Correio da victoria



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AS CONCEPÇÕES DE INFÂNCIA NO PERIÓDICO “CORREIO DA VICTORIA” DOS ANOS DE 1849 E 18501

LUCIANE PARAISO ROCHA - UFES
E-mail: luzparaisorocha@yahoo.com.br

RESUMO
O trabalho monográfico, a partir do qual discorre este artigo, objetivou o estudo das concepções de infância no periódico “Correio da Victoria” nos anos de 1849 e 1850, e parte do pressuposto de que a imprensa, ao participar da construção de uma determinada concepção de infância, defendia também uma concepção de educação e de escolarização públicas inseridas no modelo dezenovista de civilização. Estudos, como o de Gabriel Bittencourt (1998) e o organizado por Juçara Brittes (2010), demonstram que o Espírito Santo teve sua primeira tipografia apenas em 1840, quando então circulou o primeiro jornal – “O Estafeta” - que não passou do número inicial. Seguiu-se, em 1849, o “Correio da Victoria”, que circulou por 24 anos. Ao considerarmos os jornais como documentos privilegiados para apreensão do meio social e cultural dos Oitocentos, os estudos nos possibilitam perceber como a imprensa foi utilizada estrategicamente pelos intelectuais para difundir suas concepções de educação e de “civilização”. Dessa forma, podemos dizer que a imprensa evidenciava as concepções de uma elite que permeavam tanto a esfera local quanto a nacional. Nesse jogo, o movimento empreendido pelo impacto da imprensa foi decisivo, atingindo, cada vez mais, um maior número de pessoas, pois, ainda que estas não soubessem ler, a leitura em voz alta era um costume da época, difundido e valorizado. Podemos considerar que essas leituras eram de extremo valor para a difusão, consolidação e apropriação de representações, e o quanto os sentimentos despertados pela literatura facilitaram a inculcação de normas de conduta. Nesse sentido, fundamentamos nossa pesquisa no pensamento de Roger Chartier (1990, 2001, 2008) e compreendemos que a construção, e consolidação, de concepções e representações estão relacionadas à dinâmica das apropriações e da circulação de impressos a partir de determinados protocolos de escrita e de leitura pertencentes a uma comunidade interpretativa; no trabalho de Elias (1994), que trata do processo civilizador a partir do século XV, determinante para a sociedade ocidental, e em Ginzburg (1989, 2005), que, a partir de “pistas” e “sinais”, buscou detalhes pouco perceptíveis nos documentos da Inquisição. Procuramos, ao nos aproximarmos dos estudos já existentes – Del Priore (1991, 2006), Faria Filho (2006, 2007, 2009), Kuhlmann Jr (1998), Sarmento e Pinto (1997) –, focar o nosso olhar para a história de crianças e para as infâncias em sua pluralidade, olhando a infância como parte de uma construção histórica e social. E ao observar os assuntos relacionados à infância e à criança, distinguimos principalmente duas realidades de infância, uma para os escravos e outra para as crianças livres. Esse material nos remete à possibilidade de explorar variados discursos sobre a temática da infância, considerando a multiplicidade de formas de viver das crianças dessa época.
Palavras-chave: Infância; Correio da Victoria; história da infância.

Introdução
O trabalho monográfico do qual discorre este artigo foi desenvolvido tendo como objetivo explorar as concepções de infância presentes no periódico “Correio da Victoria” dos anos de 1849 e 18502. Este propósito de estudo surgiu a partir de nossas leituras sobre a infância atual no curso de Pós-Graduação Lato-Sensu em Infância e Educação Inclusiva, pois muito se fala sobre a importância de dar voz às crianças e em como concebemos a infância, questionando a compreensão de que as crianças são “pequenas pessoas” que serão algo no futuro, como se o presente delas nada representasse.

A partir dos anos 1980, quando chega ao Brasil a obra de Philippe Àries, “História social da criança e da família”, e principalmente nos anos 1990, cresce o interesse pela história da infância no Brasil, com o desenvolvimento de novos estudos.

Na apresentação do livro “A infância e sua educação: materiais, práticas e representações”, Diana Gonçalves Vidal nos presenteia com o poema “Memória inventadas: a infância”3, de Manoel de Barros, e nos convida a refletir sobre a infância e as imagens que dela fazemos (VIDAL, 2004). Nessa lógica de uma produção de imagens e referenciais, Ariès seja talvez o responsável por nos introduzir no mundo infantil, chamando atenção para a criança enquanto um ser social, histórico e cultural4. Segundo Manuel Pinto, Ariès nos proporcionou “a consciência de que aquilo que parecia um fenômeno natural e universal era afinal o resultado de uma construção paulatina das sociedades moderna e contemporânea” (1997, p. 38). Assim, tomando o pressuposto da construção paulatina de referências sobre as crianças, selecionamos alguns trabalhos que trazem à luz um pouco da(s) história(s) da(s) criança(s) no Brasil, apresentando especificidades desde a criança pertencente às classes abastadas até as crianças pertencentes às classes populares, e também aos expostos5 e escravos.

Mary Del Priore (1991 e 2006) apresenta o estudo da infância enquanto categoria histórica e social, afirmando que “a história da criança fez-se à sombra daquela dos adultos” (1991, p. 7), o que implica em uma visão de uma única história da criança, aquela feita pelos adultos, e a necessidade de evidenciar uma história das crianças, no plural, de modo a trazer à tona a diversidade de infâncias. Com isso, temos a tarefa


“de resgatar a história da criança brasileira não apenas enfrentando um passado e um presente cheio de tragédias anônimas – como a venda de crianças escravas, a sobrevida nas instituições, as violência sexuais, a exploração de sua mão-de-obra –, mas tentando perceber para além do lado escuro. A história da criança simplesmente criança, suas formas de existência quotidiana, as mutações de seus vínculos sociais e afetivos, sua aprendizagem da vida através de uma história que, no mais das vezes, não nos é contada por ela”. (2006, p. 14-15)
Nas “imagens que se cristalizaram historicamente sobre a infância” (Freitas, 2006, p. 12), podemos perceber a diversidade de concepções. Temos a infância vista pelos memorialistas e viajantes do século XIX que tinham uma concepção europeia: uma visão civilizadora para a infância, em que as crianças deveriam tornar-se cidadãos civilizados, com o objetivo de fazer do Brasil uma nação civilizada, aos moldes das nações europeias e, simultaneamente, uma visão religiosa afirmada pelas Câmaras locais e pela Igreja Católica que concebiam o anjinho necessitado do batismo, mesmo para as crianças das rodas dos expostos, situadas nas Santas Casas de Misericórdia das principais cidades brasileiras.
Um trabalho importante para o nosso estudo foi desenvolvido por Alberto Lopes, que focaliza a questão da especificidade da infância pobre (Lopes, 2007), e compreende o período de finais do século XIX e princípios do XX. Mesmo se tratando de um período histórico diferente do pesquisado em nosso estudo, esse trabalho é de vital importância, pois foi o único trabalho localizado, até o momento, que nos indica as referências desse papel da imprensa periódica na circulação das concepções de infância.

Lopes, citando o editor do jornal Setubalense, em que este atribui à “escola e à imprensa os elementos do progresso e da civilização” (apud Lopes, 2007, p. 79), sendo a escola o lugar de institucionalização da criança, a imprensa ficaria como uma fonte autônoma, uma vez que ela “[...] veícula ideias, intenções referenciáveis a um determinado contexto social e ideológico” (Lopes, 2007, p. 85). O autor nos instiga a pensar sobre o processo de produção dos discursos veiculados:


“Um discurso produzido na ausência do enunciador, construído a partir de uma relação assimétrica em que o adulto se acha com o direito de falar em nome dos interesses das crianças, representando-as do seu próprio ponto e vista, sendo o porta-voz delas perante outros adultos.” (Idem, p. 85)
Partindo das reflexões de Lopes (2007), detemo-nos na imprensa, como parte de um projeto civilizatório para a província do Espírito Santo, e no jornal “Correio da Victoria”, como integrante desse processo, para delinear nosso objetivo de conhecer as concepções referentes à infância que circulavam a partir deste periódico.


1. A História Cultural
A História Cultural fundamentou o nosso trabalho, indicando que precisamos mudar os olhares sobre os sujeitos da História Esse olhar se torna possível a partir de pistas e sinais, como nos indica os estudos de Ginzburg (2005 e 1990), que nos convida a “lançar certa luz sobre a natureza da relação, que se concretizava dramaticamente [...], entre feiticeiras e inquisidores [...]” (Ginzburg, 1989, p. 39).

A História Cultural nasce de um movimento de revisionismo na História6, chamado Escola dos Annales, iniciado por Marc Bloch e Lucien Febvre quando da fundação, em 1929, na França, da revista Annales d’Histoire Économique et Sociale, lançando novos olhares às fontes, aos objetos e problemas da História, procurando dialogar com as diferentes áreas do conhecimento, como a filosofia, a antropologia e a sociologia. Deste modo, olhamos, assim, para a educação como objeto e campo temático da história:


[...] a história da educação, como especialização da história, ou, dito de forma mais consistente, como campo temático de investigação, não tem fronteiras a definir com a história cultural. Antes, utiliza seus procedimentos metodológicos, conceitos e referencias teóricos, bem como muitos objetos de investigação. Reforço esse argumento lembrando que, em suas origens, a História da educação alimentou-se da tradição historiográfica positivista e da História das Idéias, passando posteriormente por um momento de afinidade com o marxismo, estando hoje cada vez mais próxima da Nova História. A História Cultural hoje hegemônica academicamente, não deixaria de exercer sua força sobre a investigação em História da Educação”. (Fonseca, 2003, p. 59)
A opção pela história cultural implica na possibilidade de conhecer uma parte importante do mundo social, a entender a sua construção e a sua forma de organização, a relação do homem consigo e com o espaço que habita. Ela fornece elementos para compreensão de como o homem exerce controle, domínio e poder dentro da sociedade. Roger Chartier afirma: “a historia cultural, tal como a entendemos, tem por principal objecto identificar o modo como em diferentes momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” (Chartier,1990 p. 17).

Chartier convida o leitor a analisar as representações do mundo social, a perceber como, por quem e com que finalidade os discursos são construídos. O autor também adverte que alguns dos discursos produzem estratégias e práticas sociais


“‘que tendem a impor uma autoridade à custa de outros [...] a legitimar um projecto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas.’ [...] o leitor é, sempre, pensado pelo autor, pelo comentador e pelo editor como devendo a ficar sujeito a um sentido único, a uma compreensão correcta, a uma leitura autorizada.” (Chartier, 1990, p. 17 e 123)
Para falarmos das práticas e das estratégias usadas pelo editor do “Correio da Victoria” para impor esse projeto reformador, um projeto destinado a urbanizar e civilizar a população da cidade de Vitória, consideramos que
“O processo de civilização consiste, antes de mais, na interiorização individual das proibições que, anteriormente, eram impostas do exterior, numa transformação da economia psíquica que fortalece os mecanismos do autocontrolo exercido sobre as pulsões e emoções e que faz passar do condicionamento social [...] ao autocondicionamento [...].” (Chartier, 1990, p. 110)
Para falar do processo de civilização por que passou o Ocidente durante séculos, Elias vai procurar em textos literários e em manuais de civilidade que circularam na Europa a partir do século XII. Na apresentação de “O Processo Civilizador”, Renato Janine Ribeiro chama atenção para o fato de que Elias vai trabalhar em “[...] uma história dos sentimentos [...]” (Ribeiro, 1994), com “[...]o uso da forma literária como um documento privilegiado de conhecimento, o interesse nas formas de sentir e imaginar como tema de estudo [...]”(Ribeiro, 1994), na busca de entender esse processo civilizador, que não é racional no momento em que acontece.

Inspirados nos trabalhos de Ginzburg, procuramos por pistas e sinais deixados por aquelas que escreviam sobre as crianças no jornal “Correio da Victoria”.




2. A imprensa no século XIX
Entendemos o papel da imprensa na história, evidenciando seu papel, ora oficial, visto como fonte incontestável da realidade; ora oficioso, como sujeito a interesses e forças (Morel; Barros, 2003, p. 8), Nóvoa afirma que “[...] é difícil encontrar um outro corpus documental que traduza com tanta riqueza os debates, os anseios, as desilusões e as utopias [...];” afirmando assim ser “um lugar privilegiado de manifestação de diferentes vozes” (2002, p. 30 e 131).

Considerada como “um retrato em preto e branco” (Faria Filho, 2002, p. 134) da sociedade oitocentista, faz-se necessário entender um pouco da história da imprensa no Brasil, para isso recuamos ao século XVIII. Marco Morel e Mariana Monteiro de Barros (2001) apontam que, mesmo antes da chegada da imprensa, por aqui já circulavam papéis manuscritos, chamados “incendiários”, lembrando o episódio ocorrido em Salvador no ano de 17987. Morel e Barros (2001) observam que no século seguinte os periódicos, em sua grande maioria, tinham ligações políticas.

Segundo Isabel Lustosa, a imprensa brasileira nasceu no exílio, com o jornal O Correio Braziliense, fundado pelo jornalista Hipólito José da Costa, que circulou entre 1808 e 1822. “O jornal sempre foi impresso em Londres, o que o livrou do peso da rígida censura portuguesa” (2004, p.131). Os exemplares que chegavam ao Brasil eram trazidos ilegalmente por brasileiros ou estrangeiros. Esse não foi o único jornal a circular no Brasil, circulavam ainda jornais portugueses, franceses e ingleses de forma legal.

O início século XIX é marcado pela transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, a Imprensa Régia deu início a fundação do primeiro jornal A Gazeta do Rio de Janeiro, em 1808; “Informava acerca dos atos do governo e trazia notícias do exterior, porém cuidadosamente filtradas pelos censores.”(Lustosa, 2004, p. 133)

Para a sobrevivência desses jornais, para tornarem-se uma realidade, seus editores tinham como práticas a assinatura, a venda de exemplares avulsos, a tradução de obras, a transcrição de partes de outros jornais e revistas pertencentes a outras províncias ou países e ainda a publicação de histórias em capítulos. Morel e Barros afirmam: “[...] O sucesso do romance folhetinesco era garantia de venda do jornal, já que a história inacabada instigava a leitura seguinte” (2003, p. 59).

Podemos considerar que as leituras eram de extremo valor na difusão e assimilação de seu conteúdo e o quanto os sentimentos despertados pela literatura facilitam a expressão de normas de conduta, que de caráter autoritário, rígido, se transformam ao serem transmitidas por meio de um jornal, que acaba por amenizar essas normas, facilitando, assim, o enraizamento dos costumes de forma mais contundente.

No turbilhão de transformações políticas, econômicas, sociais e culturais pelas quais passa o Brasil, surge, no final da década de 1840, o “Correio da Victoria”.


3. O “Correio da Victoria”
Publicado pela primeira vez em 17 de janeiro de 1849, sob propriedade e redação de Pedro Antônio de Azeredo, que adquiriu o prelo dos herdeiros de Tovar8. No Espírito Santo, somente “[...] em 1840 [foi] montada a primeira tipografia e circulou o primeiro jornal, O Estafeta, que não passou do número inicial9. Seguiu-se em 1849, o Correio da Vitória, impresso nas oficinas de O Estafeta [...]” (Reis , 1997 p.362), que circulou durante vinte e quatro anos. Segundo Oliveira, o jornal estava “fadado a uma vida longa e exornada de relevantes serviços à Província” (Oliveira, 1975 p. 329).

A sua configuração traz na primeira página o nome do jornal em letras garrafais; logo abaixo, em letras pequenas, colunas nomeadas de “Advertencia” traziam os dias da publicação, o valor do periódico (80 réis folha avulsa) e da assinatura (8$000 réis por anno e 4$000 réis por semestre) e onde deve ser contratado o serviço; “Ephemerides” que trazia as fases lunares e seus horários, e “Partida dos Correios” que trazia os dias das partidas para diferentes localidades. Buscando referencias de sua rotina de publicação, temos:


“De cunho ideológico conservador, cessando a publicação em 1873 em conseqüência de um cisma ideológico. Tinha quatro páginas. Até 13 de janeiro de 1872 era bissemanal (quarta-feira e sábados), quando começou a circular três vezes por semana (terça-feira, quinta-feira e sábados). Em janeiro de 1872, com a morte de Azeredo, Joaquim Francisco Pinto Ribeiro tornou-se proprietário e Aprigio Guilhermino de Jesus o gerente, que passou a responsabilidade da edição para Joaquim Francisco Pinto Ribeiro (o editor).” (França, 2006, p. 31, nota 14)
Conforme indicações de França (2006), o jornal “Correio da Victoria” dialoga com outros jornais de outras regiões da própria província espírito-santense, brasileiros e europeus, assim como com revistas da época:
“Diário Oficial, Jornal da Tarde, O Movimento, Correio do Brazil, Revista Illustrada (Rio de Janeiro), Opinião Conservadora (São Paulo), Correio da Bahia (Bahia), Noticiador de Minas (Ouro Preto), Parahybano (Parahyba do Sul), Correio Official (Goyás), O Publicador (Parahyba do Norte), Conservador (Natal), Conciliador (Santa Catharina), Horisonte (Bahia), Estandarte (Itapemirim) e Monitor Campista (Campos), entre outros.” (França, 2006, p. 31)
Conforme a descrição do editor, o jornal dividia-se da seguinte forma:
“Parte Official: Para os actos do governo provincial de immediata importancia, ou de todos elles, quando seja conviniente sua publicidade.

Chronica Nacional e Estrangeira: Para noticias do interior e exterior, extractadas cuidadosamente das folhas periodicas, que iremos recebendo.

Parte Commercial: Para revista das transacções mercantis, que se effectuarem no gyro do commercio desta cidade.

Variedades: Para tudo o que, pela especie, como historia, biographia, etc, não tiver cabimento em outra parte da folha.

Declarações: Para annuncios dos dias da partida dos correios, audiencias, etc.

Folhetins: Para a mais extremada escolha de contos romanticos, traduzidos ou originaes que prendão a attenção dos leitores por algumas horas com as [phrimazias de Victor Hugo], [ ] Dumas, Eugéne Sue, Balzac e tantos outros.

E finalmente, sobre a epigraphe – [Correio] da Victoria – daremos á ler artigos de fundo, [noti]cias da Côrte, e o juizo das obras publicadas no imperio.” (Correio da Victoria, 17 de janeiro de 1849, p. 2)10
A Assembleia publicava suas decisões no jornal “Correio da Victoria” a partir de um contrato selado entre o editor e a instituição, dessa forma também se regulamentava a publicação em 12 artigos, apresentamos alguns:
“Artigo 1º Obriga-se o emprezario à publicar as ordens e officios da publica administração da provincia, em uma folha de papel ordinario, que sahirá duas vezes por semana, ficando reservado a ultima pagina de cada folha para a publicação de objectos particulares. Debaixo da expressão – ordens e officios da publica administração – se comprehendem não só as portarias e a correspondencia do governo com as autoridades da provincia, como tambem os officios destas, dirigidos á presidencia, quando o governo entender conveniente fazel-os publicar.

Artigo 3º O governo pagará por cada folha, inclusive o papel, a quantia de 10$000 réis, devendo a impressão ser em leitura – Cicero –; sendo o pagamento das folhas publicadas em cada mez, feito no principio do mez seguinte.

Artigo 6º O praso de 10 annos para o privilegio esclusivo, marcado na lei provincial de 23 de março de 1835, sob nº 6, começará a contar – se da publicação do primeiro numero da folha em diante. O empresario se compromette a applicar todo o cuidado, para que tal publicação se verifique quanto antes.

Artigo 9º Fica prohibido ao empresario acceitar correspondencias, que entretenhão polemica individual, e nem artigos, que offendão á qualquer cidadão, e só adimittira annuncios, que não contenhão insultos directos ou indirectos, e também publicações literarias.

Artigo 10º Sendo o presente jornal, official não poderá fazer cencura aos actos do governo, quer geral, quer provincial.

Artigo 12º A transgressão de qualquer destes preceitos importará immediatamente a recisão do contracto.” (Correio da Victoria, 20 de janeiro de 1849, p. 1)

A imprensa teve tamanha importância para o século XIX, que o editor do jornal “Correio da Victoria” dedicou seis editorais a esse assunto nos anos de 1849 e 1850, alguns publicados em capítulos, como é o caso da “Origem da Typogra[phia]” (Correio da Victoria, 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 1849, p. 3 e 4), e outros publicados em um único editorial.

Segundo o editor do jornal “Correio da Victoria”, a missão da imprensa periódica era:


“É a imprensa periodica na presente época, o vehiculo de relações entre os povos cultos, o meio facil e producente de prover a instrucção popular, e [uma das] mais palpitantes necessidades de todas as classes da [sociedade] [...], [...] Gemea da liberdade, consaguinea da civ[i] lisação, deve ella doutrinar e moralisar a humanidade, edifical-a nos preceitos das suas crenças, inicial-a nas pesquizas e indagações das sciencias, guial-a nos conhecimentos das artes, e das letras, arrancal-as das trevas dos preconceitos e dos erros [da] superstição [...].” (Correio da Victoria, 17 de janeiro de 1849, p. 1)
O jornal “Correio da Victoria” tratava dos mais variados temas: política local e nacional; a preocupação com a educação e os benefícios e malefícios desta para o homem e para a sociedade; literatura, composta por histórias contadas em capítulos; apólogo, pequenas histórias que poderiam trazer críticas indiretas a pessoas importantes na cidade.
Assim, partimos para as primeiras aproximações com a história da infância capixaba no século XIX, a partir de um arcabouço teórico-metodológico que indica o reconhecimento do movimento na produção dos textos circulantes e, com isso, tomar a imprensa como um elemento integrante da teia de disputas e tensões na representação da realidade investigada.


3.1 A infância no Correio da Victoria
Com o objetivo de conhecer as concepções de infância, identificar os interlocutores mobilizados na rede de diálogo e analisar os destaques e silenciamentos no que se refere às informações sobre as crianças presentes/ausentes no periódico, e para desenvolver essa análise, focalizo, a partir de uma divisão dos excertos, a igreja, a escola e a higiene. Ainda, tomo a especificidade da infância dos negros, retratada no material, como forma de explorar a abordagem da infância no periódico “Correio da Victoria”. Essa divisão não quer dizer que esses focos não se mesclem, muito pelo contrário, percebemos em muitos momentos uma conjunção de forças e de temáticas na abordagem da infância.


3.1.1 A Igreja como reguladora do ordenamento da infância
A Igreja, responsável por regular a vida da sociedade oitocentista, se fez presente no Brasil Colônia e Imperial, por meio das ordens e irmandades religiosas, atuando diretamente em vários momentos da vida das pessoas e da comunidade. As festas religiosas, a missa e os encontros dominicais, ao final das celebrações, se constituíam como formas de participação ativa no Estado, na escola como instituição que estava nascendo. Destacamos sua força na regulação da vida, nas esferas pública e privada, e, compondo esse cenário, retomamos nossas referências sobre a infância como
[...] menos que uma descrição biológica ou psicológica, a infância constitui-se em um tempo social e historicamente construído, sensivelmente marcado pelas condições e experiências culturais facultadas a cada criança. (Gondra e Garcia, 2004 p. 72).
Assim, para explorar as concepções de infância, considerando a força da igreja no cenário social de nosso estudo, destacamos um contexto cultural, no século XIX, afirmador de formas de viver a infância vinculada à diferença de idades. Como alerta Matoso, a diferença de idades adquire significado a partir das instituições. Tomando a Igreja:
a idade de razão de todo cristão jovem situa-se aos 7 anos de idade, idade de consciência e de responsabilidade, [...] aos sete anos a criança adquire foro de adulto: de ingênuo torna-se alma de confissão (Azevedo, Apud Mattoso, 1991. p. 80).
Tomando a Lei, o Código Filipino11 que vigorou durante todo o século XIX, “[...] fixava a maioridade aos 12 anos para as meninas, e aos 14 para os meninos.” (Mattoso, apud Mattoso, 1991, p. 80).
Nesse cenário de configuração de uma regulação mediada intensamente pela igreja, destacamos, a partir dos dados captados, sua referência no Regimento provisório para as escolas, em que as aulas aparecem em conjunto, “nos sabbados, haverá primeiramente classe geral para a instrucção de moral e doutrina christã, e da civilidade urbana.” (Correio da Victoria, [31] de outubro de 1849, p. 2 e 3). Esses dados nos remetem a ideia de
[...] que a maioria dos cristãos considere o decoro e a civilidade como uma qualidade puramente humana e mundana e, não pensando em elevar mais ainda sua mente, não a considere uma virtude relacionada a Deus, ao próximo, a nós mesmos. (Elias, 1994, p. 111)
Por isso, precisam vivenciar processos de aprendizagem intencionais que façam essa associação. Dessa forma, percebemos em vários editoriais a civilidade ligada à doutrina cristã. No romance folhetinesco intitulado “O lavrador christão” (publicados nos dias 28 de março, 31 de março e 7 de abril de 1849), que aborda as várias fases da vida de um lavrador, desde o nascimento até sua morte, se apresenta o batismo do lavrador ainda pequeno. A vida da criança é resumida até a chegada à pia batismal. A relação do pai com a criança é associada à expectativa para esse momento.
“I

A familia do lavrador christão acaba de ser augmentada com mais um membro; o pae solicito espera com paciencia o dia em que possa levar seu tenro filhinho á pia baptismal. Chega emfim esse dia, os padrinhos convidados, o pae, e a carinhosa ama que em seus braços conduz o recem-nascido se põe á caminho para a freguezia. Das cúpulas das frondosas arvores saúdão os passarinhos o rei dos planetas, que faz fugir diante de si as nuvens que o ombumbravão, e derrama ondas de luz sobre as veigas, onde cresce a suculenta canna ao lado do ardoroso café. Os repiques do sino da parochia annunci[ão] que vae começar o sacrificio da missa; a nossa comitiva apressa-se por entrar, e só achão lugar junto á porta da igreja, porque toda ella está cheia de fieis: ali se vê ajoelhado o principal fazendeiro do lugar, que occupara diversos cargos da governança do seu municipio, o miseravel coberto de andrajos, e o escravo, que rega o solo com o suor do seu rosto, todos ali são iguaes: - porque todos são filhos do mesmo pae – concluida a missa apresenta o nosso lavrador seu filho ao vigario, e este pronunciando as palavras de Jezus Christo, lava na piscina christã a nódoa que o peccado original imprimira em sua fronte juvenil. Voltando para a casa a mãe, ainda no leito, recebe seu filhinho tão puro como os anjos que rodeão o throno do Altissimo.” (Correio da Victoria, 28 de março de 1849, p. 3)


Assim, o batismo se apresenta como garantia de salvação da alma do anjinho, cercado de cuidados, para que chegue aos sete anos, idade da razão, livre das moléstias típicas da infância. Na continuidade de seu percurso, destaca-se a Escola do Evangelho na formação da criança:
“II

Depusera o menino as faixas infantis, e entre mil innocentes folguedos chegara á idade de 7 annos: e como então começa elle a ter noções do bem e do mal, e o negro carvão do vicio, póde tisnar-lhe a candida alma, apressão-se seus paes a dar-lhe por guia o homem formado na escola do Evangelho e prostrado aos pés do venerando ancião, cujas ca[n]s contrastão com o seu traje, tão immutavel como o Deos a quem serve, confessa ingenuamente as suas faltas, leves sim, porem, que se não fossem extirpadas podião com o volver dos tempos tornarem-se crimes nefandos, e ouve em compensação conselhos cheios de sabedoria: aprende a votar ao seu creador um culto de gratidão e respeito; a acatar de seus paes todas as ordens, e sempre tendentes á sua felicidade, bem [ ]e algumas vezes lhe pareção arbitrarias; e preferir as invias veredas da virtude á larga estrada que conduz ao vicio.

Sahindo do confessionario notão-se em seu proceder algumas mudanças, o menino que algumas vezes se mostrava iracundo, é desde então todo bra[n]dura, elle que desdenhoso olhava para o misero escravo como pertencendo a uma raça vil e abjecta que nenhum ponto de contacto tinha com elle, distingue-se pela sua afabilidade, pela maneira lhãna e caridosa com que trata seus servos: cessarão as luctas continuas com seus irmãos, já os contempla como alliados naturaes, que a benefica mão da Providencia collocou á seu lado.” (Correio da Victoria, 28 de março de 1849, p. 3 e 4)
Com essa Escola do Evangelho, temos um modo de viver a infância da criança religiosa, que combate o vício (na confissão) desenvolvendo a brandura, o tratamento afável para com os servos e a cordialidade para com os irmãos. Assim, nesse endereçamento, temos um destaque para a posição de determinadas crianças, com indicativos para a forma de viver uma infância que, nas entrelinhas, nos indicam que essas crianças tinham com outras e com outras formas de viver a infância, por exemplo, a infância vinculada às crianças em situação de servidão ou àquelas distanciadas do universo religioso. Considerando o poder da Igreja, não temos a exploração de formas de viver a infância distanciadas do universo religioso, afinal, o jornal, como elemento de cultura e progresso daquela época, estava atrelado à essa forma de vinculação entre a Igreja e o Estado. Já a configuração da infância em situação de servidão, temos excertos literários e anúncios(de compra e venda de escravos).

Dessa forma, temos uma constituição da vida, em suas diferentes fases, regulada pela inserção da Igreja, que, no acolhimento, indica os pressupostos para a existência individual, regulando também a vida social.



3.1.2 A especificidade da Criança em situação de servidão
Müller, explorando a história da infância no percurso nacional, esclarece que “havia particularidades e diferenças na vida de quem era moleque ou moleca (crianças negras), curumim (criança de origem indígena) ou sinhozinho e sinhazinha (filhos dos brancos)” (2007, p. 99). Para focalizar a condição de servidão, apresentamos um romance folhetinesco que conta a vida de Celestina, uma menina branca, mas que está na condição de cativa:
“Celestina

Hormis le coup qui te frape, et le peu qui te nourritte tout est mort pour tol dans Tunivers!... – Les esclaves – par Antonio Metral.

I

Brasileiros! tremei diante do quadro, que vos vou traçar! Suffocal! ah! suffocal o monstro da escravidão! Expulsae-os!



Não vedes esses tenros fructos de vossos amores, que apenas firmão na terra seus mal seguros passos, estenderem-vos seus debeis bracinhos, e dizerem-vos com voz balbuciante: Papd! Ah! tremei por elles! Elles vos pedem soccorro... elles parecem temer...... a escravidão!!!......

II

Pobre Celestina! pobre mulatinha!



Rota, coberta de lama, as carnes despedaçadas pelo vergalho, as mãos inchadas pela palmatória, ella vaga por diante dos palacios do monarcha, das residencias dos ministros, e altos funccionarios, curvada ao pezo de um taboleiro.

― Quem compra doces!? diz ella com voz sumida.

E as lagrimas lhe regão as faces macilentas, os soluços lhe embargão a fraca voz; ella sente d’antemão as torturas com que sua senhora a martyrisará, senão vender o que leva.

III


A noite principia a cobrir com seu negro véo a terra, e suas torpezas que não deixão por isso de ser revoltantes.

Celestina segue cabisbaixa um alentado vulto.........

Dê-me algum dinheiro para levar á minha senhora..............................................

― Pois sim.........

E o vulto se dirige......... e ella o acompanha:...............................................

Celestina?!....... á prostituição......

Celestina tem apenas dez annos.....

Não vos accontece ás vezes virem-vos as lagrimas aos olhos, ao vêrdes uma mulata escrava, que deslumbra em alvura a seus senhores?....



Celestina era desse numero. Seus cabelhos em que nada acusava a raça africana, erão castanhos, ainda que emaranhados e sujos, seus olhos erão d’um pardo vivo; um narizinho afilado condizia admiravelmente com uma pequena boca; e, Celestina arrancada á revoltante miseria em que jazia, seria uma......... lindissima menina!!” (Correio da Victoria, 7, 11 de setembro de 1850, p. 4)
Com isso, evidenciando o debate sobre a escravidão, a descrição de Celestina nos remete às dificuldades das condições de vida típicas da servidão, apontando uma diversidade de formas de vivenciá-la: servir a um senhor, vender doces, prostituição, pedir... Nos anúncios, publicados no periódico, podemos perceber as denominações dadas às crianças cativas em função de suas idades e de suas aprendizagens de trabalho. Segundo Mattoso é possível
“[...] distinguir duas idades de infância para os escravos: de zero a sete para oito anos, o crioulinho ou a crioulinha, o pardinho ou a pardinha, o cabrinha ou a cabrinha, são crianças novas, geralmente sem desenpenho de atividades de tipo econômico; dos sete para os oito anos até os doze anos de idade os jovens escravos deixam de ser crianças para entrar no mundo dos adultos, mas na qualidade de aprendiz, de moleque ou de moleca [...].” (Mattoso, 1991 p. 78
Nessa especificidade de configuração da vida dessas crianças, a passagem para a adolescência era “o primeiro choque importante que recebia a criança escrava” (Mattoso, 1991 p. 81.). No periódico, a condição de servidão se apresentou principalmente nos anúncios de compra e venda de escravos de pouca idade:
“Preciza-se de um moleque de idade de 12 a 14 annos pouco mais ou menos; quem o tiver para vender, dirija-se a casa de José Cardoso Pereira da Gama, no largo da banca nova, com quem tratará.” (Correio da Victoria, 27 de janeiro de 1849, p. 4).
Em alguns desses anúncios podemos captar requisitos de aparência, em função da destinação da criança para a função de pagem12:
“Percisa-se de um pardinho de 10 a 12 annos de idade, de bonita figura proprio para pagem, quem o tiver e quizer vender dirija-se a Manoel do Couto Teixeira, na rua do Porto dos Padres.” (Correio da Victoria, 13 de março de 1850, p. 4)
Góes e Florentino, analisando o processo de transação econômica, afirmam que:
“(...) não existia propriamente um mercado de crianças cativas. Por certo, algumas eram compradas ou vendidas, transações que se faziam mais freqüentes nas etapas finais da infância, (...) comparativamente ao que valia aos quatro anos de idade, por volta dos sete um escravo era cerca de 60% mais caro e por volta dos 11, chegava a valer até duas vezes mais. Aos 14 anos a freqüência de garotos desempenhando atividades, cumprindo tarefas e especializando-se em ocupações era a mesma dos escravos adultos.” (2006, p. 178-179 e 185)
No dados recortados, encontramos um anúncio que se diferencia da política reinante de repasse das crianças escravas ou de oferta das mães para ama de leite. Trata-se de um anúncio de venda da mãe com a criança:
“Quem quizer comprar uma negra com uma cria própria para ama de leite, e um moleque; dirija-se a casa do Capitão Paulo Coutinho Mascarenhas para tractar.” (Correio da Victoria, 1 de junho de 1850, p. 4)
Segundo Mattoso (1991), esta era uma prática incomum, costumava-se arrancar a criança dos braços da mãe logo após o nascimento e deixá-la na roda, e alugar a mãe para ser ama de leite das crianças brancas.

Dessa forma, destacamos que, como tomamos os focos da igreja e da especificidade da criança em servidão para mostrar como as crianças aparecem no periódico, não podemos falar em homogeneidade da infância. Temos processos de regulação que vão produzir o sinhozinho abastado, as crianças pobres e as crianças escravas, mas, no interior dessa regulação, temos uma diversidade de formas de possibilidades de viver como crianças. Assim, as condições das infâncias se configuram mediatizadas pelo contexto, num processo de diálogo (com debates e silenciamentos) que dá relevo à diversidade. Portanto, tomando os registros do jornal como elementos de análise, reinteramos que “a criança é o grande ausente da História”, uma vez que quem escreve e registra pertence ao mundo adulto. Paradoxalmente, ela é “o seu motor. Ela é [o] adulto em gestação” (Del Priore e Londoñ, 1991, p.9).

A análise do jornal também revela o quanto a sociedade do contexto investigado se ocupava das crianças que gozavam de determinadas formas de viver a infância, dando recomendações e normatizações endereçadas às famílias e ao processo educativo (escolar e informal). Ainda revela como a sociedade tratava as crianças que não tinham direitos às prerrogativas daquilo que se entendia como direitos da infância naquele período, ou seja, como deixava à própria sorte as crianças escravas. Quando falamos de um sentimento construído historicamente com uma ideia de que a infância é uma construção social, falamos de pluralidade de infâncias, destacando um caráter processual que não se encerra no tempo presente. Assim, se temos modelos de infância idealizados pelos adultos, temos também as crianças concretas, como ser ativos, dialogando com essas proposições e provocando novos desafios nessa construção social (Gondra, 2000).

No que era proposto e nos silenciamentos, bem como nos endereçamentos dos discursos, vale destacar também o diálogo com diferentes fontes de referência, de modo a evidenciar a inserção do cenário local numa conjuntura nacional, que, na especificidade das formas de comunicação possíveis, também dialogava com um contexto mais ampliado.




CONSIDERAÇÕES FINAIS
O diálogo com a fonte de estudo e com outros estudos referentes à história da infância brasileira trouxe-nos concepções e instigou-nos a investigar essa fase da vida. A imprensa veio compor a ideia desse estudo devido a seu caráter controverso, ora visto como divulgador da uma realidade de uma dada época, ora visto como sujeito de discursos. Buscamos, como fontes de coleta dos dados, o periódico “Correio da Victoria” para indagar sobre como as crianças aparecem no periódico e quais os interlocutores (endereçamentos e fontes das referências) das “recomendações” relativas às informações vinculadas às crianças/infâncias.

Assim, neste quadro, insere-se a importância da imprensa como fonte para o estudo da sociedade oitocentista – e mais ainda como fonte para a história da educação, e para o diálogo história-educação-infância, se mostrou uma fonte rica para estudos –, marcada pelas transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e educacionais que estavam ocorrendo no Brasil no período Imperial. Nesse turbilhão de transformações, surge o periódico “Correio da Victoria” como órgão difusor de ideias modernizantes e civilizatórias. Era necessário criar a ideia de uma Nação13, e ,no Espírito Santo, afastar a idéia de um Estado atrasado, deixado de lado durante longos anos de colonização, mas apoiado pela Assembleia Provincial e pelos intelectuais da Província.


Deve-se ter em vista que os periódicos não nos falam de uma vivência concreta das crianças do século XIX, mas nos falam de comportamentos e normas que devem ser seguidos, isto é, de formas da constituição social da infância.

A infância é representada – a partir de discursos e ideias que emanavam da Europa com os ideais de uma infância cortês, dócil e, acima de tudo, temente a Deus – como a formação de um ser e/para a formação de uma civilização,.

A condição social esteve presente no periódico como a maneira de distinção entre as crianças e os escravos. As crianças seriam todas aquelas de condição livre ou liberta, independendo da cor de sua pele. Assim, a condição de escravos superava a condição de criança. Quando a referência é com relação aos negros, aparecem termos como cria, pagem, negrinho... Mesmo não sendo possível distinguir o tom da pele das crianças, mas dando realce a sua condição de cativo.

Também chamamos a atenção para a escassez de estudos referentes à história da infância na imprensa periódica capixaba. Partimos do intento de que muitos pesquisadores ainda poderão se beneficiar dos deleites da pesquisa histórica da imprensa periódica capixaba. Nessa possibilidade, nosso percurso de investigação está aberto à contribuição dos interlocutores e prossegue na temática, perseguindo novos desafios no aprofundamento das reflexões.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ariès, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A, 2ª ed. 1981.

BITTENCOURT, Gabriel. Historiografia capixaba e imprensa no Espírito Santo. Vitória: Edit, 1988.



Chartier, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

Correio Da Victoria, jornal, 1849-1850.

Elias, Nobert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. vol 1.

Ginzburg, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das letras, 1989.

Vidal, Diana Gonçalves. Apresentação. In: Faria Filho, Luciano M. de (org). A infância e sua educação: materiais, práticas e representações [Portugal e Brasil]. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p. 7-11.

Lustosa, Isabel. O nascimento da imprensa brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2004

MATTOSO, Kátia de Queirós. O filho da escrava. In: Del Priore, Mary (org). História da criança no Brasil. São Paulo: Contexto, 1991.



Morel, Marco, Barros, Mariana Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

MÜLLER, Verônica Regina. História de crianças e infâncias: registros, narrativas e vida privada. Petrópolis: Editora Vozes, 2007.



Pinto, M. A infância como construção social. In: Pinto, M. Sarmento, M. J. (Coords) As crianças: contextos e identidades. Universidade do Minho/ Centro de Estudos da Criança. 1997. p. 33-73.

Reis, Arthur Cezar Ferreira. O Espírito Santo. In: Holanda, Sérgio Buarque de (Dir.). História geral da civilização Brasileira. Tomo II: O Brasil monárquico, v.2 dispersão e unidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

NOTAS

1 Monografia apresentada, sob orientação da profª Drª Valdete Côco, ao curso de Pós-Graduação Lato-Sensu.

2 O jornal Correio da Victoria circulou entre os anos de 1849 a 1873, data provável do fim do periódico. O último número disponível no Arquivo Público do Espírito Santo pertence ao ano de 1872.

3 Isso porque a gente foi criada em lugar onde não tinha brinquedo fabricado. Isto porque a gente havia que fabricar os nossos brinquedos: eram boizinhos de osso, bolas de meia, automóveis de lata. Também a gente fazia de conta que sapo é boi de cela e viajava de sapo. Outra era ouvir nas conchas as origens do mundo. Estranhei muito quando, mais tarde, precisei morar na cidade. Na cidade, um dia, contei para minha mãe que vira na Praça um homem montado no cavalo de pedra a mostrar uma faca comprida para o alto. Minha mãe me corrigiu que não era uma faca, era uma espada. E que o homem era um herói da nossa história. Claro que eu não tinha educação de cidade para saber que herói era um homem sentado num cavalo de pedra. Eles eram pessoas antigas da história eu algum dia defenderam nossa Pátria. Para mim, aqueles homens em cima da pedra eram sucata. Seriam sucata da história. (Manoel de Barros, Mémórias inventadas: A infância. apud Vidal, 2004, p. 7)

4 ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A, 1981. A 1ª edição brasileira consta do ano de 1978. Mesmo com todas as críticas que Ariès recebeu sobre o seu trabalho, precisamos considerar a importância desse estudo para a história da infância. Sobre as críticas à Áries, ver: GOUVEA, Maria Cristina Soares de. A escrita da história da infância: periodização e fontes. In: GOUVEA, Maria Cristina Soares de.; SARMENTO, Manuel (orgs). Estudos da infância: educação e práticas sociais. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 97-118.

5 Crianças que eram abandonadas em princípio nas portas das casas e depois com a criação das rodas dos expostos nas Santas Casas, fenômeno que, segundo Marcílio (2006. p. 53-79), foi muito recorrente no século XIX no Brasil. “O sistema de rodas dos expostos foi inventado na Europa medieval. Seria ele um meio encontrado para garantir [...] que o bebê não seria abandonado pelos caminhos, bosques, lixo, portas de igreja ou casas de família, [...] evitando assim a morte trágica das criancinhas. O nome da roda provém do dispositivo onde se colocavam os bebês que se queriam abandonar. Sua forma cilíndrica, dividida ao meio por uma divisória, era fixada no muro ou na janela da instituição. No tabuleiro inferior e em sua abertura externa, o expositor e a criança já estava do outro lado do muro. Puxava-se uma cordinha com uma sineta, para avisar a vigilante ou rodeira que um bebê acabava de ser abandonado e o expositor furtivamente retirava-se do local, sem ser identificado” (MARCILIO, 2006, p. 53, 54, 57).

6 Os historiadores dos Annales questionam principalmente a história positivista, em que havia a valorização de nomes de heróis e de fatos e datas.

7 “[...] sabemos que onze folhas manuscritas afixadas em locais públicos em 12 de agosto de 1798 em Salvador, foram suficientes para desencadear a repressão contra a tentativa de sedição conhecida por Conjuração Baiana.” (MOREL, BARROS, 2003, p.12)

8 Proprietário da oficina que imprimiu o primeiro jornal capixaba “O Estafeta”.

9 Segundo Gabriel Bittencourt, não é possível obtermos maiores informações sobre esse jornal, pois não foi encontrado nenhum exemplar.

10 Neste artigo, usamos a transcrição literal, feita preservando o original.

11 Código de leis portuguesas publicado em 1603 (Felipe I) e confirmado em 1643 (Felipe II). Apesar de sofrer alterações, vigorou no Brasil até 1917, quando então foi publicado o primeiro Código Civil brasileiro. BOTELHO; REIS, 2001. In: apud MATTOSO, Kátia de Queirós. O filho da escrava. In: Del Priore, Mary (org). História da criança no Brasil. São Paulo: Contexto, 1991. p. 80.

12 Mancebo da nobreza que, na Idade Média, acompanhava um príncipe, um senhor, uma dama, para aprender a carreira das armas e as boas maneiras. (BUENO, 1986, p. 816). Podemos perceber, pelos retratos de Debret, que o pagem, menino negro que acompanhava a criança branca, estava bem-vestido e acompanhava o seu dono (criança branca) para todos os lugares. Sendo dessa forma, para a criança branca, uma forma de mostrar a que classe social pertencia.

13 O Brasil pretendia deixar para trás a ideia de um país atrasado, colonial, ligado à Portugal.



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