Crise e Colapso do Leste Europeu Segundo a Revista Veja Resumo



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Crise e Colapso do Leste Europeu Segundo a Revista Veja

Resumo:

A revista Veja noticiou o desenrolar do processo que levou ao fim do campo soviético na Europa Oriental (uma vez que alguns regimes asiáticos, um americano e alguns “Estados de orientação socialista” na África sobreviveram, reformados ou não, mas estes não fazem parte de nosso tema) entre os anos de 1985 e 1991. Mais do que uma cobertura de distantes assuntos internacionais, tratavam-se de questões ideológicas, econômicas, políticas e sociais bem familiares ao público ao qual a revista se dirigia, além da própria Guerra Fria, não tão palpável mas também crucial no campo militar, diplomático e do medo coletivo, mediadas a partir do desenrolar descompassado e confuso dos processos de reforma ou demolição do sistema soviético. O posicionamento de Veja, como qualquer outro, jornalístico ou não, não foi isento. Mas na medida em que ela se proclama formadora de opinião, a análise de sua caracterização e personificação do processo, da constituição de atores e da representação de agentes políticos, seus prognósticos, se tornam importantes meios de balizar os mecanismos pelos quais pretende direcionar a opinião pública não só de seu nicho alvo, mas para além dele, apesar das dificuldades em quantificar seu alcance concreto. Essa demarcação do discurso da revista e sua progressiva mudança é uma continuação do projeto de especialização “O Colapso do Leste Europeu Segundo a Revista Veja”, que abarcava o período de 1989 a 1991, agora como mestrado e partindo do ano de 1985. O quadro teórico utilizado é fornecido pelo trabalho de Carla Luciana Silva sobre a mesma revista entre os anos de 1989 a 2002, sua atuação em busca de uma hegemonia discursiva frente a um empresariado e grupos políticos divididos em várias correntes programáticas e ideológicas, a noção de “caminho único” e da imprensa enquanto partido político. Os conceitos de campos, habitus e de capital simbólico de Bourdieu podem indicar a capacidade de convencimento da opinião pública e da importância da credibilidade. Quanto ao processo em si, que culminou com a derrocada do sistema e que deu bases ao discurso de Veja, a melhor corrente é aquela que une causas materiais e ideológicas, estruturais e de escolhas da liderança, como Hobsbawm o faz. A parte textual da revista recebe o tratamento da Análise do Discurso e sua parte gráfica, publicitária e de diagramação, o da semiótica. A pesquisa está em andamento, mas pode desde já definir a existência de fases alternantes na representação de Gorbachev e da perestroika, a construção da realidade segundo a literatura, a dependência dos prognósticos tanto dos analistas confiáveis quanto dos desejos dos editores, a passagem da representação do campo soviético enquanto uma superpotência com algumas dificuldades para um estado de falência estrutural retroativa à existência e a natureza de seu sistema, a relação entre o ganho de capital simbólico e credibilidade com a absorção pela liderança soviética do discurso liberal e anticomunista, o uso de conceitos marxistas como explicação do fracasso e irrealismo do mesmo.

O campo soviético e a revista Veja.

Poucos puderam prever a dissolução da URSS. Nesse número podemos citar o literato soviético Almariki – que estabeleceu uma data próxima da realidade, 1984, mas chegou a essa conclusão acidentalmente, por uma análise histórica equivocada, focada em conflitos externos. O Secretário de Defesa Brzezinskiii procedeu ao contrário: acertou a causa do recrudescimento do nacionalismo mas não conseguiu apontar uma data. A revista Veja cobriu o noticiário desde 1968, e até esse momento boa parte de seu conteúdo se dirigia ainda ao cenário externo, como resquício do foco da publicação durante a ditadura, dando lugar gradativamente à temas nacionais, com o abrandamento do regime e a direção de Élio Gaspari. Não fala claramente em dissolução até a vitória de Yeltsin como presidente da RFSS da Rússia, em 1990.



Em 1985 o governo Gorbatchev não se apresentava como fundamentalmente distinto dos seus predecessores. Seu discurso de posse dava atenção aos problemas internos e a necessidade de reformas. Mas esse era a pauta declarada desde os tempos de Brejnev (e reformas liberais ocorriam desde os 100 dias de Bériaiii). Declarava-se como continuador das reformas de Andropov. Suas visitas à fábricas e diálogos com os trabalhadores não eram algo novo. O ancião Tchernenko o fez enquanto pôde. O radicalismo das reformas de Gorbatchev foi se estabelecendo aos poucos, entre 1986 e 1987 (FERREIRA, 1990, 46), quando consolidou a posição dos reformistas (HEWETT; WINSTON, 1991, 86) e criou os programas Perestroika e Glásnost, (GALEOTTI, 1997, 52) e só saiu claramente do controle em 1989. O processo de colapso da URSS e de sua esfera de influência européia ganhou uma dinâmica de auto-aceleração, em parte devido à ações políticas individuais – que em um sistema fortemente centralizado tem uma ressonância muito maior (BROWN, 1996, 307). Apesar das razões estruturais para a dissolução do regime estarem presentes, eram contidas – em um grau cada vez menor – pelas instituições políticas, econômicas, militares e de segurança interna desse mesmo regime. Uma vez que essa tranca foi despedaçada com canetaços inadvertidos (proibição do Partido Comunista depois do Golpe de Agosto de 1991, o cancelamento do Gosplan e do Planejamento Central em 1989, a Doutrina Sinatra de 1989 que alterava o Pacto de Varsóvia, a purga da oficialidade das forças armadas em 1987 e a revogação das antigas leis criminais e civis sem que outras fossem postas eficazmente no lugar (VOROTNIKOV, 1995, 117) a União se esvaiu nas mãos de seus mandatários. O bloco soviético na Europa passava por uma crise profunda nos anos 80 – como Gorbatchev e seus assessores sabiam perfeitamente: crise agrícola, dívida externa, envelhecimento do maquinário e infraestrutura, incapacidade de universalizar as conquistas da 3ª Revolução Industrial, manter a corrida de tecnologia de ponta em informática e genética (para além de cidades universitárias) e a produtividade do trabalho, e principalmente, a derrocada dos preços de commodities energéticas, que sustentavam o orçamento (POMERANZ, 1990, 11-49). O Vietnã passou por guerras seguidas contra a França, EUA, Camboja e China. Na mesma década estava arruinado, e hoje mantém o PC no poder e é uma economia em crescimento. A crise do segundo mundo, enquanto não acrescida do nacionalismo, não significava sua derrocada, que foi caótica, com idas e vindas, ocasionadas também pela indecisão crônica de Gorbatchev entre setores autoritários e liberais, fraturando econômica e politicamente as sociedades da Europa Oriental, com exceção da polonesa (HOBSBAWM, 1995, 460). Esse caráter errático na direção das mudanças no bloco socialista também está presente na revista, uma vez que teve tempo para ponderar e guinadas políticas que explicar. Em monografia anterior pudemos elencar a construção do personagem Gorbatchev em 4 atos distintos, bem como o apagar ou a transformação de antigos heróis em vilões, e vice-versa.

O grande número de teses envolvendo a revista Veja permite até mesmo um julgamento a priori de suas posições quanto a esse processo sem muito esforço (SILVA, 2009, 27). Apesar de umas poucas passagens carregadas com certa nostalgia e de um conforto quanto à estabilidade do continente europeu por 40 anos, em face das guerras civis que irrompiam tanto em áreas mais ricas como em rincões do Lesteiv, características como anticomunismo, neoliberal, inspiração editorial em políticos e sovietólogos anglo-americanos, são um prognóstico quase natural. O que torna essa proposta interessante é o tempo de cobertura, os 6 anos transcorridos entre 1985 e 1991, e a possibilidade de entender o processo de construção dos agentes políticos e de processos históricos como personagens de uma literatura jornalística – já que está mais próxima da literatura, inclusive como modelo de composição do texto, do que de qualquer outra coisa.

Muitas pessoas tomam posicionamento diante de um fato de acordo com a Capacidade analítica no jornalismo. Os diários em geral não se identificam assim. Uma revista semanal como Veja se diz analítica. Ela tem o tempo necessário para reportagens aprofundadas. Ela fez prognósticos para o Leste Europeu diante das tendências que iam se tornando evidentes, após um início tão enigmático e vago como as posições e planos do novo secretário geral do PCUS (GORBACHEV, 1988, 164), seguido de muita incerteza. Entender esses prognósticos constituiria-se numa análise das limitações do jornalismo e de sua atuação sobre seus leitores. As previsões feitas pelos historiadores tem um público bem menor ao de um jornal ou revista. Mas o acerto não é monopólio de ninguém.
“Uma reflexão curiosa sobre a vasta literatura é a de que, até onde sei, ela nunca foi sistematicamente examinada no intuito de avaliar a previsibilidade histórica, embora estivesse e esteja repleta de previsões passadas e presentes (Hobsbawm, 1998, p. 61).”
Um trabalho quantitativo de apostas no futuro feitas por Veja já foi realizado em parte, quanto ao governo Lula (MAKHOUL, 2009, 51). Porém, a carga propagandística e de atrelamento partidáriov é muito maior hoje do que no período da proposta, a ponto da própria revista se organizar inteiramente como balcão de vendas, e não mais como um semanário noticioso com espaços internos para propagandavi. Também não foram investigadas as causas da revista ter chegado as suas projeções futuras. A maioria dos outros trabalhos se encontram nas áreas de jornalismo, comunicação e lingüística.

Hoje ela se declara fonte de autoridade – e é entendida como tal por muitos como um Aristóteles na Escolástica, e se define explicitamente como formadora de opinião e defensora neutra dos interesses nacionais desde sua primeira ediçãovii. Quanto Veja desejava direcionar a opinião de seus leitores naquele momento de elaboração de uma nova constituição? Bem como pacotes contra a crise, greves, inflação, falta de mercadorias e filas, confisco da poupança, ingerência do FMI nos assuntos internos, a busca desesperada por investimentos e empréstimos externos, caos orçamentário, o surgimento das questões ambientais para a opinião pública, de eleições livres, mercado negro, dívida externa, privatizações e abertura econômica – debates também pertinentes ao Brasil da época – bem como questões exclusivas do Leste Europeu, como surgimento de uma opinião pública, Guerra Fria mais real, uma nova posição das sociedades quanto à memória coletiva e à história oficial bem como das identidades nacionais, o medo constante de guerra civil, repressões violentas e golpes de Estado. Mais precisamente:


“No jargão da imprensa, os leitores da revista estão na categoria dos “formadores de opinião”. É gente que, no trabalho, em casa, na escola ou no bar, influencia outros brasileiros com sua visão de mundo. A maneira como VEJA expõe a realidade é, desse modo, reproduzida muito além dos limites de seus próprios leitores (Hernandes, 2001, p. 8).”
Tais temas eram importantes meios para qualquer agente desejoso de construir a percepção política e social de determinados grupos diretamente ou por difusão (LAGE, 1979, 22). O discurso da Veja, com sua dimensão ideológica demarcada, conquistava pontos de apoio ao explicar ao seu modo para o seu público o sentido dessas transformações internacionais que eram também nacionais, pois todo um sistema global bipolar de meio século ruía. É declarar vitória de sua ideologia sobre outra (BLACKBURN, 1993, 216). Formar opinião sobre o colapso do Leste Europeu era formar opinião sobre a situação do Brasil. Carla Luciana Silva aponta que a revista tem disposições neoliberais afinadas com o Fórum Nacional de João Paulo dos Reis Velloso. Os intelectuais membros desse fórum e a própria revista também foram influenciados pela experiência de reforma e abandono do socialismo por um radicalismo de livre mercado imposta quase de imediato (VOROTNIKOV, 1995, 332). A escrita e o envolvimento da revista eram feitas de forma bem mais sofisticada na época do que hoje em dia. A forma de fazer essa aferição é a confrontar a escrita, o conteúdo, as posições e a análise da revista com a obra de historiadores.

Referenciais teóricos.

Se pretendemos analisar a construção do discurso de Veja precisamos confrontá-la com a historiografia. De maneira semelhante a estagnação da China imperial ou a queda de Roma, a historiografia possui muitas correntes de análise e foco diferentes sobre o fim do campo soviético. Porém, concordam em linhas gerais que a ineficiência e rigidez do regime barraram de tal forma sua modernização que entrou em colapso econômico, ao mesmo tempo que eleições permitiam que lideranças anticomunistas (LEVÉSQUE, 1997, 135) chegassem ao poder, como uma reação diante da crise. “A glásnost a fim de forçar a perestroika: deveria ter sido o contrário” (HOBSBAWM, 2007, 310). Obras mais direcionadas para uma cobertura jornalística podem colocar as razões econômicas em segundo plano, diante da crise moral do Partido Comunista, seguida pela da ideologia socialista (ASH, 1990, 146), ou a influência de uma nova mídia sem censura e defensora entusiasta da aceleração das reformasviii – um pesadelo pelas diretrizes do ex-chefe da KGB, Yuri Andropov, que havia recomendado a censura como um dos pilares de sustentação ideológico e político do regime, e para seu sucessor, Vladimir Kryuchkovix. Marxistas clássicos apontam que a saída para a estagnação encontrava-se no aprofundamento das relações produtivas já existentes, criando condições para impulsionar as forças produtivas, e não em seu completo abandonox. Analistas políticos podem chamar a atenção para os objetivos da reforma do sistema e as condições político-partidárias para serem realizadas (BRESLAUER, 2002, 6). Tributaristas e historiadores institucionais podem enfatizar o hercúleo projeto de converter o Estado soviético de proprietário dos bens de produção em coletor de impostos em um welfare state, ou quando participantes desse processo, se eximirem da culpa do fracassoxi. A história militar pode inventariar os custos da Segunda Guerra Fria e o impacto da Iniciativa de Defesa Estratégicaxii. Ou a degeneração de uma economia que funciona por ordens, pela decadência dos quadros do PC ou a cristalização da nomenklatura e a generalização da corrupção (SEGRILLO, 2000, 188). As correntes mais dissonantes pertencem a grupos radicais envolvidos política e ideologicamente, menos preocupados com salvaguardas metodológicas, com o tema. Inclusive porque a perestroika previa uma reconstrução econômica, e a glasnost, moralxiii e espiritualxiv, o melhor referencial teórico seria aquele que consegue conectar os campos materiais e ideológicos: o modelo se tornou claramente ineficiente apenas quando a burocracia se enfeudou em cargos; as reformas iniciadas com Kruschev e as adaptações de Brejnev outorgaram a ela a liberdade de ação – inclusive para não fazer nada, na prática; a crença no socialismo se enfraqueceu com o desfecho da Primavera de Praga, gerando cinismo e oportunismo políticos irrestritos; os meios de pressão do regime para que seu aparato político, burocrático e de mão-de-obra, que constituíam uma economia de mando, funcionasse foram postos de lado; os dissidentes ganharam notabilidade com a assinatura do Tratado de Helsinki e a Cortina de Ferro não barrava mais o contato da população e da economia com o Ocidente (HOBSBAWM, 1995, 365). Hobsbawm, apesar da brevidade, conseguiu abarcar em sua análise quase todos os componentes da crise descritos por outros autores, através do uso do marxismo da New Left.

A Escola Francesa da Análise do Discurso é a mais usada em propostas de análise de texto jornalístico. Ela de adapta bem ao materialismo histórico, às necessidades de análise da construção de discursos e a formação ideológica destes. Seus principais teoristas aproximam esse sistema dos problemas práticos da pesquisa. Segundo a AD, o discurso constitui e não descreve aquilo que é por ele representado. Esta concepção abala a prática jornalística pois, se é assimilada, deixa de reivindicar a imparcialidade ou a neutralidade na passagem do acontecido para o editado, e reconhece a notícia como construção de um acontecimento pela linguagem. Ao mesmo tempo, esta perspectiva enfatiza a tensão inerente ao fazer jornalístico, pois é na "crença" da superposição entre o real e o texto que reside a credibilidade da imprensa (MAINGUENEAU, 1989, 20). Bourdieu, através da teoria dos campos, pode relacionar o lugar da produção social com o lugar da produção simbólica de um discurso, bem como estudar a dinâmica interna de cada campo e suas interdependências. Estipula que o capital simbólico é superior aos demais, por dar sentido ao mundo e transitar por todos os campos. A este capital cabe o poder de fazer crer e é nisto que consiste sua superioridade. O Campo do Jornalismo detém o capital simbólico, pois é da natureza do jornalismo fazer crer, ter ou almejar a confiança do público através do lucro discursivo. Credibilidade tem a ver com persuasão pois, no diálogo com o leitor, valem os "efeitos de verdade", que são cuidadosamente construídos para servirem de comprovação, através de argumentos de autoridade, testemunhas e provas (BOURDIEU, 1990, 167). Para que um discurso seja aceito e incorporado basta que ele vá ao encontro do habitus de quem o recebe. Habitus são esquemas de ação e pensamento que surgem dos condicionamentos sociais – formando os habitus gerais, e da assimilação em partes ou da combinação única desses esquemas por cada pessoa – que são habitus individuais. Constitui o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes (BOURDIEU, 1974, 191). O discurso de Veja é direcionado para classes e grupos que desejam ouvir o que lhes agrada como uma profissão de fé. Para que tenha o efeito a qual se destina ela precisa de um público que comungue com o corpo de suas posições ideológicas. O discurso ideológico serve também para fortalecer os elos culturais internos já existentes de um mesmo grupo. Essas proposições restringem a importância e a influência que a revista divulga a seu próprio respeito. Opinião um pouco diferente surge quando, mais que a ideologia e o discurso em si, se analisa a influência política palpável da imprensa com o conceito de bloco de poder e hegemonia gramsciana. O discurso ideológico dos meios de comunicação e outros aparelhos privados de hegemonia teria a capacidade de se expandir por meio de propaganda, aceitação ou inculcação para outras classes sociais, que não compartilham das mesmas condições econômicas e sociais da determinada classe que construiu esse discurso. Que podem ter interesses orgânicos diferentes ou antagônicos aos professados por tal ideologia. Também pode unir grupos e classes com interesses semelhantes, mas divididas ideologicamente – ou uma mesma classe, porém pulverizada em seus interesses imediatos em torno de um consenso de uma visão de mundo que se tem por verdade concretaxv, que legitima como naturais o funcionamento de uma sociedade, ou o funcionamento ideal, quando alicerça um programa de reformas liberais, que permitiriam a economia tomar seu rumo natural para além das travas legais, sindicais e governamentais, por exemplo. A revista opera como uma fonte de aglutinação de grupos sociais e políticos em torno das posições neoliberais, num momento em que estas eram apenas uma das posições que frações destes mesmos grupos seguiamxvi. O nacionalismo econômico, que poderia ser interessante para amplas faixas do empresariado, estava longe de se tornar marginal.
“A revista teve papel privilegiado na construção de consenso em torno das práticas neoliberais ao longo de toda a década. Essas práticas abrangem o campo político, mas não se restringem a ele. Dizem respeito às técnicas de gerenciamento do capital, e à construção de uma visão de mundo necessária a essas práticas, atingindo o lado mais explícito, produtivo, mas também o lado ideológico do processo (Silva, 2009, p.32).”
A importância de Veja como veículo ideológico protagonista na consolidação da hegemonia do pensamento neoliberal entre as classes A e B, modificou-se com o tempo. Teve muito mais êxito em construir uma memória de agente importante na derrubada de Collor – após um período de ambiguidade - (SILVA, 2009, 52) do que sua tentativa real e recente de derrubar Lula (MAKHOUL, 2009, 32). Talvez tão importante quanto isso seja seu papel silenciador. O conceito de campos, além de significar o espaço emblemático onde o poder simbólico é disputado, também tem conotações mais concretas, como um ambiente de luta concreta entre agentes. E o ambiente editorial é um local de disputas em torno da matéria, ou ao menos a produção de algo diferente do que os repórteres de campo imaginavam após coletar dados (HERNANDES, 2001, 29), mesmo seguindo a pauta e preenchendo material de acordo com o roteiro encomendado e imposto pela direção. A visão do jornalista é comprimida ao máximo, inclusive pera re-elaboração de seu texto pelos editoresxvii, escapando desse destino apenas alguns jornalistas mais conceituados, enquanto não criarem tensões que terminem em dispensas.

Como fontes auxiliares usaremos uma historiografia diversificada sobre o processo de implosão do campo soviético, mas concentrada em Hobsbawm e Thompson, que retrata a Guerra Fria de uma maneira bem diferente da de Veja entre 1985 e 1987 (THOMPSON, 1985, 30), inclusive quanto ao mérito de quem a encerrou. Para a construção jornalística dos personagens, principalmente Gorbachev, serão necessárias uma detalhada biografia, como a visão positiva de Brown, um comparativo entre ele e Yeltsin, feito por Breslauer, e os livros escritos pelo secretário do PCUS, explicando suas ideias. Para o cotidiano da edição, a tese de Nilton Hernandes. Para a visão de um jornalista independente da direção, a narração de José Arbex. Sobre a manipulação da notícia usaremos um guia com os principais mecanismos usados pelas redações, presentes nos livros de Ciro Marcondes e Nilson Laje. Como esses autores apontam, reportagens feitas com material inexistente não é coisa tão incomum na imprensaxviii, bem como manipulações e falsificações sobre o material recolhido pelo pessoal de campoxix. Boas análises foram feitas ao mesmo tempo em que a ação se desenrolava. Como se comporta o desempenho de Veja diante delas? (DIAS, 2009, 40-49). Pode-se fazer boas e influentes análises históricas, ou jornalismo, em um tempo limitado e em meio aos acontecimentos (NORA, 1991, 49). A metodologia da análise do discurso deve se fundar sobre a realidade material que o tornou possível. Para análise de textos contendo o discurso da revista, também são usados os métodos de análise lingüísticos, semânticos e semióticos. No período delimitado, a grande maioria das reportagens não constavam os autores, tento a edição como produtora. Apenas reportagens especiais e feitas por enviados especiais possuíam autoria.

A crise do centro do socialismo levou à revisão dos fundamentos teóricos de movimentos sociais e políticos. É um dos fatores do refluxo de poder e presença políticos das esquerdas clássicas nos anos 90. Esse refluxo no Brasil dá margem à criminalização dos movimentos populares por parte da mídia (SILVA, 2009, 123).

Resultados até o momento.

Em monografia mostramos que ao invés de usar trabalhos de historiadores, cientistas políticos, sociólogos ou qualquer outro analista tido como confiável e referencial, para caracterizar o socialismo real ou a derrocada do Leste, ela usou de meios mais digeríveis ao seu público e ao seu propósito de formar opinião: literatura (Orwell), cinema (maniqueísmo entre bem e mal absolutos) e noções de políticos como Ronald Reagan (inferioridade material e moral do socialismo). Um jornalismo enquanto literatura. Um material bem acessível e assimilável para a classe média que tem Veja como fonte de autoridade. A Romênia era como a Oceania de 1984, com Ceaucescu e uma Securitate onipresente e onisciente mediante seu sistema de câmeras em cada residência, que demandaria boa parte da população economicamente ativa do país para seu funcionamento. A descrição do regime segue o roteiro das primeiras páginas do romance. Em meados dos anos 80 a situação era bem diferente de 1989. O foco da revista não podia ser a dissolução do bloco, pois isto era impensável. Tampouco a crise econômica para além das filas, uma vez que os cartões de racionamento, que o país não via desde o fim dos anos 40, logo depois da Segunda Guerra (e que a Inglaterra do conservador Churchill usou até o fim do conflito) só passaram a ser aplicados no fim de 1989. A revista não teria bases mínimas de realidade para poder tecer o discurso de 1990 em 1985. Pelo contrário. Apostou mesmo na capacidade econômica e científica do regime sustentar a corrida armamentista da Segunda Guerra Fria e seguir, com um atraso de poucos anos, as conquistas em tecnologia bélica feitas pelos Estados Unidos, como sempre havia logrado até então, por mais negativos que fossem os prognósticos emanados da Casa Branca. Isso valia inclusive para a IDE (Veja, 28/08/1985, 58). Em 1985, o grande foco são os conflitos da Guerra Fria no Terceiro Mundo, e, principalmente, a espionagem. Antes de Orwell, seu modelo de redação estava em Ian Fleming e John le Carré e suas ficções. Isso não exclui o uso de especialistas, como no desmantelamento da rede de espionagem soviética ligada ao chefe da contraespionagem da Alemanha Ocidental, um agente duplo (Veja, 28/08/85, 54). A revista personifica e romantiza a realidade num quadro para Rambo ou 007.

O uso de especialistas é mais restrito às tentativas de prognósticos feitos pela revista. A escolha desses fica evidente pelo caráter de seus comentários e previsões – nunca entram em conflito com a postura da revista. Não há assessores militares soviéticos para comentar a campanha no Afeganistão ou as ações promovidas pelos Contras, mas há analistas americanos para ambas as questões, tangentes aos dois sistemas. Esse uso do saber técnico está de acordo com a análise estrutural do jornalismo midiático feito por Bourdieu em Sobre a televisão – se trata de um reforço autorizado das posições do próprio meio de comunicação que convidou determinado pesquisador sério e devidamente alinhado com essas posições. Serve, portanto, como mantenedor da ordem simbólica, das explicações oficiais para fenômenos políticos, sociais ou econômicos. A auto-censura ou a chamada explícita à ordem dos entrevistados não teve lugar na questão do colapso do socialismo real, pois não existiu espaço nas páginas amarelas para as vozes discordantes, ao contrário de secretários americanos.

Outra fonte de prognósticos, além do caso das entrevistas e explicações dadas por técnicos autorizados, é o modelo do jornalismo também citado por Bourdieu: o mimetismo, um intenso plágio da pauta dos outros jornais, e de suas informações – num meio cheio de empresas, todas tem o noticiário do dia idêntico, modificando-se apenas a ordem de apresentação do que foi considerado notícia no dia. Assim tanto a Folha de São Paulo, com matéria escrita por Paulo Francis (Folha de São Paulo, 12/03/1985, 23), como Veja (Veja, 20/03/1985, 62), concordam, logo após sua posse, que Gorbachev era um líder tecnocrata e um reformador moderado, que retomaria o projeto de reformas de Andropov e de Kossygin, ou seja, reformas não estruturais, porém com uma renovação de quadros e das instituições – uma mudança de estilo mas não de fundo. Nisso, ambos os editoriais concordaram com a grande maioria dos analistas ocidentais (BROWN, 1996, 4).

As predições de Veja sempre foram pessimistas quanto ao futuro do poderio econômico e militar soviético? Como demonstrado acima, não havia qualquer tendência nesse sentido. Mesmo quanto a uma possível vitória no Afeganistão. Detalha a luta dos mujahedins financiada e equipada pela CIA, mas vê um futuro de inequívoca incorporação a longo prazo do território afegão ao campo soviético, através da criação de vínculos firmes de dependência com a limítrofe URSS, na forma de gasodutos, mineração e ferrovias, além da educação da elite afegã em Moscou e da progressiva sovietização da sociedade. Porém não atribui esse prognóstico a qualquer analista, ao contrário, como um desfecho contrário às esperanças da “opinião pública internacional” (Veja, 09/01/1985, 37). Mas passaram a ser pessimistas desde o inicio de 1989: as manifestações no Leste e na China terminariam em banhos de sangue. O acerto quanto ao caso chinês não deixou de manifestar certa euforia dos editores quanto a suas capacidades analíticas quando Honecker usou tropas de choque, antes de ser deposto. O ano de 1990 é varrido de ponta a ponta pelos prognósticos de golpe militar iminente – que são paulatinamente esquecidos a partir da união temporária de Gorbachev com os conservadores, no fim do mesmo ano. O golpe por fim se deu quando não era mais esperado, ou no mínimo iminente, na imprensa. Um caso interessante se dá com a queda do Muro de Berlim. Na mesma semana Veja já indica com veemência que esse era o começo do fim da experiência socialista, e, mais do que uma mera vontade ideológica, se baseava em não ter sido na prática uma concessão governamental (apesar de toda a confusão provinda da leitura das novas regras de viagens por Schabowski) e sim do caos instalado e em seu efeito dominó. Uma parte dos analistas, mesmo diante do total descontrole da situação, ainda acreditavam num retorno à situação de antes da construção do muro, ou da sobrevivência do sistema no Leste e na URSS sob uma forma mais desideologizada. Mesmo parciais e falhas, essas previsões foram mais realistas do que a de alguns intelectuais adeptos da Terceira Via, que viram na queda do Muro como a oportunidade para sua implantação e não uma vaga de anti-socialismo.

Os discursos neoliberal e anticomunista antes de 1987-89 primavam pela retórica da liberdade contra o totalitarismo, mas a partir desse período eles passam a ser também o da modernidade contra o atraso, o da eficiência contra a falência, do consumo contra o racionamento, e da teoria marxista como dogmatismo cego e contrário à realidade direção objetiva da História – todas novas conotações que não existiam até aquele momento. Em 1957 Kruschev não sem razão previu que, dado o ritmo econômico, até 1980 a riqueza gerada pelo sistema socialista seria maior que a do capitalista, o que também foi considerado de uma maneira séria pelo primeiro-ministro inglês Harold Macmillan (HOBSBAWM, 1995, 19). Nenhum crítico sério afirmaria que o sistema era ineficiente ou incapaz de concorrer com o capitalismo. Mais que isso: o consumo, por mais problemas que existisse com o abastecimento, passou a receber a atenção dos planejadores depois da derrota definitiva do grupo anti-partido. Esse quadro mudou a partir de 1988-89. A Lei de empresas estatais, o cálculo econômico e o auto-financiamento entraram em choque com a transmissão do controle econômico da União para as repúblicas. Ocorreu a revolta dos ministérios. A produção e o plano caíram na desordem de esferas de poder mal definidas. O 12° plano foi abolido. O racionamento imposto (POCH-DE-FELIU, 2003, 131-132). Mas cada fundamento do sistema que era destruído, ao contrário das expectativas dos reformadores, não significava o preenchimento natural e imediato da demanda pela oferta do mercado. A imagem do regime, construída pela própria cúpula do PCUS, como o chefe da ideologia do Partido, Yakovlev, era de sua situação atual, e não a de cinco anos antes.



Para a cúpula do próprio Partido Comunista, o socialismo real, ou comunismo, era cada vez mais, além do que se vivenciava em 1989-91, um conjunto de retalhos escolhidos a dedo: o terror vermelho de 1918-21 e a Grande Purga de 1936-38 – um grande desvio para fora da civilização e do desenvolvimento, ou “setenta anos de comunismo para nada” (YAKOVLEV, 1991, 71). Além de constituir uma fórmula certa para a degeneração econômica, era também para o totalitarismo. O esforço ideológico e de releitura da história para transformar o PCUS em um partido social-democrata e derrotar moralmente os conservadores teve repercussões significativas para o discurso jornalístico liberal. Ele pôde absorver essa construção retórica da falência natural do socialismo real tendo por base a “visão des-historizada e des-historizante, atomizada e atomizante” (BOURDIEU, 1997, 140) característica de todo o ambiente jornalístico. Mas pode-se perguntar se esse é um processo tão estrutural e despido de voluntarismo, das decisões tomadas no gabinete dos editores, como o autor faz crer. O ganho de capital simbólico, de credibilidade jornalística, de persuasão para o discurso neoliberal ou neocon, para os meios de comunicação como Veja, ao ver que sua pregação não só estava sendo aceita pelo rival ideológico, mas vinha com detalhes e um teor tremendamente mais negativo e destrutivo do que qualquer redator com um mínimo de seriedade havia sido capaz de produzir, foi enorme. Por décadas havia acusado o socialismo de totalitário, cheio de privilégios, desiquilíbrios econômicos e de não existir o império das leis. Agora era revelado por ninguém menos que a própria liderança que este também estava quebrado, que o marxismo era uma venda e não um apurado óculos analítico, que se deseja adotar o livre mercado, as privatizações, a iniciativa individual, o lucro, por serem naturalmente superiores ao centralismo, ao estatismo, à estabilidade do emprego, ao igualitarismo, à coletivismo. Que o próprio leninismo, tão caro à cúpula entre 1985 e 1989, estava sendo abandonado. Mesmo a retórica de que “não há outros caminhos” fora do livre mercado passou a pertencer também a Gorbachev, tão cedo quanto 1988 (KAGARLITSKY, 1992, 14). Para Veja e para a imprensa em geral, tentar suprimir as vozes internas discordantes do neoliberalismo através desse cenário externo, e promover o descrédito e a desmoralização para todo o espectro da esquerda política pelas próprias ações que se desenrolavam na pátria do socialismo, era o movimento mais que lógico, como deixa claro também já no ano de 1988, em entrevista com Guilhermo O’Donnell (Veja, 13/07/1988, 8). Gorbachev, afirmando seguir o método leninista de transformar pontos de fraqueza em posições de força, apoiou e permitiu a abertura de vários arquivos do regime e favoreceu a revisão histórica em curso. Segundo ele, o socialismo não deveria temer revelar seus erros. A repreensão e autocrítica severa ao Partido, à ideologia oficial, ao sistema e a suas histórias a partir de dentro, obrigatoriamente desarmaria o discurso anticomunista ocidental. Por isso deveria-se conduzir uma crítica mais sistemática e pesada “do que jamais o Ocidente sonhou em fazer” (GORBACHEV, 1988, 147-148). Se esta era uma ideia sincera ou uma ferramenta para a purga dos conservadores e a consolidação da posição dos reformistas é discutível. Mas o impacto real na mídia conservadora e neoliberal no Ocidente (e a que surgia como radical, neoliberal e autoritária no Leste) é certo. Ela se viu armada de argumentos que antes pareciam mocos ou que constituíam um acessório ao grande embate liberdade-totalitarismo, mas que, repetidos a décadas e agora validados, tiveram o impacto de fortalecer e muito a credibilidade desse mesmo jornalismo, de eleva-lo ao status de verdade absoluta. Afirmações reformistas como as do ideólogo Yakovlev:
La revolución socialista no sólo no mejoró la vida de los trabajadores, sino que en todas partes, incluida la Rusia soviética, provoco una catastrófica caída del consumo y la total escasez, particularmente denigrante para los sectores más pobres de la sociedad y para el conjunto dos trabajadores. La socialización de los medios de producción condujo irremisiblemente a la enajenación de los obreros y campesinos con respecto a sus medios de vida y trabajo. Lo que ocurrió en los países socialistas no tiene precedentes ni en el feudalismo ni con el capitalismo. La dictadura del proletariado no liberó a la gente, sino que la esclavizó (POCH-DE-FELIU, 2003, 73).
Qual o impulso para Veja? O de rebater a seus críticos ao afirmar que, o que era uma antiga retórica sua e da imprensa burguesa, um exagero ou pura invenção sensacionalista e política era a verdade. Não existe neoliberalismo. O que existe é o caminho certo e becos sem saída. Serviu como as bases fundamentais para a escalada consistente do discurso neoliberal no fim dos anos 80 e 90. José Boaventura estipula que este se deu pelo acirramento das campanhas políticas no Brasil com a redemocratização e as vésperas das eleições de 1989. Reagan e os conservadores estavam empenhados na contenção da atração do socialismo reformado, da gorbimania e de seus impactos sobre a política externa americana. O capital estrangeiro e os setores da burguesia nacional mais conectados a ele exigiam um discurso propício as privatizações, o livre trânsito do capital, a não ingerência estatal e do combate à inflação pela recessão, segundo Carla Luciana Silva. Esse impulso começou em março de 1986 com o XXVII Congresso do PCUS e sua crítica demolidora a cada esfera da vida, do partido e do sistema soviéticos – sempre precedidos por uma pequena introdução louvatória segundo o protocolo antigo, que acabava negada ou com sentido ambivalente logo em seguida. Gorbachev virou um ícone de líder moderno para Veja. Mas essas posições mudariam com as mudanças efetuadas pelo próprio Gorbachev. Após a publicação de Glasnost e Perestroika no fim de 1987, se esperava uma profunda censura à história do país, seguindo a revisão em andamento, com o tradicional discurso do Grande Outubro. Mas este foi protocolar, ameno e “controvertido” (Veja, 11/11/1987, 44). A figura de Gorbachev, sua liderança e a perestroika, apresentaram uma sequência de fases alternantes em Veja, pelas suas próprias contradições, movimentos de vai-e-vem e ambiguidades. Brown destaca três fases na avaliação de Gorbachev perante o Ocidente: a primeira vai de 1985 a 1987, em que era visto como um líder com um novo estilo. A segunda fase vai de 1987 a 1989, onde passa a ser um grande reformador, ou, como o autor definiria mais precisamente adiante, um “líder transformacional” (BROWN; SHEVTSOVA, 2004, 19). A terceira fase vai do fim de 1989 a 1991, em que Gorbachev é visto primeiro como um peso e depois como um obstáculo as transformações radicais (BROWN, 1996, 4-6). Para Veja, entretanto, a liderança de Gorbachev teve cinco estágios nítidos apenas para o período a partir de 1989: no primeiro ela faz coro as posições neoconservadoras nos EUA, apontando para a reversibilidade das reformas, para o banho de sangue que se aproxima com a inevitável repressão as manifestações e movimentos sociais, para a vitória que Reagan impôs a Gorbachev com os tratados INF, com a perda de popularidade enfrentada na URSS, pela crise econômica generalizada no Leste Europeu e na União Soviética. É o momento em que a gorbimania e o socialismo à Gorbachev precisam ser controlados. As reformas são impossíveis, a paz obtida pode ser passageira. Gorbachev não triunfaria, além de ser um possível embusteiro, um lobo em pele de cordeiro. A segunda fase se dá entre a queda do Muro de Berlim e o fim de 1989, a mais curta de todas. Gorbachev montou um programa fracassado, irrealizável e pagou o preço político por isso. A terceira fase começa com o próprio ano de 1990. É o momento que Yeltsin é o chefe de fato da mais importante república federada e que Gorbachev se senta a mesa para juntos – ou melhor, seus assessores econômicos – formularem um plano de privatização em massa e de adoção da terapia de choque como única esperança nacional. Mesmo aí Gorbachev mostra seu caráter indeciso, postergando o plano que previa a conversão da economia estatal da URSS em uma economia de mercado neoliberal, de 300 dias para 500 dias. Essa é a fase com a visão mais positiva para a revista e um verdadeiro modelo – especialmente para o Brasil – também se destaca pelo início das propagandas de empresas sediadas em solo soviético em suas páginas. Do retorno da Smirnoff à venda dos ladas da Avtovaz – este último, com ninguém menos como garoto propaganda do que o próprio Gorbachev. Como político, era interessante que a pergunta “você compraria um carro deste homem?” tivesse uma resposta mais positiva do que a que Nixon recebeu nas urnas diante de Kennedy. A quarta fase compreende o fim de 1990 e o início de 1991. É o movimento de reação de Gorbachev, de sua aliança com os conservadores, como busca da governabilidade e da ação da linha dura para conter a desagregação do país. A revista destaca os poderes de “super czar da reforma” obtidos com o novo cargo de presidente da URSS e a manutenção da secretaria do PCUS. Dá eco as acusações de corrupção na chefia do país feitas por políticos neófitos. É o momento em que Gorbachev está “irreconhecível” (Veja, 26/12/1990, 40-42). A quinta e última fase começa antes mesmo do golpe de agosto de 1991, logo após a metade do ano. Para Veja, Gorbachev está visivelmente perdendo terreno e poder para Yeltsin. Este passa a ser o principal personagem. A dissolução final do país e a tomada do poder por Yeltsin, já apontadas como um desfecho plausível, ganham o caráter de previsão 100% assegurada após o fracasso do golpe de agosto e do sucesso da revolução do povo nas ruas, ou mais realisticamente, do gontra-golpe vitorioso de Yeltsin.

Uma das formas de descrédito usadas pela revista e de fortalecimento de sua retórica foi o emprego de conceitos e expressões marxistas para explicar o próprio fim do regime baseado em seus princípios. Uma grande ironia da história. Frases como “lata de lixo da história”, “a história se repete, uma vez aparece como tragédia e outra como comédia”, “as forças produtivas se desenvolveram a tal ponto que não tinham mais espaço nas relações de produção, que precisaram ser rompidas pela revolução” – explicação que também aparece em Hobsbawm (HOBSBAWM, 1995, 481), “tudo o que nasce traz dentro de si o germe de sua própria destruição” – frases incorporadas à língua comum que porém ganham um significado determinado e dirigido na construção discursiva, ou a inversão de tudo o que o marxismo previu, como o proletariado e sindicatos em greve geral e luta aberta contra o regime do país dos trabalhadores, a derrota final do comunismo frente ao capitalismo, luta de classes, ditadura do proletariado, liberação das forças produtivas, etc. Usou largamente a corrente de pensamento que queria desabonar, como incapaz de perceber a realidade, para explicar, com um ar de escárnio, as raízes do processo de dissolução do sistema político e econômico surgidos ou que se acreditavam seus herdeiros – essa mesma realidade. Se antes a inculcação da repudia ao socialismo se fazia através do medo, agora se fazia através da zombaria. Não se pode atribuir muitas destas posturas como surgidas nos gabinetes dos editores e nas mentes dos donos e clientes publicitários de Veja. Ela abocanhou ideias que surgiam a sua volta, que constituíam ondas de comportamento na imprensa em que se inspirava e recebia informação e que se mostravam proveitosas a construção de sua visão de mundo, de especialistas, de políticos, de ideólogos, de piadas que surgiam nas ruas e nos bares – e que antes ficavam limitadas a estes, mas agora ganhavam os holofotes. Algo para se rir e não para se temer. Piadas sobre a vida política e cotidiana são uma tradição russa, a anekdot, e elas passaram a fazer parte do arsenal de estratégias anticomunistas desde que essa ideologia apareceu. Mas a primeira vez que apareceram com força no discurso político talvez seja nos discursos de Reagan. Mas só elas não podiam cumprir seus objetivos. O ódio, a demonização, o perigo iminente precisavam ser arregimentados e vinculados. Isso acaba em 1990.



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