Cronica de uma viagem



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Encontro04.08.2016
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CRONICA DE UMA VIAGEM

di Madre Nives Ferrari
“O Senhor lhe disse: “Eu vi a opressão de meu povo no Egito, ouvi o grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos”.

(Exodo 3, 7)

Em tempos de relativismo selvagem, quando são descartados os valores que nos tornam pessoas, o grito dos “pequenos” clama impetuoso aos Céus… aquele clamor que, talvez, Moisés escutou o murmúrio em algum angulo profundo de seu coração (Exodo 2,11).

Senti aquele grito na minha recente viagem à República Democrática do Congo, no Continente africano. Ponto de chegada Kabinda, no Kassai Oriental, de avião até Mbuji-Mayi, passando por Kananga. Para quem não sabe ainda, destas cidades se extraem os diamantes que enriquece certas cidades do mundo... Não se pode calcular como tanta riqueza cria tanta pobreza… Estão ainda em pé as ruínas de estruturas dos tempos da colonização, os postes de luz que esperam o dia em que ainda poderão levar eletricidade ao povo.... Nas estradas muita gente. Vão e vêem, para cima e para baixo, homens, mulheres e crianças, carregando grandes fardos na cabeça... A imagem é de um grande “Êxodo”. Diante dos olhos se tem a visão do povo de Israel quando saía do Egito rumo à terra prometida! Mas para aquela gente que vi pelas estradas, não é um caminhar para uma vida melhor, mas um caminhar para sobreviver. Parece que se voce pára, morre!

Neste relato quero mostrar um grupo especial de “caminhantes”. São aquile que encontramos longo os 250 kilometros da estrada que vai de Mbuji-May a Kabinda, uma estrada que, no tempo da chuva de modo especial, se parece mais a uma pista di motocross.

Nenhuma proposta olímpica faria uma proposta de competição com um percurso assim longo a pé, e se o fizesse, deveria criar estruturas para saciar e alimentar os atletas, pontos para repouso e tudo o mais. Mesmo que não exista a proposta olímpica, esiste os atletas: homens protagonistas de uma história de luta, coragem e força. Uma longa viagem de 250 kilometros de ida que dura uma semana e outro tanto para o retorno.

Pés descalços ou com simples chinelos, sobre a cabeça um chapéu ou um boné, levam amizade e solidariedade em todo o trajeto de 250 kilometros, come se todos fossem amigos ou conhecidos, mesmo aqueles que os esploram obrigando-os a pagarem um pedágio!

Aqueles homens caminham a pé, conduzindo o veículo: a bicicleta. Normalmente, nós montamos a bicicleta e pedalamos, assim somos levados pela bicicleta. Mas para eles a bicicleta é o meio de transporte da mercadoria a ser vendida em Mbuji-May e da mercadoria a levar para casa em Kabinda!

São homens, jovens e menos jovens, que sustentam uma família, sempre numerosa e, para alimentá-la, se põem a caminho… Oque vendem? Tudo aquilo que produce e que se pode comer: milho, arroz, feijão, galinhas, mandioca, frutas…. Para a grande maioria vendem quase tudo aquilo que produzem, resultado da ausência de uma política agrícola adequada. Assim, para quem fica em casa, resta pouco para comer. As consequências são bem conhecidas: se não se come, não se vive ou se vive mal, desnutrição, doenças e alta mortalidade...

Histórias como esta, de rostos humanos desconhecidos, não fazem notícia e são ignoradas pela economia mundial, preocupada com números e não com pessoas.

É meu desejo que esta crônica possa ao menos despertar algo nas pessoas que a lerão, assim como abalou a minha vida! Compreendi profundamente o que significa “ter fome e sede de justiça” (Mt 5,6).

Naquele momento voce se sente mal por poder estar bem, de ter saúde, casa e uma comunidade, de poder viajar e ver essa realidade... Voce se sente participante de um mundo que gera opressão, que despreza a vida, que prioriza o bem-estar criando falsas seguranças, que coloca a cruz no pescoço como uma piedosa devoção de quaresma... Voce sente na pele a própria impotência e hipocrisia! Joga fora as coisas que pareciam importantes e que são na verdade fumaça e palha ao vento.


Não fiz os 250 kilometros a pé, como eles, mas de carro, e em todo o trajeto, os pés daquela gente nos acompanharam. Continuo a sentí-los ao meu redor, como a me impulsioraem a um empenho mais coerente e concreto.

Não sei...” respondeu Caim quando Deus lhe perguntou: “Onde está teu irmão Abel?” (Gn 4,9). Saber o que acontece no mundo longe dos refletores da mídia, nos torna responsáveis com aquela realidade. Mais do que fazer alguma coisa, temos que nos dar conta da indiferença. Dizemos que temos tantos problemas, que as contas não fecham no final do mes, que sofremos muito e que temos tantos achaques... “Se não dou conta de mim, como posso dar conta dos outros?” Assim respondeu Caim!

Desejo que esta história real, de gente concreta de carne e osso, vivente, fosse “uma pulga atrás da orelha” para muitos de nós cristãos, para nos incomodar e revolucionar os nossos criterio de vida! Desejo que esta história fosse uma pergunta insistente à nossa tranquilidade, ao nosso sentir-se bem em comunidade e familia, à nossa consciência tranquila!
Gostaria que esta história tocasse profondamente os critérios de organização de nossas comunidades e familias, e nos transformasse em instrumentos para um mundo melhor, mais fraterno e mais humano! Gostaria que esta história tornasse mais fortes nossos braços e pernas e nos fizesse mais corajosas no seguimento de Jesus na missão e no mundo onde somos enviados!

Desejo que esta narrativa revolucionasse a nossa vida, e do íntimo de cada um brotasse a pergunta existencial: “Que fizeste por mim Senhor? Que faço eu por voce? O que faço eu pelos meus irmãos, face de tua Face ao meu lado e ao meu redor?”


Boa Reflexão!!!


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