morto no Rio de Janeiro, na mesma época. No mesmo ano, apesar do clima político, a cidade recebeu as suas primeiras visitas de Estado: a rainha Elizabeth da Inglaterra chegou à capital e reuniu na recepção, segundo jornais da época, cerca de cinco mil pessoas.

Durante toda a década de 60 ainda havia rumores do retorno da capital para o Rio de Janeiro, entretanto, os órgãos públicos iam sendo transferidos aos poucos para Brasília. A razão para a demora da consolidação da nova capital era de que os políticos preferiam estar nos seus estados de origem, uma vez que a mídia nacional não prestava mais atenção em Brasília depois de sua inauguração32. As resistências à cidade eram enormes por parte daqueles que chegavam, mas havia quem apostasse no futuro que Brasília apontava. O governo, com o intuito de atrair e fixar funcionários em Brasília, pagou durante muitos anos salários dobrados para os servidores que se oferecessem para vir trabalhar e residir na capital, e concedeu vantagens para aqueles que desejassem se estabelecer no ramo dos negócios.

Grandes fortunas pessoais da cidade foram iniciadas neste período. A família Venâncio, hoje dona de vários imóveis, inclusive dois shoppings, é exemplo disso. Comentou a colunista Katucha33 que a sociedade do início de Brasília tinha um quê de provincianismo, o que era muito justificado pela origem das pessoas que vieram morar na cidade.

O Distrito Federal começou a década de 70 com 537, 5 mil habitantes e, em termos populacionais, as então satélites possuíam dois terços do total do DF e o Plano Piloto, um terço, sendo que as 9 cidades-satélites existentes eram basicamente dormitórios. Brasília, em 1976, possuía 50% de áreas desocupadas nas duas Asas e 90% do setor de mansões34. Mas havia um movimento de otimismo com relação ao futuro da cidade, pois logo nos primeiros anos da década de 70 foram fundadas a Associação Comercial e a Federação das Indústrias do Distrito Federal. O Distrito Federal iniciou a década de 70 com mudanças nas suas estruturas político-administrativas: a prefeitura transformou-se em governo e as sub-prefeituras evoluíram para administrações regionais. O primeiro governador foi o coronel Hélio Prates, nomeado pelo presidente general Emílio Garrastazu Médici.

O governo do general Médici determinou a data limite de 1972 para a transferência final do Ministério das Relações Exteriores e das representações diplomáticas e estipulou que só receberia as credenciais dos diplomatas no Palácio do Planalto. Tal decisão provocou profundas mudanças na vida econômica e social da cidade, com o aumento dos negócios, principalmente no setor imobiliário. Sem a presença de firmas de tradição na organização de festas, as recepções políticas e sociais nas décadas de 60 e 70 eram feitas nos hotéis Nacional e Brasília Palace. Por lá passaram políticos, diplomatas e personalidades que vinham visitar a cidade. Estes hotéis eram os espaços onde os fatos aconteciam.

O afluxo de pessoas à capital, oriundas da máquina administrativa federal espalhada pelo país e da diplomacia nacional e internacional, incrementou o comércio, e a cidade ganhou seu primeiro shopping, o Conjunto Nacional, que, à época, em 1971, era considerado o maior da América Latina. O progresso chegou e a violência também. Em 73 foi morta a menina Ana Lídia Braga, de 7 anos, depois de ter sido drogada e violentada. Os acusados do crime foram filhos de políticos, que permaneceram impunes, e o crime abalou a nascente sociedade brasiliense, com repercussões nacionais.

No período de 1974 a 1979, o DF foi governado pelo engenheiro Elmo Serejo, nomeado pelo presidente general Ernesto Geisel. Neste intervalo, em 1976, o ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu em acidente automobilístico, e seu cortejo foi acompanhado por milhares de pessoas na cidade que ele ajudou a criar. A imprensa local deu ampla cobertura ao fato, demonstrando o carinho da população de Brasília para com o político mineiro. O fato ganhou maior repercussão porque o ex-presidente estava com os seus direitos políticos cassados pela ditadura.

Até o início dos anos 80, o setor que mais absorvia a mão-de-obra pouco qualificada era a construção civil, depois este contingente foi migrando para o comércio e serviços. Quando foi inaugurada o Ceasa em Brasília, em 1968, 17,4% da população estava ocupada com a agricultura, setor que também cresceu com os anos, fato que levou o Distrito Federal a tornar-se um exportador de hortifrutigranjeiros para outros estados da federação.


c) Aspectos culturais e de lazer
Em 1961, o poeta Ferreira Gullar assumiu a direção da Fundação Cultural do Distrito Federal, como seu primeiro diretor. Ele registrou os incipientes acontecimentos culturais da cidade neste período: exposição de parte do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma pequena temporada do Teatro de Arena e a presença da escola de samba da Mangueira. Conta Gullar que, sem boates e transportes públicos, a cidade dormia cedo35. Apesar do estado de espírito da população devido a ditadura, foi realizada a primeira edição do Festival do Cinema Brasileiro, em 1965, que proporcionou o encontro do cinema, da crítica, da política e do público.

A falta de lazer era a maior reclamação dos que aqui chegavam e o estigma de “cidade da solidão” começava a se instalar na capital. Segundo jornalistas que trabalhavam na capital à época36, nos finais de semana, no período de férias do meio do ano e do final do ano, grande contingente de moradores da cidade retornava aos seus locais de origem. Mas, em 67, dois marcos tradicionais de divertimento na cidade surgiram: o bar Beirute e a Torre de Televisão. Neste mesmo ano, o povo divertiu-se no carnaval de rua, no desfile das escolas de samba locais na rodoviária e 25 clubes organizaram bailes. No ano seguinte, o tão reclamado e ausente divertimento chegou com a inauguração da boate Kako, no Centro Comercial Gilberto Salomão, que começava a ser um ponto de lazer para os brasilienses. No mesmo espaço iniciou-se a construção do Cinespacial, um dos primeiros da capital. Em 1970, o Brasil alcançou o tricampeonato de futebol. Mais de 100 mil pessoas na capital acompanharam o desfile da seleção brasileira de futebol campeã do mundo do aeroporto até a Praça dos Três Poderes. Lá foi recebida a equipe, no Palácio do Planalto, pelo general Médici.

O futuro perfil místico de Brasília já começava a se pronunciar com a fundação da Cidade Eclética, já na década de 50, e do Vale do Amanhecer, na década de 60, com os líderes espirituais Yokanan e Tia Neiva, respectivamente. A partir daí, a cidade passou a receber várias seitas e religiões, que se instalaram na cidade, ao longo das avenidas L2 Sul e Norte, principalmente.

Com o incremento da população já havia espaço para um novo jornal na cidade: o Jornal de Brasília, fundado em 1970, concorrente do Correio Braziliense, que começara a circular no dia da inauguração da cidade. O novo jornal chegou a ameaçar o Correio, levando para o nascente veículo os melhores profissionais deste, mas o sucesso durou pouco e o Correio retomou a sua liderança.

Brasília e o país foram penalizados com a suspensão do Festival do Cinema Brasileiro de 72 a 74. No ano de 74, o grupo Secos e Molhados apresentou-se em Brasília. A estrela do grupo, o cantor Ney Matogrosso, que morou em Brasília e trabalhou como fisioterapeuta no hospital Sarah Kubitschek. Também no início dos anos 70, o rock de Brasília começou a se desenhar, com as bandas Margem37, Bueiro, Portal e Tellah. Ainda em 74, a cidade ganhou um planetário com 140 lugares e um autódromo internacional, com 750 mil metros quadrados e capacidade para 114 mil pessoas.

Em 76, com a primeira edição do Curso Internacional Verão da Escola de Música de Brasília, iniciava-se uma tradição musical na cidade que passou a trazer anualmente grandes nomes da música erudita mundial e nacional para oficinas com os brasileiros. A Rádio Nacional FM começou a funcionar em 1977, valorizando a música brasileira, assim como o Centro de Criatividade da 508 Sul, núcleo gerador de artistas na cidade nos anos seguintes. Neste mesmo ano, poetas da cidade, como Fausto Alvim, integram uma coletânea de poesias Águas Emendadas.

No carnaval de 1978, estreou o Pacotão, o mais popular bloco de rua de Brasília, com uma marcha ironizando os governos dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo. Também neste ano chegou à cidade o projeto Pixinguinha, da Funarte38, que proporcionou uma das primeiras chances aos brasilienses de ouvirem música popular brasileira ao vivo. No Dia da Criança deste ano, a cidade ganhou o Parque da Cidade (oficialmente Parque Rogério Pitton Farias), com 420 hectares e projeto paisagístico de Burle Marx, com vegetação típica do cerrado e outras plantas adaptadas para o local. Também neste mesmo ano, foi criada a Orquestra Sinfônica no Teatro Nacional, tendo à frente a regência do maestro Claudio Santoro. Ainda neste mesmo ano, começou o Movimento Cabeças, série de shows ao ar livre na quadra residencial 311 Sul, que promovia os artistas da cidade: a flautista Odete Ernest Dias, os cantores Beirão e Renato Mattos. O Teatro Nacional foi reinaugurado em 79 e a capital passou a atrair artistas consagrados como o músico Astor Piazzola.Também, a partir daquele período, intelectuais passaram a vir a Brasília, como o pensador italiano Umberto Eco.

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