Crianças escravas, crianças dos escravos



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Crianças escravas, crianças dos escravos


Goés, J.R. & Florentino, M.(1999). Crianças escravas, crianças dos escravos. Em: Del Priore, M.(Org.), História das crianças no Brasil (pp. 177-191). São Paulo: Contexto.
Os autores traçam um painel das condições de vida das crianças escravas no meio rural do Rio de Janeiro entre os séculos XVIII e XIX, procurando mostrar como, apesar de separados pelo tráfico negreiro, os escravos resistiam através da criação/reinvenção de laços familiares e cooperativos numa terra desconhecida.O batizado, por exemplo, era um importante elo de ligação entre escravos e entre as fazendas, o compadrio, além de laço afetivo, era também uma fonte de proteção até a morte.

Quanto mais próxima da casa grande mais ambígua era a vida do pequeno cativo: a ilusão infantil da “igualdade familiar” era incutida do aprendizado da sua dura realidade do escravo subjugado. Mesmo ainda crianças, os escravos exerciam algumas tarefas domésticas e, geralmente, aos quatorze anos já eram tratados como adultos.

É interessante observar também as diferenças entre os escravos africanos e os crioulos[1]. Embora submetidos ao mesmo tipo de vida miserável e degradante, o que marcava a criança e futuro escravo crioulo era a impaciência, uma permanente inquietação de estar sob o jugo da escravidão mas ter sempre em seu horizonte a possibilidade de ser inserido nessa mesma sociedade que o torna e mantêm escravo.

“Numa época de intenso movimento de desembarque de africanos, os escravos aproveitavam o sacramento católico para estabelecer, entre si e por sobre as fronteiras dos plantéis, fortes laços parentais.” Ironicamente, o batismo representou muito mais a formação de um parentesco entre africanos desterrados do que a inserção dos mesmos na comunidade cristã, vista como “rebanho de um Deus-Pai de filho branco” e com a qual pouco se identificavam.

Machado de Assis, em seu Memórias Póstumas de Brás Cubas descreve com primor como seria o cotidiano do pequeno escravo doméstico; frutos de uma sociedade escravista, a criança livre aprendia desde cedo a subjugá-lo, seja nas brincadeiras ou em punições, réplicas diminuídas das relações adultas: “Houve crianças que, sob as ordens de meninos livres puseram-se de quatro e se fizeram de bestas. Debret[2] não pintou esse quadro, mas não é difícil imaginar a criança negra arqueada sob o peso de um pequeno escravocrata” (p. 186).
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[1] Negro ou mulato nascido na América.


[2] Jean Baptiste Debret, Viagem pitoresca e história do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1978.


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