Correio Braziliense: 40 anos Do pioneirismo à consolidação



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2.8 Década de 90



a) Direção

Mais uma vez o Correio Braziliense inicia uma década com mudanças no comando da redação e na diretoria do jornal: sai o jornalista Ronaldo Junqueira, no início dos anos 90, e entra Adolfo Pinheiro27, que permaneceu quatro anos, dando lugar ao jornalista Ricardo Noblat, em 1994. Em 1990, com a morte de Edílson Cid Varela, o então diretor-superintendente do Correio, assume o cargo o condômino dos Diários Associados, Paulo Cabral de Araújo. Esta troca no comando da empresa marcou o início de uma série de mudanças na metodologia de administração o jornal, que se refletiu também na forma e conteúdo do Correio.


b) Linha Editorial
A chegada de Paulo Cabral trouxe ao Correio um caráter mais empresarial, com ênfase no aumento de assinaturas, preocupação com a informatização e a projeção do jornal como um veículo nacional, sem descuidar da cobertura local. A proposta de aproximação com o leitor, iniciada no período anterior, foi continuada por Adolfo Pinheiro. O espaço para a opinião do leitor permaneceu, com a publicação de pequenos textos de pesquisa de rua feita pelos próprios repórteres. Houve também aumento do espaço para matérias, colunas e páginas de serviço dentro do espírito de informar e formar o cidadão como consumidor28. Neste período houve ainda a preocupação de abrir o jornal à participação da comunidade29, com a publicação de artigos de professores, políticos30 e empresários. O jornal também se preocupou em se aproximar das cidades-satélites31, procurando relatar os problemas pelos quais elas passavam. A linha editorial, tradicionalmente alinhada com os governos local e federal, ensaiou um rompimento com o oficialismo, mas sem críticas ou enfrentamento.
c) Estrutura Editorial
Adolfo manteve praticamente as mesmas editorias/retrancas do período anterior: Opinião, Política, Brasil (antiga Nacional), Economia, Internacional e, dentro do espírito da Rio 9232, foram criadas as páginas de Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia. Também foi aberto espaço para a religião nas páginas do jornal, algumas vezes com a publicação de pequenos artigos. As colunas mantidas foram : “Visto, Lido e Ouvido”; “Katucha”, sendo que em 1992, o substituto da titular, Marcone Formiga, passou a assinar a coluna com seu próprio nome; “Mala Diplomática”; “Brasília-DF”; “Nelbe Chateaubriand”; “Sr. Redator” (foi para a página de opinião); “Irlam Rocha Lima”; “Gilberto Amaral”; e “Vida Militar”, cuja publicação foi feita de forma irregular. A página Bazzar continuou a ser publicada e a página de Economia contou com colunas de índices econômicos que tiveram seus títulos modificados, ao longo dos anos, para “Indicadores”, “Investimento”, “Finanças”, “Mercado”, “Tendências”. Novas colunas foram criadas neste período, “Aviação”, “Correio Publicitário”, “Guia do Leitor”33, “Picles”, “Por dentro do Congresso”, “Personagem da Cidade” (pequena biografia de pessoas que participavam da vida da cidade), “Crônica da Cidade”, “Antena Dois”, “Plantão da Cidade”. Adolfo Pinheiro criou cadernos novos como o Caderno de Cidades, circulando todos os dias; o Direito e Justiça e Esportes, às segundas-feiras; Armazém Literário e Mulher, aos sábados; Taguatinga e o de TV, circulando aos domingos e mensalmente um caderno Internacional. Surgiram também, em caráter semanal, páginas sobre Informática, Vídeo, Guia do Consumidor (tabela com os preços de vários supermercados para os gêneros de primeira necessidade).

O jornal contava com as seguintes sucursais: São Paulo, Anapólis, Goiânia e Taguatinga. As agências utilizadas no período foram: Globo, Brasil, Sport Press, AFP, UPI, Ansa, JB, Estado e Meridional.


d) Rotinas de Produção

No tocante às rotinas de produção também não houve alteração significativa em relação ao período anterior; as editorias eram compostas por um editor e um chefe de reportagem responsáveis pela coordenação do trabalho de repórteres a eles subordinados, que eram ou não setoristas de órgãos públicos.


e) Recursos humanos
Os baixos salários pagos pelo jornal ainda obrigavam os profissionais a terem dois empregos em veículos diferentes. No tocante a política de recursos humanos não houve grande variação: o número de jornalistas não aumentou significativamente, embora iniciava-se um cuidado em evitar que o jornal continuasse a ser uma escola de aprendizagem para jornalistas iniciantes, que muitas vezes, depois de pouco tempo, eram contratados pelos grandes veículos.
f) Circulação e equipamentos

O jornal começou a década de 90 com uma tiragem de 33.774 exemplares vendidos, em bancas e por assinatura34, de segunda a sábado, e, aos domingos, com 57.227. Em 93, eram vendidos 36.040 de segunda a sábado e 69.145 aos domingos35.

E na parte gráfica, em razão da compra de equipamentos novos para a impressão a cor em gestão anterior, começaram a haver experimentos com fotos e detalhes de diagramação coloridos. Além disso, foram observadas algumas alterações no projeto gráfico, com maior espaçamento entre as linhas e matérias. Neste período foi iniciado o processo de informatização da redação.

2.8.1 Gestão Ricardo Noblat

a) Direção

Com a saída do jornalista Adolfo Pinheiro, em 1994, assume a redação Ricardo Noblat36. A mudança no comando fez parte de uma estratégia da direção do jornal para modernizar o Correio no intuito de enfrentar a concorrência dos jornais de fora37 . A partir da entrada de Paulo Cabral e de Ricardo Noblat foi observada, através da publicação do expediente, a criação de diversos cargos novos na diretoria do jornal, gerando uma maior complexidade na administração do jornal.

Vale a pena ressaltar que a gestão Ricardo Noblat teve três fases distintas: de 94 a 96, período que o novo diretor necessitou para conhecer o jornal e definir mais claramente a nova linha editorial; de 96 a 99 quando vigorou a sua primeira reforma e de 99 a 2000, quando foram feitas as discussões e experimentações para implantar o chamado “Projeto 2000” e a entrada em vigor do Projeto. Os itens seguintes tratarão de cada uma destas fases.
b) Linha editorial

Entre as alterações iniciais implementadas por Ricardo estavam, entre 94 e 96 a proibição do duplo emprego e do uso de press releases, a divulgação de maior número de notícias, reconhecimento de possíveis erros, ousadia gráfica e de conteúdo38.

Entre fevereiro de 1994 e abril de 1996, o Correio preparou-se para mais uma reforma editorial. Para isso, foram feitas várias pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas, entre seus leitores e não leitores e mudanças no corpo da redação para lançar, em 21 de abril de 1996, um novo projeto gráfico e editorial para o Correio. O novo projeto previa: um jornal preocupado em servir, antes de tudo, à comunidade atingida pelo grosso de sua distribuição no DF e Centro-Oeste; de referência nacional; de cobertura seletiva; preocupado em ser analítico, aprofundar a notícia, um jornal que agregasse conhecimentos; valorizasse a prestação de serviço; um jornal de grandes reportagens; graficamente atraente. O público a ser atingido pelo jornal não estava completamente definido, o que resultou na cobertura de vários assuntos, temas e interesses que eram levantados pelos leitores nas pesquisas. Em termos de linha editorial houve a busca de matérias mais críticas e investigativas que provocaram descontentamentos nos setores atingidos por elas. Havia ainda uma preocupação em rejuvenescer o público do jornal, uma vez que foi constatado, em 1994, que o leitor médio estava situado na faixa de 48/50 anos, objetivo posteriormente alcançado39. Outra meta era o aumento da circulação nas satélites, Entorno e região geo-econômica do Distrito Federal40. Ainda com o mesmo espírito modenizador, no mesmo ano da reforma editorial, o Correio passou a estar disponível na Internet41.

A partir de 96, Ricardo Noblat continuou a promover experiências editoriais42 e gráficas - opção editorial que rendeu ao Correio vários prêmios desde então. Ele também criou instrumentos para o leitor fiscalizar o jornal43, um desses exemplos é a criação do Código de Ética44, em abril de 98, cuja instalação da comissão se deu em agosto de 99 e posteriormente os Conselhos de leitores. Um outro exemplo de experimentação foi a edição de um jornal praticamente feito por leitores mirins em homenagem ao dia da criança, em outubro de 98, e em janeiro de 2000, um jornal completamente feito pelos leitores.

Em seus diversos artigos semanais na página de Imprensa, Noblat deixava claro qual era o seu projeto editorial para o jornal. Durante o ano de 98, em “Carta ao leitor” ele comentou sobre o conceito de notícia45, o Código de Ética46; o leitor cliente47 ; o futuro dos jornais48. Suas opiniões se consolidaram, na verdade, em setembro de 99, quando ele fez publicar na capa do jornal o texto "Para que serve um jornal"49.

Em 99, começaram as experimentações para o projeto da Segunda Especial, embrião da reforma de 2000. Para a implementação da nova reforma, simultaneamente às experiências gráficas, foram acontecendo discussões entre os jornalistas da redação, de um novo projeto de jornal proposto por Noblat. O processo da reforma de 200050 contou também com a consultoria do professor Anthoni Piqué, da Universidade de Navarra, Espanha, que produziu o documento “Propuestas para el debate Correio Braziliense”, onde se basearam os documentos subseqüentes51 que serviram de subsídios para os debates na redação. Em meio à implantação do novo projeto o jornalista Ricardo Noblat foi escolhido para o cargo de condômino dos Diários Associados.

Com a reforma de 2000, o jornal continuava a perseguir o status de referência nacional e, ao mesmo tempo, conservar a marca local, identificação com Brasília, e a marca de ousadia já conquistada. As novas características editoriais em resumo são: um jornal muito mais seletivo e sem ordem predeterminada para as matérias nas páginas, preocupado em surpreender leitor com notícias mais exclusivas, narrativas criativas e mais espaço diariamente para temas que jornais em geral dão pouca atenção, como por exemplo, esoterismo, hábitos cotidianos, temas de interesse humano e objetos que provocassem desejos de consumo. Houve ainda, graças aos novos equipamentos de impressão, um maior uso de cor e um desenho gráfico mais arrojado. Entre as estratégias para formar o público e atrair novos leitores que naquela época não liam jornais, o Correio lançou um encarte com as principais notícias do dia com uma linguagem especial para crianças de seis a nove anos, chamado “Este é Meu” e procurou publicar mais temas ligados ao universo de jovens, idosos e mulheres. Ainda sobre as novas características editoriais: o Correio procurou ser um jornal mais planejado e independer cada vez mais de acontecimentos imprevistos. O Tema do Dia, página que passou a abrir o jornal, tratava de quaisquer assuntos, com isso é o fim da divisão clássica em editorias de Brasil, economia, esporte, cidade; ao invés de editorias, núcleos de produção especializados, onde todos os profissionais se envolviam em uma cobertura diária, se fosse necessário. O Correio também optou por não organizar a cobertura por setores e sim por áreas temáticas.

Em termos de linha editorial, o jornal radicalizou a sua postura crítica tanto no âmbito local como nacional, chegando ao confronto em diversas ocasiões. Houve uma redução do espaço para cobertura política, principalmente, e econômica, ao passo que aumentou o espaço para o leitor, com matérias, colunas e serviços de interesse da comunidade, e tratamento mais especializado para esses temas. O público-alvo do Correio tornou-se mais transparente, inclusive para o próprio jornal: a classe média, letrada, intelectualizada e que tem condições de comprar jornal e fazer assinaturas.


c) Estrutura Editorial

Ainda em 1994, foi iniciada informatização da redação e da diagramação, possibilitando maior experimentação gráfica. O resultado disso foi o aumento do uso de cores em detalhes gráficos, de “selos” (elemento gráfico que distingue uma matéria, assunto ou editoria), publicação de boxes (pequenos textos explicativos), gráficos, “olhos” (pequenas frases entre o texto de uma matéria), ilustrações coloridas produzidas por computador, de pequenos textos sobre diversos assuntos chamados “Curtas”52, e do número de fotos coloridas.

Até 96, data da primeira reforma editorial e gráfica da gestão Noblat, existiam as seguintes editorias/páginas Últimas (com as últimas notícias chegadas à redação, perto do fechamento do jornal), Política, Opinião, Economia, Internacional, Nacional, Cidades e Esportes, e às sextas-feiras circulava o caderno Fim de Semana, com a programação cultural e de entretenimento. Foram mantidas as seguintes colunas: “Sr. Redator”; ‘Brasília-DF”; “Indicadores”; “Grita Geral”; “Marconi Formiga’; “Gilberto Amaral”; “Visto, Lido e Ouvido”; ‘Guia da Cidade”; ‘Antena Dois’; “Nelbe Chateaubriand’ e “Como Aplicar Seu Dinheiro”. Saíram as colunas “Mala Diplomática”, ‘Bazzar’, “Vida Militar”, “Por dentro do Congresso”. Foram criadas as colunas “Correio Econômico”, ‘Dicas de Português”, “Guia do Consumidor’ (com pequenas matérias sobre direito do consumidor), “Música Pop”, “Olho Vivo” (esportes) e “Ciência e Saúde”. Entre as mudanças iniciais a criação das páginas: Fuzz Box (voltado para temas e assuntos relacionados com os adolescentes), X-Tudo (também para adolescentes e que no mesmo ano foi transformado em suplemento), Correio da Galera (infantil), Outras Ondas (assuntos esotéricos) e os cadernos de Informática (terças-feiras), TV (domingos), além do já citado Fim de Semana. Até 1996, foram mantidas as sucursais de Goiânia, Anápolis, Rio de Janeiro e São Paulo, tendo sido fechada apenas a de Taguatinga. Neste período o Correio usava os serviços das agências Brasil, Globo, JB, Estado, Meridional, Sport Press, AFP, UPI e Ansa. Em termos de distribuição de matérias por editoria houve um aumento entre a gestão Ronaldo Junqueira e Ricardo Noblat, em razão do aumento do número de páginas do jornal.

Após a reforma de 9653, o jornal ficou com a seguinte distribuição páginas/editorias no primeiro caderno: Últimas, Mundo, Brasil (política e nacional), Economia e Trabalho, Opinião e Esportes; o segundo caderno era o de Cidades54 e o terceiro Caderno Correio Dois (cobertura sobre cultura, programação de entretenimento e lazer). Os suplementos permaneceram praticamente os mesmos: segunda-feira, Direito e Justiça; terça-feira, Informática; quarta-feira, Turismo; quinta-feira, Veículos; sexta-feira, Sexta Dois e Fim de Semana; sábado, X-Tudo; domingo, Imóveis, TV e Correio da Galera. Entre as alterações editoriais e gráficas estavam: a criação de boxes explicativos com os títulos Análise da Notícia, Personagem da Notícia, Para Saber Mais, além de perguntas e respostas sobre assuntos de interesse do leitor em geral, como por exemplo, novas leis, imposto de renda e outros; a mudança no tipo de letra do título do jornal e o aumento do espaço para fotos, além da volta das enquetes de rua com os leitores, já utilizadas anteriormente, para saber a opinião destes sobre assuntos do momento. As colunas que permaneceram foram “Brasília-DF”; “Visto, Lido e Ouvido”; “Gilberto Amaral”; “Outras Ondas”; “Antena Dois”; “Guia do Consumidor” e “Dicas de Português”. As novas colunas criadas foram “Tome Nota” (agenda de serviços de interesse da comunidade e de utilidade pública) e “Ponto Crítico” (publicação de dois artigos a respeito de um mesmo assunto sobre dois pontos de vista diferentes). O jornal manteve as sucursais de São Paulo e Rio de Janeiro e os serviços das agências Globo, AP,AFP, UPI, Sport Press e Meridional.

A partir de 97, novas mudanças editoriais ocorreram: neste ano começaram a circular, aos domingos, os cadernos Pensar (literatura) e Emprego (sobre opções de emprego, tendências do mercado, dicas sobre concursos e ofertas de emprego); também aos domingos, as páginas Sua Cidade Taguatinga, com a coluna social Nossa Gente; e as páginas Educação e Imprensa, esta com artigo Carta ao Leitor do diretor de redação Ricardo Noblat. Surgiram, ainda as colunas: Desabafo (frases de indignação dos leitores sobre assuntos da atualidade); Gente (notas sobre personalidades internacionais); a Visão do Editor (pequeno artigo de cada editor das diversas editorias sobre um tema importante da semana, publicado aos domingos) e Metrópole (coluna de notas do caderno Cidades). Outra novidade foi que o resultado da pesquisa feita, diariamente desde 96, com 300 assinantes do jornal, sobre a cobertura diária, passou a ser publicado todos os domingos na página de Imprensa. Nesta página passou, ainda, a ser publicado o índice de leituras das matérias, colunas e seções mais lidas, e ainda a avaliação do jornal e das capas pelos leitores. Pôde ser observado, através da leitura dos jornais, que partir de então houve um incremento determinante na cobertura pelo jornal de serviços, de informações ao leitor sobre assuntos médicos, comportamento, educação, domésticos, animais, decoração e moda.

Em outubro de 9955, teve início um processo de radical mudança no jornal, a reforma de 2000, por meio da Segunda Especial. Esta edição que passou a circular às segundas-feiras, com um número maior de matérias ditas especiais, mas com um caráter noticioso mais frio, como as matérias publicadas nas edições de domingo, e cuja maior novidade era a inexistência de ordem fixa por editorias no primeiro caderno. Entre as matérias ditas especiais, mas muitas vezes não tão frias jornalisticamente, houve a introdução do Tema do Dia, assuntos que estavam na ordem do dia na política, economia, cidades, internacional, para o qual o jornal reservava mais espaço, em torno de 2 a 3 páginas. A edição também passou a publicar um índice resumido na primeira página e um sumário mais completo na segunda página, maior espaço para o leitor através da coluna “Correio do Brasiliense”, onde eram publicadas fotos e cartas enviadas pelo público. Era o início do aprofundamento da reforma de 1994 e o desejo da quebra de certos paradigmas jornalísticos: as editorias e equipes de profissionais fixas, a ênfase na cobertura econômica e política e a publicação de um grande volume de matérias com enfoque superficial.

Em julho de 2000, o novo desenho passou a vigorar: o jornal ficou dividido, então, em três cadernos: o primeiro com as hard news, notícias de política, economia, internacional, cidades (cujo caderno existente anteriormente é extinto), esporte, cultura e entretenimento, além de um roteiro para leitura da edição; o segundo, Guia Diário, o de serviços e o terceiro, Coisas da Vida, uma espécie de revista com temas sobre comportamento, moda, religião, decoração, culinária, ciência. O material jornalístico que sobrava, ou era considerada necessária sua publicação a título de registro, era publicado nas "Curtas". Os suplementos se mantiveram, apenas com nomes diferentes: Sobre Rodas (veículos), Lugares (turismo), E-Tudo (informática), Emprego e Formação Profissional, Direito e Justiça, TV e Fim de Semana. Outra novidade incorporada após a reforma foi a maior participação dos repórteres no texto final, titulação, legenda e edição. Apesar da cobertura de Brasília estar diluída ao longo do jornal, a valorização da notícia local era um outro ponto importante para o Correio, especialmente a cobertura de assuntos como arquitetura e urbanismo, trânsito e violência, serviços e políticas públicas. Outra característica era o investimento nas reportagens e em matérias de interesse humano que resultassem em boas narrativas, em matérias de cultura que não fossem produto apenas da agenda cultural. Houve ainda a mudança na construção do texto, com a eliminação do lead clássico, respondendo às perguntas quem, o quê, onde, quando, como e por quê.

d) Rotinas de Produção

Ao entrar, Ricardo Noblat fez poucas mudanças na rotina de produção.

De 94 a 96, a estrutura da redação permaneceu praticamente a mesma; embora tenha sido criada a função de sub-editor, para melhorar o processo de fechamento, as rotinas de produção não se alteraram.

A partir de 99, as rotinas de produção foram totalmente alteradas, uma vez que o Correio se tornou mais planejado e com grande número de matérias frias, feitas a partir de assuntos fora da chamada pauta do dia de assuntos nas áreas de política, economia e cidades. Como foi dito anteriormente, houve o fim das editorias, com a criação de núcleos especializados, por temas conexos.


e) Recursos Humanos

Com a chegada de Noblat houve uma renovação quase total do quadro de profissionais, ele afastou da redação mais de 80% dos profissionais, reajustou os salários dos jornalistas da redação e. Entre 94 e 96, o número de jornalistas não aumentou significativamente. Também não houve grande alteração em 2000, mas a média de idade caiu, e houve o aumento do número de estagiários de jornalismo trabalhando na redação.


f) Circulação e equipamentos

A circulação do jornal, em dezembro de 1993 era de 36 mil, de segunda a sábado, e de 69,1 mil, aos domingos; em dezembro de 1995, era de 54,3 mil, de segunda a sábado e 90,9 mil aos domingos56. A circulação57 em dezembro de 96 era de 59,4 mil, de segunda-feira a sábado, e aos domingos, 93,9 mil, atingindo em dezembro de 98 a marca de 65,4 mil de segunda a sábado e 98,8 mil aos domingos. Em termos gerais58, em 96, o jornal era o sétimo em faturamento nacional e o primeiro no mercado do Centro-Oeste e a circulação do jornal atingia a marca de 92,1% dentro do Distrito Federal.

A reforma de 96 foi só o início da série de mudanças profundas que ocorreram na estrutura editorial do jornal e que culminaram com a reforma de 2000. Para tal era preciso modernizar o parque gráfico e dar suporte às futuras mudanças, e então, o jornal iniciou negociações para compra de novos equipamentos de impressão. A aquisição foi efetivada em 1997, com investimentos de cerca de 12,2 milhões de dólares, permitindo, com a nova máquina Newliner, o aumento da capacidade de imprimir 70.mil jornais por hora, o dobro do que era produzido à época e antecipar a distribuição do jornal para até 2h30 da madrugada. Para abrigar o novo parque gráfico foi construído um prédio de 4.000 m quadrados, inaugurado em 19/04/2000.Os equipamentos59 disponíveis na redação, no início da reforma de 2000, não eram ainda compatíveis com as impressoras recém-adquiridas, fato que causou problemas no fluxo de produção do jornal.
Considerações

A entrada na década de 90 representou para Brasília o início do calvário urbano pelo qual passa toda grande cidade brasileira: problemas habitacionais, de saneamento, de trânsito, violência e tantos outros; no caso específico de Brasília, a política de distribuição de lotes do então governador Joaquim Roriz acabou inchando o Distrito Federal. Este período também representou a entrada no estado de maioridade política com a eleição para governador, deputado federal e da primeira bancada da Câmara Distrital. A prova de que a cidade se consolidou como sede do poder foi o fato de que a população brasileira passou a vir mais à capital para protestar, demonstrar o seu descontentamento com a forma de condução dos temas políticos, econômicos ou sociais pelos políticos sediados em Brasília. Além da dimensão nacional, a cidade também foi marcada por acontecimentos locais que chocaram o país como os assassinatos do estudante Marco Antonio Velasco a socos e pontapés e do índio pataxó Galdino queimado vivo, ambos os crimes executados por jovens brasilienses de classe média. Em meio a tudo isso a capital continuou a crescer culturalmente e exportar seus valores para o resto do país, a prova disso é a cantora Cássia Eller, sucesso nacional de público e crítica. O Correio acompanhou de muito perto estas tragédias e vitórias dos valores locais, com especial destaque para edição da morte do índio pataxó, em de abril de 1997.

A década de 90 marcou o jornal pela morte de Edilson Cid Varela, cujo cargo foi ocupado pelo jornalista Paulo Cabral, o ex-presidente do grupo Diários Associados, que imprimiu uma série de transformações ao jornal, principalmente, de caráter empresarial. No comando da redação a incompatibilidade entre Ronaldo Junqueira e Paulo Cabral motivou a saída do primeiro, e em seu lugar entrou Luiz Adolfo Pinheiro, funcionário da casa e com experiências em sucursais, além de ter trabalhado outras vezes no jornal. A chegada de Paulo Cabral levou o jornal a desejar ser um diário de referência nacional, segundo Cláudio Ferreira60 pesquisa feitas à época constataram que 92% das pessoas que liam jornal liam o Correio, diante disto o jornal resolveu investir em uma ampla cobertura, sem segmentação de públicos ou assuntos, entretanto com ênfase nos temas nacionais e locais. Segundo Luiz Adolfo Pinheiro61, havia uma preocupação de dar o máximo de informação, “o Paulo Cabral pediu para que se publicasse tudo”. No plano local iniciou-se um rompimento político e econômico com o governo do Distrito Federal, mas sem críticas ou enfrentamentos, e Adolfo explica, “muitas vezes o governador telefonava, reclamava, iam lá (no jornal) pessoas do governo. Mas (nós) não fazíamos oposição, dávamos as notícias”. Salomão Amorim62 discorda deste rompimento e afirma categórico as ligações do jornal com o então governador Joaquim Roriz, em 1993.

O novo diretor não fez grandes transformações substanciais na condução da redação ou reformas editoriais de vulto; ele continuou o projeto anterior de abertura de mais espaços para o leitor. Criou um caderno específico para a cidade, onde as satélites eram tratadas com menos preconceito que anteriormente, além disso, neste caderno começaram a ser publicadas pequenas crônicas como “Personagens da cidade”, além de uma crônica diária da capital e o caderno Mulher aos sábados, além da página de Informática, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia. Outra característica do período de Luiz Adolfo é o slogan “identidade com o leitor”, que aproximava muito o jornal da cidade.

A grande mudança no período foi a entrada de Ricardo Noblat, em 94, após a saída de Luiz Adolfo, citado durante as investigações do Congresso Nacional sobre irregularidades na confecção do Orçamento da União, em 1993. A mudança no comando acabou por se somar às intenções da direção do jornal para modernizar Correio, no intuito de enfrentar a concorrência dos jornais de fora, a idéia era erradicar a imagem de “chapa-branca”, ser mais crítico e analítico. A maior parte dos entrevistados comentou que a chegada de Ricardo Noblat marcou o rompimento com a imagem oficialista do jornal e a inauguração de um tom editorial mais fiscalista em relação ao governo local, abertura de novos nichos comerciais em termo de público e o início de grandes coberturas e “furos jornalísticos”. A decisão de fazer matérias mais críticas e investigativas acabou provocando descontentamento nos setores atingidos por elas, mas Ricardo Noblat não temeu a perda de alguns anunciantes.

Havia, naquele período, uma conjunção de fatores que levaram o jornal a desejar apagar a imagem de “chapa branca”, segundo se pôde averiguar: a vontade da direção, a pressão do mercado de impressos onde os jornais estavam fazendo reformas, o processo de democratização do país que exigia periódicos mais independentes e desatrelados do poder vigente, o perfil profissional de Ricardo Noblat com experiência em grandes veículos e as pesquisas de opinião desenvolvidas pelo jornal que apontavam a necessidade de mudança. Uma das primeiras atitudes para mudar o seu antigo tom oficialista foi a publicação de mais manchetes que não tratassem sobre política, dentro deste assunto o executivo local e federal, além da redução do número de declarações de fontes oficiais nas matérias. O Correio tomou iniciativas que evitaram o que Jacques Weinberg63 em seu estudo sobre a morte de grandes jornais americanos e brasileiros concluiu, que a tradição, reputação e histórias não são salvaguardas à perenidade de um jornal, as audiências não podem envelhecer, a identidade editorial e gráfica são fatores cruciais e, finalmente, que a rigidez administrativa e falta de agilidade na adaptação às novas demandas econômicas, tecnológicas e editoriais podem ser fatais para um veículo impresso.

A escolha de Ricardo Noblat foi feita com muito cuidado, como conta João Cabral64, diretor-executivo do Correio, em entrevista escrita,


foi precedida da elaboração de um perfil profissional. Deveria ser um jornalista com experiência em comando de equipe, com clara independência política e com credibilidade pessoal. Noblat fez parte de uma lista de três ou quatro nomes elaborada na época pelo presidente da empresa e ganhou o lugar depois de duas entrevistas.
O novo diretor de redação iniciou a sua gestão tomando medidas internas de caráter modernizador, além de ousar mais graficamente. As reformas gráficas do Correio renderam, inclusive, vários prêmios ao jornal que se distinguiu por edições primorosos como a morte de Darcy Ribeiro, um dos ideólogos da Universidade de Brasília e outras. Os primeiros dois anos o novo diretor usou, principalmente, para estudar o mercado e o leitor por meio de pesquisas de opinião, para lançar, em 1996, a primeira reforma da sua gestão. O novo projeto tinha a comunidade como referência, mas pretendendo atingir uma dimensão nacional, com cobertura seletiva, preocupado em valorizar a prestação de serviço. Sobre o desejo de ser um diário de referência nacional, Ricardo Noblat65 afirmou que ao chegar ao Correio ele percebeu um forte desejo de mais de 30 anos do grupo Diários Associados em transformar o jornal em referência nacional, objetivo nunca tentado talvez porque não se sabia como ou por quê. Havia também a idéia, dentro da perspectiva de veículo de referência nacional que se mostrou posteriormente inviável por questões de custos, de distribuir nacionalmente o jornal. A manutenção das sucursais durante os primeiros anos da gestão Ricardo Noblat demonstrava a preocupação com uma dimensão nacional para o Correio.

Segundo Armando Mendes66, que pertence à equipe de Ricardo Noblat desde 94, o principal resultado das pesquisas feitas com os leitores, antes de 96, foi que estes comparavam o Correio Braziliense com jornais como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo e que gostariam de vê-lo parecido com estes diários do sudeste do país. Para espanto da imprensa em geral, o Correio passou a abrir suas edições com a página que tratava de assuntos internacionais, com a retranca Mundo.

Paulo Pestana67 comentou ainda que o projeto de 96 tinha objetivos que foram construídos, assim como no projeto seguinte, de 2000, a partir de discussões com a redação sobre a necessidade de aprofundamento da notícia, para que o jornal não ficasse escravo do noticiário de TV. Por isso os boxes “Memória”, “Personagem da Notícia”, “Para Saber Mais”, com uma preocupação de “estender mais a notícia, de não considerá-la só como o fato”, afirmou o ex-editor. Entretanto, o jornal continuava atrasado em relação às mudanças no mercado, enquanto o Correio estava implementando um novo desenho gráfico com pretensões didáticas em 96, a Folha já havia feito isto em 8568, mas o Correio tentava se incorporar a um marketing journalism69 que começava a ser implementado naquela época nos pequenos jornais: com os uso de cor, textos curtos, infografia e interação com a comunidade.

O público-alvo não parecia exatamente definido nesta primeira reforma, pois o jornal escolheu uma cobertura ampla de assuntos e temas de interesse geral que eram levantados pelos leitores nas pesquisas. O uso de pesquisas de opinião foi, aliás, uma grande novidade para o tradicional diário brasiliense, e desde esta data em diante tornou-se um aliado imprescindível na tomada de decisões visando a modernização do Correio. A preocupação em rejuvenescer, aumentar a circulação nas satélites, Entorno e região geo-econômica do Distrito Federal, além de abrir uma página na Internet demonstrava a sintonia de Ricardo Noblat com as exigências do mercado competitivo que estava se tornando o Distrito Federal. Para Armando Mendes70, esta reforma foi na verdade o início da segunda que aconteceu no ano de 2000, onde verdadeiramente se conseguiu implementar todas as idéias discutidas a partir de 1994, sobre qual deveria ser o papel, a função, e o formato de um jornal. Na opinião de Adriana Chiarini71, o jornal quis com a mudança, em 96, se aproximar do formato do noticiário de Tv, mais curto, rápido e com muitas notas.

As reforma editoriais são, entretanto, um processo que os leitores levam tempo para se acostumarem, como pode ser constatado no comentário de Ricardo Noblat72:
pesquisas feitas entre 94 e 96 apuraram que 52% dos leitores perceberam mudanças na linha editorial, entretanto, 48% achavam que o jornal estava igual, as pessoas levam um tempo para perceber mudanças, principalmente na linha editorial, de postura editorial do jornal, leva mais tempo ainda quando as pessoas estão acostumadas durante trinta e poucos anos com um jornal que era extremamente conservador, chapa branca etc. Até que elas se convençam de que aquela mudança é para valer leva mais tempo ainda.
Apesar de ter estabelecido, a partir de 96, diretrizes claras para o Correio, Ricardo Noblat continuou inovando nos anos seguintes: lançou cadernos, páginas ecolunas novos e engajou o jornal em uma campanha contra violência de forma geral e em favor de paz no trânsito. Em sua ousadia Noblat foi capaz de trazer para manchete a vida do leitor simples, como na edição de 29 de outubro de 1996, quando o título do jornal era "Ajude-me a conquistar esta garota", que remete para uma matéria em que rapaz luta para conquistar uma garota por quem está apaixonado.

As mudanças que começavam não eram só editoriais, mas na condução interna da redação como aponta a instalação de um Código de Ética73 em 1998. Em sua coluna semanal “Carta ao Leitor”, ao longo do ano de 98, Ricardo Noblat foi deixando claro para os leitores a que tinha vindo :"o foco no cliente, nas necessidades e aspirações deles, aconselham os manuais. Melhor ainda: no foco do cliente. Que o olho do fornecedor da coincida com o olho do receptor... Então o reino dos céus dos negócios será alcançado”,"bem-aventurados serão aqueles que repensarem seu conteúdo para acompanhar as transformações do mundo onde operam e capturar novos leitores sem abdicar, contudo, de um conjunto de princípios e valores que justificam a existência dos jornais desde que eles foram inventados". O grande ápice da síntese das idéias de Noblat sobre o papel de um jornal está no texto “Para que serve um jornal”74, publicado pelo Correio, em 19 de setembro de 1999, onde afirma "um jornal serve para servir", "um jornal não tem senhor, domínios, posses, ou possessões .... e só estará vivo, em intensa atividade, e se servir aos que os lêem e o sustentam...". Ao explicitar a linha editorial claramente o jornal fortaleceu a relação do veículo com o leitor e segundo Carlos Eduardo Lins Silva75, isto “serve como uma espécie de vínculo de cumplicidade ou co-responsabilidade que deve aumentar o grau de envolvimento de um com o outro.”



A partir de 98, nova gestação de mudanças, que começaram a ser experimentadas no ano seguinte, com a implantação da Segunda Especial, uma edição às segundas-feiras com nova filosofia editorial.Mas só em julho de 2000, o novo desenho passou a vigorar: o jornal ficou dividido em três cadernos, o primeiro com as hard news; segundo caderno, o Guia Diário; terceiro, Coisas da Vida. Mesmo com a cobertura local diluída no novo projeto havia uma preocupação na valorização da notícia local, especialmente assuntos que diziam respeito ao bem-estar da comunidade, da população do Distrito Federal e Entorno. A nova estrutura incorporava a participação dos repórteres no texto final, titulação, legenda e edição. Em função de seu arrojado projeto gráfico o Correio ganhou vários prêmios internacionais: entre eles o Society for Newspaper Design, em 1999 e 2000 e mais de 40 outros por reportagens, fotografias ou campanhas comunitárias. É preciso que se destaque que o grande artífice das reformas gráficas implementadas por Ricardo Noblat foi o artista plástico Francisco Amaral, que depois da implantação do projeto 2000 foi guindado ao posto de Editor-executivo, passando a projetar também a cobertura jornalística, além do desenho das páginas. Para Noblat76 com a reforma de 2000,
foram quebrados com o novo jornal vários paradigmas pareciam até então muito sólidos. O primeiro deles: a seqüência de apresentação de assuntos no jornal deve ser sempre a mesma todos os dias. Para que o leitor se acostume com ela. Não tenha dificuldades para chegar ao que quer. Bem...Os assuntos são exibidos às segundas-feiras de acordo com a importância deles. Notícias que guardam algum grau de parentesco devem estar juntas. A edição, assim, ganha coerência.
Segundo Chiarini77, o processo de implantação do Projeto 2000 teve várias contramarchas, em razão de visões diferentes entre os editores que coordenavam as discussões e da saída de alguns destes durante o período. Além disso, havia segundo a autora, a discussão sobre ser ou não ser um jornal de referência nacional, escolha que implicava uma melhor cobertura do Executivo, Legislativo e Judiciário. Depois de muitas discussões, o Correio optou por um meio termo, com a redução dos assuntos oficiais, declarações, coletivas e passou a usar o material de agência para cobertura diária de política e economia, mas procurando criar pautas próprias para estes dois temas. Ainda na opinião de Chiarini78, o Correio implementou a sua reforma do ano 2000 principalmente por razões tecnológicas:
a chegada da Internet fez as notícias publicadas nos jornais envelhecerem rapidamente, a vida agitada das cidades reduziu tempo para leitura de jornais e a cultura televisiva combinada com a pressa, criou uma necessidade de mais visualização das informações, e ainda houve um aumento nos últimos anos do tipo e do número de assuntos de interesse dos leitores como religião, consumo e saúde, a participação da sociedade civil nas discussões e solução de problemas se ampliou depois do fim da ditadura militar, a segmentação de público e o número de veículos também cresceu.
De acordo com vários autores que os rumos da mídia impressa, Noblat seguiu a tendência do mercado79 com a segmentação dos leitores, especialmente no tocante aos assuntos consumo, lazer e entretenimento, e a transformação destes em temas de cadernos publicados semanalmente.

O projeto não foi aceito integralmente, houve críticas e elogios de várias ordens. Para o ex-repórter José Natal80, o jornal perdeu seu caráter popular, ficou elitista, em razão do projeto dificultar a localização das matérias, embora ele apóie a redução na cobertura de política e economia, pois, segundo ele, pesquisas apontam que os leitores não acompanham esses temas profundamente. André Gustavo Stumpf81, atualmente colunista, discorda de Natal, na opinião dele o jornal perdeu com a diminuição da cobertura política e econômica, especialmente por estar na capital do país; entretanto, segundo Stumpf, o Correio ganhou no atendimento ao leitor, seja em razão do espaço concedido, seja no tratamento das matérias, “com isso o jornal passou a ser um veículo de utilidade pública para a cidade”. O editor Adriano Lafetá82 concorda com André Gustavo quanto ao tratamento do leitor, mas critica a ambição do projeto de ser 90% planejado, para ele isso é utópico. Alfredo Obleziner83, editor, tem ressalvas ao caráter de revista que o jornal adquiriu, pois o Correio corre o risco de deixar de ser um jornal, mas elogia o destemor da direção com seu desejo de apagar a imagem de oficialista e “chapa branca”. Para Cláudio Ferreira84, ex-editor, houve uma perda de qualidade na cobertura de cultura com o fim do caderno Dois, pois os assuntos culturais têm que “brigar” por espaço com outras notícias, entretanto, a quebra do paradigma das páginas fixas para as editorias/assuntos acaba com a obrigação de preencher espaços ao invés de publicar informação.



Questionados se o Correio conseguiu o status de referência nacional, Ricardo Noblat e Armando Mendes85 concordam que o jornal não alcançou este patamar e trocaram o conceito de referência nacional para “jornal da capital” (slogan, inclusive, usado quando do lançamento do novo jornal em julho de 2000) e dão algumas explicações para isso. Para Armando Mendes,
eu acho que hoje nós (Correio) somos um jornal de presença, de conhecimento nacional muito mais do que eramos em 94. Não podemos dizer, eu acho que seria muita pretensão achar, que já somos um jornal de referência nacional, que não somos. Mas eu acho que nós avançamos nisso. O jornal é mais conhecido fora de Brasília do que era em 94. Pelas matérias importantes que fabricou, pela própria mudança que passou, pelo crescimento de vendas, de tiragem. Se tornou um jornal de peso maior. Não é ainda, não dá para comparar com o Washington Post que é um dos dois ou três jornais mais importantes dos EUA no sentido de influência, é evidente que não. Mas nós caminhamos.
Na opinião de Ricardo Noblat,

a referência nacional depende de um investimento. (Um) Jornal de referência nacional (é) você ter um noticiário do Poder mais extenso, cobrir mais o Poder. Eu não cubro bem o Poder, eu tenho pouca gente para cobrir o Poder. Mas isso tudo decorre de um mercado consumidor do jornal e de um mercado publicitário. Não basta você dizer que vai me dar mais vinte repórteres para cobrir bem o Poder que está no meu quintal e vou te dá mais dez páginas de jornal todo dia para você poder colocar esse noticiário. Aí você quebra o jornal porque não tem dinheiro para isso, não tem receita de publicidade ou de circulação que me sustente. Então você torna o modelo econômico inviável. Eu não tenho um mercado publicitário tão grande, não tem um mercado consumidor de jornal tão grande que me permita fazer isso. Vender lá fora em outros lugares é mais caro. Porque eles (Estado de S. Paulo, JB, O Globo e Folha de S. Paulo) são jornais de referência nacional? Primeiro porque alguns deles, como o Globo e o JB e estão no Rio de Janeiro, grande plataforma cultural e no mercado publicitário muito mais forte, muito mais poderoso. Os de São Paulo, Estado e Folha pela mesma razão. No caso, lá a capital financeira do país e empresas de grande porte com um mercado publicitário que é o mais importante deste país. Aqui não, é uma titica esse mercado publicitário. Esse projeto do Correio Braziliense está superdimensionado para o mercado que nós temos. Você pudesse talvez fazer o Correio vender mais ou tanto quanto você vende e fazer um jornal muito mais barato, os custos dele seriam muito menores se você não tivesse essa pretensão de ser um jornal de referência nacional e fazer um jornalismo de qualidade .
No tocante a linha editorial, entretanto, vários entrevistados sublinharam que o Correio passou a tratar de maneira parcial o desempenho do governo do DF, na gestão Joaquim Roriz iniciada em 1999, fazendo pesadas críticas à política, aos programas e aos projetos desenvolvidos, ultrapassando a posição de um jornal “fiscalista”. Para Ricardo Noblat86, “os problemas com o governador Roriz advêm do estranhamento dele em relação a nova postura do Correio, pois ele estava acostumado com a dependência do jornal como era no mandato dele de 90/94 “. Se por um lado essa atitude representou o rompimento definitivo com a imagem de “chapa-branca”, por outro deixou transparecer claramente a discordância do novo diretor com as opções políticas do governador, levando o jornal a abdicar da função dos veículos de comunicação de informaram, formarem, propiciarem o debate com equilíbrio e isenção.

As pretensões de Ricardo Noblat de fazer um grande jornal, como ele mesmo admitiu, esbarraram no tamanho do mercado de Brasília, pois ficaram subtilizadas as máquinas de impressão adquiridas com capacidade além do necessário, e o jornal não atingiu os objetivos traçados pelo seu diretor de redação, em termos de expansão do número de leitores, por exemplo. Um fato que contribuiu para o insucesso das metas foi o fato do governador Joaquim Roriz, para fazer frente as campanhas críticas contra o seu governo, passar a apoiar o Jornal de Brasília, que iniciou uma política editorial mais ao gosto das camadas mais pobres da população e com um preço de capa mais acessível, cujo resultado foi a migração de leitores do Correio para o Jornal de Brasília. Some-se a isto, o agravamento da crise financeira da cadeia Diários Associados que acabou por se refletir no jornal brasiliense. Por outro lado, Ricardo Noblat fortificou sua posição frente ao jornal quando foi escolhido para integrar o seleto grupo dos condôminos dos Diários Associados, em 1998, fato que deu um grande fôlego ao diretor de redação para fazer valer a sua opinião, suas idéias, projetos e continuar a implementar contínuos aperfeiçoamentos ao Projeto 2000.

Entre os pontos positivos da reforma 2000, Adriana Chiarini87 cita a publicação de assuntos relacionados com idosos, jovens, mulheres e temas que interessam a várias pessoas, independente de sexo ou idade. Outro ponto destacado por ela foi a participação do leitor através das pesquisas e dos conselhos de leitores criados que ajudaram o planejamento do jornal. E vale a pena ressaltar, a título de considerações finais, que as idéias de Ricardo Noblat não são tão originais ou novas, pois como mostra Adriana Chiarini, as soluções implementadas por ele já haviam sido ventiladas em estudos sobre comunicação na década de 60 e 70, que sugeriam como saída para jornais impressos ameaçados pela concorrência da TV a época, o uso da interpretação da notícia, de seu aprofundamento, a procura dos grandes problemas das comunidades, e por fim uma paginação mais arejada.

Em resumo, Ricardo Noblat consolidou as tendências históricas do jornal: a ênfase no local e serviço, assim como sintonizou o Correio com as tendências do mercado88 do jornalismo impresso no país e no mundo e rompeu em definitivo com a imagem de “chapa branca” e de oficialista do pioneiro diário brasiliense.




Capítulo 3
Análise da cobertura jornalística

Cada aprimoramento da sociedade humana corresponde a um aprimoramento em seus processos de comunicação”.



Alberto Dines

Como o período abordado por este trabalho foi muito extenso, a solução para tornar mais clara a linha editorial do jornal foi a seleção de pelo menos um fato por década, visando propiciar uma observação mais localizada do comportamento do jornal. A seleção excluiu, naturalmente, outros acontecimentos de grande relevância que ocorreram no âmbito de Brasília, entretanto, o objetivo da presente análise era observar a linha editorial do Correio durante cobertura relacionados com acontecimentos que diziam respeito especificamente à cidade. Os fatos que se seguem atenderam aos quesitos: destaque político, repercussão de âmbito local e nacional, importância para o funcionamento da cidade e a opção de linha editorial adotada pelo jornal para reportá-los.

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