Correio Braziliense: 40 anos Do pioneirismo à consolidação



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3.1- Invasão da Universidade de Brasília – 29/08/1968



a) O fato

O fato que gerou a cobertura foi a invasão da Universidade de Brasília - UnB pela polícia, sob a alegação de pretender executar prisão preventiva de estudantes decretada pela Justiça Militar. Entre eles estava o líder estudantil Honestino Guimarães, acusado de atividades subversivas. Segundo depoimentos transcritos nas matérias pesquisadas1, os policiais agiram com exagero: tanques, gás lacrimogênio e tiros, além de procederem com violência na prisão de estudantes para averiguação. A polícia alegou, à época, que já havia comunicado oficialmente o reitor da universidade, Caio Dias, sobre o mandado de prisão expedido pela justiça e que este afirmara estar ciente2.

A escolha deste fato se deveu às repercussões geradas entre a população da cidade em geral, nos meios estudantis, políticos, pelas crises institucionais que decorreram dele, além da dimensão nacional que o acontecimento ganhou. Vários foram os discursos no Congresso condenando a invasão, muitos setores organizados da sociedade civil protestaram por meio de notas ou manifestações de repúdio, até as mães dos alunos atingidos produziram um abaixo-assinado, publicado pelo Correio Braziliense com destaque3. Houve passeata de desagravo dos estudantes do ensino secundário e dos alunos da Universidade de Brasília, pois foi a segunda vez que a universidade era invadida após três anos da primeira invasão e novamente com violência.

b) O contexto

Para contextualizar o fato no cenário nacional é necessário lembrar que o país estava no segundo ano do governo do marechal Artur da Costa e Silva, que se iniciou em 1967. Ele era o segundo militar a ocupar a presidência da República e começava a endurecer o regime militar iniciado em 64, através de medidas como o recrudescimento da censura e da restrição a manifestações populares nas ruas. Vale a pena registrar que, cinco meses antes da invasão do campus da Universidade de Brasília pela polícia do Distrito Federal, o estudante carioca Edson Luis havia sido morto, no Rio de Janeiro, no restaurante estudantil Calabouço, durante confronto com a polícia, e em razão do fato, os estudantes decretaram greve nacional.

Na data da invasão, Brasília era uma cidade de quase 500 mil habitantes, deste contigente, um terço morava no Plano Piloto e dois terços nas cidades-stélites. O prefeito era nomeado pelo executivo federal e as prerrogativas legislativas eram exercidas pelo Congresso, por meio de uma Comissão permanente. Com oito anos de existência, a nova sede da capital federal ainda corria o risco de voltar para o Rio de Janeiro devido a inúmeras campanhas orquestradas pela grande imprensa do Rio e de São Paulo, políticos e outros setores da sociedade. A capital possuía uma economia incipiente, baseada, principalmente, na construção civil.
c) A linha editorial

O Correio Braziliense, um jornal novo com apenas oito anos de existência, ainda sofria forte influência dos Diários Associados no tocante à linha editorial. Era tradicionalmente alinhado com os poderes constituídos, diretriz estabelecida pelo mentor do grupo de comunicação Assis Chateubriand, que apesar de falecido há pouco mais de quatro meses, era seguida ainda. O jornal era dependente da publicidade oficial para sua sobrevivência, até então, pois a venda de exemplares ainda era pequena e o número de anunciantes locais não era expressivo. Naquele momento, o Correio, e toda a imprensa brasileira, já estava sob a influência de um certo comedimento no exercício jornalístico, imposto pelos próprios veículos de comunicação em razão do regime político de exceção, no qual se encontrava o país. Sua prioridade na cobertura era a política, com ênfase no executivo federal e o legislativo, além de algum noticiário sobre a recente cidade de Brasília. Não era um jornalismo de natureza interpretativa e sim de registro jornalístico, até pelo perfil da direção de Ari Cunha4, seu editor-geral no período.


d) A cobertura

O tom da cobertura da invasão seguiu a linha editorial do jornal: equilibrado, sem sensacionalismos, sem tornar “mártires” os estudantes presos e dando destaque para as informações oficiais. Esta postura de neutralidade adotada na abordagem de acontecimentos com caráter tão grave, deixou ao leitor uma impressão de distanciamento do jornal em relação aos fatos. Só houve uma perda desta quase neutralidade com a publicação5 de bilhete de um estudante que contava ter sofrido tortura na prisão. Tal procedimento deve ser creditado ao receio do CB em se comprometer perante o governo pelas informações publicadas. Some-se a isto, o fato de o Correio só publicar o primeiro editorial sobre o tema três dias após o ocorrido, sendo que o texto não aborda o mérito da legalidade da invasão nem questiona as razões para a prisão dos estudantes. Ele se limita a criticar o tratamento dado pela polícia aos jovens presentes na universidade e eximir a polícia militar de participação no episódio. Em outro editorial da mesma edição, o Correio faz a defesa do moderno projeto de ensino superior da Universidade de Brasília, criticando aqueles que querem destruí-lo6 e censura os que atribuem caráter de subversão a toda atividade de debate realizada no âmbito daquela instituição. Mas não há, entretanto, uma avaliação da dimensão política da atitude violenta do governo ao prender os estudantes dentro das salas de aula.

Em outra data, e lembrando os acontecimentos na UnB, um editorial defendeu o Ministro da Justiça, Gama e Silva, e questionou aqueles que acusam os estudantes de destruírem um caminhão, pondera ainda que a polícia havia destruído o patrimônio da UnB, além de criticar os que relegam a um segundo plano as duas vidas humanas atingidas durante a invasão7. Apesar de defender a cidade em três editoriais, é importante que se ressalte que o primeiro texto só foi publicado dois dias depois da ocorrência dos fatos e suas repercussões.

Nos textos produzidos pelos repórteres, que nesta época não assinavam as matérias, o comportamento é o mesmo, entretanto, algumas palavras usadas para descrever os acontecimentos deixam escapar a indignação dos redatores com os fatos. O espaço reservado pelo jornal para expressar o seu protesto, a sua indignação e a sua revolta com a violência utilizada foram as páginas de política, mais especificamente as matérias que trazem as falas dos parlamentares nas tribunas da Câmara e Senado. Nos trechos destacados dos discursos de deputados e senadores há denúncias sobre a forma violenta da ação policial e a destruição do patrimônio da universidade. Outros aspectos destacados das falas criticavam a demora do governo em tomar atitudes na apuração do ocorrido e a aplicação de punição condizente com a violência da ação policial. Seguindo o seu perfil oficialista, o jornal deu maior destaque para as notas explicativas oficiais, sempre apresentadas na metade superior da página ou na contracapa, uma vez que estas foram publicadas com títulos e as notas de repúdio, na sua maioria, publicadas na metade inferior das páginas ou dentro das matérias sobres as manifestações no Congresso. A exceção a este procedimento foi a publicação com destaque de abaixo-assinado das mães de Brasília, localizado no alto da capa com título chamativo8, repudiando a ação policial violenta. Apesar do perfil oficialista de então, o Correio também abriu espaço para o protesto da sociedade civil organizada da época, com a publicação de notas de protesto e repúdio aos fatos.

O assunto central das matérias9 eram os estudantes tratados brutalmente pela polícia e os personagens principais das notícias eram as autoridades: parlamentares, policiais, reitor, Presidente da República, ministros, que, através de suas falas, foram legitimando as informações transcritas pelos repórteres sobre os fatos. O público alvo dos textos era o governo e a sociedade em geral, uma vez que os trechos selecionados dos discursos dos parlamentares queriam levar a crer que autoridades ligadas ao Presidente autorizaram a invasão. As fontes utilizadas para a composição das informações foram parlamentares, por meio de entrevistas ou discursos; em segundo lugar o Reitor, através de entrevistas ou notas oficiais; em terceiro os professores, alunos ou funcionários, cujas opiniões anônimas, em grande maioria, eram coletadas nas assembléias conjuntas ou separadas e depois a polícia, por meio de entrevistas e notas oficiais. Os estudantes simplesmente não foram ouvidos pelas reportagens, e mesmo quando citados como fontes de informação seus nomes não foram transcritos. Ficou a dúvida se este procedimento se devia a uma autocensura dos jornalistas ou mesmo da redação ao editar o material jornalístico. O mesmo comentário vale para funcionários e professores, os quais tiveram, às vezes, seus nomes citados de maneira incompleta em matérias que transcrevem a realização de assembléias. Não houve como apurar se neste período da história da UnB os funcionários e professores possuíam uma liderança organizada que pudessem ser ouvidas como porta-vozes das categorias, como os alunos tinham-na e sob a direção do estudante Honestino Guimarães. Sobre a manifestação das lideranças estudantis vale a pena ponderar ainda que, mesmo como o estudante Honestino Guimarães na condição de preso incomunicável, outras lideranças poderiam ter sido ouvidas pelo jornal, procedimento que não foi executado. Mais uma vez se reputa tal omissão ao clima de censura do país naqueles dias.

Apesar de os títulos das matérias, em sua maioria, destacarem a posição da Arena, partido governista, o jornal é ambíguo em suas intenções em apoiar o governo: ao mesmo tempo que publicou títulos em defesa das medidas tomadas pelo Executivo, na abertura da matéria (lead) era crítico em relação à falta de apuração das responsabilidades sobre o caso da invasão10. Em outra edição, o texto de explicações do líder do governo ocupa menos de 25% da página ímpar, localização considerada de destaque, enquanto as críticas com a falta de ação do governo, feitas pelos parlamentares, ocupou mais de 50% da página ímpar seguinte11. Nas matérias há poucos dados de contextualização dos fatos, alguns textos lembram relatos cronológicos, sem encadeamento, fragmentados e com pouca objetividade.



e) A identidade com a cidade e com os habitantes

Os três editoriais publicados localizam bem claramente o fato dentro das dimensões da cidade, reforçando uma identidade para a cidade e seus cidadãos, pois citam a insegurança que atinge os moradores de Brasília quando se dirigem aos seus locais de estudo e comentam que aqueles que pagam impostos estão sendo atacados como marginais, por aqueles que vivem desses impostos (os policiais)12.A identidade do habitante de Brasília, o brasiliense, não é clara para os personagens das notícias, nem para os narradores - os repórteres- possivelmente em razão da cidade ainda ser muito recente, não ter uma população nascida no local e os moradores da cidade podiam ainda se considerarem recém-chegados, pois Brasília existia há apenas oito anos. Nas falas dos deputados e senadores há referências à capital do país, como alvo dos atos de arbitrariedade e não à cidade de Brasília e sua população residente13. Quando se referem às pessoas que possam ter sido atingidas, reportam-se aos próprios filhos, esquecendo que outros cidadãos foram atingidos14. Existem poucas referências aos habitantes de Brasília, mesmo o texto do abaixo-assinado das mães não faz alusões ao impacto dos fatos para a cidade, enquanto comunidade local, mas remetem se ao Brasil, ao país como dimensão social. Já a sociedade civil, através das notas, também se refere à dimensão nacional e não local15, apesar de algumas poucas fazerem menção à população de Brasília, se rementem à nação explicita ou implicitamente.

De uma maneira geral, o jornal não ajuda a construir uma identidade da cidade, assim como os seus habitantes. Além disso, como foi visto anteriormente, os personagens das notícias fazem alusão à escala nacional dos fatos, esquecendo que antes de serem nacionais os fatos tinham atingido uma escala local. Este comportamento, o qual não foi possível compreender exatamente, talvez se deva ao incipiente ambiente urbano de Brasília naqueles anos16, sua frágil estrutura social, institucional, pois seu referencial de Estado estava vinculado aos poderes centrais que nomeavam prefeitos locais e estabeleciam as leis e normas regulatórias de funcionamento. A falta de setores produtivos organizados, sejam primários, secundários ou terciários que movimentassem a economia local, deixavam a cidade e seus habitantes à mercê exclusivamente do Estado.

3.2 Morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek – 22/08/1976
a) O fato

O ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu no dia 22 de agosto, em razão de um acidente automobilístico ocorrido na rodovia Presidente Dutra, na altura da cidade de Engenheiro Passos, por volta das 18h40, juntamente com o seu secretário particular e motorista, Geraldo Ribeiro. A escolha deste acontecimento se deveu a importância do ex-presidente para Brasília, uma vez que ele foi o criador da cidade e conseqüentemente da transferência da capital para o novo Distrito Federal, fatos que trouxeram um maior fluxo de desenvolvimento para o centro do país.
b) O contexto

Em 1976 o Brasil vivia sob um estágio diferente do regime militar, pois estava no poder, há dois anos, o general Ernesto Geisel, que assumiu a Presidência disposto a promover o que ele chamava de uma “distensão lenta, segura e gradual” da ditadura. Entretanto, ainda vigiam os inúmeros instrumentos da repressão criados ao longo dos governos militares anteriores, como os Atos Institucionais, a Lei de Segurança Nacional e decretos de vários teores que engessavam o exercício da democracia no país. A morte de JK, como era conhecido, tem alguns contornos que devem ser mencionados, tais como o fato de que ele ao morrer estava com os seus direitos políticos cassados pelo regime militar, ao qual no início ele apoiou. Ele era uma figura carismática, com caráter conciliador e um político com um perfil de grande administrador, que deu vida a “uma mística desenvolvimentista” que uniu o país e adiou um confronto ideológico que rondava o Brasil deste o último período de Getúlio Vargas. Entretanto, seu governo de 50 anos em 5 deixou a economia nacional afundada em dívidas, herdadas, posteriormente, pelo regime militar, em 1964. A perda de um político com tais características deixou uma sensação de orfandade, principalmente em Brasília, onde muitos candangos (apelido dado aos operários que trabalharam na construção da nova capital) tiveram o prazer de conviver de perto com ele durante a edificação da cidade, cujo o imenso canteiro de obras visitava regularmente. Enquanto isso, Brasília ainda tentava se firmar como cidade, contava com cerca de 860 mil habitantes, e apesar das contínuas campanhas pelo retorno da capital para o Rio de Janeiro, começava a ter uma incipiente economia que ensejava até a criação de uma Associação Comercial e uma Federação das Indústrias do Distrito Federal. A medida determinante para o início da consolidação da nova capital foi, sem dúvida, a exigência do governo do general Garrastazu Médici, em 1972, de que as missões estrangeiras no Brasil se transferissem para Brasília. A chegada dos diplomatas estrangeiros dinamizou sob vários aspectos o dia a dia da cidade e caracterizou Brasília como a sede do poder no país.


c) A linha editorial

O Correio, nesta época ensaiou um rompimento com o oficialismo, optando por seguir uma linha editorial mais preocupada em torná-lo um jornal de repercussão nacional. Este perfil se deveu à direção do jornalista Evandro Oliveira Bastos, com experiência em grandes diários e que conseguiu transformar a imagem provinciana do jornal, ampliando a cobertura política, local e de cultura, promovendo um incremento do debate político, econômico e cultural e o aumentando o uso de textos analíticos. Além disso, aproximou o leitor do Correio, através de consultas populares sobre temas do momento. Por haverem poucos fatos locais passíveis de se transformarem em notícias, a predominância da cobertura ainda era a política nacional, o Congresso e o executivo federal.


b) A cobertura

O jornal escolheu um tom para a cobertura de caráter emocional para a morte do ex-presidente, dada a importância local, nacional, internacional e política do fato. Destacou em primeiro plano, a figura pública, o caráter e a personalidade de JK e, em segundo lugar, as obras por ele deixadas. O jornal deu amplo espaço para o fato, apesar de Juscelino ser um político cassado e do regime ainda ser o da ditadura. Não passa despercebida ao jornal a discreta manifestação do executivo nas homenagens ao político mineiro, pois matérias registram a confusão nas instâncias governamentais para o estabelecimento do luto oficial de três dias17. É notória a ausência de notícias sobre a opinião do governo a respeito da pessoa e das obras do ex-presidente, os registros transcritos da assessoria de imprensa são lacônicos e frios. O Correio também registra as críticas do partido da oposição, o MDB, para cassação dos direitos políticos de JK, além do uso político do partido da morte de Juscelino.

O denso currículo político do ex-presidente e o fato de estar com seus direitos cassados, ser o criador da cidade e de morrer forma trágica deram oportunidade ao jornal de explorar o caso18, com manchetes destacadas, grande número de matérias e fotos abertas em página inteira. Apesar da maior parte das matérias registrarem a opinião de políticos e empresários sobre JK, o povo também foi entrevistado nas ruas de Brasília e Luziânia, localidade onde ele possuía uma fazenda; e além desses, outros setores também foram entrevistados, como os funcionários do serviço funerário e a Igreja. O Correio também registrou a dimensão internacional19 alcançada pelo ex-presidente.

A cobertura foi caracterizada também pela quantidade de dados existentes nos textos, a precisão das informações e o tom emocionado dos próprios redatores das reportagens. A morte, segundo o discurso do jornal, fora uma fatalidade sem limites que iria deixar o país privado da competência de Juscelino Kubitschek e, conseqüentemente, de sua participação na vida política do Brasil. Apesar da busca da objetividade nos textos, com a contextualização dos fatos, as matérias deixaram transparecer as opiniões pessoais sobre JK daqueles que as escreveram. Nos artigos e colunas, até pelo perfil destes textos, as opiniões, na maioria elogiosas, ficaram mais legitimamente expressas. Vale a pena lembrar que Oliveira Bastos era simpático ao governo do general Ernesto Geisel, em razão da determinação do militar em promover a “Abertura Política” e por isso deve ter tido poucos problemas com a censura, ainda vigente no país, na cobertura jornalística da morte de JK.

As fontes mais usadas foram as oficiais: políticos, parlamentares, integrantes do executivo, como ministros e o assessor de imprensa do presidente da República, general Costa e Silva e a polícia, com exceção da família que também contribuiu com muitas informações. Mas o jornal também deu voz ao próprio JK através de discursos, entrevistas e até mesmo por meio de carta particular escrita pelo ex-presidente para um amigo, comentando sobre seu secretário particular e motorista que morreu também no acidente.

O jornal, no segundo dia20 da cobertura trouxe uma espécie de análise sobre a trajetória do governo do ex-presidente, onde ponderou de forma equilibrada, os prós e contras de sua administração, elogiou suas atitudes e criticou outras. Destacou o caráter de Juscelino, seu amor ao Brasil e seus feitos de estadista, entre eles a construção de Brasília; por outro lado criticou o descalabro inflacionário e o rompimento com o Fundo Monetário Internacional – FMI. Na página de opinião da mesma edição, em seu editorial21 diário, o jornal destacou novamente o espírito democrático da gestão do ex-presidente, fez elogios às grandes obras iniciadas em seu governo: Brasília, as estradas, a usina hidrelétrica de Furnas, a criação do BND e a instalação da indústria automobilística; e críticas ao processo inflacionário e ao rompimento com o FMI.

Nos discursos dos parlamentares, o jornal fez questão de selecionar os trechos onde enalteciam a edificação de Brasília e o caráter reto do político mineiro. Mesmo de outras personalidades entrevistadas são selecionadas falas elogiosas a aspectos da vida pública de JK.
e) Identidade com a cidade e com os habitantes

Ao longo da cobertura da morte de JK, o Correio fez questão de registrar o amor do povo de Brasília a Juscelino e o adeus sentido dessas pessoas ao ex-presidente que seria sepultado. Há falas transcritas de pessoas presentes ao cortejo e ao enterro, descrevendo a tristeza reinante e as fotos corroboram com as informações dos textos. Passados três dias do enterro, o jornal sublinha novamente o carinho da população com o criador da cidade ao registrar a presença de populares em romaria ao túmulo de Juscelino. Há, ainda, uma preocupação do diário brasiliense em destacar as chamadas histórias de interesse humano22 que vão ocorrendo simultaneamente à despedida do povo a JK: a disputa entre os funcionários do cemitério para a escolha daquele que irá enterrar o ex-presidente e celebração de várias missas encomendadas por populares, em homenagem a Juscelino.

O jornal demonstra em toda cobertura a preocupação em ouvir o povo de Brasília, destacou esta população dando-lhe poder de fala, reforçando a existência do brasiliense enquanto habitante da cidade. Assim como reforça a noção de comunidade brasiliense, pois faz questão de ressaltar aspectos típicos da cidade, como, por exemplo, o desfile do cortejo pela avenida W3 Sul, coração comercial da capital, comentando a importância de Juscelino para o Distrito Federal e adjacências. A propósito deste aspecto, a publicação de matéria sobre a opinião dos moradores de Luziânia demonstra a visão editorial de que Brasília já exercia influência no âmbito geo-econômico da região.

Foi observado ainda que o jornal se auto-referencia quando seleciona trechos de discursos dos parlamentares que destacam o trabalho jornalístico do Correio e que informam que este material passará a constar nos anais.




3.3- Protestos contra o Plano Cruzado / “Badernaço” – 27/11/1986
a) O fato
O Badernaço, como ficou conhecido na mídia, foi um protesto ao lançamento pelo governo do Plano Cruzado II. O Plano Cruzado I foi lançado pelo governo José Sarney, em fevereiro de 1986, com a missão de combater a recessão em que estava o país e o alto índice de inflação que, no fim do ano de 85, acumulava 235%. Entre as medidas adotadas estavam: a mudança da moeda de cruzeiro para cruzado, o congelamento de preços e salários, a extinção do reajuste automático de salários - praticado anteriormente - e a criação do seguro-desemprego, combinando austeridade fiscal e monetária. A escolha deste fato se deveu as dimensões que tomaram a passeata de protesto, convocada pelas centrais sindicais para o dia 27/11/86, contra o lançamento da segunda versão do Plano Cruzado, com enfrentamento violento entre a polícia e os manifestantes, depredações de veículos, prédios públicos e privados. O tumulto acabou tendo repercussões nacionais e marcou a história da cidade, que antes só havia conseguido reunir tantas pessoas em uma passeata durante a campanha das Diretas Já, em 1984. O objetivo desta análise era verificar a posição do jornal, que até então adotava uma linha editorial governista, em um país em plena transição democrática e diante de um ato organizado pela pelas centrais sindicais, partidos de esquerda e centro-esquerda, que descambou para o para a violência.

b) O contexto

O momento político e econômico no qual aconteceu o protesto era delicado, o processo de redemocratização tinha se iniciado há apenas dois anos, com a posse do vice-presidente José Sarney, da chapa do candidato a presidente Tancredo Neves, este o primeiro civil a ser eleito após o fim do regime militar que morreu antes de assumir a presidência. Sarney iniciou seu governo tentando eliminar uma série de dispositivos legais do período da ditadura, os chamados “entulhos autoritários”, e convoca a Assembléia Nacional Constituinte para escrever a nova Constituição que foi promulgada em 1988. Já Brasília estava em meio a sua consolidação como capital do país e de cidade com economia própria, assim como iniciava sua luta por sua autonomia política por meio da instalação da Assembléia Nacional Constituinte. Neste período, a capital tinha uma estrutura administrativa mais complexa, com um governador biônico que dividia o poder com algumas secretarias. Ainda havia, contudo, uma dependência econômica do Distrito Federal para com a União. No início da década de 80, o contingente populacional era de 1,2 milhão de habitantes, sendo apenas 25% situados no Plano Piloto, os demais 75% nas cidades-satélites inchadas por migrantes de várias partes do Brasil atraídos pelo sonho de oportunidades melhores na capital.



c)A linha editorial

Com 26 anos, o Correio Braziliense já era uma referência local e nacional, enquanto veículo de comunicação impressa, possuía uma redação estruturada, além de uma editoria específica para a temática da cidade. Em termo de linha editorial, o jornal era bem afinado com o governo local e o executivo federal, isto é perceptível quando se observa o espaço concedido às fontes oficiais para veicularem informações. Entretanto, é preciso ponderar que o país estava saindo de um regime de exceção e, portanto, a sociedade civil ainda não estava organizada o suficiente para ocupar um espaço na mídia. Apesar desta opção oficialista, há críticas ao governo nas entrelinhas das matérias sobre o episódio, ficando aparente o descontentamento dos repórteres e redatores com o momento político e econômico de transição, no caso, com o Plano Cruzado.

Mesmo demonstrando apoio ao governo – tendo em vista o número de notícias de fontes oficiais -, o jornal questiona durante a cobertura do “Badernaço” se houve ou não a participação de focos de direita nos distúrbios ocorridos e deixa claro que houve um comando organizado, segundo o Correio, de agitadores infiltrados que promoveram as depredações. Apesar de as autoridades locais ocuparem as páginas dando explicações para a sociedade - e rebatendo as suspeitas de participação da direita - sobre os acontecimentos, o jornal critica fortemente a ação policial e questiona a falta de atitude dos policiais durante os momentos de maior violência por parte dos manifestantes. A conclusão que se chega é a de que o Correio deu mais espaço para o governo dar suas explicações, mas os jornalistas encontraram formas de “burlar e minar”23 este espaço por meio da redação de textos críticos e opinativos. É necessário registrar que os textos mais críticos foram os assinados por repórteres. O Correio Braziliense também critica os momentos de violência explícita dos policiais, principalmente, contra jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.
d) A cobertura

A cobertura teve um tom bombástico no início, depois recua, abrindo espaço para que as autoridades dêem explicações e em seguida torna-se “morna e burocrática”, morrendo aos poucos. A primeira edição do jornal24 sobre o fato abriu sua manchete de capa afirmando que “Vândalos ocupam e saqueia a cidade”, cujos textos ocuparam praticamente toda a página. Entretanto, na primeira matéria deste dia já faz questionamentos sobre quem esteve orquestrando o quebra-quebra, se a direita ou a esquerda. Nas demais matérias da edição os textos insinuavam que os distúrbios haviam sido provocados por pessoas infiltradas entre os manifestantes, a serviço do governo, portanto da direita. Como os principais fatos ocorreram depois da 18h30, as opiniões obtidas junto ao governo e às centrais sindicais foram muito sucintas, mas mesmo assim foi publicada nota de esclarecimento dos organizadores do evento eximindo-se dos distúrbios. Já no segundo dia, a cobertura é marcada pela reação das autoridades e sindicalistas envolvidos, com a publicação das entrevistas coletivas organizadas pelos setores envolvidos para prestar esclarecimentos. Vale a pena sublinhar que a principal manchete do segundo dia da cobertura foi o pronunciamento, em cadeia nacional de tv e rádio, do então ministro da Justiça, Paulo Brossard, destaque que denuncia a opção oficialista do Correio. Na fala do ministro, publicada na íntegra, os redatores destacaram a afirmação dele de que os distúrbios foram provocados pelos “derrotados em 15 de novembro” (eleições recentemente realizadas).Ainda na capa, mais explicações do governo federal, através do porta-voz da Presidência da República. É preciso registrar que ainda nesta edição, além dos organizadores da passeata, outros setores da sociedade civil também foram ouvidos como a Federação das Indústrias do DF, a Associação Comercial e Federação do Comércio, como também a manifestação de protesto do Conselho da Universidade de Brasília. Mesmo concedendo espaço para a sociedade civil se manifestar e dar as suas versões dos fatos, as autoridades federais ou locais obtiveram mais espaço para veiculação de opiniões, defesas, explicações e apresentação das medidas apurativas.

A partir do segundo dia se intensifica a campanha desenvolvida pelo Correio de crítica à violência praticada contra os manifestantes, e contra os profissionais de imprensa, principalmente fotógrafos e cinegrafistas. Há uma clara preocupação nos textos por parte do jornal com uma possível desestabilização do regime democrático e referências ao período duro da ditadura ainda recente. Do terceiro dia em diante a cobertura passou a ser mais “morna”, com matérias sobre as investigações pelos setores competentes: serviço de informação do governo, bombeiros (estes fazendo perícia dos restos das depredações), polícia federal, e uma comissão criada pelo governo do DF também para apurar os fatos. Em paralelo a esta conduta, o jornal foi produzindo matérias cobrando providências para os casos de pessoas desaparecidas ou que sofreram o excesso da violência policial registradas pelas câmeras de fotografia e vídeo.

Pôde ser observado, nas leituras das reportagens, que os repórteres e redatores claramente condenaram a violência da ação policial, apesar de terem criticado também os organizadores da passeata por não terem permanecido até o final dos protestos. Portanto, houve por parte dos jornalistas um posicionamento contra as atitudes do governo, na forma de conduzir a segurança, a repressão e as investigações. Mas o foco central da cobertura, ao longo da semana pesquisada, centrou-se mais na autoria das depredações que nas razões que as motivaram.


e) A identidade com a cidade e com os habitantes

Como já foi ponderado, em razão do crescimento da cidade e conseqüentemente do jornal, foi possível observar uma maior noção da identidade da cidade e de seus habitantes na cobertura dos fatos. Há uma clara e expressa compreensão da dimensão da cidade de Brasília, além do atributo de capital do país, mas como uma comunidade qualquer do país, possuidora de problemas típicos dos aglomerados urbanos. Pôde-se observar durante a pesquisa, aliás, uma preocupação grande do jornal em discutir com a população as perspectivas de crescimento urbano, econômico e político para o Distrito Federal. Diferentemente de 1968 (vide item 3.10), a noção de cidadania é muito mais clara para o jornal e seus profissionais, pois eles expressam a consciência que possuem de que o Correio é um veículo de comunicação da comunidade local.


3.4 Eleições Gerais no Distrito Federal – 3/10/1990
a) O fato

Este acontecimento foi escolhido por marcar o início da autonomia política do Distrito Federal, com a realização de eleições para os cargos de governador, senador, deputado federal e distrital, pois o DF havia eleito apenas uma bancada própria para a Assembléia Nacional Constituinte, em 1986. Após trinta anos de existência, a capital do país iria concretizar a sua autonomia política há muito esperada pela população. Apesar da importância da conquista, este acontecimento, diferentemente dos anteriores analisados por este trabalho, não teve repercussões no restante do país, pois os demais estados da federação também estavam realizando eleições gerais na mesma época. O objetivo da escolha deste fato é, mais uma vez, analisar para qual candidato o Correio daria o seu apoio, tendo em vista a tradição de “chapa branca” do jornal. A razão da escolha do período de 30 dias anteriores a eleição se deveu a uma melhor observação da correlação de forças políticas, estabelecidas após 30 dias de propaganda eleitoral oficial no rádio e na tv.


b) O Contexto

O primeiro pleito eleitoral do Distrito Federal ocorreu em um Brasil que vivia sob a égide de uma nova Constituição e do primeiro governante eleito pelo voto direto, Fernando Collor de Melo. O presidente empossado iniciou seu mandato com duras medidas na área econômica, como o confisco dos saldos de contas correntes e poupança, mudança da moeda e ainda a demissão de 354 mil funcionários públicos e a colocação de 52 mil em disponibilidade. Brasília, por sua vez, já era uma capital consolidada, com 1,6 milhões de habitantes e problemas próprios das grandes metrópoles nacionais: cidades-satélites cada vez mais inchadas de populações migrantes25, periferia servindo de dormitórios para estas populações, cujos empregos eram (e continuam sendo) no centro da capital, sistema de transporte dando sinais de esgotamento, violência urbana despontando, concentração de renda no centro de Brasília e pressão social exercida pelas cidades do Entorno do Distrito Federal, nos limites com os estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso e Mato Grasso do Sul, nos quais não havia opções de trabalho, saúde e educação.

O quadro eleitoral era de características continuístas, pois o mais forte candidato ao governo do DF era o ex-governador biônico - indicado pelo presidente José Sarney - Joaquim Roriz pela coligação Frente Comunidade (PTR, PRN, PST, PTB e PFL), e os demais candidatos eram Carlos Saraiva (PT), Maurício Corrêa, pela Frente Popular (PDT, PSDB, PC do B, PCB, PSB e PV), Elmo Serejo (PMDB, PL, PRP e PS), Carlos Magno (PMN) e Adolfo Lopes (PT do B). Para as 24 vagas de deputados distritais havia 406 candidatos, já para a de senador havia 6 candidatos. O Distrito Federal possuía 893 mil eleitores que elegeram, em primeiro turno Roriz, com 361,4 mil votos válidos, contra 132,2 mil do segundo colocado, Saraiva do PT. Talvez em razão do clima criado pelas medidas tomadas pelo governo Collor ou pela complexidade da votação que envolvia quatro tipos de cargos eletivos, esta foi uma estréia política do eleitor brasiliense marcada pela desmotivação, despreparo e confusão na hora de escolher o candidato correspondente ao cargo eletivo pleiteado, segundo pesquisa26.
c) A linha editorial

Nesta época, o jornal já possuía grande identificação com a população, fato que motivou a criação de um caderno para as notícias sobre a cidade e a abertura de vários espaços para manifestação do leitor. Também houve a preocupação em fazer do Correio um veículo de repercussão nacional – uma vez que era o jornal que mais cedo chegava as mãos dos formadores de opinião e tomadores de decisão em Brasília – mas sem esquecer o leitor local. Apesar de neste período haver uma proposta editorial de menos oficialismo com a entrada do novo presidente do Correio, Paulo Cabral, o que ocorria na verdade era uma cobertura sem enfrentamento: o jornal continuava privilegiando o governo local e nacional no noticiário. Em consonância com esta manifesta linha editorial, houve uma opção clara de apoio ao candidato Roriz, perceptível por meio da cobertura, que talvez possa ser creditada a um período de transição que vivia o Correio, pois acabava de deixar a redação o jornalista Ronaldo Junqueira – muito ligado a Joaquim Roriz - , em agosto de 1990, tendo assumido o lugar dele o jornalista Adolfo Pinheiro, funcionário da casa há muitos anos.



d) A cobertura

O jornal optou por uma cobertura “burocrática”, muito semelhante a um relatório, o que não fugiu muito da tradição do jornalismo brasileiro das duas últimas décadas, de comentar apenas sobre os bastidores das campanhas, os conchavos e pouco dos programas. Durante a semana pesquisada27 o assunto eleição só apareceu na capa do jornal quando foi divulgada pesquisa em que o candidato Joaquim Roriz estava à frente da corrida pelo governo do Distrito Federal ou quando o candidato Maurício Corrêa afirmou que iria “virar” a preferência do eleitorado no segundo turno, quando, por sinal, o tema também foi capa do caderno de Cidade. O que é importante ser destacado é o flagrante espaço da cobertura deste período pré-eleitoral para os candidatos da coligação Frente Comunidade, ligada a Joaquim Roriz28, especialmente os filiados ao PTR. Em se tratando de Joaquim Roriz, quando este candidato não é o assunto principal das matérias, é citado sob os mais diferentes enfoques. É preciso que observar ainda que, na semana pesquisada, todos os dias foram publicadas matérias que citavam de alguma forma Joaquim Roriz, atingindo a marca de quatro matérias29 em apenas uma edição, que descrevem a agenda, o programa e as estratégias de ação do candidato ao governo. É bem verdade que o fato de as pesquisas apontarem Joaquim Roriz como o líder na corrida eleitoral, com os percentuais de 58, 6 % para pesquisa estimulada e 48,9 % para a livre, por si só é um acontecimento jornalístico que o habilita a ser destaque na edição, entretanto, não poderia habilitar o candidato dominar a cobertura.

É preciso que se ressalte ainda que, o espaço obtido pelos candidatos do PT ao governo, Carlos Saraiva, e de seus correligionários, assim como ao do PDT, do candidato Maurício Corrêa, foram bem menores que os da Frente Comunidade, mas se levarmos em conta o universo de postulantes aos cargos de governador, deputados federais e distritais, um número de 120 no primeiro caso e 406 no segundo caso, eles obtiveram razoável visibilidade durante o período pesquisado. Não foi possível apurar se este espaço foi apoiado e permitido pela direção ou se ocupado pelo corpo de jornalistas do jornal simpatizantes dos dois partidos em questão. As fontes mais utilizadas para obter informações sobre os candidatos eram os próprios ou suas assessorias, além disso, as pesquisas também serviram de base para algumas matérias. Todavia, há um aspecto interessante a ser considerado: segundo pesquisa publicada pelo jornal, havia um índice de rejeição considerável a candidatura de Joaquim Roriz entre os habitantes do Plano Piloto (centro do Distrito Federal) - a maioria deles leitores do Correio - mesmo assim, o jornal continuou investindo na cobertura pró-Roriz.
e) A identidade com a cidade e com o brasiliense

Por ser o maior diário da capital e com alto índice de leitura, o Correio investiu pouco na conscientização do eleitor acerca da importância das eleições gerais, no período pesquisado. Outro aspecto a se observar é que o Correio destacou mais a estratégias para obtenção de votos por parte dos candidatos, do que estimulou o debate e a exposição dos programas. A exceção foi a coluna “Palanque 90”30, praticamente diária, que apresentava pequenas notas sobre agenda, opiniões e propostas dos candidatos aos quatro cargos eletivos. Sua contribuição na elucidação do eleitor sobre o formato das eleições, se restringiu, no período, à publicação de matéria explicativa a respeito de quais cargos estavam sendo pleiteados e quais funções iriam desempenhar seus ocupantes quando eleitos. É preciso sublinhar, entretanto, que a falta de informação, sobre o formato das eleições não afetava a camada letrada e de classe média - leitores do jornal- e sim os que não tinham acesso à informação. A forma que o Correio procurou, no período pesquisado, informar ao cidadão indeciso31, portanto, não surtiu muito efeito. Os artigos do analista político, sobre os números das pesquisas de intenção de voto foi uma forma interessante de analisar o comportamento dos eleitores, entretanto, faltou delimitar melhor o perfil do brasiliense.



3.5 Confronto entre a Polícia Militar e grevistas da Novacap – 2/12/1999
a) O fato

Trata-se do confronto entre os funcionários em greve da estatal Novacap e os policiais do 40 Batalhão de Polícia Militar, durante manifestação na porta da empresa. O desfecho violento do incidente se deveu a ação do BOP - Batalhão de Operações Policiais Especiais que atingiu os manifestantes com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, balas de chumbo e de borracha. O incidente teve um saldo trágico: um morto, um funcionário da Novacap, e 36 feridos.

O acontecimento despertou interesse para pesquisa não pela ocorrência de uma morte durante o enfrentamento, mas, sim, pelo fato de ser o diretor de redação, Ricardo Noblat, simpatizante do Partido dos Trabalhadores e contrário as opções políticas do governador Joaquim Roriz, vencedor das eleições de 1998, na qual o adversário era o então governador petista, Cristovam Buarque. Some-se ao fato, a mudança explícit de linha editorial do jornal, quatro anos antes, quando o novo diretor assumiu o jornal, estabelecendo normas escritas que visavam retirar a pecha de jornal oficialista e alinhado com os Executivos locais e federais.
b) O contexto

O país vivia o primeiro ano do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, responsável por transformações profundas na economia do Brasil, como a mudança de moeda, a estabilização da inflação, a abertura ao capital externo e as reformas constitucionais necessárias para adotar o seu plano econômico. Entretanto, momento econômico mundial estava sob o impacto da flutuação dos investimentos voláteis da globalização econômica. O real sofria ataques especulativos e o país recorreu ao FMI, porém o acordo implicou metas que resultaram em restrição aos investimentos do governo no setor social. Brasília, com 2 milhões de habitantes, vivia sua segunda experiência com um governador eleito pelo voto direto, e a situação de a população estar politicamente dividida entre o PT do ex-governador Cristovam Buarque e o PMDB do governador reeleito, Joaquim Roriz.



c) Linha editorial

O jornal Correio Braziliense já estava sendo dirigido por Ricardo Noblat desde 94 e o novo diretor em sua gestão já havia experimentado um convívio curto com o segundo mandato do governador Joaquim Roriz e durante todo o governo Cristovam Buarque. No segundo período Roriz não houve confrontos entre o jornal e o governador, assim como durante o governo do petista Cristovam Buarque, pois o diretor era simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Apesar da simpatia, entretanto, o jornal não deixou de criticar a administração petista e de apontar erros, mas sem exageros. É preciso que se ressalte que, mesmo com a direção simpática ao PT, a cobertura da campanha eleitoral para o governo do Distrito Federal em 1998, foi editorialmente equilibrada. O vencedor do pleito, entretanto, foi Joaquim Roriz e o jornal, a partir de então, iniciou um confronto político e ideológico com o novo governador.

Desde a sua entrada no jornal, Ricardo Noblat sempre manteve uma opção radical de defesa da cidade e de seus problemas, com a posse de Joaquim Roriz, cujo projeto político para a cidade era divergente da opinião de Ricardo Noblat, o jornal entrou em rota de colisão séria com o governo do DF. Some-se a isso, o fato de o diretor de redação ter aprofundado a sua opção editorial, apresentada pouco antes do incidente na Novacap, de quais eram as funções de um jornal: livre, independente, de credibilidade e voltado para a comunidade. Estas diretrizes faziam parte de um projeto mais amplo que incluía modificações gráficas e editoriais no jornal, que vieram a se concretizar em julho de 2000.

A linha editorial escolhida para a cobertura foi de crítica implacável ao governador Joaquim Roriz. Em tom passional, o jornal procurou ligar a morte do funcionário da Novacap as opções políticas do governador, e à sua postura com relação à oposição, política de segurança e mesmo à coordenação de seu gabinete. A cobertura se caracterizou, também, por conceder mais espaço para a oposição se manifestar do que para os aliados políticos do governador. Em carta dirigida aos leitores Ricardo Noblat deixou claro qual era a sua opinião: total desconfiança de que a autoria da ordem para invasão e abertura dos portões da estatal com violência partiu de Joaquim Roriz. O jornal também desempenhou, em vários momentos, o papel de investigador, tentando levantar as razões dos acontecimentos. Quando foi constatada a culpa da polícia, muitas foram as críticas dirigidas a ela pelo Correio. O editorial, publicado no primeiro dia da cobertura, optou por defender a tese de que “o soldado se excedeu na presença do comandante”. Ao longo da semana o jornal se utilizou também da indignação de várias personalidades de destaque político, como o presidente Fernando Henrique Cardoso, para pressionar as investigações sobre o caso.


d) A cobertura

A cobertura caracterizou-se por um dar um tom dramático às matérias e por apelar para indignação dos leitores. Houve ênfase no destaque da ação violenta dos policiais na abordagem dos manifestantes à porta da estatal Novacap. Nos primeiros dias os textos procuraram incriminar o executivo, mas com o passar dos dias foram surgindo, através da apuração do próprio jornal, as responsabilidades das várias instâncias do governo, entre elas, o governador. Ao final do período pesquisado, o jornal chegou a conclusão que os comandantes militares cometeram uma sucessão de erros tão alarmantes que o resultado da repressão não poderia ser diferente. Seguindo a linha de crítica a atuação da polícia, o Correio deu também especial destaque ao processo rígido e violento de formação e treinamento do Batalhão de Operações Especiais, assim como ao histórico de vida acidentado do então comandante, tenente-coronel Marcio Vieira. O jornal apontou para os aspectos psicológicos e da vida do militar, como as possíveis causas de acontecimentos tão dramáticos durante as manifestações dos funcionários da Novacap. Apesar das fortes críticas à polícia, o jornal concedeu espaço aos comandantes, acusados de excessos durante a repressão à greve na estatal, de se defenderem.

O assunto foi capa do jornal durante toda a semana pesquisada e, na maior parte das vezes, foi tema da manchete principal, entretanto, o foco central das matérias, em alguns textos, deslocou-se do crime da Novacap para a atuação do governador: suas atitudes, medidas adotadas, ações e declarações. O diário brasiliense foi sempre irônico ao tratar o governador e fez críticas às ações e as promessas salariais a diversas classes do funcionalismo público feitas por ele. O jornal fez questão ainda de sublinhar a perseguição que o governador fazia aos partidários do PT ou simpatizantes do ex-governador Cristovam Buarque e concedeu mais espaços aos sindicalistas de esquerda e à oposição para exporem suas opiniões que aos partidários do governador Roriz. O Correio concedeu a si um alto poder ao dar destaque, em manchete de capa, que o governador voltou atrás na decisão de reformular o seu secretariado em função de manchete32 publicada pelo Correio no dia anterior.

O primeiro dia de cobertura se notabilizou pela apuração completa do caso, descrevendo com detalhes o confronto entre polícia e manifestantes, pormenorizando a história de vida dos feridos e a linha de hierarquia da tomada de decisão de uso da força policial. Nesta edição houve, de uma maneira geral, críticas ao uso da violência e a cobrança de medidas de apuração e punição para os responsáveis. O editorial, além de tratar dos exageros da violência policial, defendeu o direito de manifestação dos funcionários e elogiou o secretário de segurança pública por reconhecer a sua responsabilidade no caso. O segundo dia destacou na capa o título "Opção pela Violência", comentando que o governador não aguardou manifestação do Judiciário e optou pela ação policial, além de tratar também da saída dos comandantes de polícia e do secretário de Segurança e da manifestação do movimento das centrais sindicais para que houvesse uma intervenção federal na polícia do DF. O jornal deu grande espaço para o modo como foi decidida a saída do secretário de segurança pelo governador, como forma de encontrar um bode expiatório para os acontecimentos na Novacap. Nesta edição, continuaram as críticas aos excessos de violência da polícia acusada de fazer uso de balas de chumbo. O jornal também fez matéria sobre o dia seguinte dos feridos, o enterro do funcionário morto e a indignação popular das pessoas presentes ao sepultamento, assim como a indignação dos leitores do jornal que escreveram cartas de críticas à atuação da polícia do DF. O diário insistiu em dar espaço ao executivo federal, em especial ao ministro da Justiça e ao presidente da República, que apoiavam a participação da polícia federal na apuração dos acontecimentos, forma usada pelo jornal de pressionar o governador Roriz. Em sua carta semanal ao leitor, o diretor de redação Ricardo Noblat, além de insinuar a responsabilidade integral do governador Roriz pelo ocorrido, criticou o revanchismo dele em relação aos partidários do ex-governador petista Cristovam Buarque.

A partir deste dia, começou a ficar clara a participação da polícia na forma violenta de abordagem dos manifestantes à porta da Novacap e apesar da insistência do jornal em culpar o governador, as matérias deixaram ver a falta de sintonia e respeito à hierarquia entre os comandantes policiais presentes ao confronto com manifestantes e ressaltaram o perfil violento do batalhão de operações especiais e de seu então comandante, o tenente-coronel Mário Vieira.
e) Identidade com a cidade e com o brasiliense

Uma das poucas atitudes de reforço da identidade dos habitantes de Brasília foi a convocação do jornal para que os leitores escrevessem dando a sua opinião sobre o caso da Novacap. E um das poucas referências à identidade da cidade foi a lembrança de que a polícia do DF era uma das mais bem pagas do país, com bons índices de credibilidade junto à população, além de um alto nível de escolaridade. No tocante ainda à identidade do brasiliense, ao dar espaço para oposição se manifestar, o jornal deixou clara a existência de uma sociedade organizada no aspecto da política partidária. As matérias sobre os feridos deixaram entrever quem eram os habitantes das cidades-satélites de Brasília, assim como as matérias sobre o enterro ou sobre a biografia do próprio morto, pois mostraram o dia a dia das pessoas, seus sonhos e planos. No geral, os textos centraram-se na apuração das responsabilidade pelo incidente e a punição dos culpados e pouco reforçaram a imagem do habitante da cidade.


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