CÁtedra fundep/ieat – Humanidades Prof. Jean-Louis Comolli



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CÁTEDRA FUNDEP/IEAT – Humanidades

Prof. Jean-Louis Comolli

Período: 24/10 a 27/11/2005



As potências estéticas e políticas do cinema


O cineasta e teórico do cinema Jean-Louis Comolli estará conosco na UFMG no período de 24 de outubro a 27 de novembro, ocupando a Cátedra de Humanidades do IEAT (Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares). Nesse período ocorrerão algumas atividades entre diversos grupos de pesquisa, tendo o cinema como um dispositivo singular que permitirá a interlocução entre diferentes perspectivas conceituais e metodológicas. Nessa ocasião, teremos oportunidade de ver e discutir alguns dos filmes de Comolli e também de outros autores, como Manoel de Oliveira, Vertov, Jean-Vigo, Jean Rouch, Robert Kramer, Fredrick Wiseman, Leni Riefensthal, Chris Marker, Alain Resnais, etc.


Autor de seis obras de ficção e mais de 30 filmes documentários, Jean Comolli reuniu recentemente, em Voir et pouvoir (Paris: Verdier, 2004), o conjunto de seus artigos (publicados nos Cahiers du cinéma e em outros periódicos especializados), além de textos de intervenção (apresentados em festivais, seminários e oficinas), produzidos ao longo de mais de 15 anos. O título, ao evocar o conhecido trabalho de Michel Foucault (Vigiar e punir), alude ao que constitui a potência estética e política do cinema frente à atual disseminação das estratégias midiáticas de espetacularização da vida social. Procurando se contrapor à vontade compulsiva da televisão de tudo fazer ver (através da transmissão ao vivo e dos reality shows) e de a todos fazer falar (valendo-se da entrevista como um instrumento coercitivo), o cinema é encarregado de revelar os limites do poder ver, ao designar o não visível como condição do sentido do visível.
Ao ultrapassar a história acadêmica do cinema e dos estudos estilísticos em torno dos autores, Comolli preocupa-se sobretudo com a prática do espectador, concebida como uma “instância de confrontação do corpo individual e do corpo social como um incansável questionamento: quem fala? Quem age? A partir de qual história? De acordo com quais relações de força? Em qual posição ou suposição de poder?” (prefácio de Voir et Pouvoir, p. 11). A atividade de representação – termo de uso corrente nas artes figurativas - é destacada aqui em sua dimensão de dupla mis en scène: ao mesmo tempo estética (produzida por um conjunto de recursos expressivos que afetam nossa experiência) e política (no seu aparecer em um espaço público).
Como cineasta e teórico, Comolli se afasta decididamente daquelas abordagens reducionistas que tomam os filmes como um objeto (dentre tantos outros) a ser repartido ou distribuído entre diferentes disciplinas (cada uma bem resguardada em seu nicho). O cinema não é simplesmente um objeto de pensamento, ele é uma “forma que pensa”, como sempre insiste Godard. Ao que acrescenta Comolli: muito mais do que meramente oferecer representações do mundo – sob o modo ficcional ou documental - o cinema é uma prática investida de uma tripla função: epistemológica, antropológica e política.
No caso do documentário, a atitude epistemológica que o guia é de natureza relacional: não se trata simplesmente de filmar o outro, mas de fazer com o que próprio espectador surja como o outro do sujeito filmado. Deixar vir, deixar-se ser afetado pelo que vem do outro, acolher a mis en scène do outro sob o modo da partilha: uma estética da hospitalidade (para retomar os termos de Derrida) e da afecção (nos termos de Espinosa, lido por Deleuze). Nessa tarefa, o documentário sabe, de saída, que a representação que ele constrói – qualquer que seja seu objeto - é atravessada pela alteridade que permeia todo o real: nas bordas do visível restará sempre um impensado, um não-visto, e é justamente isso que o cinema nos dá a pensar; não o conteúdo de uma representação qualquer, mas seu limite, aquilo que a perturba, que a excede. Ou então, segundo a fórmula criada por Deleuze: o cinema moderno, desde o Neo-realismo, já não busca mais tornar o pensamento visível, mas se dirige ao que não se deixa pensar no pensamento e ao que não se deixa ver na visão.
Deriva daí uma nova maneira de compreender a mediação ou liame simbólico que o cinema estabelece entre os homens e o mundo e entre eles mesmos: os filmes solicitam do espectador que ele creia nas imagens do mundo que vê e, ao mesmo tempo, que seja capaz de duvidar sem deixar de crer. Entretanto, essa nova figura histórica, política e tecnológica criada pela televisão, o telespectador - escreve Comolli - é forçado a crer que não crê mais: que importa se a televisão é a primeira a nos mostrar que seu negócio é a dissimulação? Não cremos mais, não duvidamos mais. Contra esse estado atual de coisas, a tarefa do cinema documentário consiste em resistir a todas as operações de mis en scène – estéticas e políticas – que fazem da crença um objeto de cálculo, de controle e de previsão.
A partir desta breve apresentação do pensamento de Jean-Louis Comolli, propomos a seguinte dinâmica: cada encontro transdisciplinar terá como eixo temático e conceitual um filme em particular (do próprio Comolli ou de outro autor), que será apresentado na íntegra e, em seguido, comentado e discutido. A título de sugestão, indicamos algumas das interfaces que o cinema mantém com diferentes domínios da arte e do pensamento contemporâneos:

1. Antropologia

2. Arquitetura e espaço urbano

3. História

4. Informação e Comunicação

5. Literatura

6. Música

7. Política



8. Teatro
Prof. César Geraldo Guimarães (Depto. Comunicação Social/FAFICH/UFMG)

Prof. Ruben Caixeta de Queiroz (Depto. Sociologia e Antropologia/FAFICH/UFMG)


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