Crer e confiar



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Encontro28.07.2016
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Dom da Fé

CRER E CONFIAR

Conta-se que um homem religioso foi injustamente acusado de matar uma mulher. O verdadeiro assassino era uma pessoa influente do reino, pelo que se procurou um culpado para o encobrir. O homem foi então levado ao juiz, mas este era conivente com a acusação, pelo que o acusado não teria qualquer hipótese. Querendo simular um julgamento justo, o juiz fez ao réu uma proposta para se provar a sua inocência. Disse ser uma pessoa profundamente religiosa, pelo que iria deixar a Deus a sorte do réu: escreveria num papel a palavra inocente e noutro a palavra culpado. O réu tiraria a sorte, escolhendo um dos papéis. No entanto, sem que o réu se apercebesse, o juiz escreveu culpado em ambos. Assim, não haveria qualquer hipótese para o réu se salvar. Pressentindo a armadilha, o homem aproximou-se da mesa, pegou num papel e rapidamente levou-o à boca e engoliu-o. Indignado, o juiz perguntou ao réu como se poderia agora conhecer a sentença. Ele respondeu: “É muito fácil. Basta ler o pedaço que ficou e ficamos a saber que engoli o seu contrário”. E assim o homem foi libertado.

Crer significa admitir que há algo para além daquilo que se vê, se sente e se pensa. Há o desconhecido e temos mais possibilidades do que aquelas que imaginamos. Quem crê põe a sua inteligência e todos os seus talentos em movimento para alcançar a convicção que o move. Sem esta atitude não se consegue viver, pois falta à pessoa o motor que o põe em ação e a caminho para fazer pela vida. O homem da história acreditou até ao fim na possibilidade de se salvar da condenação, mesmo quando parecia já não haver saída. Crer não se opõe a pensar, como facilmente se percebe neste relato. Mais, é o crer que estimula o pensar e o leva mais longe, para descobrir uma saída para o drama.

Confiar é outro verbo próximo de crer. Exprime a atitude de expectativa positiva em relação à realidade envolvente, às pessoas e ao futuro. Quem confia entrega-se ao trabalho, aposta numa relação, põe-se a caminho, faz pela vida, espera o bem. É uma disposição subjetiva existente na pessoa mas apoia-se, de algum modo, em sinais e dados objectivos que ela capta e lhe permitem julgar como boa a realidade de onde eles vêm. Voltando à história, a confiança do homem fez com que pusesse em prática a ideia que lhe veio. Resultado: foi libertado. A realidade que nos envolve, desde a economia às relações pessoais e envolvendo toda a vida da sociedade, mostra-nos quanto a confiança é fundamental para a estabilidade e o progresso. A ausência de confiança e, pior ainda, a desconfiança perturbam as relações, fazem arrefecer os contactos a qualquer nível e impedem a convivência, a colaboração e a harmonia na vida social e familiar.

A profissão de fé cristã começa com a palavra “creio”. Que exprime o crente com tal forma verbal? A adesão e confiança n’Aquele que nomeia em seguida: Deus. Com o seu ato, o cristão responde ao conhecimento que o próprio Deus lhe ofereceu mediante a sua Palavra ou por uma determinada iluminação ou compreensão divina e corresponde ao dom da fé. “Segundo uma sugestiva etimologia medieval, crer significa ‘cor dare’, dar o coração, confiá-lo incondicionalmente nas mãos de um Outro: crê todo aquele que se deixa fazer prisioneiro do Deus invisível, todo aquele que aceita ser possuído por Ele na escuta obediente e na docilidade mais profunda do coração” (Bruno Forte).

No campo da fé, crer e confiar não são exatamente a mesma coisa, embora ambos os verbos estejam intimamente ligados e sejam utilizados frequentemente com o mesmo significado. Na verdade, crer significa reconhecer Deus como real, conhecê-lo sempre melhor e viver uma relação de amor confiante com Ele. A confiança é uma atitude mais subjetiva de entrega ao Deus em quem se crê. Dele se espera sempre o bem, a ajuda, o amor, e a Ele se procura corresponder com a totalidade do próprio coração. Mesmo nas dúvidas, incertezas e obscuridades, o crente confia, lança-se ao encontro de Deus e busca os seus sinais e palavras. No ato de fé e na sua vivência quotidiana, unem-se o crer e o confiar, a adesão a Deus e à verdade que nos revela e a relação de amor com Ele. Quem crê em Deus confia e deixa-se orientar e impelir por Ele até à vida plena na eternidade. Ele é a sua esperança, a sua fonte de vida e o horizonte ou a meta para a qual caminha. Crer e confiar em Deus ajuda-nos e permite-nos crer e confiar nos outros e ter uma atitude de esperança perante a vida.



P. Jorge Guarda

Este artigo pode ser encontrado também no meu blog, no seguinte endereço: http://padrejorgeguarda.cancaonova.pt


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