Cristina Aparecida Reis Figueira Pontifícia Universidade Católica – puc/ São Paulo Introdução



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A TRAJETÓRIA DE A LANTERNA – ANTICLERICAL E DE COMBATE (1901-1917): UM LUGAR DE MEMÓRIA DA PROPAGANDA SOCIAL ANARQUISTA

Cristina Aparecida Reis Figueira - Pontifícia Universidade Católica – PUC/ São Paulo

Introdução

Este texto é um desdobramento de minha dissertação de mestrado, intitulada: O cinema do povo: um projeto da educação anarquista (1901-1921) defendida em abril de 2003, no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade na Pontifícia Universidade Católica em São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Carlos Barreira. Nela o jornal A Lanterna1, foi utilizado como principal fonte de pesquisa para a análise das críticas, das prescrições e dos usos do cinema no projeto da educação anarquista e libertária.

No presente estudo, esse jornal é tomado como objeto de investigação, no período compreendido entre 1901 e 1917, tendo como objetivos específicos, apreender alguns dos aspectos de sua constituição, como as estratégias e táticas para a consecução da propaganda social anarquista, apresentando ao leitor, alguns dos significados atribuídos a ela por alguns de seus articulistas. Na análise desses significados, será possível observar as práticas utilizadas pelo jornal como dispositivos para a sua sustentação e circulação em diferentes cidades de São Paulo e em outros estados do Brasil. O objetivo geral do texto é, a partir de uma reflexão sobre imprensa operária - mais particularmente a anarquista -, contribuir com uma determinada tradição de pesquisas que se voltam para a reconstituição dos projetos e modelos educacionais não-institucionalizados.

Portanto, pretendo apresentar alguns dos resultados da pesquisa em curso, indicando alguns aspectos do funcionamento de A Lanterna, como um periódico repleto de elementos significativos no processo de lutas e embates entre os vários modelos educacionais em circulação nas duas décadas iniciais do século XX. O texto será dividido em tópicos. No primeiro, relato sucintamente os procedimentos adotados na pesquisa, informando sobre alguns conceitos presentes em meu olhar no processo de seleção, organização e analise das fontes. Nos seguintes, após tecer alguns comentários sobre a imprensa operária do período, focalizo sentidos e filiações da propaganda social ácrata.


O olhar para as fontes de pesquisa


No trabalho com a pesquisa, elaborei um banco de dados classificando o material coletado em séries, cujo principal critério de ordenamento deu-se a partir dos títulos dos artigos e de algumas colunas de A Lanterna. A classificação dos artigos coletados deu-se por palavras-chave, tais como, “cinema burguês”; “cinema da Igreja”; “cinema do povo”; “teatro católico”; “teatro anarquista”; “trajetória de A Lanterna”; “Diversões”; “Propaganda Social”; “Escolas Modernas”. Essas matérias foram digitadas, resumidas, comentados, ficando parte delas destinadas a este texto.

Para o trabalho de análise e diálogo com as fontes, fiz uso de um importante pressuposto do historiador italiano Carlo Ginzburg, segundo o qual as fontes precisam ser vistas a partir de dentro (2001, p.154) e mesmo quando não são objetivas, não são inúteis, ou seja, ainda que com um corpo documental esparso ou escasso, os indícios devem ser considerados para a configuração de evidências a serem interpretadas (1989, p.XVII). Essa premissa foi de extrema importância, principalmente frente à constatação de ser a imprensa uma das poucas possibilidades de reconstituição de modelos da educação popular concomitantes àqueles que foram fartamente registrados na História da educação brasileira.

O conceito de lugares de memória, elaborado por Pierre Nora (1993), foi também de grande valia para a abordagem das fontes de pesquisa. Segundo o autor, os “lugares de memória”: “nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, que é preciso manter aniversários, criar arquivos, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebre, notariar atas, porque essas operações não são naturais” (p.13).

Reconhecendo o periódico em estudo como um lugar de construção dos objetos da memória anarquista e libertária, um lugar em que os militantes, simpatizantes e colaboradores do periódico falam por si; constatando em seus discursos férteis possibilidades de reconstituição dos vários projetos da educação popular formal e não formal a pesquisa pode contribuir para trazer a tona alguns dos silêncios da história2.



A imprensa operária na modernidade paulistana

A imprensa operária começou a ser criada no Brasil no final do século XIX, atingindo consistente organização nas duas primeiras décadas do século XX. Para o seu desenvolvimento contou com a forte presença da militância anarquista (entre outras correntes de esquerda), e também com a participação de um elemento imprescindível à sua organização, o profissional gráfico. Segundo Maria Nazareth Ferreira, "estes profissionais, pela exigência de sua atividade, eram alfabetizados, de forma que desenvolveram e utilizaram o jornal com infinitos resultados positivos" (Ferreira, 1978, p.14).

A imprensa, em suas novas ações publicitárias, invadiu a cidade com artigos, crônicas, charges, músicas, fotografias, anúncios do cinematógrafo, demarcando um campo de disputas para a conquista dos corações e das mentes. Era a nova imprensa na modernidade paulistana.

Dessa nova imprensa ilustrada, A Lanterna é um jornal da perspectiva das classes populares, constituindo-se em um ótimo exemplo dessa nova linguagem. Desde o seu primeiro número há em suas estratégias editorias os recursos da charge, (sátiras aos seus alvos de oposição- Igreja, Estado, sociedade burguesa...), os jargões populares, letras de músicas são aspectos que denotam um caráter moderno em sua composição. Além de defender projetos para a educação formal, como, por exemplo, as escolas modernas, A Lanterna constituía-se em um fértil espaço de circulação de outras práticas educativas que configuravam uma educação não formal.



A propaganda social

As ações dos sujeitos do movimento anarquista e libertário para alfabetização, a reflexão crítica sobre as condições de vida e de trabalho na sociedade capitalista, a tarefa de pensar os parâmetros para a formação do homem novo e para a nova sociedade, eram, em seu sentido mais amplo, denominado de propaganda social. Entre as atividades nela incluídas, estavam a organização dos centros de estudo, do teatro social, de festas com música, com quermesses, bailes, o projeto de criação do cinema do povo3 e a constituição de uma comunidade de leitores. Para divulgação de todas essas ações da propaganda social o jornal operário era o principal veículo, um instrumento educativo por excelência.

Todas essas práticas promoviam vínculos sociais entre os seus participantes que se construíam nas idas ao teatro, nas leituras coletivas dos jornais, opúsculos e livros, nas festas em benefício deste ou daquele grupo, nas atividades das escolas modernas4 mantidas pelo movimento, enfim eram essas a práticas que constituíam o exercício da propaganda social.

É necessário salientar que o termo “propaganda”, com o avanço do modo de vida capitalista, passou a ser sinônimo de estratégia para a venda, para a publicidade de qualquer mercadoria. Porém, o significado dele, para muitos articulistas do jornal, definitivamente não era esse. Estava muito próximo do que entendemos hoje por ato educativo. Para os militantes, simpatizantes e colaboradores de A Lanterna, estava claro que educar no meio burguês era um ato de combate. Tanto a educação religiosa, como aquela sob a égide do Estado significavam o domínio das consciências. Assim, utilizavam-se da propaganda social como um importante dispositivo contra todas as práticas de inculcação ideológica burguesa.

Para os anarquistas e libertários a propaganda social significava principalmente a ação de travar o debate público para a formação de consciências autônomas, críticas, libertárias. Sem ela seria impossível a formação do homem novo, livre, autônomo, crítico e sujeito ativo na suplantação da velha pela nova sociedade a ser criada. Portanto, o que hoje entendemos por educação crítica, guardadas proporções de tempo, espaço, perspectiva de classe – sem transposições de realidades e de temporalidades, era para os sujeitos do movimento, militância, ações direcionadas à propiciar um movimento de idéias para a formação das consciências. Essa formação teria que ocorrer processualmente, sem nenhuma imposição, ou coerção, uma vez que era necessário transcorrer pelo livre pensamento, pelo pensamento de cada indivíduo. A título de exemplo, algumas práticas da propaganda social, podem ser conhecidas no artigo a seguir:
A PROPAGANDA

O nosso prezado amigo Dr. Antonio Pinto de A . Ferraz, escreve que achava muito útil a propaganda que encetamos:

1º - Que a Lanterna publicasse uma descripção minunciosa das tortura da Inquisição, acompanhada de gravuras explicativas;

2º - Que publicasse em folhetins dois seguintes romances:

a-) Na 1ª página – O Frade – pelo padre;

b-) Na 2ª página – A Freira no subterrâneo, 4º volume, por Camilo Castelo Branco;

3º - Que reproduzisse os excellentes folhetins do Dr. Bertholdi, que já não se encontram mais em nosso meio litterario.

4º - Que organizasse uma lista alphabetica de obras anti-clericaes e que a publicasse, em todos os números, na primeira columna da primeira página, declarando, à margem, o preço aproximativo de cada uma d’ellas, e promptficando-se a mandar vir da Europa ou dos Estados Unidos quellas que não se encontram nas livrarias de S. Paulo ou do Rio. Por este serviço poderia cobrar uma pequena commissão que poderia ser aproveitada em benefício do jornal.

5º - Que promovesse em São Paulo representações freqüentes das seguintes peças theatraes:

a-) Molière – O Tartufo.

b-) Antonio Ennes – Os Lazaristas(...)

Do producto desses espectaculos, si fosse possível, tirar-se ia uma porcentagem em benefício do jornal como trabalho de passar todos os bilhetes para que sempre houvesse enchentes – Nos intervallos far-se-iam discursos anti-clericaes e espalhar-se-iam do alto das galerias, annuncios de livros (...) (A Lanterna, nº 02, 06/04/1901, p.1)


Neste artigo a prescrição de livros, de folhetins e de gravuras aparecem como aspectos constitutivos da propaganda social, na maioria das vezes, indicando a preocupação em gerar recursos financeiros que garantissem a continuidade dessas ações, até pelo fato de A Lanterna nesse período ter distribuição gratuita.

Na organização do teatro social e atuando na imprensa era marcante a presença de intelectuais, alguns exilados políticos, que no conflito capital x trabalho, no movimento da vida cotidiana entendiam muito bem a importância das ações solidárias, principalmente entre aqueles que estavam na mesma situação: a de viver e de trabalhar em outro país. Nesta realidade, os sujeitos participantes das várias correntes do movimento anarquista julgavam necessária a militância para que as ações da propaganda social permitissem a um número cada vez maior de pessoas ter acesso às doutrinas, às obras de uma literatura contestadora dos valores da sociedade opressora, às idéias de construção de uma sociedade nova.



Os articulistas de A Lanterna

Nas publicações anarquistas, são notadas orientações de condutas a serem seguidas pelos trabalhadores operários e seus filhos. Tais orientações, com um sentido marcadamente educativo, apareciam constantemente nas linhas dos vários jornais da imprensa operária. Em geral, eram escritas por militantes, simpatizantes, colaboradores, sujeitos envolvidos no movimento anarquista e libertários, com diferenciados graus de inserção.

Em seus posicionamentos, muitas vezes observam-se posturas que fazem lembrar a elite letrada5 do período, marcada principalmente pela herança da tradição iluminista e pelo positivismo Comtista tão em voga no início da República Brasileira. A crença desmedida no progresso social, no evolucionismo darwinista, na higiene, na instrução como a redentora de todos os problemas sociais eram idéias que circulavam entre os vários projetos existentes. Porém, essas filiações, para os articulistas de A Lanterna se somavam às doutrinas anarquistas e do livre pensamento. Nessa justaposição de influências foi possível perceber vários posicionamentos, indicando resistências, tolerâncias, acomodações, desdobramentos do processo de circulação idéias e de lutas entre os diferentes projetos sociais do período.

Com a ação da propaganda social a apatia, a passividade do trabalhador frente as injustiças sociais deveriam ser reações combatidas. Em contrapartida, eram prescritas outras práticas direcionadas à construção da nova sociedade e do novo ser social, autônomo, crítico e combativo. Nesta direção, seus atores compreendiam ser necessário formar uma comunidade de leitores. No Brasil o processo de criação de um sistema de ensino é relativamente recente. Os imigrantes quando aqui chegaram para trabalhar encontraram uma população que possuía pouca ou nenhuma instrução. Somente os filhos das famílias mais abastadas podiam freqüentar as poucas escolas existentes. Nesse sentido a fundação dos primeiros núcleos operários que deram origens aos sindicatos, além do interesse de congregar os trabalhadores em um sindicalismo forte, pretendia também criar condições para a alfabetização de adultos e crianças6.



A constituição de uma comunidade de leitores

Entre os leitores de A Lanterna, assim como ocorria com os outros jornais, estavam aqueles que dominavam a leitura e a escrita, aqueles que nem sempre conseguiam dominar a escrita e aqueles que se apropriavam da leitura pela audição, sendo capazes de reproduzí-la a seu modo. Era pela leitura coletiva em voz alta que as dificuldades com o analfabetismo da grande maioria da população procurava ser equacionado. O incentivo de condutas que contribuíam para a ampliação de sua circulação era uma constante. Para conhecer a dimensão dessas práticas, apresento o artigo “Semear e colher” que elucida prescrições de conduta para leitor de A Lanterna, vejamos:


SEMEAR PARA COLHER

A todos os amigos da “LANTERNA” lembramos que, depois de a lerem é da máxima utilidade não a DESTRUIREM. Os que não a GUARDAREM, para colecionar, devem dá-la a outra pessoa. Lê-la aos que não sabem ler, DEIXÁ-LA nas fabricas, nas obras, nas oficinas, nos barbeiros, nos cafés, nos restaurantes, nos jardins, nos carros, nos trens enfim, onde possa ser lida por outros. Espalhar é semear, é tona-la conhecida, é fazer dela a propaganda, é conquistar novos adeptos para a nossa obra.

Também todos devem arranjar NOVOS ASSINANTES E DEVOLVER a venda avulsa, afim de que possa propagar mais largamente a obra em que todos andamos empenhados. (A Lanterna, nº 183, 22/03/1913, p.2)
Essas estratégias objetivavam a constituição de uma comunidade de leitores. Trabalhando essa proposição, Giglio (2000) realiza uma interessante discussão sobre as práticas de leitura e as apropriações discursivas e materiais dos sujeitos participantes de um outro jornal operário: A Voz do Trabalhador, editado no Rio de Janeiro entre 1908 e 1915, como órgão da Confederação Operária. Sua análise oferece destaque para as práticas de organização e de resistência surgidas da relação com o impresso em sua dimensão educativa. Para a autora:

(...) o jornal operário era um produto cultural particular capaz de formar uma comunidade de leitores ouvintes que alimentavam-se das idéias e debates surgidos naqueles círculos, provavelmente alterando as formas de relacionamento que provocavam a distribuição de pensamentos novos. Mais que uma comunidade de leitores, os impressos operários, por suas características doutrinárias, possibilitaram a formação de uma rede de distribuidores daqueles discursos, tornaram-se detentores de um poder combatido explicitamente por uma malha de instituições (a polícia, a escola, a igreja), especialmente a polícia, nos episódio de fechamento dos jornais e na destruição de bibliotecas de sindicatos. (p.52)


Gonçalves (2002) afirma em seu estudo sobre A Plebe7, que o jornal veiculava em seus textos saberes a serem assimilados e estratégias de divulgação apropriados pelas classes populares. Como meio para a disseminação de idéias,o jornal noticia e incentiva as diversas atividades das bibliotecas, conferências, escolas, centros de estudos sociais, sindicatos ratificado-o como um instrumento da educação informal, por excelência (18). Segundo Cruz (2000) a compreensão desse complexo das relações culturais pode ser apreendida na investigação das práticas sociais em relevo na imprensa operária:
Buscando adequar-se às características plurinacionais da nascente classe operária, as folhas tipográficas vêm à luz em diversos idiomas (...) encontra-se uma profusão de artigos doutrinários dos teóricos internacionais do anarquismo e do anarcossindicalismo, de denúncias das condições de vida e trabalho na cidade, nas fábricas e oficinas, de convocação de assembléias e atividades culturais dos centros e sindicatos, de orientação dos movimentos grevistas, de combate à religião, de crítica às versões da imprensa burguesa para os mais variados acontecimentos, à ação da polícia ou dos políticos burgueses. (p. 128)
Não raras vezes, em A Lanterna nota-se táticas como a publicação de matérias também publicadas por outros jornais dessa imprensa; campanhas para angariar recursos para ajudar este ou aquele jornal; incentivo a todas as atividades próprias da propaganda social, como por exemplo, a defesa da educação formal libertária, materializada na experiência das escola modernas.

O teatro social era um outro dispositivo educativo da propaganda social muito defendido em A Lanterna. Em um outro artigo, pode-se observar uma programação que compunha o cotidiano dos seus leitores: a velada. Essa prática faz parte da tradição operária em São Paulo. Era uma festa que normalmente iniciava na noite de sábado, terminando às 4 ou 5 horas da manhã de domingo. Após a apresentação de um drama , as vezes com 5 atos combinava o lazer da música, uma conferência da propaganda social , seguida de um ato cômico depois de um drama trágico e finalizado com um baile familiar (Lima e Vargas, 1986, p.177-8). A leitura do artigo a seguir, nos traz a oportunidade de conhecer uma de suas programações:


VELADA ANTI-CLERICAL NO RIO

Como fora anunciado, realizou-se sábado passado, no Centro Galego, o festival que o Grupo Dramático Anticlerical promovera em benefício da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro. (...)

Estava anunciada para as 8 horas o início da festa, porém só as 9 esta começou com a representação da peça Amor Louco, - pungente drama social em que Antonio Augusto da Silva mostra como na actual organização social , toda cheia de precipícios, existências que poderiam ser felizes se fosse outro o meio em que vivem, tornam-se desgraçadas vitimas, umas na flor da idade, quando tudo lhe devia sorrir, outras no fim da vida quando tudo lhe devia ser paz, quando já nenhuma esperança lhes resta de melhores dias como este pai que vê a filha morrer, escapando pelo veneno ás torturas que lhe infinge o sedutor debochado e sem entranhas, e á loucura daquele rapaz meigo e trabalhador que a quer ainda socorrer e que acaba estrangulando em um acesso de loucura o algoz cínico causador daquele quadro sombrio.

Em outra peça – A Escada – é uma fina sátira, de Ed. Norés, aos preconceitos sociais. Faz rir, deste riso sadio que serve de corretivo ás nossas extravagâncias de superioridade vaidosa diante de um titulo nobiliário, de uma posição que conquistamos, de um cargo por mais ínfimo que este seja, até mesmo no estado de mendigo que acaba achando no cachorro que ele escorraça um ser mais abaixo ainda do que ele próprio na escala social. (...)

No intervalo das duas peças o dr. José Oiticia fez uma bela conferência sobre a Moral da Igreja Romana. (...)

Terminadas estas partes do programa, seguiu-se-lhes logo animado baile familiar e também uma quermesse, prolongando-se as dansas até meia madrugada. C. L. (A Lanterna, nº 217, 15/11/1913, p.2 )


Na primeira peça da programação, o que fica mais marcado parece ser o sentimento de solidariedade e ao mesmo tempo a luta contra a injustiça sofrida pelo personagem qualificado como “meigo” e “trabalhador”. A mensagem do drama perspectiva promessas de uma vida feliz que é condicionada à existência de uma outra organização social. Na segunda, uma sátira que apesar de provocar risos, são risos que levam à reflexão sobre os preconceitos sociais. Não é rir por rir, simplesmente! Solidariedade, luta contra as injustiças, combate aos preconceitos sociais são valores, princípios do pensamento libertário evidenciados no comentário.

No teatro social, trazido pelos imigrantes, todos aqueles que não eram alfabetizados, ou que tinham dificuldades com o idioma, podiam tomar contato com os textos considerados bons na perspectiva da propaganda social. Era possível, nos improvisos, ver e sentir tudo aquilo que havia em comum entre os desenraizados, como, por exemplo, a vida operária em outra terra. As peças que eram representadas, muitas vezes criações dos próprios atores, remetiam a acontecimentos relativos a algum momento vivenciado no período, a saber uma greve, a necessidade de combater a apatia, ou apresentar a diferença entre a sociedade capitalista e a sociedade almejada. Podiam, ainda, corresponder ao sentimento de evocação aos seus antepassados, à vida passada em seus países de origem. Era uma mescla do que veio da experiência dos imigrantes em seus países e as transformações que, de geração em geração, foram sendo vivenciadas no Brasil; manifestadas em permanências, tolerâncias, resistências e acomodações.

A estratégia de construção de espaços próprios para manifestações artísticas foi uma constante no movimento anarquista. Porém, à medida que a indústria de entretenimento avançava em São Paulo, recrudescia ainda mais a necessidade de o movimento intensificar a propaganda social. Nesse sentido, era necessário estar atento à concorrência. Fazer frente às propagandas consideradas burguesa e religiosa era ao mesmo tempo tática de combate e estratégia de resistência.

A trajetória de A Lanterna – periodicidade e tiragem


Em sua fase inicial, de 1901 a 1917, percebemos que o jornal A Lanterna procurou manter sua periodicidade, tendo por duas vezes uma campanha por uma publicação diária em vez de semanal. A Lanterna não atingiu seu objetivo, continuou semanal, por duas vezes quinzenal e em alguns períodos sem publicação. Mas essas interrupções tiveram menor visibilidade se forem considerada a incidência de suas publicações.

A Lanterna começou a ser publicada em 7 de março de 1901. Segundo Fausto (1977), a tiragem do primeiro número chegou a dez mil, atingindo um ápice de vinte e seis mil exemplares, para depois declinar e estabilizar-se em seis mil números. De 15 de dezembro de 1903 a 24 de janeiro de 1904, teve 28 edições diárias. Essa primeira fase durou até 29 de fevereiro de 1904, contando 60 números publicados. Interrompida a publicação em 1904, o jornal foi reaberto em 1909, quando teve em sua direção Edgard Leuenroth, que permaneceu à sua frente até 1917. Nessa segunda fase, foram publicados 293 exemplares. Na terceira fase, de 1933 a 1953, com Edgard Leuenroth em seu comando, foram lançados 45 números. (Fausto, 1977, p. 83)

Ao verificar a tiragem do jornal A Lanterna, constatamos que do primeiro exemplar, publicado em 7 de março de 1901, até o de número 8, publicado em 24 de junho de 1901, a tiragem do jornal oscilou de 10.000 exemplares a 24.000 e a sua distribuição foi gratuita. Durante os meses de julho, agosto, setembro e outubro, ele deixou de ser publicado, retomando suas publicações no exemplar de número 9 em 14 de novembro de 1901, com tiragem anunciada de 26.000 exemplares, deixando, a partir desse momento, de ser distribuído gratuitamente.

A tiragem de A Lanterna é bastante significativa, dadas as dificuldades a que estava sujeita toda a imprensa operária do início do século passado. Os entraves financeiras e a repressão social eram ingredientes que comprometiam a regularidade das publicações da imprensa operária, porém, o dados da pesquisa a respeito da tiragem de A Lanterna demonstram que o periódico é singular no que diz respeito a sua organização e resistência.

Subscrições voluntárias e outros dispositivos para a manutenção, resistência e ampla circulação do jornal

No período em que o jornal A Lanterna era gratuito - os primeiros oito números, do seu primeiro ano de existência-, ele arcava com seus custos por meio de listas de subscrições voluntárias dos participantes e simpatizantes da liga anticlerical. A análise dessas listas evidencia um aumento do número de contribuintes. Quase que número a número, são divulgados balancetes com os gastos do jornal. Entre as despesas de A Lanterna, a maior era com a tipografia. No número 07 publicado em 03 de junho de 1901, em sua primeira página, há um informe sobre a publicação semanal e também são feitas indicações dos esforços empreendidos em conseguir uma tipografia8 que comportasse a sua tiragem:

Com o presente número enceta "A Lanterna" a sua publicação regular às segundas-feiras de cada semana. Os originaes, portanto devem ser enviados a esta redacção até quarta-feira de cada semana. Annunciando o apparecimento semanalmente levamos três meses para regularizarmos a publicação semanal foi porque para isso precisávamos arranjar a typographia, visto como a nossa tiragem de 20.000 exemplares não podia ser feita com brevidade em machinas de retiração. Esperamos que agora, regularisada a nossa publicação, nos sejam enviadas com brevidade mais de 300 listas de subscripção voluntaria que temos em circulação. (p.01)

Os esforços para o recebimento dessas listas eram, pelo que parece, enormes, e os dispositivos de comunicação dividiam-se entre a utilização do correio e a publicação de recados no próprio jornal, nas sessões denominadas " correio" ou "expediente". Para exemplificar um desses procedimentos de comunicação, destacamos este “correio”.


Francisco Lima ( Juiz de Fora) - remettemos-lhes 50 exemplares do jornal e uma lista . Aguardamos suas correspondências sobre o movimento anticlerical mineiro, e, não se esqueça de trazer ao corrente qualquer patifaria dos reverendos por ahi.. (A Lanterna -nº 01, 07/03/1901, p. 4)

A partir do dia 14 de novembro de 1901, após um intervalo de quatro meses, sem publicação, A Lanterna passa a custar 100 réis e a chamar A Lanterna orgam anticlerical. No editorial do número 09, dessa data, os editores justificam a cobrança do jornal: “o systema de distribui-la gratuitamente por subscripção voluntária demonstrou que havia muito boa vontade em auxilia-la, mas, chegando as listas e auxílios expontaneos com muita irregularidade, nunca nos foi possível publicar o jornal semanalmente como desejávamos”(nº.9, p. 1). São oferecidas assinaturas anuais, semestrais e trimestrais; continuam as subscrições voluntárias, e também se acionam outros dispositivos para a manutenção do jornal, entre eles, as rifas, a venda de doações de publicações que não confrontassem com a linha editorial do jornal, anúncios pagos de produtos do comércio e da indústria, etc.

No número 1, do ano 2, publicado em 06-07 de junho de 1903, há três exemplos, na página 1, que evidenciam diferentes interesses por anúncios no jornal. No primeiro anúncio, o jornal se dispõe a publicar pequenos anúncios sem remuneração: " Publica sem remuneração pequenos annuncios de collegios leigos onde não haja absolutamente nenhuma dose de ensino religioso"; o segundo anuncio exibe uma solicitação de colaboração para a propaganda de A Lanterna : "Pede aos donos de hotéis, restaurantes, cafés, bilhares, casas de barbeiros, o obsequio de auxiliarem a propaganda della [ A Lanterna]". No terceiro anúncio, flagra-se um outro dispositivo para a manutenção do jornal, assim como a utilização da propaganda a partir de ilustrações:

Propaganda Pela Gravura

Cartões Postaes Illustrados

Mandamos imprimir e temos á disposição dos nossos amigos, uma magnífica colleção de cartões postaes de propaganda anti-clerical, illustrados à cores e representando: 1- O sonho do confessor; 2 - O appetite do jesuíta; 3- Mata, Mata, Deus reconhecerá os seus; (...)A serie completa, 2$000. Não se vendem separadamente os cartões. Pelo correio 500 reis. Faz-se o abatimento de 20% para os pedidos de mais de 50 duzias. Pedimos aos nossos amigos que nos auxiliem adquirindo colleções, porque destinamos o produto desses cartões à compra de material typografico para A Lanterna.


A charge é um recurso utilizado para fazer críticas ao clero, e o uso da ilustração demonstra preocupação com a educação do olho. A educação pela imagem é um dispositivo utilizado pelos anarquistas, talvez como resposta às estratégia educacionais da Igreja, já que a imagem, era recurso educativo utilizados por ela desde a Idade Média. A propaganda religiosa apelava para todos os sentidos: "as imagens eram sistematicamente mobilizadas para fixar a narrativa sagrada nas mentes dos iletrados". Por meio de iluminuras, de vitrais, de pinturas, de esculturas a propaganda religiosa se mostrava eficaz. (Raphael Samuel, 1997, p. 44)

A circulação da rede de distribuição da propaganda social libertária esbarrava constantemente em seu opositores, criando um campo de conflito que polarizava a imprensa anarquista e a imprensa burguesa, ou seja, a luta entre “os nossos jornalistas” (aqueles da imprensa ácrata) e “os outros jornalista” (aqueles da imprensa burguesa). Para visualizar esse campo de conflito selecionei um artigo de uma coluna intitulada "Crônica Rebelde", por meio da qual é possível verificar o que era dito sobre a grande imprensa e de seus jornalistas, Vejamos:

A imprensa assalariada

O Jornalista, na grande imprensa, das grandes rotativas, não passa de réles mercador, ganancioso traficante; cuja avidez de lucro pões em franco relevo a propria desfaçatez, a própria falta de brio e de dignidade. (...)Assim é que desde o mais lido matutino até o vespertino de menor tiragem (...) É porque a imprensa desta como a de outras capitais, vive apenas do interesse pelo interesse. Não tem ideal elevado nem nutre outro desejo que não o de viver de favores, na dependencia de partidos, tendo por habito defender sempre e incondicionalmente aqueles de cujas bolsas lhe possa sair alguma recompensa (...)O jornalista da imprensa prostituida vende a pena pelo preço da consciencia a troco de alguma soma de dinheiro, afim de ter bem garantida a sua vida de dissipação e de vicios. (..) Eles não sabem que há crise para os operarios. Falam apenas, da situação do comercio, da industria, da lavoura e do patriotismo do governo que fez o grande emprestimo afim de remediar as classes privilegiadas.(...) Não se limitam apenas a noticiar os factos. Procuram dar-lhes uma feição anormal, extranha, assombrosa, que possa atrair, empolgar a atenção publica, pondo-lhes uns coloridos exagerados, extravagantes, artificiosos, provocadores de curiosidades, e que sempre lhes valem um bom aumento de lucros na venda avulsa. (...) (Pettinato, J. A Lanterna,nº 232, 28/02/1914, p. 2 )


O jornalista da grande imprensa é adjetivado como um reles mercador, ganancioso, sem brios e dignidade, não cumpridor de sua missão de orientar o povo. É aquele que vende a sua consciência para ter uma vida fácil e degenerada. Invertendo o discurso de Pettinato (1914), é possível encontrar a afirmação de um outro tipo de jornalista: o jornalista livre pensador, que trabalha pela força de suas idéias, que tem uma missão comprometida com a divulgação da verdade dos fatos.

A grande imprensa é acusada de prostituída, vendida aos interesses daqueles que pagam pelos seus serviços, noticiando os fatos com sensacionalismo e de maneira artificial para, com isso, ganhar a atenção do público. Essa imprensa, adjetivada como mercenária, é responsável pela criminalidade que condena. Tais proposições suscitam, pelo avesso do discurso, a aprovação de um outro tipo de imprensa, diferente daquela que só divulga notícias do comércio, da indústria e da lavoura, um outro tipo de imprensa que noticia a crise dos operários e seus comícios, que não defende o "patriotismo" do governo ou os interesses das classes privilegiadas, que não seja mercadoria e que não esteja a serviço com os interesses dos lucros.

As resistências desencadeadas por essa imprensa eram repletas de estratégias e táticas. Principalmente em seu segundo ciclo de vida, a partir de 1909, momento em que Edgard Leuenroth assume seu comando dificuldades que permeavam seu cotidiano. Nos editoriais e artigos seus assinantes são chamados à responsabilidade de saldar suas dívidas e enviar colaborações, estabelece-se que a responsabilidade pelos empreendimentos do periódico dizem respeito a um coletivo - aqueles que possuem identidade marcada na luta libertária e anticlerical, por meio da propaganda.

A Lanterna dificilmente utilizava seus espaços com propagandas comerciais. Seu editor e seus articulistas frisavam que essa atitude marcava a sua independência, a sua liberdade de ação, como "o porta- voz dos elementos da vanguarda dos ideais redentores". Ao mesmo tempo, o coletivo deveria assumir a sustentação do jornal, para que seus espaços continuassem disponíveis apenas para a propaganda que interessa aos princípios libertários e anticlericais. O estatuto de liberdade do jornal, em contraposição a outros jornais da grande imprensa, autoriza a cobrança da dívida e do compromisso de seu público leitor.

Após ficar à frente de A Lanterna, de 1909 a 1917 (segunda fase do jornal), e de 1933 até 1953 (terceira fase do jornal), Edgard Leuenroth fundou A Plebe, em 1917, em meio às greves que denunciavam a grande efervescência da crise do período.



Considerações Finais:

Os embates entre os diferentes grupos sociais que compunham o tecido social da São Paulo do início do século XX, mostravam-se visivelmente na imprensa. Com seus novos padrões de publicidade, essa nova imprensa contemplava, tanto nos periódicos da imprensa burguesa, nas revistas de entretenimento, quanto nos periódicos operários, os vários interesses dos vários grupos que constituíam as elites e as classes populares, acentuando a circulação de culturas no tempo e no espaço metropolitano.

Nesse quadro, A Lanterna por sua expressiva tiragem circulação constituía-se em um importante dispositivo educativo, um veículo de circulação de práticas e saberes do movimento anarquista, anticlerical e libertário. Nas colunas de A Lanterna, há espaços para discussões sobre as atividades sindicais, seus debates, as notícias das atuações dos centros de estudos, das escolas modernas, o sentido do teatro e do cinema. Entre as estratégias educativas são apresentadas recomendações de leitura configurando a grande dimensão da questão educacional para a formação do ser social.
Referências bibliográficas
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FIGUEIRA, Cristina Aparecida Reis. 2003. O Cinema do Povo: um projeto da educação anarquista – 1901-1921. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade da PUC- SP.

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KHOURY, Yara Maria. 1988. Edgard Leuenroth: uma voz libertária – Imprensa, Memória e Militância Anarco-Sindicalista. Tese de doutorado apresentada na USP.

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SAMUEL, Raphael 1997. Teatros de memória. In: Projeto História v. 14 – Revista do Programa de Estudos Pós –Graduados em História do Departamento de História – PUC / São Paulo. pp. 41-81.




1A Lanterna, semanário de orientação anticlerical, anarco-sindicalista e libertário, editado na cidade de São Paulo, começou a ser publicado em 07 de março de 1901, sob a direção do advogado maçom Benjamim Motta, desapareceu momentaneamente em 1904, voltando a circular de 1909 à 1917, sob a direção e Edgard Leuenroth. Na sua última fase entre 1933 e 1953, voltou a ser editado, ainda sob o comando de Leuenroth.



2 A expressão faz lembrar uma reflexão de Michel de Certeau sobre o propósito dos “Silêncios da história”, a que Jacques Le Goff se refere ao indicar que “ falar dos silêncios da historiografia tradicional não basta, é necessário ir mais longe: questionar a documentação histórica sobre as lacunas, interrogar sobre os esquecimentos, os hiatos, os espaços brancos da história”. (Le Goff, 1984, p. 220)

3 Para conhecer o projeto cinema do povo ver: Figueira (2003).

4 Segundo Jomini (1990), em 1912, foram fundadas pelo movimento anarquista em São Paulo duas escolas, a Escola Moderna nº 1 e a Escola Moderna nº 2, inspiradas no pensamento do educador espanhol Francisco Ferrer Y Guardiã. Verificando o Boletim da Escola Moderna, nota-se que essas escolas eram dirigidas ao trabalhador. A manutenção financeira dessas instituições escolares era responsabilidade dos alunos, pais e comunidade em geral, pois o recurso aos cofres públicos era considerado uma heresia para os anarquistas. Além da participação na manutenção das escolas, e outras organizações sociais, a educação do homem para a liberdade implicava a adoção do método que levasse em conta as características de cada aluno, sem prazos a cumprir. A finalidade era possibilitar aprender o que fosse possível, de acordo com o seu ritmo. Tal método era o racionalista. A transformação do homem para a liberdade transcendia a mera alfabetização por estar direcionada à formação do novo ser social, no sentido de alcançar autonomia e liberdade (p.90-108).

5 Cruz (2000) afirmou, que para a elite letrada desse período, a imprensa era entendida como instrumento de articulação e discussão de seus interesses e de seus posicionamentos, sendo considerada como veículo de formação cultural e moral do povo (p.165)

6 Sobre o projeto anarquista para a formação educativa dos trabalhadores e seus filhos ver: Rodrigues (1984); Luizetto (1982); Jomini (1990) e Giglio (1995)


7 A Plebe surge na cidade de São Paulo em 09 de junho de 1917, sob a direção de Edgar Leuenrouth afirmando ser a continuação de A Lanterna.

8 No exemplar de número 08, de 24 de junho de1901, há uma referência a respeito de sua tiragem: "A Lanterna é o jornal de maior circulação no Brasil stereotypada e impressa em machina rotativa marinoni”. (A Lanterna, 1901, nº 8, p.1). Máquinas rotativas Marinoni dominam o sistema de impressão, que conjuga o molde e o chumbo quente de estereotipia. Imprimem, cortam e dobram os exemplares que saem aos milheiros (Bahia, 1990, p.108).


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