Correr e parar: as dinâmicas da relação



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Correr e parar: as dinâmicas da relação

Então Pedro e o outro discípulo saíram e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos. Mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinando-se viu os panos de linho no chão, mas não entrou”. (Jo. 20, 3-5)

Isto é muito conhecido na literatura, na música e na arte: o texto também é feito de pausas, a melodia de silêncios e a pintura também tem fundos sem luz. Na história dos discípulos que, após a descrição de Maria de Magdala, vão verificar o que teria acontecido no sepulcro de Jesus, dado que a pedra fora rolada, a corrida parece parar num instante de suspensão que também poderia ser interpretada como uma pausa altamente dramática. É verdade que o trecho é um pouco enigmático. Porque é que o outro discípulo, João, pára na soleira do sepulcro? De facto, os dois discípulos são descritos com troços que, embora não opostos, são realmente diferentes: João chega primeiro e não entra; Pedro, pelo contrário, entra, vê os panos de linho e o sudário dobrados, mas disso não deduz nada, enquanto o outro “também entrou, viu e acreditou”. A corrida do outro é evidentemente mais veloz do que a de Pedro, mesmo a nível simbólico; pois é o primeiro a intuir o que Simão ainda não descobriu, isto é, a sua mente, ou melhor, o seu coração, parece agarrar num relâmpago a verdade que se esconde debaixo daqueles panos dobrados e colocados ordenadamente num canto do sepulcro. É o amor que estimula os sentidos e dá à intuição uma velocidade extraordinária.

Todavia, há aquela pausa, aquela suspensão: “Inclinando-se, viu os panos de linho no chão, mas não entrou”. Dá-nos a impressão de que está aqui a indicação do que tem significado, na relação de fé e na afectividade, a demora, a paragem da corrida. Com efeito, até a corrida, como quase tudo aquilo de que somos feitos, é uma realidade polivalente. Pode indicar o entusiasmo com que nos dirigimos às coisas ou às pessoas, a paixão com que abraçamos o que nos agrada e nos dá alegria. Mas também pode traduzir o desejo de encurtar distâncias e diferenças, a pressa e a impaciência que nos faz desejar estar o mais perto possível do objectivo, a avidez com que pretendemos possuir ou até mesmo “devorar” experiências, coisas e pessoas. A pausa, a paragem da corrida, é como ficar suspenso por um fio, o tempo necessário para evitar entrar numa fenda errada que nos leve ao precipício e, pelo contrário, dar à corrida a direcção correcta.

A fé conhece estas pausas de suspensão e é bom que as conheça. Talvez pensemos que esta pausa seja apenas perda de tempo, desperdício de energias que deveriam ser aproveitadas de outro modo. Julgo, no entanto, que a suspensão introduz um espaço de respeito sem o qual a relação corre graves riscos. Recordo-me de Aelredo de Rievaux que, no seu tratado sobre a amizade, nos dá uma síntese fulgurante: “A razão torna casto o amor e o afecto torna-o doce”. Se “a castidade é educação e preparação para superar toda a mentalidade de apropriação em relação à pessoa dos outros e à sua própria pessoa”, então a “razão” (que não quer dizer apenas “mente”, mas também o sentido de “medida”) introduz exactamente a pausa necessária, trava a corrida naquilo que ela tem de perigoso e violento e dá substância e solidez ao amor. Não creio que o convite de Aelredo seja para se “ser razoável”, ou apenas para fazer as contas, avaliando os prós e os contras de um eventual investimento numa relação de amizade: essa linguagem contabilística é-lhe absolutamente estranha. Creio, pelo contrário, que ele aluda a uma vigilância adequada das emoções para impedir que o transporte afectivo anule a alteridade e a distância. A amizade vive daquele dinamismo que compreende a paragem na soleira e da entrada em casa, da alegria da descoberta e da pausa, que não é desconfiança mas expectativa e preparação para novas descobertas.

O mesmo acontece com a fé. A caminhada de Pedro parece mais linear: corre, chega, entra no sepulcro, vê a cena nos seus pormenores, verifica que o corpo de Jesus desapareceu, mas não chega a nenhuma conclusão. O outro discípulo corre mais depressa, chega primeiro, vê, vê e não entra; depois “entrou também; viu e acreditou”. A pausa fora da porta é a distância que existe entre ver e crer e, paradoxalmente, aquele que pára é precisamente quem corre mais depressa.

Ver não significa automaticamente crer, como tocar não significa automaticamente conhecer. Talvez não seja por acaso que, no evangelho de João, se descreve o encontro de Jesus e Maria de Magdala, a quem Jesus diz quando ela tenta agarrá-lo: “Não me toques” do mesmo modo que pouco depois, a Tomé que queria tocar as feridas dos cravos, Ele dirá “Felizes os que acreditam sem terem visto”. Há uma distância entre tocar e conhecer, entre desejar e amar, uma distância que não pode, nem deve, ser anulada.

Consequentemente, as experiências que nos fazem saborear a sintonia e a fusão, valem tanto como as que nos indicam, por vezes de maneira dolorosa, a distância entre nós e o outro. Há um risco nos dois casos: as primeiras podem favorecer a ilusão; as segundas podem levar-nos ao pessimismo e a dobrar-nos sobre nós mesmos. A lição do Evangelho e a lição da vida dizem-nos que é prudente entesourar as duas sem absolutizar nem uma nem outra, mas mantê-las em tensão, de maneira que uma ajude a outra. De facto, é assim, porque a experiência da sintonia compensada faz-nos sair da tristeza da solidão e, por outro lado, a experiência da distância cura-nos o instinto de nos apoderarmos de Deus ou do amigo, abre fendas na sensação de nos sentirmos definitivamente proprietários daquilo que nos torna felizes e, assim, prepara-nos para acolher sempre com admiração e gratidão tudo o que nos é dado, por Deus e pelos amigos. Se não houvesse a experiência da pausa – o momento em que a corrida pára na soleira – nós não conheceríamos a alegria da surpresa, a exultação diante da revelação do mistério.

A espera na soleira da porta pode ser longa; mas o que é preciso saber é que a pedra já não tapa a entrada, que quando batemos à porta receberemos uma resposta, porque lá dentro alguém espera por nós.

Domenico Pezzimi



As feridas que curam

Lisboa, Ed. Paulinas, 1997



O não fazer pausas, mesmo que seja no trabalho da vinha, alimenta o ego."

(14 de Junho de 2010)


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