Correio Braziliense: 40 anos Do pioneirismo à consolidação



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1.3.2 A Consolidação – década de 80

a) Aspectos urbanos

Em 1980, já com 1,2 milhão de pessoas, registrou-se uma mudança substancial no perfil populacional do Plano Piloto, que se reduziu a apenas 25% do total do Distrito Federal. As então satélites passaram a receber a classe média expulsa do Plano Piloto pela alta dos preços imobiliários e o incremento populacional levou ao maior dinamismo da vida econômica destas cidades. Em 1984, Lúcio Costa afirmou: “Brasília, com sua originalidade, com sua beleza inata, com suas aberrantes contradições e com suas congênitas mazelas, é de fato, a capital que o Brasil merece”. Ainda em 87, o setor Sudoeste habitacional saiu da prancheta do urbanista Lúcio Costa, que apresentou projeto de expansão urbana à cidade. Também em 87, a Unesco tombou, como Patrimônio Cultural da Humanidade, o Plano Piloto de Brasília a Vila Planalto, área onde se localizaram os primeiros acampamentos das construtoras para edificação da capital.


b) Aspectos políticos e econômicos

De 1979 a 82, já na presidência do general João Batista Figueiredo, o Distrito Federal foi governado pelo coronel Aimé Lamaison. Em 1981, o ex-Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger fez palestra na Universidade de Brasília, quando os estudantes protestaram contra sua a presença e, ele saiu, sob a proteção da polícia e debaixo gritos de “fora” por parte dos estudantes. Neste mesmo ano, foi inaugurado o Memorial JK para abrigar os restos mortais do ex-presidente Juscelino. O monumento tem, em seu desenho, contornos da foice, que é símbolo do comunismo.

Substituindo Aimé, em 1982, foi empossado o coronel José Ornelas como governador do Distrito Federal, ele ficou no cargo até 1985. Neste governo, a Brasília dos anos 80 descobriu que já tinha um esquadrão da morte. Em 1984, o repórter policial Mário Eugênio foi morto por denunciar esse tipo de ação policial, 10 mil pessoas foram a seu enterro, maior número de pessoas do que o cortejo que acompanhou o ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 76. Enquanto isso, também em 84, o governo decretou medidas de emergência em Brasília e o general Newton Cruz tentou impediu manifestantes de protestarem em razão da votação da Lei das Eleições Diretas, montado num cavalo, brandindo um chicote. A partir deste incidente, a cidade começou a mostrar para o resto do país a sua capacidade de protestar.

Eleito presidente, Tancredo Neves não conseguiu tomar posse, vítima de um sério problema de saúde, e morreu no dia 21 de abril de 85, quando assumiu o vice José Sarney. Ao assumir a presidência, José Sarney designou interinamente como governador da capital o então ministro do Interior, Ronaldo Costa Couto, depois nomeou José Aparecido de Oliveira, então ministro da Cultura, que ficou no cargo até 1988. Ainda em 85, a UnB respirava aliviada: depois de comandar por dez anos a Universidade, o professor José Carlos Azevedo deixou a reitoria. Foram novos ares políticos que permitiram também aos brasilienses eleger a sua primeira bancada de parlamentares no Congresso Nacional, em 1986, para participarem da Assembléia Nacional Constituinte.

Brasília foi para as manchetes dos jornais do país, também em 86, com a ocorrência do “Badernaço”, uma grande manifestação de rua, realizada no centro da cidade, contra o pacote econômico do Presidente Sarney chamado Plano Cruzado, que terminou em depredações, saques e prisões. O ano de 1988 foi o da promulgação da nova Constituição do Brasil, a primeira depois da ditadura, onde Brasília obteve a sua maioridade política. Até 1987, o Distrito Federal recebia 55% de seus recursos da União, mais o ICMS proveniente d a comercialização do trigo. Com a autonomia política minguaram os recursos e o governo local precisou gerar formas de arrecadação.

Em 88, com a saída de José Aparecido do governo do DF, foi então empossado o vice-governador de Goiás à época, Joaquim Roriz, que permaneceu no governo até 1990, quando o assumiu o vice-governador do Distrito Federal, Vanderley Vallim. Posteriormente ele foi eleito duas vezes para o governo do Distrito Federal.


c) Aspectos culturais e de lazer

No começo da década de 80 Brasília já tinha uma produção cultural própria: o grupo de dança Endança, a banda de rock Aborto Elétrico, de onde sairia a Legião Urbana. A atriz Dulcina de Morais apostou na cidade e, em 1980, criou a Fundação Brasileira de Teatro e a Faculdade de Artes Dulcina. A cidade, nesta época, foi cenário do longa-metragem de Sérgio Rezende O Sonho não Acabou, que retratava a juventude pós-ditadura e que contava com muitos atores da cidade, entre os quais Aluísio Batata. O ano de 1987 é também o da morte do filósofo Eudoro de Souza, um dos fundadores da UnB. O ano de 87 foi rico em eventos e, entre eles, destaca-se a primeira edição do Festival Latino-Americano de Arte e Cultura – FLAAC, na Universidade de Brasília. Em 1988, surgiu o grupo de fotógrafos “Ladrões de Alma”, que marcou a cidade nos anos seguintes com suas exposições e coleções de cartões postais produzidas por eles.

O rock brasiliense fechou a década ganhando espaço no cenário nacional com as bandas Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Escola de Escândalos. Em 88, tumultos no show do grupo Legião Urbana, em Brasília, provocaram o rompimento do cantor Renato Russo e do grupo com a cidade: aqui, eles não retornariam mais para shows. A cantora Cássia Eller, que no início dos anos 80 já era grande sucesso em Brasília, lançou seu primeiro disco em 1989.

No ano de 1980, a cidade recebe a visita do Papa João Paulo II e milhares de brasilienses saem às ruas para saudá-lo. Em 1985, o misticismo de Brasília perdeu dois líderes, tia Neiva, do Vale do Amanhecer, e Yokanan, da Cidade Eclética, mas, em compensação, ganhou a Fundação Cidade da Paz, na antiga Granja do Ipê, que sediaria os grandes eventos holísticos da capital.

A partir de 84, o Distrito Federal passou a fazer parte do grupo seleto de estados que possuíam atletas premiados em competições no exterior. Joaquim Cruz, cidadão humilde de Taguatinga, trouxe para o Brasil a medalha de ouro das Olimpíadas de Los Angeles, Estados Unidos, nos 800 metros.
1.3.3 A afirmação – década de 90
a) Aspectos urbanos

Graças à política de distribuição de lotes do então governador “biônico” Joaquim Roriz, que criou a cidade de Samambaia39, o Distrito Federal entrou a década de 90 com 1,6 milhão de pessoas, sendo que o Plano Piloto possuía menos da metade do número de habitantes do Distrito Federal.

Em seu primeiro ano de mandato como governador eleito, Joaquim Roriz começou a implantar os novos núcleos urbanos de Santa Maria, Riacho Fundo, Recanto das Emas e São Sebastião, que passaram a atrair mais ainda populações de outras regiões do país para o DF.

Em 96, no governo de Cristovam Buarque foi inaugurado o Programa “Paz no Trânsito”, que alcançou grandes índices de aceitação junto à população. Este foi também o ano de surgimento de mais uma invasão, a da Estrutural, que provocou atritos violentos entre invasores e polícia. Brasília, que foi planejada para ser uma cidade meramente administrativa, fecha o século XX com questões urbanas semelhantes às de qualquer grande cidade brasileira: desemprego, inchaço da periferia, violência, crise no setor de saúde, educação e transporte. Muito em função do défict de transporte, o DF possuía, em 2000, 800 mil automóveis, com a média de 2,5 habitantes por veículo, a menor média nacional, que era, até então, de 9,5 habitantes para cada carro.


b) Aspectos políticos econômicos
Em 91, Joaquim Roriz tomou posse como o primeiro governador eleito do Distrito Federal, e a cidade passou a possuir uma Câmara Legislativa Distrital, com 24 deputados distritais, além da representação na esfera federal com oito federais e de um senador. O ano de 1993 é o da promulgação da carta magna de Brasília, a Lei Orgânica do Distrito Federal. Um clima de euforia democrática passa então a marcar a capital, que começa a atrair as massas desejosas de mostrarem o seu descontentamento político: 60 mil pessoas saem às ruas em Brasília para protestar contra o governo do presidente Fernando Collor. Poucos meses depois, 100 mil brasilienses vão à Esplanada dos Ministérios para pedir o impeachment de Fernando Collor. Novos protestos em 95: agricultores endividados ocupam a Esplanada dos Ministérios com tratores e caminhões; dois anos depois é a vez dos integrantes do Movimento dos Sem-Terra que ficaram dois meses acampados em Brasília. Em abril de 1997, a cidade ficou chocada quando foi incendiado o índio pataxó Jesus Galdino dos Santos por cinco jovens brasilienses, que pensaram que “tratar-se de um mendigo”. Nova manifestação em Brasília em 1998: 20 mil pessoas protestaram contra o desemprego. Já em 99, 100 mil pessoas fazem manifestação contra o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

No ano de 99, marca o governo de Joaquim Roriz que enfrentou sua primeira grande crise política: soldados da PM invadiram a estatal Novacap, onde funcionários protestavam sobre acordo coletivo salarial, atiram e matam uma pessoa e ferem outras 32.

O Distrito Federal entra na primeira década de 2000 com 2 milhões de habitantes, acompanhado de um cinturão populacional de 800 mil habitantes no chamado Entorno. Uma ilha de riqueza, o DF é uma das maiores rendas per capita do país, o primeiro lugar em renda mensal, o segundo estado em número de shoppings centers. Brasília entra no novo século com um maior contingente da população economicamente ativa no comércio e serviço, lugar antes ocupado pelo setor da construção civil.
c) Aspectos culturais e de lazer

Novos espaços culturais são criados, no início dos anos 90: o Museu de Arte de Brasília e a Casa do Teatro Amador. Em 91, começou a despontar o grupo teatral “A Culpa é da Mãe”, e foi fundado o Coro Sinfônico Comunitário na Universidade de Brasília, pelo maestro David Junker. Já em 1993, a primeira edição do prêmio OK de Cultura fez uma homenagem ao artista Athos Bulcão. A cidade já contava com um Fórum Brasília de Artes Visuais.

Mais uma banda brasiliense de rock chegou ao cenário nacional, os Raimundos. E Brasília também promoveu a música erudita neste ano: a Missa de Réquiem, do padre José Maurício Nunes Garcia, teve estréia mundial no Carnegie Hall, em Nova York, com Coro Sinfônico da UnB; já o Madrigal de Brasília lançou seu primeiro CD com a regência de Emílio de César. Ainda em 94, a cidade sediou o I Encontro de Música Eletroacústica.

Brasília perdeu um dos seus maiores cinemas, o cine Atlântida, para a Igreja Universal, em 1995. No ano seguinte foi criado novo espaço para cultura popular, a Casa do Cantador, na Ceilândia que realizou o 1º Festival Nacional do Cantador. No ano seguinte, o grupo de rap brasiliense Câmbio Negro gravou o CD Fogo Cruzado.

O programa Temporadas Populares, do governo Cristovam, trouxe à cidade grandes nomes da música popular e artistas-revelação. A partir de 97, o Clube do Choro começou a se afirmar como uma casa musical que mantém tradição desse ritmo brasileiro. Ainda em 97, começam a funcionar mais duas salas de cinemas no clube Academia de Tênis, exibindo filmes de arte e de autores independentes.

Confirmando o perfil místico que a cidade de Brasília foi adquirindo com o passar dos anos, levantamento feito, em 97, constatava a existência de mais de 1074 seitas, religiões ou credos. Além das igrejas mais tradicionais, como a católica e os ramos protestantes, Brasília também abriga mulçumanos, budistas, messiânicos, espíritas, rosa cruzes entre outros credos.

Ocupando mais um espaço no esporte nacional, além do triatlo e da corrida, em 98, o time do Gama alcançou a série B do Campeonato Brasileiro de Futebol. O Distrito Federal entrou, então, para o seleto universo de grandes times do futebol brasileiro.
Capítulo 2

A trajetória do Correio Braziliense


O dever de todo homem é de administrar, em benefício da sociedade, os conhecimentos ou talentos que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou. Ninguém mais útil que aquele que se destina a mostrar com evidência os acontecimentos do presente e desenvolver as sombras do futuro.”

Hipólito da Costa

2.1- Antecedentes

O Correio Brasiliense foi fundado por Hipólito da Costa, em 1808, poucos meses antes da Gazeta do Rio de Janeiro e é considerado o primeiro jornal brasileiro por muitos estudiosos da história da imprensa no Brasil. Era editado em Londres e chegava ao Brasil contrabandeado nos navios ingleses que aqui aportavam, uma vez que o Reino de Portugal censurava todo e qualquer impresso confeccionado no Brasil Colônia. Para os padrões daquele tempo sua assinatura era cara, apesar disso, era muito lido pelos formadores de opinião da colônia. Seu editor era brasileiro, nascido na província de Sacramento, hoje Rio Grande do Sul. Bacharel em leis e filosofia, maçom, ocupou vários cargos no Estado português e saiu de Portugal para a Inglaterra fugindo em razão de sua participação na Maçonaria, organização perseguida naquela época. Lá chegando, ardoroso defensor da liberdade de imprensa que era, resolveu criar uma gazeta livre para os compatriotas “brasilienses”, como ele chamava os residentes no Brasil.

O Correio Brasiliense era escrito e produzido totalmente por Hipólito da Costa, que não recebia nenhuma remuneração para tal tarefa. Mensal, possuía de 72 a 140 páginas, e compreendia quatro seções: política, comércio e artes, literatura e ciências, e miscelânea (abrangendo, esta, reflexões sobre as novidades do mês). Além disso, havia uma coluna de correspondência, hoje o que se conhece como coluna do leitor.

O Correio era mais doutrinário do que informativo e nele Hipólito da Costa defendia idéias sobre a interiorização da capital, liberdade de imprensa, monarquia constitucional, abolição da escravatura, defesa da imigração, criação de júri popular, instituição de universidades e a independência do Brasil. Ele elencou as razões para criar o jornal, no primeiro número, quando disse40:

O dever de todo homem é de administrar, em benefício da sociedade, os conhecimentos ou talentos que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou. Ninguém mais útil do que aquele que se destina a mostrar com evidência os acontecimentos do presente e desenvolver as sombras do futuro.
E concluindo, descrevia:

Feliz eu se posso transmitir a uma nação longínqua e sossegada, na língua que lhe é mais natural e conhecida, os acontecimentos desta parte do mundo, que a confusa ambição dos homens vai levando ao estado da mais perfeita barbaridade. O meu único desejo será de acertar todas as forças, na persuasão de que o fruto do meu trabalho tocará a meta da esperança a que eu me propus.
Durante 14 anos, Hipólito desenvolveu campanhas pela elevação do Brasil ao mesmo status de Portugal, tendo como modelo as instituições civis da Inglaterra e uma monarquia constitucional representativa. Ele temia que a independência do Brasil em relação a Portugal ocorresse nos moldes das colônias americanas, mas, diante dos acontecimentos políticos da colônia, tendo à frente o príncipe regente D. Pedro I, optou pela independência do Brasil. Proclamada a Independência, Hipólito viu a sua tarefa concluída: o Brasil era uma nação livre, unida a Portugal em mesmo pé de igualdade. O Correio deixou de circular no mesmo ano da Independência, em dezembro de 1822.

2.2- Assis Chateuabriand

O criador do atual Correio Braziliense foi o jornalista e empresário, Assis Chateuabriand, dono da cadeia de veículos de comunicação Diários Associados. Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, nasceu na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba, em 14 de janeiro de 1892. Gago desde as primeiras palavras, Chatô, como ficou posteriormente conhecido, só conseguiu ser alfabetizado depois dos 11 anos, e aos 15 começou a trabalhar no jornal, Gazeta do Norte, em Recife, Pernambuco. Autodidata, estudou filosofia graças aos livros existentes nas bibliotecas das escolas católicas do Recife.

Desde a sua estréia no jornalismo foi atraído pelas polêmicas, característica dos jornais do início do século, e foram elas que lhe abriram as portas do sucesso na imprensa. Ainda as polêmicas o fizeram perceber que opiniões próprias podem ter aqueles que possuem um veículo onde expressá-las. Com esta idéia na cabeça decidiu adquirir seu primeiro veículo, O Jornal, aos 32 anos.

As campanhas e polêmicas, contra ou a favor de fatos ou pessoas de importância nacional, compuseram sua fama ao longo da vida. Durante mais de 40 anos publicou diariamente artigos nos jornais de sua cadeia de veículos de comunicação que, muitas vezes, abalaram o cenário político brasileiro. O império jornalístico de Chatô foi construído sob inspiração da personalidade do seu fundador: visionária, centralizadora, autoritária, vingativa, magnética e modernizadora.

Grande empreendedor, Assis Chateaubriand não era um bom administrador. Ele adquiria veículos para a cadeia dos Diários Associados muitas vezes sem dinheiro, fazendo empréstimos e dívidas. Quando foi acometido de sérios problemas de saúde, no início da década de 60, o império montado por ele passou a ressentir-se de sua ausência no comando, nas negociações políticas e financeiras. Após a sua morte, em 1968, a cadeia sofreu grandes abalos em razão das dívidas, das disputas de herança patrocinadas por seus filhos e pelas próprias disputas internas pelo comando dos Diários Associados. As dificuldades culminaram com campanhas movidas por empresas de comunicação concorrentes, mas o golpe mortal foi dado, em 1980, pelo governo federal, quando foram cassadas as concessões de 10 veículos da cadeia, entre rádios e TVs41.


2.3- Diários Associados

Segundo alguns artigos do próprio Chateaubriand, os objetivos que moveram o jornalista a criar a cadeia dos Diários Associados, além de interligar as capitais do país através de seus veículos, também eram fazer do Brasil uma grande nação, forte e independente. Dotar o país de um sistema de comunicação que superasse o isolamento da maioria de seus Estados, provocado pela existência de grandes jornais apenas no sul42. Quando adquiriu o primeiro veículo da nascente cadeia dos Diários Associados, O Jornal, em 1924, anunciou que pretendia
servir e defender o interesse público; não o interesse de uma classe ou de um partido, mais o interesse comum, aquele "bem comum”, que é o objetivo, é a única razão de existência das comunidades políticas.
O nome Diários Associados surgiu a partir de um artigo de Chatô, na década de 3043, mas a estrutura formal do Condomínio só foi estabelecida em 1959, quando ele fez uma doação de 49% do patrimônio dos veículos para um grupo de 22 empregados44. Com uma visão inovadora, Chateaubriand criou um sistema de cotas intransferíveis, impenhoráveis e incomunicáveis, cuja administração fugia aos padrões da imprensa da época, por não ser familiar.

Chateaubriand montou um império de comunicação que foi, durante pelo menos trinta anos, o maior do Brasil e um dos maiores da América Latina. Sua marca foi o pioneirismo: criou, em 1931, a Meridional45, uma das primeiras agências de notícias do país; fundou a rádio Tupi, a primeira estação de rádio, em 1935, no Rio de Janeiro; e em 1950, inaugurou a primeira televisão, a TV Tupi, a primeira da América Latina e a terceira do mundo. Após a morte de Chatô, assumiu a presidência do grupo João Calmon, que pediu afastamento em 1980, passando a dirigir o Condomínio o jornalista Paulo Cabral. Esta nova direção imprimiu à administração da rede um caráter empresarial, sanando as dívidas, tornando o empreendimento lucrativo. Hoje o grupo é o sétimo do país, com um faturamento de 357 milhões46; possui 12 jornais, oito emissoras de TV, 13 emissoras de rádio, três provedores de acesso à internet e outras atividades, estando presente em nove Estados.


2.4- O Correio Brazileinse de Assis Chateaubriand

O atual Correio Braziliense nasceu de uma aposta entre Assis Chateaubriand, empresário de comunicação e dono dos Diários Associados, e o então presidente Juscelino Kubitschek. Chatô, foi no início contrário à construção de Brasília47, pois achava que se tratava de mais uma loucura de Juscelino. Chateaubriand48 prometeu a Juscelino que se o presidente conseguisse construir a cidade no tempo previsto, encontraria um jornal no dia da inauguração. Entretanto, segundo Glauco Carneiro49, uma resolução aprovada em congresso dos Diários Associados, em 1956, já apontava para a necessidade de se criar um jornal na futura capital do país. João Calmon50, a segunda pessoa em poder de decisão dos Diários Associados à época do início da edificação de Brasília, acreditava ser muito importante para o grupo possuir um jornal na cidade, e entusiasmado defensor da idéia trouxe para si a luta pela concretização do projeto. E muitas foram as ações executadas, principalmente por Calmon, para que o Correio Braziliense se materializasse no Planalto Central.

Os recursos financeiros foram obtidos junto ao Banco da Lavoura, em Minas Gerais, cujo diretor, Gilberto Farias, foi o primeiro assinante do jornal. Assis Chateaubriand enviou a Brasília, entre outros, o jornalista Ari Cunha51 a quem coube coordenar a implantação da redação do Correio, e Edilson Cid Varela52, com a responsabilidade da construção do prédio. A pedra fundamental foi lançada em setembro de 1959, mas a construção do edifício, no Setor de Indústrias Gráficas, só foi iniciada em janeiro do ano seguinte. A sede do jornal foi construída em tempo recorde, em apenas três meses, prazo final que coincidiu com a inauguração de Brasília e do Correio. Parte do maquinário foi herdada de outras unidades da rede Diários Associados, onde estava subtilizada.

Enquanto não tinha edifício próprio, a equipe do Correio trabalhava na avenida W3 Sul, em prédio cedido pela estatal Novacap, vizinho à Escola Parque. Os primeiros jornalistas foram convocados por Chatô, principalmente, dos veículos Associados do Rio de Janeiro e São Paulo, através de um “voluntariado compulsório” estabelecido por ele 53. Além destes, outros foram se juntando à equipe, oriundos do nascente corpo de funcionários públicos da cidade de Brasília.

O nome, Correio Braziliense, foi uma sugestão de Francisco Martins de Oliveira54, um dos condôminos, inspirado no primeiro jornal do Brasil, criado por Hipólito da Costa. Chateaubriand adotou a idéia e resolveu procurar a família de Hipólito, tendo encontrado uma bisneta, Rosemary Porter de Havant, em Londres, e convidou-a para vir ao Brasil para participar da inauguração do jornal. Apesar do título ter caído em domínio público, Chateaubriand quis ligar o lançamento do novo jornal às campanhas desenvolvidas por Hipólito da Costa, à sua época, pela interiorização da capital, entre outras divulgadas pelo pioneiro jornalista em seu jornal.

É preciso ainda que se tracem mais algumas outras fronteiras para situar o Correio Braziliense no cenário da imprensa brasileira. O jornal não teve uma gênese nem ligada, por exemplo, a uma causa política, como O Estado de S. Paulo, nem a uma motivação comercial, como foi o caso da Folha de S. Paulo55. Os dois eram jornais oposicionistas em seus inícios, mas ao longo de suas histórias apoiaram ou deixaram de criticar e, até mesmo, enfrentaram governos quando lhes interessou de alguma forma. A trajetória dos dois difere em muito do Correio, como não poderia deixar de ser, pois enquanto a Folha teve três ciclos nos quais se reorganizou financeiramente e administrativamente, passou por uma revolução técnica e depois partiu para um projeto político e cultural; o Estado seguiu como jornal de uma opinião editorial sempre muito forte e que nos anos 90 teve que ir ao encontro do mercado. Já o Correio acabou, um por uma série de circunstâncias que serão discutidas à frente, tornando-se um jornal que apoiou durante muitos anos os governos locais, especialmente, e o federal em algumas ocasiões, cuja idéia inicial era ocupar o mercado de Brasília e no qual a independência editorial ocorreu recentemente, a partir de 94, motivada por questões mercadológicas, históricas e políticas.




2.5 Década de 60

a)Direção

Durante os anos 60, poucos nomes se sucederam na direção do Correio Braziliense: Gilberto Chateaubriand, José Maria Alkmin e Edilson Cid Varela. Segundo João Calmon, Gilberto foi destituído por Chatô, após a posse de Jânio Quadros, em razão de sua condução nas questões políticas. Para a direção foi então designado Edilson Cid Varela que permaneceu no posto até sua morte, em 1991. Acompanhando-se a evolução do expediente do jornal durante a década foi possível observar uma variação na importância e na hierarquia dos cargos de direção no jornal. O primeiro cargo de coordenação da redação a figurar no expediente foi o de secretário de redação, cujo ocupante em 1961 era José Queiroz Campos; já no ano seguinte o Correio passou a contar, além do secretário, com um diretor de redação, Adirson Vasconcelos, a quem era subordinado o cargo de secretário. De 62 a 65, manteve-se o nome do diretor de redação, entretanto, em 65 passou a figurar, também, o cargo de editor-chefe, ocupado por Ari Cunha até os anos 70.



b) Linha Editorial

A cobertura nos anos 60 era basicamente voltada, no âmbito local, para a fixação de Brasília no Planalto Central e regularmente os editoriais do jornal tratavam de assuntos referentes às necessidades da cidade. Havia um grande destaque para os assuntos relacionados ao funcionalismo público: moradia, transporte, educação, lazer e salário. No âmbito nacional, o enfoque era a política federal56, pequenas notas sobre fatos nos estados e matérias internacionais. Com a ascensão dos militares ao poder, houve um incremento da dinâmica econômica da cidade e isto pôde ser observado com o aumento do número de anúncios classificados, principalmente dos imobiliários, sendo, inclusive, criado aos domingos espaço específico para o setor imobiliário e automobilístico. Desde o início de sua circulação, o Correio sempre teve preocupação de oferecer ao leitor um jornalismo de serviço com caráter informativo57.

Para o jornalista Alfredo Obliziner, o Correio Braziliense teve quatro fases distintas em sua história. A primeira, de 60 a 68, quando vivia muito em função de Chateaubriand: “O jornal não tinha editorial, este era o artigo de Chateaubriand58. Durante anos, explica Alfredo, o jornal foi considerado "chapa branca", por manter fortes ligações com o poder executivo, característica da qual só veio a se libertar muitos anos depois, na década de 90. A próxima fase, segundo Obliziner, refere-se à entrada do jornalista Evandro Oliveira Bastos; já a terceira corresponde aos sucessores de Oliveira, Ronaldo Junqueira e Adolfo Pinheiro, que de certa forma continuaram seguindo a linha de Bastos. E a última e atual sob a direção do jornalista Ricardo Noblat.

c) Estrutural Editorial

Durante a década de 60, o jornal circulou, em média, com doze páginas e dois cadernos. No primeiro caderno eram publicadas: na página 2 notícias internacionais e os últimos fatos e a continuação de matérias publicadas na capa; a página 3 era dedicada basicamente à política, assuntos do Congresso, Judiciário e Executivo; o editorial, os artigos assinados e a continuação de algumas matérias publicadas na capa eram distribuídas na página 4; na página 5 notícias policiais, estaduais e locais; na página 6 anúncios; na 7 editais, avisos e balanços e na página 8 matérias de repercussão ou de interesse da cidade. No caderno 2, as colunas de Ari Cunha, “Visto, Lido e Ouvido”; “Sociais de Brasília”59 com a colunista Katucha; “Ensino dia a dia”, e “Esquinas de Brasília” com Yvonne Jean; notícias sobre Taguatinga, Anápolis e Goiânia (onde, inclusive, o jornal manteve sucursais durante a década de 60); a “Agenda CB” com informes sobre cinema e eventos da cidade (entre estes aniversários da nascente elite brasiliense); “Correio Informativo” com informações sobre o tempo, horário de aviões, ônibus e funcionamento de farmácias e bibliotecas; além dos classificados; e a última página do Caderno 2 era dedicada ao esporte nacional e o local.

De maneira geral, o Correio não manteve uniformidade na distribuição de assuntos pelas páginas. O que se observou ao longo da década foi a manutenção do editorial na página 4, os assuntos políticos na página 3 e as colunas de serviço, como “Agenda CB”, os classificados, esportes no Caderno 2. Neste período, o jornal não possuía uma coluna de cartas do leitor60, as cartas recebidas eram publicadas geralmente na “Agenda CB” ou na coluna “Visto, Lido e Ouvido”. Vale ressaltar que às segundas-feiras o jornal não era publicado, e que não havia matérias assinadas, somente algumas colunas61, cuja existência e autores variaram ao longo da década.

Em 67, o Caderno 2 passou a contar com colunas específicas para cinema, música, literatura e artes plásticas, com a programação de Brasília, do eixo Rio/SP e com comentários sobre estes eventos. No ano de 68, começou a circular, aos sábados, o primeiro Caderno Cultural do jornal onde eram publicados poemas, artigos e matérias de entretenimento. Foram os novos equipamentos adquiridos no ano anterior que permitiram também ao jornal fazer circular, em folhas azuis, o Caderno de Turismo, às quintas-feiras; o de Agricultura, às sextas-feiras; e o Caderno 3, diariamente na cor rosa, onde constavam matérias sobre a cidade de Goiânia e as cidades-satélites. Aos domingos, havia o Correio Feminino com detalhes coloridos no cabeçalho e que apresentava matérias que tratavam de temas como culinária, moda, família e o mundo artístico do cinema e da TV. Foi também no ano de 1968 que jornal passou a publicar os informes da agência AP, além dos despachos da agência UPI. Neste mesmo ano, em razão do contrato com esta agência noticiosa, o Correio passou a contar com um maior número de telefotos em suas páginas.




d) Rotinas de Produção

Até o final da década de 60, não havia separação da cobertura jornalística em editorias, segundo os profissionais da época62, "todos faziam tudo". Existiam, entretanto, alguns repórteres que eram considerados setoristas como os que ficavam no Aeroporto observando as personalidades que chegavam ou saíam, no Palácio Planalto, no Congresso e nos poucos ministérios existentes. Na redação, um secretário de redação, alguns repórteres que produziam material sobre os mais variados assuntos, os copidesques63, figuras com a função de reescrever os despachos chegados pelas agências e algumas matérias apuradas pelos repórteres. A redação dispunha de um equipamento de telex e das agências Meridional, dos Diários Associados, e da americana UPI, poucos telefones e poucos veículos para transportar os jornalistas. Segundo Adilson Vasconcelos64, o jornal passou a dar lucro por volta de 1965, graças a um incremento na publicidade privada do jornal, mesmo assim, ainda era muito dependente da publicidade oficial.


e) Recursos Humanos

O jornal, nos seus primeiros anos, contava com uma pequena equipe de cerca de vinte pessoas na redação, incluídos os repórteres baseados no Palácio do Planalto, ministérios ou Congresso, e de trinta pessoas nas oficinas de impressão. Os primeiros jornalistas contratados pelo jornal vieram basicamente de outros veículos da rede dos Diários Associados ou eram funcionários públicos que tinham o jornal como "bico". Os jornalistas nesta época eram compelidos a ter dois empregos em razão das baixas remunerações65; no caso específico dos Diários Associados era uma prática bastante comum e incentivada por Assis Chateaubriand, que via o trabalho na imprensa como uma atividade messiânica. Os primeiros contratados, em sua grande maioria, não tinham curso superior, até porque neste período não era comum a existência de faculdades de Comunicação66, nem tampouco de jornalismo. Os profissionais eram formados no dia a dia das redações e da cobertura jornalística.


f) Circulação e Equipamentos

Em seu primeiro dia de circulação, no dia 21 de abril de 1960, inauguração de Brasília, o Correio Braziliense teve uma tiragem de 20.000 exemplares67, este primeiro número possuía oito cadernos, dos quais apenas dois foram impressos em Brasília e os demais no Rio de Janeiro, totalizando 108 páginas. A edição abordou temas como arquitetura de Brasília, o tráfego, assuntos relacionados à construção da cidade e muitas matérias sobre estatais do governo federal, como as Docas de Santos, a Companhia Vale do Rio Doce e Furnas, entre outros. No primeiro mês, o jornal imprimia apenas 500 exemplares68, que eram vendidos aos órgãos da administração federal já sediados na cidade e ao público em geral. Foram necessários alguns anos para que os moradores de Brasília adquirissem o hábito de ler o Correio, ao invés dos jornais de suas localidades de origem. Segundo Ari Cunha69, já em 1965, o jornal tinha uma tiragem de cerca de 5.000 exemplares, compreendendo 90% do público leitor de jornais da cidade.

O jornal começou a ser composto, na década de 60, a partir de um equipamento de impressão a quente, a linotipo, e rodado em uma impressora rotoplano. As oficinas de impressão e a redação ocuparam, durante os anos 60, um edifício de 400 metros quadrados, no Setor de Indústrias Gráficas, a poucos quilômetros do Palácio do Planalto. Em agosto de 1967, o Correio Braziliense inaugurou a composição a frio ou fotocomposição, e foi um dos primeiros jornais brasileiros a implementar este sistema no país. Os novos equipamentos permitiram algumas modificações gráficas, graças a um projeto gráfico que contou com a participação do artista plástico Glênio Bianchetti, como a eliminação dos fios ao redor das matérias, o uso de cores, o aumento do número de fotos e até da capacidade de impressão de exemplares. Foi possível observar que, a partir desta aquisição, houve a criação de novos cadernos, e um aumento do número de páginas dos classificados aos domingos70.
Considerações

O Correio Braziliense refletiu a cidade e seus habitantes desde as primeiras edições, conseqüentemente, como os primeiros anos de Brasília foram os de implantação da capital estes também corresponderam aos de implantação do jornal. O tumulto político e social da década de 60, especialmente em Brasília, não se refletiu muito no jornal, pois ele não era exatamente alinhado com o governo João Goulart e como a maioria dos jornais apoiou o Golpe Militar de 196471, some-se a isto uma certa dose de autocensura dos próprios profissionais, como pôde ser observado nos depoimentos. Outro aspecto que contribuiu para a falta de problemas com o regime militar foram os contatos da direção com o poder estabelecido naquele período72.

Pequeno no início, o jornal passou a década de 60 reportando os tumultuados acontecimentos com correção e sem ousadias, seguindo os estilo e ritmo dos principais diretores Ari Cunha e Edílson Cid Varela, isto é, equilibradamente. Por meio das entrevistas com as pessoas que conviveram com eles foi possível perceber o quanto estes dois profissionais foram a “alma” do jornal, principalmente nos primeiros dez anos, a exemplo de tantos publishers de outros veículos como o The New York Times, a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil73, apesar de não poderem ser exatamente chamados como tal, uma vez que eles não eram os donos do Correio. Entretanto, a forma como eles conduziram o jornal era perceptível, seja na redação, onde o estilo bonachão do sertanejo Ari Cunha prevalecia ou na administração, com o pulso forte de Edílson, com muitos anos de experiência em gerenciamento.

A linha editorial do jornal no início era a linha dos Diários Associados, apesar de Chateubriand já estar doente, e, a partir de 1964, alinhada quase compulsoriamente com os governos militares74. Como já foi registrado anteriormente, os Diários Associados tinham uma tradição de serem governistas, traço que o Correio trouxe de berço. Além disso, sem uma economia local forte, a saída inicial para a manutenção do jornal era a publicidade oficial, tanto federal quanto local, pois a venda em banca era pequena e o número de assinaturas era assegurado pelos poucos órgãos públicos instalados na capital. Havia ainda naquele período a prática da venda de espaços publicitários em troca de apoio dos jornais ao governo, prática muito antiga no país e que não desapareceu com o fim da ditadura75. José Hélder76 comentou a falta de fontes de recursos para gerir o jornal nesta época,

(o jornal) cuidava mais de satisfazer o interesse comercial do jornal e junto aos órgãos oficiais. Jornal ainda hoje vive de lucro. De venda avulsa não tem jornal. E principalmente naquele tempo não tinha o que hoje tem muito, que é a propaganda das grandes empresas, das grandes instituições comerciais, dos grandes supermercados, etc. Não havia isso, principalmente em Brasília.
Vale a pena ressaltar ainda que, apesar de serem os classificados um ponto forte do jornal, ao longo de sua história, eles só vieram a se afirmar como tal no final dos anos 60. Outro aspecto que deve ser levado em conta é que a maioria dos jornalistas era composta de funcionário de algum órgão público, dupla função que acabava influenciando o trabalho destes profissionais.

As únicas manifestações escritas encontradas do caráter “chapa branca” do jornal foram as declarações do jornalista Alfredo Obleziner anteriormente citadas e o artigo do jornalista Salomão Amorim77, publicado em livro organizado pelo Sindicato dos Jornalistas de Brasília, onde há comentários sobre o tema. Para Salomão Amorim, o Correio é “conservador e governista por tradição”, segundo ele, "os Diários Associados tradicionalmente apóiam os governos a má situação financeira fortalecia esta orientação”. E citando um jornalista de quem não registra o nome afirma: “o Correio sempre foi um jornal governista e no governo de Plínio Cantanhede chegou a ser conhecido como o “jornal do governador”, situação parecida com a de hoje em relação ao governador Joaquim Roriz”. Vale a pena ressaltar que o governo de Plínio Cantanhede compreendeu período de 1964/67 e quando ele cita Joaquim Roriz, se refere ao primeiro mandato deste que compreendeu 1990/94.

Assim sendo, o jornal teve uma gênese que se poderia chamar de “chapa branca”, oficialista78, que perdurou ao longo dos anos 60. Muitos ex-jornalistas do Correio confirmaram o alinhamento do jornal com o governo local por muitos anos, os entrevistados oscilaram entre afirmar que naquela época era uma característica dos jornais estarem alinhados com o governo por tratar-se de um período de ditadura, ou que Brasília não tinha vida econômica suficiente para manter um jornal, fato que acabava comprometendo a sua independência e credibilidade, e houve ainda aqueles que não concordaram com a pecha. Mas alguns forneceram informações, sem a possibilidade de prova documental, de que os laços que uniam o Correio e os governos locais, principalmente, foram estreitos até a chegada do jornalista Ricardo Noblat à direção do jornal, em 94.

Nesta década, a cobertura era essencialmente política, pois era um dos setores da sociedade mais organizado na cidade e o que conferia o status de capital à Brasília. Apesar da ênfase nos assuntos políticos, o jornal destacou-se por lutar sem tréguas pela fixação da capital no Planalto Central, especialmente através dos editoriais e das colunas. Na cobertura dos assuntos relacionados à cidade era possível se perceber uma preocupação de caráter afetivo com a nova capital, as reportagens publicadas deixavam transparecer um cuidado dos jornalistas pioneiros na edificação de um local aprazível para as suas moradias. Este comportamento pode ser explicado pelo fato de que, diferentes dos migrantes que foram para São Paulo nos grandes fluxos migratórios dos anos 60/70, os que aqui chegaram encontraram uma cidade ainda por fazer, daí o engajamento do jornal, através dos seus jornalistas.

Sobre o engajamento do jornal com a cidade é possível dar alguns exemplos: na edição do dia 2/7/63, o jornal comentou a falta de apartamentos funcionais disponíveis para os funcionários públicos recém-chegados; na edição do dia 8/4/64, o jornal convidou a população participar das campanhas desenvolvidas pelo Lions para aquisição de consultórios odontológicos a serem destinados às comunidades carentes da redondeza da capital; em 1/4/66, o destaque da edição foi para venda de imóveis funcionais e a construção de casas nas então cidades-satélites do Gama e Sobradinho pelo governo; em 3/8/65, o assunto era os pombos da praça dos Três Poderes; em 15/4/69, a instabilidade nos preços de gêneros em Brasília era capa do Caderno Dois; em 7/10/69, o editorial já comentava sobre o trânsito de Brasília e em 10/10/ 69, a manchete de capa era a declaração do futuro presidente, general Garrastazu Médici, de que governaria o Brasil de Brasília.

Até a estrutura editorial criada para o jornal nos anos 60 reforçava esta atenção com todos os assuntos e temas, problemas e soluções para a nascente capital. Logo nos primeiros números foi criada uma coluna social, “Katucha”, que, por mais de vinte anos, tratou sobre as personalidades ricas e poderosas de Brasília. A coluna “Visto, Lido e Ouvido”, escrita por Ari Cunha, também foi por mais de 40 anos uma espécie de porta-voz dos habitantes locais. Outras colunas pioneiras poderiam ser citadas como a “Ensino dia a dia” e “Esquinas de Brasília”, a primeira tratando de um tema que nos primeiros anos de Brasília era motivo de orgulho para o governo, a qualidade do ensino público na capital e a segunda uma crônica sobre a cidade. Além disso, houve desde os primeiros dias também toda uma preocupação em transformar o jornal em um veículo de informação sobre serviços, com a publicação da lista dos primeiros telefones residenciais e oficiais, e o horário de saída e chegada de ônibus e aviões. O leitor sempre teve livre acesso ao jornal, muitas vezes Correio era pautado pelos próprios leitores, que ligavam ou compareciam pessoalmente para darem sugestões de pauta e reclamar. Segundo Adirson Vasconcelos79, “o jornal denunciava e brigava ao fazer editoriais, a grande pauta deste jornal aqui nos primeiros anos foi o retorno, defender a cidade para não se acabar, era essa a campanha”. Mas era uma cobertura voltada para os habitantes de Brasília, e Ari Cunha80 não esconde o fato,



nós fazíamos o jornal de Brasília, do Plano Piloto, dos - não tinha cidade satélite naquela época - acampamentos, vamos dizer assim. Aí nós fizemos o jornal sempre defendendo Brasília, porque tinha muita força querendo voltar a cidade e tudo. Nós defendemos. Fizemos um jornal de quarteirão. Daí nasceu o nosso sucesso. Porque nós fizemos um jornal enraizado na comunidade. A coluna social da Katucha dava: Ah, fulana de tal recebeu um chá, um não sei o que, um jantar e não sei o que. E fazia aquela divulgação das senhoras dos empresários, dos engenheiros. O jornal dava o noticiário, ontem faltou luz no canteiro de tal empresa. Um candango viu entrar um rato, uma coisa no gerador e queimou o gerador. E o candango foi se meter a consertar. As notícias eram assim. Depois os buracos na rua, as dificuldades na cidade, isso, aquilo e aquiloutro. Então o jornal nasceu enraizado com a população.
Além disso, era o jornal dos três poderes, informa Ernesto Guimarães81, “primeiro era o funcionário público, porque a cobertura do Correio Braziliense sempre foi muito boa, na Câmara e Senado, e no Supremo”. As reportagens de capa do Caderno Dois, durante os anos 60, apesar de terem como princípio publicação de matérias sobre acontecimentos do momento, dedicaram bom número de textos aos aspectos urbanos, sociais da cidade e comportamentais de seus habitantes. Como pôde ser observado no capítulo 1, o movimento cultural na cidade só se consolidou no fim dos anos 60, fato que se refletiu no jornal que, a partir de então, fez circular um caderno cultural com contribuições de artistas e intelectuais radicados na cidade.

Dentro do espírito da tese de necessária interligação dos vários pontos do território nacional por meio das notícias, defendida pelo jornalista e presidente dos Diários Associados Assis Chateaubriand82, houve logo a preocupação de atingir a região centro-oeste com a criação das sucursais de Anápolis e Goiânia. Entretanto, não havia uma intenção explícita em tornar o Correio um jornal de referência nacional, pois a cobertura de política, especialmente, era feita tendo em vista a agência de notícias dos Diários Associados, a Meridional, e a população de Brasília que em sua maioria era composta de funcionários públicos à época.

Apesar do jornal dispor de um processo de racionalização das rotinas e hierarquia de funções foi um período de muito improviso em razão do pequeno número de profissionais e do momento de informalidade da cidade.

2.6 Década 70



a) Direção

O Correio Braziliense começou a década de 70 com pequenas transformações em relação aos anos 60. As grandes mudanças ocorreram a partir de meados dos anos 70, com a saída de Ari Cunha do cargo de editor-chefe para o de diretor-responsável e a entrada do jornalista Evandro de Oliveira Bastos83 para o de diretor de redação.



b) Linha Editorial

Até o meio da década de 70, o jornal possuía uma cobertura de caráter geral sobre os assuntos como política, com ênfase especialmente para os atos do executivo, legislativo e judiciário, além de internacional84, economia85, cidade, com predominância para Brasília (Plano Piloto)86. A nova direção promoveu reformas administrativas, editoriais, gráficas que aumentaram a credibilidade do jornal, a capacidade de repercutir nacionalmente87 os fatos da capital, a circulação e o faturamento. Oliveira, por possuir um perfil jornalístico mais voltado para a polêmica, trouxe para o jornal uma linha de mais debate, reflexão e análise dos acontecimentos, e para o caderno de cultura levou a discussão do movimento cultural nacional. Com a reforma implementada por Oliveira Bastos, as matérias passaram a ser mais interpretativas que simplesmente factuais, muito em função de uma maior especialização na cobertura jornalística, pois nesta época o Correio passou a contar com maior número de repórteres dedicados a assuntos específicos. Assim como na década anterior, o jornal apresentou editoriais em defesa da fixação da capital e matérias reclamando a transferência dos órgãos públicos para a cidade. O público-alvo do jornal, assim como na década de 60, ainda era o dos funcionários públicos.

A década de 70 transcorreu sob o império da ditadura militar que impunha aos veículos de comunicação uma forte censura. O Correio teve alguns incidentes com censores88, que na maior parte das vezes eram resolvidos pela criatividade dos jornalistas ou através de visitas do superintendente do jornal, Edilson Cid Varela, ao departamento de censura. Segundo Salomão Amorim89, "até a primeira metade dos anos 70, o Correio Braziliense, embora gozasse de boa situação financeira tinha uma pequena equipe na redação e características provincianas. Era lido apenas por parte dos leitores de Brasília, onde grande número de pessoas continuava a manter vínculos com suas regiões de origem e a ler jornais de fora". Uma das razões levantadas por Amorim para uma reforma foi que, a partir de 1974, o jornal começou a sentir a concorrência do Jornal de Brasília, com melhor cobertura no noticiário político, cultural e uma melhor equipe de jornalistas. Foi então convidado a dirigir o jornal o jornalista paraense Evandro de Oliveira Bastos com uma história profissional com passagens pela imprensa do Pará, Rio e São Paulo.
c) Estrutura Editorial

A estrutura editorial do Correio até 1976, quando ocorreram as reformas, permaneceu semelhante à dos anos 60 com pequenas variações. Logo no início da década, o Caderno de Turismo e o de Agricultura transformam-se em páginas. Algumas colunas desaparecem como “Notícias do Foro” e “Agenda CB” e surgiram outras como “Informe Internacional” sobre temas internacionais, “Brasília – DF” e “Informe Político” sobre política e “Sheila Costa” tratando de colunismo social. Já o “Correio Diplomático” começou a década no primeiro caderno e depois, por volta de 1974, passa para o segundo caderno dividindo a mesma página com a colunista social Katucha. “Notícias Militares” mantêm sua presença no jornal, ao longo de toda a década, mudando apenas de página. A coluna “Visto, Lido e Ouvido”, escrita por Ari Cunha, passou boa parte dos anos 70 intermitente, devido a problemas do autor com a censura. Surge nesta época uma coluna de “Carta do Leitor” publicada, sem muita regularidade, mas não foi possível apurar se por falta de cartas ou espaço. A partir de 1976, com a reforma outras colunas surgem abordando novos assuntos como automobilismo, “Partido Alto” (artigos de opinião de políticos de correntes ideológicas diferentes sobre o mesmo assunto); economia (“Informe Econômico”, com índices da bolsa, câmbio, entre outros), opinião (“Toque Pessoal”), serviço público (“Coluna do servidor”), esporte (“Dois Toques”) e cultura (música, cinema, artes plásticas, rádio, TV, literatura), além de colunismo social (“Gilberto Amaral” ). Vale a pena ressaltar que, até este momento, era muito freqüente a publicação de avisos e editais nas páginas do jornal. Nas décadas seguintes esta publicidade oficial passou a ser publicada nos classificados.

Ainda no início da década, desapareceu o caderno dominical Correio Feminino, o Caderno Cultural90 reduziu seu tamanho e passou a circular às sextas-feiras. Por volta do meio da década de 70, com a chegada de Oliviera, surgem os encartes Caderno de Integração, composto por matérias sobre Goiânia, Anápolis e cidades-satélites; Jornal do Automóvel; Questões, aos sábados, com artigos sobre política, economia, dentre outros temas; e o Caderno Social, aos domingos com as colunas sociais de “Gilberto Amaral” e “Katucha”, cinema, música, TV, rádio, literatura, dicas sobre medicina, moda, culinária, além de palavras cruzadas, quadrinhos e da programação cultural. As crônicas sobre a cidade “Esquinas de Brasília” e “Ensino Dia a Dia” deixaram de circular e o jornal passou a receber artigos das escritoras Rachel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz e do cineasta Glauber Rocha. Continuando uma tradição iniciada na década anterior, que foi, inclusive, mantida depois da reforma implementada por Bastos, o Segundo Caderno continuou ser o local onde se publicavam as grandes reportagens, às vezes de caráter investigativo, sobre temas que os profissionais da época chamavam "tema do dia", que podia ser local, nacional ou internacional. Este texto era publicado sempre na primeira página do caderno, assinado, assim como também recebiam o crédito do fotógrafo as fotos que acompanhavam estes textos.

Logo no início dos anos 70, o jornal criou a página Mesa de Cidade com o seguinte slogan: “informe ao seu jornal o fato que você gostaria de ver publicado em suas páginas" e consistia de pequeninos textos sobre fatos, eventos, registros a respeito do dia a dia dos cidadãos de Brasília. Esta página existiu até a reforma gráfica quando transformou-se em pequena coluna. Em 1976, com as reformas promovidas por Oliveira Bastos surgem as colunas esporádicas “Equipe de Serviço CB” e “Voz do Povo” - com o mesmo espírito de Mesa da Cidade - que eram espaços destinados à manifestação dos brasilienses sobre assuntos relacionados à cidade. A primeira consistia em rondas efetuadas pelos repórteres do Correio em determinadas áreas da cidade, previamente anunciadas pelo jornal, para colher qualquer tipo de informação ou reclamação que a população apresentasse. Já a segunda publicava a opinião dos brasilienses sobre um assunto em pauta, no dia, em pequenos textos acompanhados da foto do entrevistado91.

Também na primeira metade da década de 70, o jornal passou a circular às segundas-feiras com a diagramação diferente dos outros dias da semana: este dia as matérias possuíam retrancas específicas páginas sobre política, notícias internacionais, cidade, satélite, polícia, esporte, clubes, jovem e escola. A partir da reforma gráfica, o jornal passou a reproduzir a estrutura editorial da segunda-feira nos demais dias da semana, isto é, o uso de retrancas (títulos no alto da página que especificam os assuntos das matérias daquela página) como política, opinião, economia, nacional, internacional, cidade, polícia e esporte. Algumas matérias passaram a contar, inclusive, com a assinatura do repórter da editoria correspondente. O jornal até então publicava irregularmente charges92 sobre temas políticos ou locais, com a reforma os desenhos de caráter crítico passaram a figurar definitivamente na página de opinião, onde permanecem até hoje. Em 1972, os Diários Associados desativaram a sua agência de notícias, a Meridional, para a qual o Correio também contribuía com matérias. Em 1975, o jornal criou sua própria agência, a Anda93, executando praticamente o mesmo trabalho da Meridional. O jornal atravessou os anos 70 assinando basicamente os serviços das agências: UPI, Reuters, AFP e Sport Press.
d) Rotinas de Produção

Até 74, continuava a não haver na redação grande divisão de tarefas, a cobertura era dividida em dois grandes blocos: o primeiro caderno e o segundo caderno. Os repórteres94 entrevistados sublinharam que o trabalho na redação não era especializado e a hierarquia não era muito definida95, até por falta de profissionais suficientes, lembraram eles. Os jornalistas se dividiam em 3 turnos, fazendo matérias sobre os assuntos pautados ou surgidos inesperadamente, com exceção dos setoristas localizados no Congresso, no Palácio do Planalto, governo do DF e alguns ministérios já instalados na cidade. Eles escreviam, substituíam colunistas, faziam até horóscopo e atendiam ao público. O público em geral, aliás, tinha a entrada completamente franqueada ao jornal, apresentando sugestões de pauta ou reclamações pessoalmente. Outra característica do trabalho da redação no período era a presença de copidesques e revisores.

Foi com a chegada de Oliveira Bastos que a estrutura da redação passou a ser mais definida: editores responsáveis por determinados assuntos, divisão de tarefas e a extinção da função de copidesque, restando os revisores. Outro aspecto observado foi o crescimento da autonomia dada ao editor-chefe, no caso o próprio Oliveira Bastos, que tinha mais poder de negociação para publicação de matérias pagas e confecção de cadernos96.

Para Bastos, o jornal tinha vários problemas quando passou a dirigi-lo: atraso na impressão e distribuição, falta de credibilidade junto às autoridades, cobertura muito local e uma grande dependência da publicidade oficial do governo do DF97. No tocante à produção, Oliveira detectou problemas na revisão, apuração, redação, e os textos tinham baixa qualidade, além disso, havia a prática de publicação de press releases. Com relação ao setor operacional, Oliveira Bastos comentou que o jornal chegava muito tarde às bancas, até 10 hs da manhã. Os salários, lembra ele, também eram muito baixos e o número de jornalistas muito pequeno para desenvolver o trabalho necessário na redação. Para mudar essa situação várias medidas foram tomadas, entre elas a realização de reuniões de pauta, uma maior aproximação com o governo federal tanto jornalística quanto publicitária, a contratação de novos jornalistas e a reformulação gráfica e editorial do jornal. Houve também mudanças nos classificados98, que foram ampliados e modernizados.


e) Recursos Humanos

Coincidentemente ao fato da especialização dos jornalistas em várias áreas como política, economia, cidades etc, a redação começou a receber, a partir do final da década de 60, profissionais formados em faculdades de Comunicação99. Apesar da especialização, os jornalistas da época, assim como os da década anterior, continuavam a necessitar de dois empregos pelo menos. Segundo depoimentos, o jornal ainda pagava baixos salários no início da década de 70, obrigando-os a dupla jornada. Após a reforma há um incremento no valor dos salários, mas nada que se comparasse aos salários das sucursais dos jornais do Rio e São Paulo.


f) Circulação e Equipamentos

Em 1970, o jornal tinha uma tiragem diária de cerca de 11.000 exemplares, passando para 27.500 exemplares em 1978100. O número de páginas de anúncios classificados que era, no início da década, de, em média, quatro, passou ao final da década para 10 páginas. Vale a pena ressaltar que nos finais de semana o jornal possuía edições com maior número de páginas e, portanto, um maior número de anúncios classificados, chegando até 20 páginas. As sucursais permaneceram as mesmas, Taguatinga, Goiânia, Anápolis, acrescidas de Sobradinho.

Uma observação unânime registrada pelos entrevistados era a falta de infra-estrutura do jornal até 1976101, só havia duas linhas telefônicas, um precário acervo de fotos e muito pouco material de arquivo para pesquisa102, além do pequeno número de veículos disponíveis para a reportagem de rua. Em 1970, o Correio possuía 11 veículos para a distribuição do jornal, e a cobertura jornalística, que levavam os exemplares do Correio para as 150 bancas existentes à época. Em termos de equipamentos foi adquirida uma impressora off-set, em 72, com velocidade de 40.000 exemplares por hora que permitiu a impressão a quatro cores. A predominância, neste período, era a venda em bancas e poucas assinaturas entre os órgãos públicos, situação que só foi modificada vinte anos depois.

Considerações

Os anos 70 foram marcados pela estabilidade política da ditadura, que, apesar de repressiva e de ferir os Direitos Humanos, permitiu um crescimento econômico do país, a fixação da capital no Planalto Central e o desenvolvimento de Brasília. Os militares eram favoráveis a mudança da capital e por isso determinaram a transferência do corpo diplomático nacional e internacional para a cidade. Com o início da consolidação da capital, o movimento cultural local se intensificou: houve a criação do espaço cultural da 508 Sul, dos Cursos de Verão anuais da Escola de Música de Brasília, do bloco carnavalesco Pacotão, da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e do movimento cultural Cabeças.

Para o jornalista José Natal103, repórter à época, o convite feito ao jornalista Oliveira Bastos se deu porque



o jornal queria fazer uma mudança radical de comportamento, de linha editorial, talvez uma política mais agressiva, talvez uma linha mais forte de conteúdo político. O Oliveira Bastos já era, era e é um jornalista muito conceituado da linha política ...Ele mudou a cara do jornal, ele passou a fazer um jornal mais forte, umas matérias mais polêmicas ...Com a chegada do Oliveira não foi só uma mudança na redação. Mudou para uma política comercial mais agressiva. Cresceu o número de venda, de pessoas que atendiam o público, mudou o departamento pessoal, mudou a diagramação da parte comercial, do classificado. Passou a ser mais leve. Foi um bloco. Foi uma mudança que exigiu vários tópicos. Isso , pelo que eu me lembro e pelo que se comentava nas reuniões, o jornal semana a semana ganhava mais venda, mais ocupação comercial. Foi uma busca ao anunciante intensificada.
Segundo Edison Lobão104, “(com Oliveira era) um jornal ágil moderno e de grande repercussão não somente em Brasília, mas repercussão nacional”.

O Correio Braziliense apesar de iniciar a década de 70 com algumas mudanças gráficas e editoriais, não abandonou o seu perfil “chapa branca”, até porque aqueles eram os anos “de chumbo” da ditadura, onde a censura era rígida e o alinhamento com o regime militar, compulsório105. Com relação à censura, assim como na década anterior, o jornal não enfrentou muitos problemas graças a uma grande dose de auto-censura dos próprios jornalistas e às boas relações de Edilson Cid Varela e Oliveira Bastos, posteriormente, com os governos militares. Vários entrevistados comentaram, e o próprio Oliveira confirmou, que havia um apoio explícito ao governo do general Ernesto Geisel em função das promessas do general quanto a uma abertura política106. E segundo Ronaldo Junqueira107, sub-editor no período, havia uma admiração especial de Oliveira pelo chefe da Casa Civil do governo do General Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva, ideólogo do regime militar.

Ainda sobre a censura ao jornal, existiram profissionais que desconheceram o problema, como Edison Lobão108, chefe de redação e colunista político do jornal nos três primeiros anos da década, “o Correio não teve problemas com a censura, pois os jornalistas já tinham internalizado sobre o que era permitido falar, escrever ou publicar”. Já Ernesto Guimarães109, comentando as relações sociais próximas de Brasília naqueles tempos, disse que “às vezes antigos colegas nossos serviam de censores”.
Sobre a auto-censura dos profissionais, José Hélder110 comentou:
eles (os censores) iam lá e eram tolerantes, eles eram amigos, todo mundo conhecia todo mundo e por prudência nós não abusávamos. Eu prefiro a palavra prudência. Medo poderia se ter, mas era melhor ser prudente....Não era propriamente auto-censura. Tinha alguns que iam um pouco adiante, mas limitavam-se também, faziam a crítica a determinados fatos, a determinadas figuras do governo, não a estrutura de poder que se montara no país em 64.
Segundo Adirson Vasconcelos111,
havia pessoas até no jornalismo com pouco escrúpulo, na seriedade da função jornalística, colocavam a ideologia dentro da profissão, e isso não é certo. O Correio Braziliense se mantinha neutro, porque ele evitava esse facciosismo, nem de esquerda e nem de direita, nós estamos aqui é para informar e orientar, certas horas o editorial diz as opiniões, o jornal pensa assim e diz assim, e nós éramos sempre equilibrados porque Chateaubriand sempre pediu equilíbrio, era a forma de nós caminharmos melhor para uma posição de jornalista. No tempo da revolução foi diferente, teve a pressão, evidentemente, teve censura e o que não podia publicar não publicava mesmo, eles pressionavam para ter uma pessoa deles na redação, eu mesmo discordei, não aceitava, porque eu tinha o respaldo do Edílson Varela, eu fazia, mais eu não era poderoso.
Se os chefes eram prudentes, os repórteres procuravam formas de fugir da censura. A repórter Maria Valdira112 comentou que para driblar os censores, os jornalistas da época usavam subterfúgios no texto de modo a informarem, principalmente, sobre casos de desaparecimentos, prisões e tortura. Já para Ronaldo Junqueira113, o apoio era compulsório naquele período, “você acha que em plena ditadura dava para editar o jornal diário em Brasília confrontando a ditadura ?”.

No tocante a linha editorial, somou-se a já tradicional cobertura de política, agora mais setorizada entre Câmara e Senado, a expansão do noticiário dos assuntos econômicos, refletindo a importância do tema para a agenda noticiosa nacional, com a criação de espaços para índices, inclusive. Segundo os entrevistados, durante muitos anos a prioridade na cobertura foi a política, seguida dos assuntos relacionados aos interesses dos funcionários públicos da cidade. A fixação da capital implicou a presença do presidente da República na cidade e este fato levou o jornal a criar a coluna "Dia do Presidente da República", assim como a presença dos diplomatas levou à criação da coluna "Correio Diplomático", e para boas relações com os governos militares a coluna "Notícias Militares".

As transformações que já estavam em curso no Correio no início dos anos 70 intensificaram-se com a chegada do jornalista Oliveira Bastos, que ao assumir a direção da redação, promoveu grandes reformas. Ele pensava em um diário da capital que pudesse ter importância nacional, e isto é perceptível com a ocorrência neste período do primeiro “furo” do Correio Braziliense, em 06/05/78, tratando sobre a correspondência entre o chefe do SNI, general João Batista Figueiredo e o órgão de segurança chileno Dina. A criação de um novo jornal na cidade, o Jornal de Brasília, em 1970, também contribuiu para impulsionar as mudanças, pois era um diário com ganas de fazer concorrência ao Correio e quase conseguiu. Para fazer frente ao jovem jornal, as matérias passaram a ser mais interpretativas, reflexivas e os articulistas eram nomes de repercussão nacional como: Glauber Rocha e Rachel de Queiroz, entre outros. Os assuntos da capital passaram a freqüentavam mais as manchetes de capa, até os temas de caráter policialesco.

Alfredo Obleziner, Oliveira Bastos e Ronaldo Junqueira comentaram que o jornal, nesta época, intensificou a publicação de cadernos especiais sobre outros estados, cuja publicação se prolongou até a década de 90, que renderam muito dinheiro e prestígio ao jornal, permitindo até ao Correio ajudar outros periódicos dos Diários Associados. Segundo Junqueira114,



o Oliveira era um sujeito que abria espaço para o departamento comercial, nós lançamos uma série interessante, é que às vezes faltava dinheiro e a gente tinha que fazer faturamento, a empresa tinha que faturar, a série se chamava “O Brasil por quem sabe”, era uma série de entrevistas, normalmente com governadores, com autoridades, grandes empresários, aquilo era jornalismo, mas era pago também, era uma coisa interessante isso.
Vale a pena ressaltar que, apesar de Oliveira Bastos ter um modo um tanto nervoso de gerir os jornalistas, ele além de contribuir para elevar a qualidade do jornal, aperfeiçoou as rotinas de produção, organizando a redação e o fluxo de produção do jornal. Acompanhando a tendência da mídia impressa nacional no período foram implantadas por ele as retrancas por assunto nas páginas, momento em que o tema Cidade ganha sua própria página. O jornal continuava, no entanto, a priorizar Brasília e a cobertura existente das cidades-satélites ainda ser tímida, apesar do volume populacional destas áreas ser superior ao volume do Plano Piloto. Em entrevista, Oliveira Bastos lembrou que havia um certo preconceito em relação a estas áreas, que inclusive não tinham na época a capacidade de organização social que anos mais tarde adquiriram. Exceção feita a Ceilândia que desde a sua fundação teve sempre um bom nível de articulação política e social. Pouco antes ao surgimento da página de Cidade, o jornal criou um espaço chamado “Mesa da Cidade”, uma das maiores experiências de aproximação com os leitores que podiam enviar notícias sobre a sua quadra, clube, escola, enfim, assuntos que diziam respeito especialmente aos que liam o jornal. Quando da chegada de Oliveira Bastos a página se transformou em uma coluna, reduzindo seu espaço, mas não deixou para trás o seu espírito de contato com o leitor. O novo chefe de redação intensificou o acesso do leitor ao jornal com a criação da Coluna “Voz do Povo”, onde os anônimos das ruas eram chamados a dar opiniões sobre temas do momento. Outro espaço do leitor que se consolidou foram as cartas dos leitores que ganharam local perene, entretanto não houve regularidade na sua publicação nos primeiros tempos da existência da Coluna. A cobertura cultural aumentou acompanhando o movimento da cidade, assim como o do país, afinal já havia na cidade as representações diplomáticas estrangeiras com seus departamentos culturais e os candangos, já mais entrosados produziam música, teatro e artes plásticas. Outro aspecto digno de nota foi o fato de o esporte ampliar o seu espaço no jornal, tanto a cobertura local, como os assuntos nacionais. Mesmo sem um movimento desportivo intenso na cidade, havia divulgação para os eventos locais.

Com o intuito de fortalecer o tripé anúncios, venda avulsa e assinatura foram instaladas as novas sucursais de Taguatinga e Sobradinho, solução, aliás que foi várias vezes tentada sem sucesso posteriormente. Segundo se pôde apurar, o forte comércio de Taguatinga pouco se interessou em anunciar, e como geralmente os que anunciam compram o jornal no dia seguinte para verificar a publicação de seus anúncios, a venda não aumentou. E para continuar atendendo ao público do Entorno, o jornal manteve espaço editorial para temas como a agricultura e para fortalecer os laços com a região criou um caderno onde eram tratados diversos temas relacionados às cidades circunvizinhas ao Distrito Federal. O período de Oliveira foi marcado por grande expansão dos classificados e da independência da redação em relação ao setor comercial, que em anos anteriores retirava matérias de páginas em função da publicação de anúncios comerciais. No tocante a circulação houve um aumento significativo, de 11mil exemplares/dia em 1970, para 27,5 mil exemplares/dia, em 1978, entretanto, a população também cresceu, passando de 500 mil habitantes para 1 milhão no mesmo período, o que não aponta um aumento real de circulação.




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